terça-feira, 09 jun. 2026

“Receitas culturais” para ansiedade e depressão ligeira? Novo projeto português pode arrancar já em 2027

A Universidade do Porto está a desenvolver um projeto-piloto que poderá permitir aos médicos prescreverem atividades culturais a doentes com ansiedade e depressão ligeira, numa abordagem que poderá vir a integrar o Serviço Nacional de Saúde.
“Receitas culturais” para ansiedade e depressão ligeira? Novo projeto português pode arrancar já em 2027

O ciclo habitual da medicina é ter um paciente que se dirige a um médico e, se necessário, recebe uma prescrição médica de um medicamento que deve levantar numa farmácia. Mas e se nem todas as doenças tiverem a cura em medicamentos?

A Universidade do Porto está a desenvolver um modelo para integrar prescrições culturais nas políticas de saúde. Na prática, isto irá permitir aos médicos receitar atividades culturais a doentes cujas doenças sejam ansiedade ou depressão ligeira.

"Estamos a falar de um médico ou um psicólogo prescreverem a um paciente com ansiedade, depressão ligeira, stress ou pré-burnout a participação, por 10 semanas, em atividades em grupo que implicam sempre alguma criatividade, desenvolvidas por artistas ou mediadores culturais certificados, nos museus que integram o consórcio", explica a vice-reitora da Universidade do Porto, Fátima Vieira, citada pela agência Lusa.

A reitora acredita que a médio prazo, o modelo inovador pode passar a fazer parte do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Além da redução de ansiolíticos, porque "as pessoas vão estar mais felizes", a reitora sublinha ainda que "[as pessoas] são mais produtivas também. E, portanto, essa parte das vantagens, dos benefícios e do impacto que tem na própria economia também está muito bem estudada e será certamente um fator a ter em conta também pelo nosso Governo".

O novo modelo, designado por "Prescrição Cultural", está a ser testado dentro da própria universidade, com dois grupos de estudantes, estando a aguardar o financiamento da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N). Se tudo correr conforme o planeado, deverá começar a ser implementado na região Norte do país a partir de 2027.

O projeto integra também a Universidade do Minho, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Mouro, seis museus, a Direção-Geral da Saúde, a Ordem dos Médicos e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N).

Como vai funcionar?

Os doentes têm de ser referenciados pelas Unidades Locais de Saúde o que irá implicar formação para os profissionais. "Temos um curso de formação de 25 horas para médicos e psicólogos, inteiramente gratuito. Se não tiverem disponibilidade para isso, pelo menos temos uma tarde de formação para que todos percebam quais são os princípios", garantiu Fátima Vieira.

Os facilitadores da atividade "são sempre artistas ou mediadores culturais que não querem ser psicólogos nem terapeutas mas têm um curso de formação de 52 horas que os prepara a trabalhar com grupos e a gerir também situações de ansiedade que possam surgir".

Após a prescrição do médico/psicólogo, o processo do doente passa a ser gerido por um "link worker", como um assistente social, por exemplo, responsável pelo acompanhamento e elaboração de um relatório sobre o paciente, que vai ajudar o médico do SNS a ter toda a informação para decidir o que fazer.

A "prescrição cultural" é algo já feito noutros países. Neste caso, foi um projeto dinamarquês e sueco, designado por "Vitamina Cultural", que inspirou a universidade portuguesa.

"Essa ideia da vitamina cultural parece muito interessante. Porque também dá uma ideia exata daquilo que é feito ou daquilo que se pode permitir fazer. Se estivermos doentes, quando tomamos uma vitamina, ficamos mais fortes, mas não ficamos necessariamente curados. O paciente poderá ficar mais forte, mas tem que continuar com a medicação e com os tratamentos que tenham sido prescritos", explica Fátima Vieira.

Além do modelo inovador, a U.Porto está também a "produzir evidência científica" sobre a inovação.