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Quem chega pela primeira vez a Dourados, a segunda maior cidade do estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, sente uma inusitada segurança. A agricultura e a pecuária são, aparentemente, as suas principais fontes de receita. Campos de soja e milho unem uniformemente o estado. Apenas o canto lancinante do urutau, um pequeno pássaro noturno camuflado na copa das árvores, lança sinais de alerta.
Às seis da tarde, o sol eclipsa-se, a noite cerra portas. Aqui, a primavera despe-se em dezembro. A cúpula de humidade que se abate entranha-se nos ossos. Vai chover. A reserva indígena, a maior do Brasil, onde cerca de 20 mil índios convertidos ao sedentarismo cruel da necessidade vivem confinados em 3,4 mil hectares, corre pela janela do carro. Atravessamos uns quantos quarteirões em direção ao centro. Não se vê vivalma na rua. Nem um bêbado.
Todas as cidades têm uma segunda pele. Na verdade é o narcotráfico e o contrabando que correm nas veias de Dourados. As palavras do chefe do departamento local da Polícia Federal (PF), Alexander Ferreira, que nos recebera de manhã, ajudam a decifrar as ruas desertas: «A cidade é um corredor de droga estrategicamente escolhida pelas grandes organizações criminosas. A uma centena de quilómetros do Paraguai, a fuga é-lhes oferecida de mão beijada».
Chega-se ao destino. Num dos melhores bairros da cidade, na rua Iguaçu, onde só vivem fazendeiros e empresários, a mansão de dois pisos de José Paulo Pinto de Sousa, o primo pelo lado paterno de José Sócrates que o MP acusa de ser o seu testa de ferro, exibe uma expressão defensiva. As câmaras de vigilância estrategicamente montadas em torno do terreno de cerca de dois mil metros quadrados, todo iluminado, intimidam quem passa. De onde vem tanto dinheiro? Segue-se-lhe o rasto. A única pista é uma empresa de construção: a Metrus.
A manhã não traz novidade. A chuva era previsível, o vento levantou a cabeça e as duas forças, em harmonia, surram os transeuntes desprevenidos. Os cartórios vazios agilizam a pesquisa. Com o nome de José Paulo e o seu número de contribuinte brasileiro desenterram-se as transações mercantis que o trouxeram a estas paragens: uma casa de venda de jogo, em Amanbai, a 50 quilómetros da fronteira com o Paraguai, e a construção de dois condomínios.
Em maio de 2008, sem qualquer experiência na área, José Paulo, com mais quatro sócios, um deles o irmão mais velho, António Pinto de Sousa, constitui a Metrus, Lda., dedicada à construção e à compra e venda de terrenos.
A composição da sociedade revela quem manda. Com 45%, José Paulo é o sócio maioritário. Pelos outros acionistas, a fasquia fica mais ou menos igualmente distribuída: António Pinto de Sousa (10%), o advogado portuense Jorge Manuel Vieira (15%), que mais tarde surgirá como aliado de José Paulo num negócio obscuro em Angola, Gonçalo Nuno Araújo (15%), um ilustre desconhecido, e Vilson Antunes, (15%), um brasileiro que funciona como o executor, ou pau mandado, das atividades societárias, tendo inclusive procuração forense com amplos poderes de representação e que também aparece como único sócio do primo de Sócrates na casa de jogo. Este sócio, de resto, acabaria por cair em escutas da operação Monte Branco, a maior rede de lavagem de dinheiro e fraude fiscal da história de Portugal. Pelas conversas mantidas, não passa de um moço de recados do homem forte da Metrus.
Curiosamente, quatro meses antes de este negócio no Brasil se materializar, a fortuna acumulada na offshore de José Paulo na Suíça mudava para as mãos de Carlos Santos Silva, o empresário amigo do ex-primeiro-ministro socialista com contas também em terras helvéticas. Mas, nas transações bancárias entre os dois, um testamento clarificava a hierarquia da relação: se Santos Silva morresse, José Paulo seria o herdeiro legal de 80% da fortuna que, daqui em diante, se acumularia nas suas contas.
Para unir os fios da trama, recorre-se à memória. A mudança do guardião da fortuna não fora obra do acaso. Nesse ano, o nome de José Paulo ficara queimado. Aparecera envolvido na investigação britânica ao caso Freeport, onde era referenciado como o parente que faria chegar as luvas a José Sócrates, à época ministro do Ambiente, que alegadamente teria garantido o licenciamento do outlet de Alcochete (mas tendo o processo acabado por ser arquivado).
O sol, inusitadamente, dissipa a aglomeração de nuvens negras e converte Dourados numa neblina luminosa. No horizonte, a cidade, de menos de 250 mil habitantes, parece crescer. Arranha-céus em construção estão por todo lado. Os corpos reagem à bofetada de calor húmido. Vamos assar! Revê-se no carro toda a documentação, estabelece-se uma hierarquia de prioridades.
Nas escrituras dos imóveis detidos pela Metrus, surgem os nomes dos compradores. Atravessa-se a cidade. Estaciona-se junto a um dos imóveis, o edifício Luanda, um condomínio simplório, de quatro pisos, fachada estreita.
Como se o silêncio fosse um escudo universal contra qualquer adversidade, no prédio poucos querem falar sobre quem o construiu. É Israel Santos, médico, quem começa a levantar a ponta do véu. Dos cinco sócios da Metrus, o médico apenas conheceu Vilson Antunes. Durante muito tempo, pensou até que fosse o único dono da construtora. De repente, a máscara do medo ocupa a expressão decidida que o levara a dar a entrevista: «Ele informou-me que tinha uma lotérica e que trabalhava com agências da Caixa Económica. Se eu quisesse fazer um empréstimo à Caixa para concluir o negócio ele acelerava o processo!».
Os receios de Israel são explicados. As lotéricas crescem no Brasil como cogumelos. São uma espécie de filiais da Caixa Económica Federal, um banco estatal brasileiro que controla as lotarias. O seu serviço mais conhecido é a venda de apostas. Mas estas casas também funcionam como agências bancárias, permitindo que os clientes levantem e façam depósitos em numerário, num valor limitado, e mesmo pagamentos de contas tão corriqueiras como a luz ou a água. Como movimentam grandes volumes de dinheiro vivo e realizam diversas transações financeiras, estas casas são muito apetecíveis para quem quer lavar dinheiro. A PF já desmantelou vários esquemas, ligados às grandes organizações criminosas, que as utilizavam para esse fim.
Ganham corpo as pistas para perceber o que levou José Paulo a criar raízes mercantis numa remota cidade de província, local perdido no meio do mato, longe das grandes metrópoles brasileiras onde a vida fervilha. Em pleno boom imobiliário, o primo do ex-líder do PS parecia investido apenas de uma missão: a construção dos dois condomínios. É mais fácil deixar uma mesa de jogo quando se está a ganhar do que um bom filão. Mas foi o que José Paulo fez.
A chegada de outro proprietário sereniza Israel. As mãos do homem param de tremer: «Eu comprei o meu apartamento em 2014, ainda em planta. O Vilson só me entregou as chaves em 2019. Pediu-me para acelerar as negociações porque a sociedade tinha sido desmembrada e os outros sócios tinham partido para o exterior».
Jessika Pagliarini junta-se ao grupo. A administradora do condomínio deixa, por momentos, o vizinho desconcertado. O seu discurso, como se soubesse distinguir um perigo concreto de um perigo imaginário, é entrecortado mas tranquilo. A mulher adquirira o seu apartamento apenas o ano passado e diretamente a José Paulo Pinto de Sousa: «Foi tudo tratado online com procurações. A única pessoa que conheci, e com quem sempre tratei dos assuntos do condomínio cara a cara, foi o Vilson. Ele é que aparecia por aqui. Agora não atende mais o telemóvel».
A informação de ambos, cruzada com a documentação levantada de manhãzinha no cartório, ajuda a construir o puzzle. Uma secreta lógica começa a desenhar-se. Em 2018, a Metrus assumia novo rosto. A missão oculta para que tinha nascido parecia ter chegado ao fim. É Jorge Vieira, que antes estivera feito com o primo de Sócrates em operações comerciais bizarras em Angola, quem chega ao Brasil para dar novo rumo ao projeto.
Na Junta Comercial de Mato Grosso do Sul, o advogado, que até aí detivera 15% da Metrus, investe na sociedade 1.449 mil reais (228 mil euros ao câmbio atual), com os quais efetua um aumento de capital e simultaneamente adquire parte das quotas dos outros sócios minoritários, diluindo-os e assumindo assim o controlo efetivo.
Na escritura pública, acompanha-o Vilson, que, com procurações falsas, representa supostamente os espoliados. Um deles é o próprio irmão de José Paulo. António Pinto de Sousa casara cinco anos antes com a brasileira Maria Barros, mas no documento consta como solteiro, o que retira aos seus herdeiros a hipótese de se habilitarem a esse património. A partir desse momento, Vieira e José Paulo controlam a empresa e passam a comprar e a revender os apartamentos dos dois condomínios. Mas o objetivo destes atos comerciais não parece ser o lucro: os ganhos são magros e nalgumas situações existem mesmo vendas com prejuízo.
Jessika Pagliarini, que comprou o seu apartamento nestas condições, segue ávida a documentação. De repente, o olhar atento detém-se numa das folhas da resma de papel. Exclama: «A empresa fechou no mês passado [novembro de 2025], mas eles nunca declararam falência. Não faz sentido! Como é que alguém vem de tão longe para construir apenas dois condomínios e depois vai embora? Isto só pode ser dinheiro sujo!».
Um cérebro habituado às estruturas lógicas precisa sempre de razões, de causas para as consequências. A profissão obriga-a a viver diariamente entre processos sórdidos, e a advogada procura ligar os factos: «O edifício tem problemas estruturais, que andamos a tentar resolver com o Vilson, que era aqui o representante jurídico da Metrus. Há meses que ele não me atende o celular [telemóvel]. Agora percebe-se, ele é o laranja [testa-de-ferro] dos portugueses!».
No condomínio, a notícia cai com estrondo. Jessika, que apalavrara uma entrevista para o dia seguinte, despede-se. Afinal, vai pedir autorização ao marido. De repente, como se quisesse defender-se da informação recolhida, exibe uma expressão defensiva. Olha de soslaio e entra no elevador a remoer: «Isto agora só se resolve na justiça!».
O sol parece ter-se instalado de vez. Abaixo do Equador, o calor húmido asfixia. De regresso à estrada, estabelecem-se contatos. A história passa a correr ao ritmo das memórias de Maria Barros Pinto de Sousa. Do outro lado do Atlântico, a 5.144 milhas de Dourados, em Lisboa, a viúva do irmão mais velho de Sócrates aguarda notícias. Desde que o marido morrera, em 2023, a antevisão insinuosa de ficar sem teto a levara a concluir que poucos estados são tão frágeis com os da família. As novas informações sobre o património da Metrus no Brasil ainda a conseguem surpreender. A empresa encerrara a atividade dias antes, mas o resultado da extinção não fora distribuído por todos os sócios: «Como é que o Zé Paulo conseguiu enganar o próprio irmão? Sempre lhe disse que a empresa tinha falido. Nunca nos deu um tostão. Para quem foi esse dinheiro?».
Esta era a peça que faltava para Maria se decidir a agir. Metade do mundo é transparente, a outra metade é opaca, mas isso, quando ela, em junho de 2013, passou a pertencer ao clã Pinto de Sousa, não sabia. A narrativa, saltando de um lado para o outro do oceano, está agora nas suas mãos.
Pouco havia de transparente numa família que na realidade girava em torno de um dos seus membros, José Sócrates, que acabaria detido na sequência da Operação Marquês, um ano após o enlace entre Maria e António. Um dos negócios em investigação, em Angola, comprometia-os a todos. Tratava-se de uma salina situada numa das saídas de Benguela, propriedade do clã Pinto de Sousa, e cuja gestão estava a cargo do marido de Maria, que por essa razão passava a maior do tempo em Angola, muitas vezes acompanhado da mulher.
A salina acaba por adquirir a forma de uma matriosca russa. Embora, com a morte do marido devesse render algo à viúva, foi alvo de tantos esquemas e operações de cosmética financeira que também daí ela, até ao momento, nada retirou.
O pivot das operações terá sido, mais uma vez, José Paulo, quem, após a detenção do primo e constituído também arguido na Operação Marquês, foge para Angola (sendo alvo de um mandado de captura internacional), onde se apropria da direção das empresas antes a cargo do pai e do irmão.
Nesse contexto, as salinas serão invocadas por Santos Silva perante os investigadores da Operação Marquês, para justificar avultadas verbas entradas nas suas contas, e que o Ministério Público (MP) julga pertenceram a José Sócrates. Alegará o empresário ter entrado em conversações com o patriarca da família para investir nos negócios da família na zona de Benguela, que estariam a passar por dificuldades, e onde – acrescentou – acabaria por, supostamente, injetar um milhão de euros.
Na realidade, o nome de Santos Silva nunca apareceu nos registos empresariais das sociedades angolanas ligadas à família Pinto de Sousa, pelo que tudo indica que esse capital teve origem noutro circuito financeiro.
Ainda segundo a narrativa do amigo de Sócrates, os Pinto de Sousa receberiam uma proposta de nove milhões de euros da ESCOM, sociedade do Grupo Espírito Santo (GES, ligado ao banco homónimo), para a aquisição de 70% da António Pinto de Sousa, Lda. (APS), detentora da salina, pelo que Santos Silva teria sido assim, em 2008, ressarcido do seu alegado investimento com o dobro, dois milhões de euros, acrescentados de quatro milhões e meio em mais-valias. Mas a realidade acabaria por traí-lo. O negócio da ESCOM só seria proposto aos Pinto de Sousa nesse mesmo ano, e os pagamentos só se efetuaram em 2010, muito depois de este capital ter chegado à esfera do amigo de Sócrates. Para o MP, teria sido sustentada, desse modo, uma transferência de alegadas ‘luvas’ com origem no BES/GES que Hélder Bataglia, ex-presidente e então ainda administrador da ESCOM, passou para José Paulo fazer chegar ao então primeiro-ministro, transitando a verba para uma offshore de Santos Silva.
O objetivo declarado da ESCOM na APS seria a construção de um condomínio de luxo na área de exploração do sal marinho, através da montagem de um complexo sistema empresarial que também envolveu Jorge Vieira, mas o tempo passou sem que uma pedra do projeto fosse erguida, indiciando nova utilização das empresas dos Pinto de Sousa para outra manobra financeira fictícia.
Em 2013, o GES dava em Portugal os primeiros sinais de declínio, tentando, sem sucesso, vender a ESCOM, um dos buracos do grupo. Entre a equipa de Ricardo Salgado, o homem forte do BES/GES, e a administração da ESCOM nasceu um plano: fazer uma operação de cosmética para melhorar a imagem da empresa à custa de uma sangria do BES Angola (BESA), despistando assim o Banco Portugal. Para isso, o BESA, em 2013, entrou com 500 milhões de dólares em cinco projetos da ESCOM através de transferências de créditos para outras tantas sociedades-veículo do grupo. Foi apenas um entre muitos negócios que desfalcariam o BESA em mais de 5 mil milhões de euros.
Bataglia com relações de longa data com José Paulo (chegando a viver com uma sua irmã, de quem teve um filho), acordou com ele, mal a nova estratégia arrancou, a aquisição dos restantes 30% da APS por outros nove milhões, segundo a praxis do mundo empresarial: três milhões da forma ortodoxa e seis por fora. Para a ESCOM obter um crédito junto do BESA no valor de 116 milhões de dólares, foi anexado ao processo bancário uma escritura em que as quotas da APS eram transferidas para uma das sociedades-veículo criadas para o efeito.
Até hoje, passada mais de uma década sobre a implosão do BES/GES, a única atividade na propriedade continua a ser a extração de sal pela família Pinto de Sousa, sem que Maria receba um cêntimo dos rendimentos da exploração ou dos milhões que passaram pela APS devido às engenharias financeiras congeminadas no seio do universo Espírito Santo em conluio com o primo de Sócrates.
O tempo, dizem, cura tudo, mas nela só acrescenta o seu peso. A memória de Maria, como um longo argumento cheio de detalhes, encaminha-a no tempo: «Estive pela última vez em Benguela em 2018. Nessa altura, a salina continuava a produzir sal, estava a funcionar normalmente. Desde que o meu marido morreu que não recebo nada. Quando ele ainda estava doente, o Zé Paulo, que casou novamente, fazia-lhe chegar o dinheiro através de transferências da atual mulher. Depois, passou a dizer-me que a salina tinha sido vendida e que não tínhamos mais nada».
O mundo está cheio de homens escondidos; é necessário procurar os túneis subterrâneos que levem a eles. Antes de morrer, António foi ouvido no âmbito da Operação Marquês, retirando o tapete a Santos Silva. Ao MP o marido de Maria negou a tese de defesa do outro, que justificara a sua fortuna inicial com uma sociedade nas salinas dos Pinto de Sousa. Mas manteve o tabu em relação à venda dos terrenos à ESCOM. Maria, que durante anos se manteve passiva perante a história, levanta o véu sobre o defunto: «Acho que ele se calou sempre para não arranjar problemas ao Zé Paulo e ao Sócrates».
As recordações da mulher adicionam a acontecimentos anteriores novas leituras. O seu marido, fiel ao clã, morrera sem quebrar pactos antigos. Mas esteve tentado. Apesar da abundância de dinheiro resultante do negócio com a ESCOM, António continuava a viver sem qualquer folga financeira. Em setembro de 2015, com a investigação da Operação Marquês ainda a correr, foi apanhado numa escuta com outro membro da família: «Nem consegui dormir a pensar no f.d.p. do meu irmão. Só sinto raiva e ódio e só me apetece ir ao Rosário Teixeira [o procurador do processo] dizer tudo o que sei!». Mais à frente, na mesma conversa, desabafa: «Se pagassem o que nos devem...».
A sorte vira costas a certas pessoas. Com a morte do marido, Maria, com uma filha pequena, vive à espera da punhalada que a pode abater. Há pouco, confrontou-se com nova dose de crueldade: «A casa em que vivo é da família do meu marido. Recentemente, disseram-me que tinha até junho para sair daqui».
O presente, nas suas carências e dilemas, asfixia-a. José Paulo, após a morte do irmão, substituiu-o à frente das salinas e por lá anda com o filho mais velho de Sócrates, que escolheu Angola para viver. A amizade com Bataglia, que também voltou a casar, tendo montado nova morada no Dubai (destino de Sócrates numa das suas últimas viagens para fora do país, no final de 2025, segundo o próprio informou ao tribunal do julgamento da Operação Marquês), mantém-se. Entre a fidelidade ao marido, que nunca revelou certos segredos da família, e o futuro impenetrável dela e da filha, Maria decide arrancar-se à neutralidade em que vive: «Eu já disse ao Zé Paulo que não sou idiota. Sei muita coisa…».
No dia seguinte, o vento regressa a Dourados em força. O calor é o mesmo, pegajoso e húmido. De novo na estrada, sai-se de Dourados rumo a Amanbai, uma pequena cidade a 50 quilómetros da fronteira com o Paraguai, completamente dominada pelo tráfico de cocaína. Foi ali que, em junho de 2006, dois anos antes de constituir a Metrus, José Paulo abriu, com o sócio brasileiro – Vilson Antunes –, a Antunes & Sousa Limitada, uma casa de apostas, ou lotérica, como são conhecidos estes estabelecimentos no Brasil.
Um mês depois, em julho, da offshore de José Paulo, na Suíça, saíam 62 mil euros (à época uns 200 mil reais) para a Campo Grande Comércio Limitada, uma empresa de venda de automóveis em Dourados. No Brasil, estas sociedades chamam-se garagens, empresas muito ligadas ao branqueamento de capitais.
Tenta-se interpretar a razão que levou o primo de Sócrates a escolher um local tão perigoso para criar raízes. Estabelecem-se contactos. Apenas a localização desta aposta comercial levanta suspeitas. Bernardo Mota, especialista em branqueamento e fraude fiscal, com 21 anos de carreira na Unidade de Informação Financeira (UIF) do Brasil e agora ao serviço do Ministério da Justiça, usa as suas ferramentas habituais para escalpelizar tais negócios: «Esses portugueses de que me fala, teoricamente, podem até ter vindo aqui investir porque é tudo mais barato. Mas escolher uma cidade mesmo junto à fronteira não parece ser por acaso. A questão da lotérica, isso fica muito claro para mim, é para obter dinheiro em numerário. Imagine que eu tenho um milhão de euros em Angola para branquear e que o quero fazer chegar ao Brasil através do Paraguai. Existe uma prática tradicional no mercado de câmbio para branqueamento de capitais que nós aqui chamamos de dólar cabo. Exemplo: tenho uma casa de câmbio no pais A e um contacto numa casa de cambio no país B. Na verdade eu não vou transferir valores de uma casa para a outra. Faço as operações em moeda local na casa de câmbio do país A que aciona um contacto no país B, que faz também a operação em moeda local. E essa compensação é feita em euros ou dólares. Então não há um trânsito em euros ou dólares, apenas compensações em moedas locais porque as casas de câmbio têm parcerias justamente para estas operações que nós chamamos dólar cabo. Ou seja o dinheiro não transita, simplesmente ele é compensado. Agora veja, se um sócio da Metrus estiver na casa de câmbio no país A, pode logo cambiar esse valor e fica com 6 milhões de reais. Atravessa a fronteira e, com esse montante, compra um lote de terreno em Dourados, constrói, vende e alcança 10 milhões. Como é sócio de uma lotérica, pode transferir esse montante para a empresa ou mesmo comprar uma lotaria. O dinheiro que aposta é sempre maior do que o prémio. É um clássico aqui. Aposta em todas as possibilidades para ganhar. Imagine que ganha cinco milhões, então já conseguiu branquear metade do valor inicial. Podem querer só isso».
Com dificuldades para entrar na engrenagem, interrompe-se o discurso do inspetor tributário: «Mas assim também não ganham muito. Ainda por cima só construíram dois condomínios, e venderam, muitas vezes, abaixo do valor de mercado!». A resposta é rápida e académica: «Então é porque apenas tinham esse montante para branquear. Abriram o negócio, construíram, venderam os apartamentos e fecharam a empresa. Não é economicamente interessante, mas quem se dedica a isto fá-lo para mascarar dinheiro e sabe que vai perder sempre. Um bom branqueador até paga imposto para não chamar a atenção das autoridades. O princípio do branqueamento de capitais é distanciar o capital do nome de quem o possui».
À medida que se juntam as peças sobre os investimentos de José Paulo nestas paragens, aproximamo-nos de Amanbai. Nas terras, planas como lençóis, estendem-se enormes plantações de cana do açúcar. Na estrada que faz a ligação com o Paraguai, volta e meia, o trânsito para. Barreiras, estrategicamente colocadas junto a bases da polícia federal, que controlam em permanência as cidades fronteiriças, dão caça aos traficantes.
O que marca a diferença entre um turista e um viajante é aquele saber os limites do seu itinerário e este entregar-se à lógica aberta da viagem. Mas quem, na ignorância se estreia por aqui, pode cair em terríveis armadilhas. Longe das grandes praças financeiras brasileiras, não existe uma única caixa de multibanco e os bancos não permitem transações internacionais. É impossível fazer chegar dinheiro de Portugal ao local.
Por vezes, as dificuldades são amigas da criatividade. Entramos em Amanbai. A cidade parece ter parado no tempo. Estaciona-se o carro do lado oposto ao da casa de jogo de José Paulo e de Vilson. No interior, protegidas por vitrinas, duas funcionárias da lotérica, atendem. Coloca-se a questão à mais nova: «Estou sem dinheiro. É possível fazer uma transferência da minha conta para aqui e trocar-me euros por reais?».
A jovem, cara de lua cheia, voz serena, não percebe à primeira: «Tem cartão da Caixa Económica Federal [o banco brasileiro que gere as lotarias]?». Perante a negativa, ela confirma que é impossível a transferência. Joga-se outra cartada: «Mas esta casa não é de um português?». Algo veloz e oculto atravessa-lhe o cérebro. Escapa à cilada. O olhar, num SOS, cruza-se com o da colega mais velha. Pressentindo a resposta, adianta-se: «Um português sócio do Vilson!». O avanço do nome do sócio brasileiro parece a palavra passe para quebrar o gelo: «Se o Vilson me der autorização, é possível, sim!». As boas ideias são sempre provisórias. Insiste-se e perde-se: «O Vilson está? Pode dar-me o contacto dele?».
Tentar encontrar Vilson não é tarefa fácil. O silêncio é, aqui, uma regra inviolável. E a desconfiança vale ouro. Poucos aceitam falar, dar a cara para uma câmara nem pensar. Nem mesmo os jornalistas habituados a trabalhar no fio da navalha. Mas José Paulo, pelos vistos, gosta de correr riscos. No ano em que montou o negócio em Amanbai, segundo registos do Ministério Público, deu como residência outra morada, escolhendo um local ainda mais perigoso para viver: Ponta Porã. Para descobrir Vilson, segue-se as pistas deixadas pelo primo do ex-líder socialista e prossegue-se viagem.
A 90 quilómetros, em Ponta Porã, a vida não vale um chavo. Apenas uma avenida separa esta cidade brasileira do Paraguai. No limite entre as duas cidades, dia sim, dia não, como um aviso, cadáveres com as mãos decepadas são despejados na rua. São 1600 quilómetros de fronteira seca. Impossível de fiscalizar. Traficantes de vários grupos ligados ao Primeiro Comando da Capital e ao Comando Vermelho disputam o território.
Do outro lado da rua, fica Pedro Juan Caballero, o ponto estratégico do tráfico internacional. Por ali, passa a cocaína produzida na Colômbia que atravessa o Paraguai e chega ao Brasil para consumo interno e, principalmente, para sair dos seus portos rumo à Europa.
Manter o sentido de orientação não é difícil, a fronteira está claramente desenhada. Do lado paraguaio, homens com armas de grande porte guardam a entrada do comércio. Coloca-se a morada de José Paulo no GPS. Percorrem-se todos os bairros da cidade, triste e pesada. Nada. Pede-se ajuda à Polícia, em constante vigilância. Somos guiados. Num caminho de terra batida, ensopada pela tempestade da véspera, para-se numas ruínas. José Paulo acaba sempre por dar um passo a mais: age como o escorpião que se mata ao cravar em si próprio o seu espigão. Com um sorriso adivinhatório a bailar-lhe nos lábios, um dos agentes remata: «Isto só pode ser uma morada de fachada».
De regresso a Dourados, recorre-se mais uma vez à imaginação. É no Instagram que se descobre Vilson Antunes, agora agente imobiliário. O homem atende. Procura-se casa e marca-se encontro numa estação de serviço. Sem formalidade, apresentamo-nos. Sem sair do carro, o homem olha para a direita, para a esquerda e para trás, à procura dos supostos clientes. O desconcerto inicial é rapidamente ocupado por uma grande capacidade de jogo. Confrontado com o facto de ter usado uma procuração falsa para representar António Pinto de Sousa, atira a cartada: «Veio aqui perder seu tempo. Não sou mais sócio da Metrus, vai ter de procurar a empresa lá [em Portugal]. Eles eram irmãos. A empresa tinha um projeto. Concluído o projeto, não havia mais nada para fazer. Se há uma pessoa prejudicada, aí vai ter de procurar os sócios e agir na justiça».
As sombras implacáveis das nuvens que se abatem de novo sobre a cidade ocupam o rosto do homem. Confrontado com a sociedade com José Paulo na casa de jogo, Vilson perde a eloquência. Como o pecador que se afasta do confessionário, enfia-se no carro. Acelera. O medo, em Dourados, é hábil como uma camaleão, mistura-se facilmente entre a multidão.