Raptados em França, acabaram num jogo sem fim para serem abandonados. A história das duas crianças encontradas em Alcácer do Sal

Foi o padeiro Alexandre Quintas que ouviu os gritos dos irmãos, levou-os para a padaria da família e acabou por se tornar no “herói” da história que está a chocar Portugal.
Raptados em França, acabaram num jogo sem fim para serem abandonados. A história das duas crianças encontradas em Alcácer do Sal

Alexandre Quintas é o "herói" destes meninos que, aos 3 e 5 anos, se viram sozinhos numa estrada num sítio que nunca conheceram.

O padeiro de Alcácer do Sal estava a dirigir-se à padaria da família quando ouviu gritos de crianças. Hesitou, sem saber se se tratava de um esquema para o assaltar. Mas eram mesmo duas crianças que rapidamente correram até ele "a chorar e a gritar".

Levou as crianças para dentro do carro, onde estava também o seu filho, de quatro anos. “Quando vi a mochila que levavam, com uma muda de roupa, água, duas peças de fruta e umas bolachas percebi que tinham sido abandonados”, descreveu Alexandre ao jornal Observador.

Posto isto, seguiu o caminho que percorre todos os dias àquela hora, e levou os meninos com ele para a padaria. “Perguntámos se gostavam de gelado, disseram logo que sim e assim cedemos. Demos-lhes comida, uns brinquedos e lá ficaram entretidos”, descreve.

Alexandre Quintas sublinha que as crianças francesas não diziam uma única palavra de português - e a sua família não falava francês. No entanto, as crianças não tardaram em começar a brincar com o filho de 4 anos de Alexandre, um de nove filhos, tendo até conduzido um pequeno carro que os divertiu nas horas após os terem encontrado.

“Parece que enquanto lá estiveram, se esqueceram daquilo que lhes tinha acontecido”, relata. Como nenhum deles falava francês e precisavam de saber mais informação juntamente com os militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), um dos filhos do padeiro contactou uma amiga, também francesa. Através do telefone, foi Rita quem ouviu toda a história das duas crianças.

O que realmente aconteceu

Na terça-feira, as duas crianças foram almoçar a um aldeamento perto da Comporta com a mãe e o padrasto. Uma testemunha contou à CMTV que viu o carro do casal e notou que "iam duas crianças agarradas às pernas de um homem". "Vi que se passava alguma coisa de errado. Fui a casa, mas quando lá voltei, já não vi nada", explica, acrescentando que os terá visto por volta das 16h30.

As crianças de 3 e 5 anos foram deixadas num mato junto à estrada, apenas com uma mochila para cada um, com os mantimentos que Alexandre Quintas revelou. Ao dar-lhes a mochila, o padrasto ter-lhes-á dito que servia para um jogo, tal como a venda que lhes cobriu os olhos. O objetivo do jogo, relatam os pequenos, era procurar um brinquedo no meio da vegetação, vendados. Conforme deram início à busca, o casal voltou para o carro e fugiu.

As duas crianças ficaram desde aí sozinhas, caminhando até às 19h30, quando Alexandre Quintas por ali passou. O padeiro acredita que o plano do casal seria que as duas crianças não fossem encontradas "durante alguns dias".

As crianças francesas, embora deixadas com alguns mantimentos, não tinham consigo identificação, tendo sido o irmão mais velho a relatar tanto o nome do mais novo, como o nome da mãe. Depois de alguma hesitação, disse também o nome do pai. As autoridades mostraram-lhe ainda uma imagem de câmaras de videovigilância de uma bomba de combustível, onde conseguiu identificar a mãe.

De acordo com informação do Observador, a mãe saiu de França sem avisar o pai biológico das crianças. O alerta do desaparecimento já tinha sido acionado em França antes de estes serem encontrados em Alcácer do Sal. A CNN Portugal relata ainda que havia um adolescente, de 16 anos, que foi entretanto abandonado também. Eram todos procurados pelas autoridades há 15 dias.

O pós-desaparecimento

A GNR, como manda o procedimento, foi obrigada a realizar um interrogatório ao irmão mais velho. Embora nervoso, respondeu à maioria das perguntas.

Seguiu-se uma viagem até ao hospital de Setúbal, onde passaram a noite por precaução, embora não apresentem ferimentos. As duas crianças deverão passar mais uma noite no internamento pediátrico.

A investigação mantém-se ao cargo da GNR, que realiza agora todas as diligências para localizar a mãe e o padrasto que abandonaram as crianças, bem como para apurar o porquê do abandono. A GNR está também em contacto com a Comissão para a Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ).

O caso foi também comunicado ao Ministério Público, que deu entrada a um processo judicial urgente no Juízo de Família e Menores de Santiago do Cacém. "Aguarda-se decisão judicial", informam.

Devido à nacionalidade, o caso está a ser seguido pela Embaixada de França, acionando todos os procedimentos que permitem um "esforço de colaboração internacional".

Prevê-se o crime de exposição ou abandono para a mãe e o padrasto das crianças, que pode ter uma pena de dois a cinco anos “se for praticado por ascendente ou descendente, adoptante ou adoptado da vítima”.