A Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria, em Lisboa, está preparada para iniciar um dos projetos-piloto de rastreio do cancro do pulmão anunciados pelo Governo, tendo já 3.500 utentes identificados e capacidade para realizar 30 exames por semana.
A propósito do Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, que se assinala quarta-feira, a diretora do Departamento do Tórax da ULS Santa Maria, afirmou que a unidade reúne todos os critérios necessários desde 2024, faltando apenas a aprovação do financiamento.
“Estamos prontos para iniciar já este mês”, sublinhou Cristina Bárbara.
O rastreio será realizado através de TAC de baixa dose, com exposição reduzida à radiação, em regime de atividade fora do horário normal. Os utentes serão convocados em vários momentos e poderão ser sinalizados pelos cuidados de saúde primários, pelos sistemas eletrónicos (com base nos hábitos tabágicos) ou por pneumologistas da própria ULS.
O programa destina-se a pessoas entre os 55 e os 74 anos, fumadores ou ex-fumadores com histórico significativo de consumo de tabaco.
Cristina Bárbara destacou que o rastreio permite detetar a doença em fases iniciais, tornando possível o tratamento cirúrgico curativo, e que frequentemente identifica outros problemas de saúde em fase precoce. Ao longo de todo o percurso é também oferecida consulta antitabágica.
“Queremos combater o estigma. O objetivo não é culpabilizar o fumador, mas permitir que deixe de fumar e que uma eventual neoplasia seja identificada numa fase tratável”, frisou, citada pela agência Lusa.
Segundo a literatura científica, é necessário rastrear 100 a 150 pessoas para evitar uma morte por cancro do pulmão, uma taxa muito superior à de outros rastreios oncológicos. A deteção precoce pode reduzir a mortalidade entre 20% e 25%.
Neste âmbito e num outro projeto-piloto, Portugal deverá testar, em 2027, a eficácia de um rastreio organizado do cancro da próstata com cerca de 20.000 homens das regiões de Braga e Lisboa.
O projeto, dependente de financiamento europeu, será coordenado por um grupo de trabalho ligado à Associação Europeia de Urologia. Os participantes, homens assintomáticos entre os 55 e os 70 anos, serão convocados pelos centros de saúde.
O programa começa com a realização do PSA (Antígeno Prostático Específico), seguindo-se ecografia e ressonância multiparamétrica nos casos indicados.
“É a neoplasia maligna mais frequente nos homens e a segunda com maior mortalidade. Há evidência de que o rastreio reduz a mortalidade”, explicou Francisco Botelho, coordenador oncológico da Associação Portuguesa de Urologia.
O especialista reconheceu desafios organizacionais e o risco de sobrediagnóstico, mas defendeu que a prevenção é o caminho, sublinhando que atualmente muitos homens nunca realizaram qualquer despiste
Também no âmbito do rastreio do cancro, o diretor do Departamento de Medicina do IPO do Porto, Mário Dinis Ribeiro, defendeu que a endoscopia digestiva alta deve ser associada à colonoscopia já realizada no rastreio do cancro do cólon e reto, permitindo reduzir casos de cancro do estômago, sobretudo no Norte do país.
O especialista explicou que esta proposta se baseia em evidência científica robusta, projetos-piloto europeus e estudos de custo-benefício em curso no IPO do Porto.
“Há demonstração de que os cidadãos aceitam, que as lesões precoces podem ser tratadas e que o modelo é praticável”, afirmou.
O projeto envolve instituições de oito países europeus e já contou com 1.600 participantes, dos quais 209 em Portugal. Os resultados finais deverão ser conhecidos dentro de seis meses.
Estas iniciativas serão debatidas esta quarta-feira, em Lisboa, no evento da Direção-Geral da Saúde, organizado pelo Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, sob o tema “Oncologia em Rede: Uma Estratégia Nacional”, reunindo especialistas, profissionais de saúde e representantes institucionais.