Mais de duas centenas de adolescentes participaram no primeiro programa português de prevenção primária da violência sexual criado especificamente para escolas.
O projeto SUN, desenvolvido por investigadores das universidades do Porto, Coimbra e Aveiro, concluiu um ensaio clínico que revelou melhorias na consciencialização dos jovens sobre o tema e na sua capacidade para intervir perante situações de risco.
O programa foi implementado em quatro escolas dos distritos do Porto e Aveiro, envolvendo 213 alunos de Vila Nova de Gaia, Valongo, Ovar e Aveiro ao longo de nove meses.
Dez sessões para desconstruir preconceitos
O SUN, sigla de Stand Up Now against Sexual Violence, consiste em dez sessões de 50 a 60 minutos realizadas em contexto de sala de aula.
Durante as atividades, os estudantes analisaram notícias e publicações nas redes sociais, discutiram vídeos, participaram em exercícios de interpretação de papéis e desenvolveram outras atividades práticas destinadas a combater o sexismo, a desinformação e os preconceitos associados à violência sexual.
Segundo explicou à Lusa a investigadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Eunice Carmo, a iniciativa procura preparar os jovens para reconhecer situações de risco e agir de forma segura, promovendo também a empatia.
Resultados positivos e sem efeitos adversos
Depois de um projeto piloto com 79 alunos, o ensaio clínico confirmou que o programa não provocou efeitos negativos, como o reforço de mitos ou a diminuição da empatia. Pelo contrário, os investigadores verificaram que os resultados evoluíram na direção pretendida.
"É muito interessante porque é uma surpresa muito grande para eles ouvirem falar sobre temas da sexualidade de uma forma positiva. (...) Perceberem que estão a falar de igual para igual, que podem fazer piadas ou rir, fazer perguntas. Há esse processo gradual de irmos trabalhando, aos poucos, a desconstrução de mitos mais específicos", afirmou Eunice Carmo.
A investigadora explica ainda que o objetivo passa por permitir que os adolescentes construam as suas próprias conclusões.
"Este trabalho leva os adolescentes a chegarem às conclusões por eles mesmos", refere.
Rapazes registaram evolução mais significativa
Um dos aspetos que mais surpreendeu a equipa foi a resposta dos rapazes, que registaram uma evolução mais acentuada do que as raparigas ao longo do programa.
Segundo Eunice Carmo, esta diferença poderá estar relacionada com formas distintas de educação em função do género e com diferentes níveis de exposição ao tema da violência sexual.
"Acho que esta é a força da intervenção 'bystander', diferente das outras abordagens, dirigidas ou a pessoas com potencial de perpetração ou com maior vulnerabilidade à vitimação. Abordagens mais dirigidas a homens, por exemplo, criam normalmente um efeito de resistência. 'Eu não sou agressor, não tenho de saber sobre isto'. No caso da vitimação, é um efeito muitas vezes traumatizante ou culpabilizador", acrescentou.
Objetivo é complementar a educação sexual nas escolas
Após o feedback positivo recebido por escolas e alunos, os investigadores pretendem que o programa possa tornar-se uma resposta estável e complementar ao currículo de educação sexual.
Para Eunice Carmo, a violência sexual deve ser encarada como um problema de saúde pública.
"É uma epidemia invisível, na maioria dos casos. Sabemos que a maioria dos casos acontecem entre pessoas parceiras, fora do olhar comum. Isso não inviabiliza que possamos continuar a ser responsáveis. Um dos mitos que esta abordagem quer desconstruir é a ideia de que não temos potencial de ser agressores ou vítimas. (...) Eu sou responsável por mim, acima de tudo, mas da mesma forma pelas outras pessoas", afirmou.
O programa procura precisamente dotar os jovens de ferramentas para identificar situações de risco, apoiar potenciais vítimas, pedir ajuda ou alertar as autoridades, sempre colocando a segurança pessoal em primeiro lugar.