quarta-feira, 15 abr. 2026

Realizador de cinema acusado de violência doméstica... por vítima que pode não existir

O realizador viu festivais de cinema cancelarem acordos com filmes seus devido a emails enviados pela alegada vítima.
Realizador de cinema acusado de violência doméstica... por vítima que pode não existir

Ico Costa foi acusado de violência doméstica. Uma acusação que o levou a ver filmes seus serem cancelados pelo festival IndieLisboa, no qual tinha sido vencedor no ano anterior, em 2024. O mais estranho? A acusação foi registada no nome de uma mulher que nunca apareceu.

Realizador de cinema desde 2012, Ico passou a ser visto como um agressor de mulheres, sem se conseguir defender a partir do dia 17 de abril de 2025, data do primeiro e-mail enviado. Neste, endereçado pelo email "Proton mail", que é o maior serviço de email encriptado e que permite um registo anónimo, descrevia Ico Costa como um "agressor em série de mulheres". “As suas agressões são verbais, físicas e psicológicas, e ele usa estratégias de intimidação, de chantagem emocional e de vitimização para se justificar dos seus atos”, escreveu a alegada vítima, Joana Sousa Silva, no email a que a CNN Portugal teve acesso.

Referia ainda que conhecia mais seis vítimas e que as agressões durariam há mais de dez anos. O motivo para não ter apresentado queixa nas autoridades era também descrito: dizia que as autoridades tinham "levantado problemas" e que, por isso, tinha desistido.

Explicou que tinha tido uma relação com Ico Costa de seis meses, quatro anos antes: o realizador garante não ter tido nenhuma relação com alguma "Joana", de 28 anos, ex-estudante de cinema.

Depois destas acusações, várias pessoas tentaram contactar a alegada vítima: sempre com recusas de encontros e chamadas telefónicas. "Joana" chegou a informar que haveria um encontro na Mutim (Mulheres Trabalhadores das Imagens em Movimento) onde se juntariam as alegadas vítimas de Ico Costa: mas a organização não sabia de nenhum encontro, nem conhecia "Joana".

As mensagens continuaram a surgir dias mais tarde, que chegaram a vários festivais de cinema internacionais. "Joana" criou perfis nas redes sociais onde difundia detalhes sobre a situação.

Em junho do ano passado, a alegada vítima terá voltado a enviar um novo email que explicava a noite de 13 de junho, onde alegava que Ico Costa lhe tinha "feito uma espera" em sua casa. Disse que tinha fugido dele e que "apenas escapou por causa de um senhor que estava a fechar um café".

Mas "Joana" tinha acabado de cometer uma gafe: Ico Costa estava em Marrocos nessa noite, sendo impossível tê-la perseguido em Portugal.

Ao que a CNN Portugal apurou, o principal suspeito da queixa é um homem ligado ao meio artístico, e não Joana Sousa Silva.

Mesmo sem nunca ter havido uma queixa formal nas autoridades, os rumores da agressão começaram rapidamente a circular nas redes sociais e no meio artístico, o que tem retirado várias oportunidades ao realizador: em 2024 venceu o prémio de melhor longa-metragem portuguesa no IndieLisboa International Film Festival e, mais tarde, viu um filme seu ser selecionado para a Competição Nacional do 22º IndieLisboa. Pouco depois da acusação, o seu filme foi afastado da competição, num comunicado oficial da organização.

A pessoa que se faz passar por Joana Sousa Silva e que acusa Ico Costa de crimes graves pode ser acusada de falsidade informática, denúncia caluniosa e difamação agravada.

O advogado do realizador, David Silva Ramalho, garante que o caso apenas teve repercussões devido à decisão do festival de cinema: "O único motivo pelo qual a denúncia falsamente apresentada contra Ico Costa teve a repercussão que teve foi a decisão precipitada do IndieLisboa", afirmou, citado pela CNN Portugal. “Em qualquer outro cenário, perante uma denúncia apresentada a partir de um email descartável, por uma pessoa com um nome fictício, que sempre se recusou a aparecer ou a falar, haveria lugar a uma averiguação prévia, por mais pequena que fosse, sobre o mérito das alegações”, acrescentou.

O advogado fala na precipitação do festival, que deu credibilidade a uma "denúncia feita por e-mail, sem fundo de verdade". “Ficamos a saber, portanto, que para se excluir alguém da competição, talvez para sempre, basta que se crie um email anónimo e se apresente uma denúncia, que o IndieLisboa tomará medidas imediata e irrefletidamente”, lamenta o advogado.

Ico Costa já apresentou uma queixa por denúncia caluniosa e há, de facto, uma investigação sobre o caso: mas a reputação manchada torna-se difícil de reverter e o processo prolonga-se.