terça-feira, 08 set. 2026

“Raparigas a cortarem-se por minha causa alegram-me o dia”: Jovem de 19 anos acusado de 81 crimes graves

Tinha apenas 16 anos quando terá começado a cometer os crimes. Vivia em Guimarães com os pais. Semanas antes da detenção, terá sido expulso de casa. Queria ser "como um Deus" e incitava adolescentes à automutilação.
“Raparigas a cortarem-se por minha causa alegram-me o dia”: Jovem de 19 anos acusado de 81 crimes graves

“Raparigas a cortarem-se por minha causa alegram-me o dia”. A frase, atribuída ao jovem e incluída no despacho de acusação, é uma das mensagens divulgadas no âmbito do processo que envolve um total de 81 crimes.

O arguido tem atualmente 19 anos, mas os factos descritos pelo Ministério Público reportam-se sobretudo ao período entre 2024 e 2025, quando tinha 16 e 17 anos. Segundo a acusação, terá utilizado diferentes plataformas digitais, com especial incidência no Discord e no Telegram, bem como inúmeros perfis de utilizador criados para esse efeito.

O Ministério Público considera fortemente indiciado que o jovem desenvolveu nesse período atividades de incitamento ao ódio e à violência e relacionadas com pornografia de menores.

Os pormenores do despacho de acusação foram consultados pelo Público. A Procuradoria-Geral Regional do Porto confirmou entretanto a acusação, deduzida por despacho de 10 de agosto de 2026.

Quatro situações de coação

Segundo o Ministério Público, a atividade de incitamento à violência era dirigida sobretudo contra jovens do sexo feminino e vítimas com fragilidade emocional.

O arguido terá criado um tutorial em vídeo, composto por uma sequência de imagens, através do qual explicava técnicas de automutilação e que enviava às vítimas para que estas seguissem as suas instruções.

O Ministério Público identificou quatro situações concretas em que o jovem terá coagido vítimas do sexo feminino à prática de atos de automutilação ou de atos com conotação sexual.

Segundo a acusação, os atos de automutilação procuravam "materializar um sentimento de superioridade e pertença em relação às vítimas, exclusivamente em razão do seu sexo", conforme revelou o jornal Público que cita o despacho.

Uma das mensagens atribuídas ao arguido é a frase "Raparigas a cortarem-se por minha causa alegram-me o dia", divulgada pelo mesmo jornal.

"Tens de cortar a tua coxa e escrever o meu nome nela, escreve XIL [nome como se intitulava online] e certifica-te que sangra o suficiente, não precisa de ser fundo, não sou tão cruel assim", escreveu o jovem para uma das vítimas, nas mensagens do Discord divulgadas pela acusação.

Queria ser “como um Deus”

O despacho de acusação descreve ainda a forma como o jovem procuraria afirmar-se no universo online.

Segundo o Público, o Ministério Público considera que o arguido pretendia construir uma reputação online que lhe conferisse a relevância que não conseguia obter nas relações presenciais.

O jovem ambicionava ser "como um Deus e que as pessoas o seguissem", tendo manifestado a intenção de criar uma "religião ou irmandade", segundo o despacho citado pelo Público.

O arguido chegou também a utilizar fotografias disponíveis online de figuras divinas.

A acusação descreve ainda uma visão das mulheres segundo a qual estas deveriam ser submissas.