sexta-feira, 15 mai. 2026

PNS, o bad boy que define a agenda socialista

Duarte Cordeiro respondeu a Pedro Nuno Santos primeiro com ironia e distanciamento, depois acusando-o de um regresso pouco focado nos problemas dos portugueses.
PNS, o bad boy que define a agenda socialista

Benito Antonio Martínez Ocasio nasceu em Porto Rico, o mais maltratado Estado dos Estados Unidos, e transformou-se no fenómeno global Bad Bunny, que redefine, por estes dias, a cultura pop. Num dos seus momentos mais aclamados, em fevereiro deste ano, no halftime show do Super Bowl, vestia uma camisola da Zara feita em Santo Tirso. Sobre a forma como se veste, há quem tenha dito que Bad Bunny não segue tendências, cria a confusão e chama-lhe moda. Em Portugal, nascido em São João da Madeira, há um socialista que cria confusão e chama-lhe política.

Desde que regressou à Assembleia da República, Pedro Nuno Santos desencadeou uma série de reações em cadeia que tornaram quase irrelevante a agenda de José Luís Carneiro. Uma afirmação em particular tem agitado as hostes socialistas: «Eu tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos taticistas que se escondem atrás da porta à espera que o vento mude a favor do PS ou da esquerda para avançarem para a liderança do partido». Pedro Nuno escusou-se, no entanto, a nomear os «taticistas».

Inimizade dolorosa

A primeira reunião do novo Secretariado Nacional do partido aconteceu esta segunda-feira, 27 de abril, altura em que o porta-voz, André Moz Caldas, e mesmo antes de o Governo apresentar o PTRR - um pacote de medidas que vale 22,6 mil milhões de euros -, explicou aos jornalistas que já era possível fazer «um balanço negativo» dos dois anos do Governo da AD e exigiu a Luís Montenegro «menos propaganda e mais ação». No entanto, diríamos que o primeiro-ministro continua a ignorar o PS, enredado na sua própria novela política, que tem como protagonistas Pedro Nuno Santos, no papel de bad boy - figura irrequieta e truculenta, que não se deve confundir com o papel de vilão -, Duarte Cordeiro, Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva, Pedro Delgado Alves e outros, a que se juntam cerca de 100 mil militantes no papel de figurantes.

Duarte Cordeiro reagiu à provocação de Pedro Nuno Santos em dois tempos. Num primeiro momento, ignorou-o e tranquilizou Carneiro, quando afirmou, com evidente ironia: «Posso descansar as almas mais nervosas de que não estou a preparar nenhuma candidatura a secretário-geral do PS». Uma semana depois, no mesmo espaço - o espaço de comentário que tem no NOW - Cordeiro referiu-se ao assunto, em concreto ao seu compagnon de route e amigo de décadas, já sem ironia e até de forma corrosiva, afirmando: «O que Pedro Nuno Santos decidiu destacar na sua declaração de regresso ao Parlamento diz muito pouco aos portugueses, aos seus problemas. Acho que estamos a viver uma fase em que os políticos devem concentrar as suas atenções onde realmente residem os problemas do país». E prosseguiu: «Não sei a quem Pedro Nuno Santos se dirigia, aliás já li várias versões; se por acaso se dirigia a mim, penso que falha o alvo». O ex-ministro do Ambiente, que é muitas vezes apontado como futuro líder do PS na reserva, concluía: «Acho que a polémica que foi criada em torno destas declarações não tem interesse». Dito de outro modo: se um estranho nos pode ferir, um amigo sabe exatamente onde magoar.

Fica assim evidente que a relação entre Cordeiro e Santos se tornou, por agora, uma inimizade dolorosa. Uma história que não acaba aqui, até porque Duarte Cordeiro não disse que não a uma possível candidatura à liderança... em 2029, ou, no limite, disse apenas que tem «alguma dificuldade em antecipar» o que fará em 2029.

Ainda assim, mais adiante, e sobre os discursos da cerimónia do 52.º aniversário do 25 de Abril no Parlamento, Cordeiro perorou largamente sobre o mérito do discurso do Presidente da República, mas, quando questionado de forma concreta se houve outro discurso que lhe tivesse chamado a atenção, respondeu: «Acho que o que marcou a agenda política foi o discurso do Presidente da República e é dele que interessa falar». Não precisávamos de desconstruir, mas José Luís Carneiro também discursou.

No entanto, e inevitavelmente, Cordeiro também se referiu ao discurso do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e ao comportamento de Pedro Delgado Alves, que virou ostensivamente as costas no final da intervenção do PAR. «Li o artigo que o Pedro Delgado Alves escreveu no Público, sou compreensivo relativamente às razões que ele identifica», revelou, para logo a seguir acrescentar: «Eu não tomaria uma iniciativa daquelas, mas compreendo, é um ato de protesto, não é dos que mais aprecio, mas é a forma que Pedro Delgado Alves encontrou para sinalizar que entendeu haver uma banalização do trabalho da Assembleia da República».

Devia pedir desculpa

João Soares é outro, entre muitos socialistas, que criticou o gesto de Pedro Delgado Alves. Considerou a atitude do deputado socialista «absolutamente lamentável», porque «apagou a importância do discurso notável do Presidente da República, do presidente da Assembleia da República e, por exemplo, do presidente (co-porta-voz) do Livre». E Soares também não deu destaque ao discurso de Carneiro.

Esta crítica, vinda do filho de dois dos fundadores do PS e exonerado de um Governo devido a uma frase pouco adequada no Facebook, não deixa de ser significativa. Também ele classifica o gesto de Delgado Alves como de «muito mau gosto» e defende que o deputado socialista deveria pedir desculpa. O que parece pouco plausível, uma vez que, por mais impulsivo que tenha sido o gesto, o deputado tem vindo a justificá-lo consistentemente.

Mais importante será, porventura, colocar a atitude de Delgado Alves no contexto de uma bancada irrequieta - sentado na última fila, atrás dele, estava PNS, que verbalizou um irónico «que lindo discurso!», à sua frente estava Miguel Costa Matos, que não gostou do discurso, mas evitou juízos sobre o gesto -, desconfortável com uma liderança que se consolida, mas não apazigua. A moderação não passa de uma retórica de momento. Não é só PNS que é uma figura telúrica. O PS é um vulcão, também porque as sondagens lhe dão alguma vantagem - o que pode ser uma armadilha, já que, mesmo que fosse o partido mais votado, poderia não conseguir formar Governo perante uma direita maioritária. Se Carneiro quiser provocar uma crise política, terá de se servir, de uma forma ou de outra, das vozes mais críticas, mais dadas a atitudes intempestivas, mesmo sabendo que correm em pista própria.

Pedro Nuno Santos é um deles - ou pelo menos alguém que influencia fortemente quem o venha a ser, mesmo que intimamente convencido de que não poderá ser outro senão ele. Duarte Cordeiro é outro. Fernando Medina, que garante ter «o mesmo grau de liberdade» de Cordeiro, não descarta essa possibilidade. Mariana Vieira da Silva, que discorda da atitude de PNS de «se distinguir de todos e mais alguns dentro do partido», é ainda outra possibilidade.

O PS e Pedro Nuno no labirinto

Aquilo que se percebe é que José Luís Carneiro, também para se afirmar como líder, terá de se distanciar de António José Seguro, o Presidente da República, enquanto os putativos candidatos à liderança tenderão a fazer o caminho inverso, aproximando-se do Presidente, mais capaz de condicionar a agenda governativa do que o próprio PS.

Convém voltar às Caldas da Rainha, à noite em que Seguro celebrou uma eloquente vitória nas urnas e constatar que Carneiro não estava na sala, ou a dar atenção a um artigo de opinião escrito esta semana por António Galamba, um influencer presidencial, onde se lê: «A composição parlamentar dá legitimidade para propor e aprovar leis, não retira ao Presidente o direito de vetar». Galamba nota que o Presidente não «é notário do Parlamento; tem poder de veto precisamente para garantir uma segunda leitura democrática».

Pedro Adão e Silva, comentador da CNNPortugal, colocou Pedro Nuno Santos num labirinto, reconhecendo que o socialista pode liderar o espaço da esquerda populista - o que é politicamente viável - mas que dificilmente poderá fazê-lo dentro do PS.