quarta-feira, 13 mai. 2026

Quinta do Loureiro. Era uma vez o Casal Ventoso

A Quinta do Loureiro fica junto à encosta do antigo Casal Ventoso. Herdou os moradores e o tráfico de droga mas o ambiente, diz quem lá viveu, e até traficou, é agora muito pior. Já houve tiros em lutas pelo território e há quem tema sair à rua. Aqui há droga 24 horas por dia e muitos toxicodependentes deambulam pelo bairro. As tendas começam a instalar-se, como antigamente, num ciclo perpétuo que começou com “dois ou três espertos” no final dos anos 80.
Quinta do Loureiro. Era uma vez o Casal Ventoso

As pessoas são as mesmas que já viviam no Casal Ventoso. O ambiente é muito pior. Começaram a aparecer pessoas que não viviam lá, de fora do bairro, a querer tomar conta do tráfico. A dada altura, andaram aos tiros uns contra os outros», recorda Manuel, 68 anos, antigo morador do Casal Ventoso e da Quinta do Loureiro. Isto terá acontecido, de acordo com o relato de Manuel, pouco antes da pandemia. «É claro que sabemos que o mercado da droga está ligado ao crime violento e grave por causa das disputas do próprio mercado e da gestão do mercado», explica, por sua vez, o intendente Rui Costa, que comanda a Divisão de Investigação Criminal de Lisboa.

Manuel fez de tudo: foi vigia, traficante, passou pela prisão e voltou a vender droga. ‘Reformou-se’ em 2015. «Entendi que não queria mais problemas com a justiça. Também já estava numa idade em que não queria confusões, mesmo dentro do bairro. Aliás, o meu pai morreu e eu saí da Quinta do Loureiro, fui morar para Odivelas», revela o homem, de feições duras e cabelo completamente branco. Talvez a denunciar os anos e anos de tensão no mundo do tráfico. «Também fui ‘correio’. Imagine o que é um gajo trazer 30 quilos de haxixe de Espanha para cá».

O negócio com os espanhóis

A aventura de Manuel começou numa noite de verão, no Casal Ventoso. «Um gajo perguntou-me: ‘Queres ganhar 10 contos em quatro horas?’ Naquela altura era muito dinheiro! Perguntei o que é que tinha de fazer e era só ficar à espreita e, caso visse a polícia a aproximar-se, gritar ‘Uga!’».  

Foi o princípio de uma longa ‘carreira’. «Mais tarde, já tinha amealhado algum, investi 100 contos e comecei a vender heroína e cocaína. Andei nisso uns três anos. Até que houve uma rusga, os gajos [polícia] já estavam fartos de mim e plantaram mais droga do que eu tinha, em minha casa. Fui preso, estive sete anos no EPL [Estabelecimento Prisional de Lisboa]. Foram os piores anos da minha vida: a cela tinha a sanita e levávamos com o cheiro uns dos outros. Só havia seis chuveiros para 200 presos, os últimos a tomar banho apanhavam a água gelada. Para não falar no comer. Há um peixe vermelho que, ainda hoje, mesmo que eu veja o pescador a apanhá-lo não o como. Os gajos serviam-nos aquilo, nem era amarelo, nem verde, cheirava mal, estava podre».

Arrependeu-se. «Perdi a minha filha, por estar preso. E hoje penso no mal que provoquei nas outras pessoas. Quando vejo, de fora, as pessoas agarradas, admito que o que fiz foi errado e, se voltasse atrás, nunca o teria feito», garante o antigo traficante.

Manuel lembra o antigo Casal Ventoso. «Havia muitas bancas, era porta sim, porta sim. Uns vendiam, outros guardavam a droga, quase toda a malta mais nova começou a viver daquilo. Os mais velhos não, tinham os seus trabalhos. O meu pai trabalhava numa fábrica». Mas, afinal, como é que a droga, sobretudo heroína e cocaína, chegou a esta zona da cidade, junto à avenida de Ceuta? «Aquilo foram dois ou três espertos, que sabiam que aquilo dava dinheiro, que era droga, e meteram-se com uns espanhóis. Investiram naquilo e começaram a dar às pessoas para vender».

Toxicodependentes apedrejados

Manuel viu o Casal Ventoso ir abaixo e foi realojado na Quinta do Loureiro. «O tráfico passou das casinhas antigas para os prédios novos. É igual, só muda o sítio. Aliás, é pior. Antigamente, a gente podia andar à noite, na rua, com um fio de ouro ao pescoço e ninguém mexia em nada. Hoje, isso já não acontece. As pessoas ali estão sujeitas a tudo. Chegam ao pé da pessoa, roubam. Andam por ali [os toxicodependentes] e as velhotas já não se sentem bem com aquilo. Antigamente, no Casal Ventoso, compravam e iam consumir para longe, para ao pé da linha do comboio. Todos os dias morria alguém debaixo do comboio. Os gajos injetavam a coca e nem davam por comboio nenhum a chegar. Quer dizer, no Casal Ventoso havia mortos todos os dias».

A VERSA assistiu a toxicodependentes a serem apedrejados por traficantes, em plena luz do dia, na Quinta do Loureiro. Prática que não acontecia no Casal Ventoso, o bairro que ficou mal-afamado e conhecido como o ‘maior supermercado de droga da Europa’. «Dantes eles [toxicodependentes] eram bem tratados. Faziam a vida deles, compravam, iam-se embora à vida deles…».

Só por uma ocasião houve problemas, no Casal Ventoso, entre toxicodependentes e traficantes. «Andavam lá uns gajos que nós chamávamos os ‘amarelos’, porque era a cor do colete que eles usavam. Andavam lá para ajudar a malta que estava agarrada à droga. Houve um grupo deles, dos que consumiam, que roubaram os ‘amarelos’. Nós, como vendíamos, não queríamos lá a polícia. Os ‘amarelos’ vieram-se queixar-se à gente, fomos lá abaixo às tendas, pegámos fogo àquilo tudo e demos porrada neles [toxicodepentes] todos! Aquilo nem eram só tendas. Eles com uns sacos de plástico, umas canas ou uns paus faziam uma barraca. A gente arrasou de uma ponta à outra! Isto foi logo no início, nos anos 90», desvenda Manuel, mostrando um certo orgulho neste ato de justiça popular.

A "Banca 34"

Longe de Manuel, que não quis ser fotografado, fomos conhecer a Quinta do Loureiro com o comissário João Prisciliano, da esquadra dedicada ao tráfico de droga, da Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Lisboa. Partimos do Forte do Alto do Duque, onde está instalada a DIC, num carro descaracterizado e com vidros escuros. Ao chegarmos perto da estação ferroviária de Alcântara-Terra começamos a aperceber-nos de movimentos que indiciam o que se passa a poucos metros, na Quinta do Loureiro. «Como veem, aqui já andam muitos toxicodependentes», aponta o comissário, perante a presença de alguns indivíduos, maltratados pelo abuso de drogas, junto à paragem de autocarros.

Mais adiante, já em plena avenida de Ceuta, um homem atravessa a estrada sem qualquer atenção. «Aqui é um comportamento normal. Estas pessoas já nem vão a pensar em mais nada. A adição dá-lhe para fazer isto. Passa uma via com seis faixas de rodagem sem olhar para nada. Só pensam em ir buscar a próxima dose», analisa João Prisciliano.

Entramos dentro do bairro e, poucos metros adiante, a primeira banca de venda de droga. Há um ajuntamento de pessoas. Uns são vigias; outros dedicam-se à venda direta ao consumidor. «Como podem ver já estão ali quatro ou cinco pessoas», alerta o comissário da PSP. «Se chegasse agora um carro da polícia já estavam a gritar ‘Uga’, é o termo que eles usam para avisar da presença policial», prossegue Prisciliano

Parte do bairro está ‘tomada’ pelo tráfico. «Aqui neste bairro há três ou quatro lotes onde o problema é mais visível. Aqui à esquerda é onde acontece grande parte do tráfico. E todos estes senhores têm o seu papel». Estamos junto ao lote 5 ou, para os conhecedores do bairro, a ‘Banca 34’.

Continuamos a viagem pelo novo Casal Ventoso. Estamos agora junto da Sala de Consumo Assistido, a única em Lisboa. Na rua, veem-se pessoas a fumar crack. «Aquelas pessoas estão a consumir. Não quer dizer que depois não vão aos cuidados da sala de consumo assistido. Eles oferecem comida, banho, serviços de enfermagem», dá conta João Prisciliano.

Tendas estão de volta

Uma ligeira curva e a encosta começa a desenhar-se. «Já se começa, outra vez, a ver tendas», aponta o comissário. Estão escondidas por entre a vegetação densa mas são visíveis a um olhar mais atento. «Estão a ver ali um carreiro. Isto é sinal de que as pessoas passam aqui constantemente. E mais para cima há mais tendas».

Subimos a rua Costa Pimenta e voltamos a reentrar na rua da Quinta do Loureiro. «Ao lado destes prédios havia as antigas piscinas do Loureiro, que nunca tiveram uso continuado. Era um edifício que estava ao abandono. E eles [toxicodependentes] concentravam-se muito aí. Não tinha luz mas eles metiam-se lá dentro», explica João Prisciliano.

O trabalho de investigação policial não é fácil nesta zona da cidade. A própria arquitetura, de rua única, não é favorável. O comissário dá uma ideia de como tudo é feito. «Vamos utilizando estratégias para não ‘queimar’ os carros.  Aproximamo-nos à distância… Mas as vigilâncias, por vezes, vão mesmo dentro do bairro. Vamo-nos adaptando e temos aí os nossos buracos». Ao mesmo tempo, a chegada de novas tecnologias, como a aplicação Waze, tem ajudado, mesmo sem querer, a polícia. «Agora há muitos carros que passam por aqui para evitar o trânsito. Ou seja, acaba por ser mais difícil eles [vigias] detetarem carros estranhos», nota o comissário.

Loureiro é campeão de vendas

Manuel, o antigo traficante, acabou por ficar a perceber algumas destas movimentações. «Eles chegaram a entrar na casa de certa gente que os deixava fotografar pelas janelas. E os carros também se vão tornando conhecidos, certos carros». Ainda assim, garante: «Há um risco enorme e a malta arrisca. Eles até podem fazer-se passar por drogados e vir comprar. Já estive num processo em que as fotografias foram tiradas dentro do hall do prédio. Isto só pode ter sido um deles com uma câmara oculta. Eles andam por lá, sabem os nossos nomes, as nossas alcunhas… Como é que eles fazem isso? Pois…», encolhe os ombros.

João Prisciliano acrescenta: «Temos de ter alguma imaginação senão somos logo vistos. Porque eles também vão aprendendo… Eles pensam: ‘Houve aqui qualquer coisa e chegaram [a polícia] desta forma ou daquela…’».

Ao longo do percurso outros focos, embora menores, de tráfico. «Estão a ver estas duas aqui? São claramente duas que estão a fazer qualquer coisa a ver com o tráfico. Ou a vender ou a vigiar, gritando ‘Uga’ à chegada da polícia».

Certo é que a Quinta do Loureiro, à semelhança do antigo Casal Ventoso, é a zona da cidade onde se vende mais droga em Lisboa. «Eu diria que é o sítio onde há a certeza de haver produto e disponibilidade a qualquer hora, 24 horas», garante João Prisciliano. O comissário dá, até, um exemplo. «Numa certa altura, encontrei um senhor que trabalhava na marinha mercante. Durante muitos anos. Ele sabia que vindo aqui e encontrava o que queria. Mais lado, menos lado. Portanto, isto para quem procura qualquer coisa, sabe que encontra. Imagine, é como quem quer certo tipo de cereais e vai ao supermercado onde tem a certeza que os vai encontrar. Estas pessoas também são assim. Vão ao Loureiro porque sabem que vão encontrar o que procuram. Não têm de se deslocar a outro bairro, apanhar mais um transporte, nada. Aqui, encontram. O Loureiro, no conjunto dos bairros mais conotados com o tráfico em Lisboa, é o que maior quantidade de droga vende».

À semelhança do que acontecia no Casal Ventoso, o tráfico também ganhou dimensão devido às condições socioeconómicas da população. «É uma população que não é rica. A droga acaba por trazer algum dinheiro». E, lá está: uns vigiam, outros vendem, outros guardam, como deu conta o antigo vigia e traficante Manuel.

Por aqui, já houve quem quisesse sair do bairro. «Imagine que quer sair de sua casa e encontra o hall de entrada do prédio fechado, as portas alteradas. Já houve pessoas a pedir à Gebalis para sair para outros sítios. Porque não aguentam».

Aliás, muitas das ações policiais prendem-se com esse sentimento de insegurança e desconforto gerado pelo tráfico. «Por vezes, as apreensões passam para segundo plano. Por vezes, vimos aqui só mesmo para dar estabilidade aos moradores. Para que cada pessoa possa entrar em casa com os filhos e não haver um conjunto de pessoas a perguntar se ela, realmente, vive ali, porque realmente muita gente que está a vender não é daqui e não conhece bem alguns moradores».

Para muitos, o risco ainda compensa. «É muito dinheiro em jogo. Há uns tempos apanhámos um menino de 15 anos que levava 400 euros para casa, por dia. Ou seja, levava mais dinheiro do que a mãe que, se calhar, tem dois empregos para pôr comida na mesa», explica o comissário da PSP.

O boxe como fuga à desgraça

É precisamente ao lado da ‘Banca 34’, no lote 5, que se situa a Associação de Boxe Paulo Seco, conhecida pela colaboração com grandes projetos audiovisuais. Foi Paulo Seco quem treinou Nuno Lopes para o seu papel no filme ‘São Jorge’, de 2016. Mais recentemente, uma cena da segunda temporada de ‘Rabo de Peixe’ também foi aqui gravada.

Paulo Seco, à semelhança de Manuel, também nasceu e foi criado no antigo Casal Ventoso. Tal como muitos outros foi realojado na Quinta do Loureiro e encontrou no boxe uma luz. «Quando era miúdo gozavam comigo por eu ser gordo. E eu vi no boxe uma maneira de autodefesa», avança o treinador.

Paulo Seco admite que neste meio «há tentação, há uma vida que é fácil para nós, para quem está aqui dentro, que é ganhar dinheiro ilegalmente». Ele conseguiu fugir à tentação e, um dos propósitos da associação é, também, o de tirar os jovens da rua. «Eu também vi no boxe uma forma de ter acesso a um mundo que eu não tinha. Como eles aqui não têm. Vivemos dentro de Lisboa mas estamos numa comunidade fechada. E o desporto salva. No meu caso salvou e também salva outros jovens. E aqui na associação também temos outras atividades, para ir ao encontro de outras coisas que os mais novos gostem de fazer», adianta.

À semelhança de Manuel, também Paulo Seco recorda o Casal Ventoso e como tudo começou. «A droga entrou no bairro. Depois disparou ao longo dos anos, foi ganhando cada vez mais terreno. Havia muito desemprego e as pessoas viam o dinheiro fácil a entrar, viam o vizinho a ter um carro novo que elas não conseguiam ter, não tinham dinheiro para comer, não tinham condições».

Dá o seu exemplo: «Para fazer ou receber uma chamada tinha de ir a casa de um vizinho que, naquela altura, já tinha telefone em casa. Eu não tinha casa de banho em casa, tinha de ir tomar banho ao balneário ou a uma coletividade e pagava-se um valor para se poder tomar banho. Eram condições de grande pobreza e isso propiciou o alastramento do tráfico. E depois do Casal Ventoso é o que a gente hoje vê aqui. Limitaram-se a tirar as pessoas do Casal Ventoso e a metê-las aqui nos prédios. O tráfico passou para a Quinta do Loureiro».

Furtos e insegurança

O treinador de boxe dá ainda conta do sentimento de insegurança que por ali se vive. «Ao princípio, as pessoas vinham aqui para baixo. Algumas iam para as mesinhas que há aqui na rua, conversar. Outras ficavam à porta do prédio, a falar. Hoje em dia isso já não se vê. As velhotas têm algum receio de estar à porta do prédio, a conversar, não se sentem seguras, apesar de ninguém lhes fazer mal».

À medida que a conversa se prolonga vários toxicodependentes começam a aninhar-se no hall de entrada do lote 5. De repente chega um rapaz e espalha uma bolsa, com dezenas de doses de cocaína, ali ao lado, sem rodeios. À vez, cada toxicodependente vai sendo aviado. Sempre com maus modos e más palavras, como se não fossem eles a base de todo este negócio milionário. «Já andei muito pelo estrangeiro e estive noutros bairros. São semelhantes a este mas há sítios onde só falta ter uma pessoa em cima do prédio com uma pistola apontada cá para baixo», conclui Paulo Seco.

O intendente Rui Costa explica por que se sente tanta insegurança no Loureiro: «Quanto mais organizada é a estrutura de tráfico, menos visível. E menos sentimento de insegurança cria. Se for à Quinta do Loureiro e vir os toxicodependentes, e vir as bancas montadas, e vir as pessoas em corrupio, vai sentir-se insegura. Portanto, quanto mais visível, mais sentimento de insegurança. Quanto menos visível, menos sentimento de insegurança».

Num dos cafés do bairro vimos um rapaz a tentar vender uma dúzia de alheiras. O dono do estabelecimento comprou todas por cinco euros. Os furtos são frequentes sobretudo nos supermercados de Alcântara ou Campo de Ourique. «Pois quem precisa de drogar-se muitas vezes há roubos, há furtos...», admite o intendente Rui Costa. «Ali aparece de tudo; tudo se vende e tudo se compra», sumariza Manuel, habituado ao jogo da vida.