terça-feira, 09 jun. 2026

Recluso em greve de fome na prisão de Monsanto acusa direção de abuso de poder

Um recluso da cadeia de alta segurança está sem comer desde 30 de abril e acusa a direção prisional de ilegalidades e privação sensorial. A DGRSP garante que o protesto surgiu após recusa em realizar testes toxicológicos e assegura acompanhamento clínico
Recluso em greve de fome na prisão de Monsanto acusa direção de abuso de poder

Um recluso do estabelecimento prisional de alta segurança de Monsanto, em Lisboa, está em greve de fome desde 30 de abril, acusando a direção da cadeia de ilegalidades, abuso de poder e privação sensorial, incluindo alegadas restrições ao acesso a livros na cela.

Em declarações à agência Lusa, o advogado Vítor Carreto afirmou que o seu cliente, Carlos Gouveia, apresentou várias queixas e denúncias contra a direção da prisão e que, em resposta, têm sido instaurados processos disciplinares ao recluso.

“Carlos Gouveia é um produto do sistema prisional, o que traduz um falhanço total da reinserção social”, afirmou o advogado, acusando a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) de práticas de “humilhação” e “despersonalização” dos reclusos.

Segundo Vítor Carreto, uma das situações denunciadas prende-se com a alegada proibição de o recluso possuir livros na cela.

O advogado comparou ainda a situação atual com o caso ocorrido em 2010 no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, quando guardas prisionais recorreram ao uso de arma elétrica taser contra Carlos Gouveia.

Conhecido pela alcunha de “animal”, o recluso ganhou notoriedade nesse ano depois de ter coberto a cela, o corpo e a roupa com fezes e restos de comida, espalhando também dejetos pelas paredes da prisão.

Em 2014, o Tribunal de Paços de Ferreira condenou dois guardas do Grupo de Intervenção e Segurança Prisional a penas suspensas de oito meses de prisão pelo uso do taser contra o recluso, considerando a atuação “censurável” e desproporcional.

Carlos Gouveia, atualmente detido em Monsanto desde setembro de 2023, acumula cerca de duas dezenas de condenações por crimes como furtos, roubos e tráfico de droga.

O advogado anunciou ainda que irá avançar com uma queixa junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, alegando falta de justiça em Portugal.

“Entram drogas e telemóveis em Monsanto. Livros é que nunca”, criticou Vítor Carreto.

À agência Lusa, a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais confirmou que o recluso se encontra em greve de fome, mas apresentou uma versão diferente sobre os motivos do protesto.

Segundo a DGRSP, a situação surgiu após a instauração de um processo disciplinar devido à recusa do recluso em realizar testes de deteção de consumo de substâncias estupefacientes.

A entidade explicou que Carlos Gouveia integra um Programa de Substituição de Baixo Limiar de Exigência, no âmbito do qual foi celebrado um contrato terapêutico que prevê a realização periódica de rastreios toxicológicos.

De acordo com a DGRSP, esses testes constituem “um instrumento de monitorização clínica e de aferição da adesão terapêutica”, seguindo orientações do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências.

A direção prisional sublinhou ainda que o processo disciplinar continua em curso e que ainda não foi tomada qualquer decisão final.

A DGRSP acrescenta que, conforme previsto legalmente em situações de greve de fome, o recluso encontra-se isolado da restante população prisional e sob vigilância clínica permanente, assegurando que o seu estado de saúde permanece estável.