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Em 2016 surgiu a ideia de publicar um livro sobre o que está mal e bem no ensino em Portugal: que tipo de escola, de aluno e de professor temos e, no caso particular de algumas disciplinas, o que se devia priorizar. O livro resultaria da conversa com um número reduzido de pessoas que, de facto, fossem exemplares e tivessem algo a dizer. Maria do Carmo Vieira foi, e será sempre, uma dessas raras pessoas, um exemplo. Deixo aqui as suas respostas a essa conversa que, pela sua importância, continuam a iluminar-nos: porque há verdades sobre o ensino que já foram ditas, e não é preciso reinventá-las, apenas voltar a ouvi-las.
Vê vantagens em se valorizar a história, a literatura e a língua de um povo? Esse trabalho é feito actualmente?
Valorizar a História, a Literatura e a Língua de um povo é tarefa indiscutível, tarefa que infelizmente não é feita.
Em relação à História, escreveu o filósofo e orador latino, Cícero (107-43a.C.), que ela «era mestra da vida»; Fernando Pessoa, privilegiando a Arte, e de forma específica a Literatura, determinou que seria aquela «a mestra da vida». Cremos que ambas são indissociáveis porque no seu discurso diferenciado envolvem o tempo, a experiência e a condição humanas, evitando o esquecimento e estimulando o acto de reflectir.
Só conhecendo a sua História, poderá um povo compreender a sua própria realidade, a sua «individualidade colectiva», «o seu ser e o seu agir». Por isso nos parece tão preocupante o menosprezo actual pela História a que se alia o menosprezo pela Memória. Os defensores desta aberração pensam o presente como tempo isolado do passado, julgando que partindo do zero (como se fosse possível) construirão um bom futuro. Uma ideia que atingiu também, e nocivamente, como é natural, o ensino da Literatura e da Língua Portuguesas.
A agravar a situação com a referida área de ensino, está o facto de se defender o estudo da História não na perspectiva diacrónica, que lhe é intrínseca, mas temática. A ignorância e simultaneamente o caos relativo a datas, envolvendo figuras e acontecimentos históricos fundamentais, são exemplos que testemunham bem o colapso que atingiu o ensino da História.
Sendo a Literatura a arte da palavra, lógico será que seja pela Literatura que se inicie o caminho que nos conduz à curiosidade e ao amor pela palavra. Na verdade, ao despertarmos para a musicalidade que lhe é inerente, para a necessidade de interpretar a sua simbologia, compreendendo o seu significado, criamos por ela afeição e descobrimos a sua beleza, para além de a leitura de toda a obra literária (incluindo os contos de fadas e a arte de os contar) contribuir para formar (o que implica uma transformação) e para desenvolver a personalidade, induzindo a uma reflexão sobre a condição humana, sobre «a vida autêntica» que o autor (ou o contador) revela, partilhando-a com o leitor (ou o ouvinte) que através dela se revê e se examina.
Literatura e Língua são indissociáveis e sendo a Literatura, nas palavras de Alberto Manguel, «a apoteose da escrita», ela é inseparável da língua e da mestria imaginativa com que é trabalhada pelo autor. Essa
«apoteose da escrita», na sua expressiva carga estética, educa a sensibilidade, permitindo que nos emocionemos perante a beleza, e treina o acto de pensar, sendo sobejamente reconhecido que só dominando bem a língua, seremos capazes de exprimir bem o nosso pensamento. Relevar ainda, neste campo, a importância de aprender a Gramática, interiorizando as suas normas, devendo-se realçar que «aprender», do latim apprehendere, significa efectivamente «agarrar, prender a si próprio», o que só acontecerá com esforço e treino diários, usando, por excelência, o texto literário, dadas as razões acima enunciadas.
NOTA: A propósito do ensino da Literatura e da Língua, a resposta será completada na questão 4. que se relaciona com o mesmo tema.
Pensemos na escola (ensino) que temos. Que tipo de ser humano estamos a ajudar a formar?
Os desígnios da Reforma de 2003, visando competências e saberes dispersos, fora do âmbito da função da escola, bem como perfis, que actualmente se reafirmam, sublinhando a sua orientação para o mercado de trabalho, revelam a apologia da facilidade, na defesa insana «dos interesses dos alunos», e da pretensa autonomia, que mais não significa que o abandono da presença do professor. Surge assim uma escola que nega a sua função principal: a de instruir, a de criar novos interesses, a de formar. Por isso esta «nova escola», artificial, preconiza «a emergência do ‘professor novo’»1 que, formatado nas suas novas competências, deve propiciar aos alunos «uma aprendizagem simultaneamente motivadora e útil», «respondendo com eficácia às múltiplas solicitações de empregadores e da sociedade em geral».2 Nesse sentido, esta «nova escola», ainda que teoricamente possa expressar o contrário, veicula, na verdade, a ideia de que o êxito pode ser oferecido, logo, de que o esforço é desnecessário, de que a dificuldade discrimina, de que os programas devem privilegiar o «funcional», o útil, o prático, descurando a reflexão e a interpretação do simbólico, uma vez que ensinar a pensar parece não ser essencial, e daí o pouco interesse (se bem que essa atitude seja negada, apesar de evidente) atribuído às disciplinas de Humanidades e Artísticas, não consideradas, politicamente, «uma mais-valia» pois o seu efeito não é imediato, nem tido como lucrativo.
1 O Ensino e a Aprendizagem do Português na Transição do Milénio. Lisboa, Associação de Professores de Português (APP), 2001, pág. 24.
2 Idem, ibidem.
Em suma, é a formação do aluno às avessas: não treinado a reflectir, fortalecido no egoísmo e na falta de exigência consigo próprio, marcado por uma profunda falta de cultura humanista e formatado para obedecer e se transformar na «ferramenta morta» a que Albert Einstein se referiu, e cujo texto transcrevemos: «[…] oponho-me à ideia de que a escola deve ensinar directamente aqueles conhecimentos específicos que viremos a empregar mais tarde na nossa vida activa. As exigências da vida são demasiadamente variadas para que seja viável esse ensino específico e directo. Parece-me […] condenável tratar o indivíduo como uma ferramenta morta. A escola deve ter como objectivo que os alunos saiam dela com uma personalidade harmoniosamente formada, e não como meros especialistas. O desenvolvimento de uma aptidão geral para pensar e julgar de uma forma independente é algo que deve ser valorizado antes de tudo o mais, isso e não a aquisição de conhecimentos específicos.»3
3 Como vejo a ciência, a religião e o mundo. Lisboa, Relógio D’Água, 2005
Quais os valores que se destacam da educação (escolar) hoje em dia?
Creio que a resposta anterior esclarece a questão colocada, mas poderei ser mais directa e acentuar que é falsa a bondade das palavras ostentada nos perfis dos alunos, explicitando, por exemplo, o interesse pela educação para a cidadania, ou o desenvolvimento do espírito crítico e do sentido de responsabilidade, ou ainda o espírito de entreajuda, entre outra atitudes. Na realidade, é-se cúmplice com um tipo de sociedade, a
globalizada, que preconiza a desumanização e impõe o extremo cansaço diário, como norma, aliás treinado desde a Escola, com a indesmentível sobrecarga horária dos alunos, seja qual for o seu nível de ensino.
Ao defender uma nova postura para o êxito, a sociedade global esmaga os valores tradicionais, elegendo, como novos valores, o dinheiro, a obtenção rápida de lucro, com a forçosa exploração do Outro, a competitividade e o empreendedorismo. Daí a insensibilidade, a falta de compaixão, a competição desenfreada, o egoísmo, a preguiça de pensar, advindo desta última uma doentia passividade ou resignação face aos muitos problemas resultantes desta globalização selvagem.
O que é que deve ser um professor, neste caso de Português e de Literatura ?
A meu ver um professor de Português, como qualquer outro, deve ser competente pois na sua competência repousa a sua autoridade, o que implica muito naturalmente a postura de se manter «eterno estudante», expressão usada pelo filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962) que a desenvolve numa frase algo poética: Continuar a ser estudante deve ser o voto secreto de todo o professor. Por isso nos insurgimos tanto contra o facto de se envolver os professores com um excessivo trabalho burocrático, retirando-lhes tempo para o estudo e outras actividades afins, ou de se procurar impedir a sua liberdade criativa na preparação das aulas, orientando-os excessivamente no modo de fazer. Os manuais para os professores são disso um exemplo flagrante, bem como o número estonteante de descritores de desempenho desenvolvidos nos programas ou a exigência (mania desenfreada) de tudo avaliar e justificar, determinando uma avalancha desnecessária de relatórios.
Amando, como é natural, a leitura, o Professor de Português deve relevar para segundo plano o «funcional», privilegiando a Literatura. Só assim proporcionará aos alunos a descoberta de um prazer estético, a maior parte das vezes, nunca experimentado, e facilitará o encontro com «a verdadeira vida que está ausente»4 seja sob a forma de romance, de poesia ou de drama, o que forçosamente implicará uma reflexão sobre a sua própria condição humana, em que a presença do Outro é parte integrante. Desta forma ensinará um professor os seus alunos a pensar, levando-os simultaneamente a compreender que «o valor essencial da arte está em ela ser o indício da passagem do homem no mundo, o resumo da sua experiência emotiva dele […]».5
O contacto com textos imaginativos e bem escritos, a necessidade de os interpretar e de compreender nos seus aspectos simbólicos e a riqueza do vocabulário que os caracteriza são efectivamente alimentos essenciais para um gradual domínio da Língua, fundamental para a emancipação de qualquer pessoa. Domínio esse que subentende também, e como é natural, o estudo da Gramática cujas regras uma vez interiorizadas, porque compreendidas e treinadas, facilitarão a destreza na elaboração de um discurso, oral ou escrito. Na verdade, só dominando bem a língua é possível pensar com clareza.
4 (A propósito da importância da literatura para os alunos). Emmanuel Lévinas, Ética e Infinito. Lisboa, Edições 70, 1988.
5 Fernando Pessoa, Obras em Prosa. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S. A., 1986.
Relativamente ao ensino da Língua, é de sublinhar ainda que um Professor de Português, competente, não deve cumprir o Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) porque este colide frontalmente com o seu estudo, com a sua inteligência e com a sua missão de ensinar. Na verdade, o critério da «pronúncia», invocado pelos mentores do AO 90,6 para justificar a omissão das ditas consoantes mudas «c» e «p», não é científico, como inaceitável é a justificação da «facilidade» na aprendizagem da escrita, com as referidas omissões, ou a menorização da etimologia ou a indiferença pela criação de equívocos (acentos que são retirados) ou ainda a existência de «facultatividades» que põem em causa a própria função da ortografia que «não é nem facilitar o ensino da escrita nem reflectir a oralidade; a ortografia serve para codificar e garantir a coesão da língua escrita normalizada de uma comunidade nacional.»7
Torna mais imperativa a recusa em cumprir este AO 90 o facto de os seus próprios intervenientes afirmarem que «O Acordo Ortográfico não tem condições para servir de base a uma proposta normativa, contendo imprecisões, erros e ambiguidades.»8, não tendo sido até agora apresentada correcção alguma, apenas acusações aos não-acordistas e à própria decisão da Academia das Ciências em fazê-lo.
Estas são as difíceis tarefas em que se deve empenhar um Professor de Português, sendo os efeitos dessa responsabilidade por um Ensino de qualidade não só benéficos para os alunos, como também para a própria Escola. Lembrar que o sentido etimológico de ensinar, do latim insignare, é «instruir, marcar, mostrar a alguém».
6 Forçoso ler o único texto escrito para justificar as alterações trazidas pelo AO 90: Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).
7 António Emiliano, Apologia do Desacordo Ortográfico. Lisboa, Babel, 2010.
8 Evanildo Bechara (Brasil) no 3.º Encontro Açoriano da Lusofonia, realizado entre os dias 8 e 11 de Maio de 2008.
Qual devia ser o papel da escola, se é que devia ter algum? O que devia a escola ensinar?
A Escola tem obviamente um papel e os gregos ditaram-no: «formar homens livres, cidadãos», capazes de agir, responsável e criticamente, no mundo e na sociedade em que se integram, em suma, o papel da Escola é preparar para a vida. A Escola, no entanto, tornou-se uma caricatura de Escola porque tem falhado conscientemente esse objectivo, ao aceitar, por exemplo, a menorização das Humanidades e do Ensino Artístico, e no que diz respeito à disciplina de Português, obedecendo acriticamente à imposição programática de privilegiar o «funcional», o «prático», o «real», diminuindo a presença de autores clássicos, com a justificação de não se adequarem aos interesses dos alunos, um argumento que lamentavelmente prevalece.
Não ignoramos a importância da Tecnologia e da Comunicação, bem como da Ciência, daí a necessidade imperativa da sua presença nos curricula, mas acreditamos também que Ciências e Humanidades não se antagonizam, e que estas últimas são essenciais para precisamente se poder reflectir sobre o papel da Técnica e da Ciência relativamente ao Homem e ao progresso. É, pois, intolerável que se menospreze as Humanidades e a Arte em geral, se bem que num discurso político se diga fingidamente o contrário. Na verdade, na perspectiva deste discurso, o ensino das áreas acima enunciadas tem-se caracterizado por uma superficialidade que põe em causa a seriedade do respectivo ensino, com a agravante da diminuição do número de horas em disciplinas como a Música, a História, a Filosofia ou a Geografia, não estando afastada a hipótese de vir a acontecer o mesmo à disciplina de Português.
Nunca é demais recordar as palavras de António Damásio que os ministros da educação, e muitos outros, citam, mas não seguem: «Temos tendência a separar as artes da ciência, quando na realidade são complementares» ou «Um currículo escolar que integra as artes e as humanidades é imprescindível à formação de bons cidadãos»" ou «o teatro, a literatura, a poesia e outras artes criam emoções inesquecíveis e a sua aprendizagem é muito importante na criatividade, no desenvolvimento de capacidades ligadas à inovação» ou ainda «As emoções são fundamentais para as decisões racionais, que por sua vez determinam as acções. 9
9 Conferência Mundial de Educação Artística, realizada a 6 de Março de 2006 e promovida pela UNESCO, no Centro Cultural de Belém.
Que tipo de relação existe, em termos gerais, entre os leitores e as grandes obras de literatura nacional?
Responder à questão implica sublinhar que hoje em dia não se considera relevante a Cultura, por muito que apregoem o contrário. O modo como são encaradas as disciplinas de Humanidades e o ensino Artístico são disse reflexo, uma situação que não é exclusivamente portuguesa, mas internacional, fruto da globalização e da ideologia neo-liberal que a acompanha.
Quando se impede o contacto dos alunos com autores clássicos, pela sua pseudo dificuldade, ou se permite que leiam resumos de obras literárias programáticas, está a negar-se-lhes a possibilidade de estabelecer um diálogo com o autor ou de sentir emoção face ao que leram. Quando também relativamente a valores, os alunos dão o exemplo do dinheiro, compreender-se-á que o seu espírito crítico não foi formado nem treinado e daí a superficialidade da resposta. No fundo, as novas gerações têm sido vítimas do caos de sucessivas mudanças que têm caracterizado a intervenção dos vários Ministérios da Educação, os mesmos que simultaneamente têm desvalorizado e negligenciado a formação de professores, retirando a estes últimos, por força de novas teorias, a liberdade de criar as suas próprias aulas. Daí se assistir tantas vezes a aulas tipo receita ou à tormentosa monotonia de um power point. A este propósito, recorro de novo a António Damásio: «É muito mais fácil ensinar matemática e ciência do que artes.»
Ler os clássicos da literatura é importante? Porquê?
Inicio a minha resposta com palavras do escritor italiano Italo Calvino: «Porque sim!», «[…] ler os clássicos é melhor que não ler os clássicos.»10
Quando, em 2003, retiraram os autores clássicos dos programas, o que hoje em dia se anseia também fazer, invocaram descaradamente os «interesses dos alunos» e «o mundo em mudança», indiferentes à benéfica influência que a sua leitura pode trazer aos alunos. Diz também a minha experiência profissional, e obviamente, pessoal, que assim é. O efeito benéfico pode não ser imediato, mas ele surgirá em determinadomomento da vida, inspirando opções, comportamentos, atitudes com os outros, ou permitindo até que reconheçamos influências em obras que vamos lendo. É uma certeza!
Este anátema lançado sobre os clássicos, tantas vezes citados e não lidos por quem os cita, nomeadamente os políticos, iniciou-se, em 2003, com a obsessão do «real» e do «contemporâneo», no desejo de libertar o presente do passado, daí a pouca importância atribuída também à memória e as consequências funestas reflectidas na disciplina de História, e não só. Nessa onda de eliminação ficaram igualmente submersas as disciplinas de Latim e de Grego, consideradas línguas mortas, permitindo-se que, na formação dos futuros professores de Português, o Latim pudesse aparecer como opção e até a própria Literatura Portuguesa. Perguntar-se-á como será possível ensinar a Língua e a Literatura Portuguesas, sem ter estudado Grego e Latim? Não é difícil compreender que o Acordo Ortográfico de 1990 à boleia de tanta incoerência e ignorância minimizasse a importância da etimologia, a vertente cultural da ortografia portuguesa, a nossa herança greco-latina, substituindo-a orgulhosamente pela «pronúncia», critério apresentado como «científico».
Termino a resposta, voltando a Italo Calvino: «[…] os clássicos servem para compreender quem somos e aonde chegámos».11 Para o Ministério da Educação, tão sedento de textos informativos, do «funcional» e do «real», deixo as palavras de Albert Einstein: «Quem se limita a ler jornais ou, quando muito, livros de autores contemporâneos parece-me ser igual àquele míope que escarnece dos óculos. É alguém que depende totalmente das modas e preconceitos do seu tempo, já que nunca chega a ver ou ouvir outra coisa. E aquilo que uma pessoa consegue pensar pelos seus próprios meios, sem o estímulo dos pensamentos ou das experiências dos outros, é, no melhor dos casos, algo de bastante ínfimo e monótono. […]. Nada é mais necessário, para ultrapassar o snobismo modernista, do que a literatura clássica.»12
10 Porquê ler os clássicos? Lisboa, Teorema, 1994.
11 Idem.
Maria do Carmo Vieira
Lisboa, 12 de Outubro de 2017