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O viaduto da Segunda Circular sobre o Campo Grande é um dominó de betão, pronto a desmoronar num sismo, que pode ocorrer a qualquer momento. Há três anos, Carlos Moedas prometeu obras imediatas, que nunca arrancaram.
Em 1998, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) encomendou uma avaliação de segurança ao Instituto Superior Técnico (IST). Na volta do correio, recebeu uma recomendação para proceder, com urgência, ao reforço da estrutura contra sismos. «Esse parecer indicava que, mesmo num sismo de intensidade mediana, o viaduto colapsa de forma transversal», recorda Mário Lopes, professor de Engenharia de Estruturas do IST.
Por incrível que pareça, a autarquia ignora o aviso há 28 anos. O risco sísmico já colecionou seis presidentes de câmara, de que se pode vingar a qualquer momento: João Soares, Santana Lopes, Carmona Rodrigues, António Costa, Fernando Medina e Carlos Moedas. Quando ocorrer um sismo, mesmo moderado, muitas pessoas vão morrer ali ou ficar gravemente feridas. O número de vítimas dependerá, apenas, da hora, do dia ou da noite, do tremor de terra. Além disso, Lisboa ficará privada, por tempo indeterminado, da principal ligação entre as zonas oriental e ocidental da cidade.
A autarquia anunciou o início das obras no viaduto em setembro de 2023. «Vamos avançar já, primeiro com o projeto e depois a obra», declarou a então vereadora Filipa Roseta, quando a TVI denunciou o problema. Três anos depois, a autarquia esclarece que ainda «estão em apreciação as diferentes soluções técnicas, com vista à seleção da alternativa que melhor responda aos objetivos de segurança, funcionalidade e sustentabilidade da futura intervenção». Só depois poderá ser «lançada a empreitada, prevista para 2027».
Os peritos em engenharia sísmica já estão habituados à negligência dos poderes públicos, mas nem por isso deixam de se manifestar indignados. «Está à vista de todos. Pilares muito fininhos suportam uma grande massa. Durante um sismo, os pilares comportam-se como um dominó, caem um atrás do outro e o viaduto acaba por colapsar», declarava à TVI José Paulo Costa, especialista no reforço deste tipo de estruturas. «O problema que temos é que um risco desta dimensão, apesar de estar detetado há 28 anos, ainda não foi corrigido», lamenta Mário Lopes. Conjuntamente com seis outros peritos em Engenharia e Geologia, escreveu ao Presidente da República e ao primeiro-ministro a clamar por uma estratégia nacional de reforço das estruturas críticas contra sismos. António José Seguro já os recebeu e publicou uma nota à imprensa manifestando o seu compromisso com esse objetivo.
A CML tem feito vários levantamentos de vulnerabilidade sísmica, designadamente de escolas, edifícios municipais e outras estruturas. Em setembro de 2023, a vereadora Filipa Roseta anunciou o arranque de estudos a outros oito viadutos, na Segunda Circular, de acesso ao Hospital de Santa Maria e em Chelas.
No passado, passou dos estudos às obras no viaduto adjacente ao Centro Comercial Fonte Nova. Quem observar o viaduto a partir do chão, depara-se com molas dissipadoras de energia em todas as ligações dos pilares ao tabuleiro. Em caso de sismo, esses ‘patins’ impedem que as movimentações de terra cheguem à estrutura com uma intensidade insuportável. «Era uma ratoeira, mas ficou desativada. Quando houver um sismo, podem vir com tendas para aqui, porque este é um dos locais mais seguros de Lisboa», garante José Paulo Costa, responsável por esse projeto.
No Campo Grande, o perigo engole presidentes de câmara, até um dia engolir o trânsito. Por ocasião da Expo’98, a CML decidiu revestir os pilares do viaduto com azulejos do artista plástico Eduardo Nery, produzidos na Fábrica Viúva Lamego. Desenhos surrealistas de zepelins e automóveis antigos ficaram a ‘segurar’ o trânsito. Nalguns pilares, brincam crianças. Noutros, adultos com trajes novecentistas praticam equitação e danças de salão. Por cima de todos, um anjo, com ar trocista.