A Polícia Judiciária (PJ) lançou esta terça-feira a campanha “Ódio online mata offline”, uma iniciativa dirigida sobretudo a crianças e jovens, com o objetivo de alertar para os riscos da radicalização em ambiente digital e para o impacto real dos conteúdos de ódio disseminados nas redes sociais.
Segundo a PJ, o lançamento da campanha surge na sequência do aumento do número de jovens — incluindo menores — envolvidos na preparação ou execução de atos extremistas violentos, fenómeno identificado em relatórios recentes da Europol e de vários Estados-Membros da União Europeia, o que tornou “urgente” a adoção de medidas eficazes de prevenção da radicalização no espaço europeu.
“Neste contexto, a problemática da radicalização de crianças e jovens em ambiente online constitui um dos maiores desafios atuais, exigindo uma abordagem integrada e coordenada entre as estruturas do Estado e a sociedade civil”, refere a PJ, sublinhando que o fenómeno ultrapassa o âmbito exclusivo de atuação dos órgãos de polícia criminal.
Na apresentação da campanha, que decorreu no edifício da PJ, em Lisboa, o diretor nacional da instituição, Luís Neves, explicou que “a radicalização é o processo de transformação pessoal de crianças e jovens que conduz ao extremismo violento”, alertando para a especial vulnerabilidade desta faixa etária e revelando que já foram identificados casos em Portugal.
“Os conteúdos de ódio online entre jovens não surgem do nada. Resultam de uma combinação de fatores sociais, psicológicos, tecnológicos e culturais”, afirmou citado pela agência Lusa. Entre esses fatores, apontou a procura de identidade e de pertença, o funcionamento dos algoritmos das redes sociais, o anonimato e a desresponsabilização, a falta de literacia digital e de pensamento crítico, frustrações sociais e económicas, bem como a influência de figuras públicas.
Luís Neves destacou ainda que existem vários tipos de radicalização, assentes sobretudo em diferenças religiosas, de género, de orientação sexual e políticas. “Estas diferenças criam as pré-condições motivacionais e cognitivas ideais para a violência terrorista, alimentada pelo ódio e pelos preconceitos”, acrescentou.
Antes da apresentação do vídeo da campanha — que inclui imagens reais recolhidas no âmbito de investigações da PJ — o diretor nacional alertou para o aumento do chamado “crime as a service”, em que estruturas criminosas disponibilizam ferramentas digitais ilícitas, incluindo recurso à inteligência artificial, para facilitar a radicalização e o recrutamento, em especial de crianças e jovens.
Luís Neves defendeu ainda que o Plano de Ação de Prevenção da Radicalização e dos Extremismos Violentos e do Recrutamento para o Terrorismo deve ser tornado público. “Se pretendemos que todos façam parte deste combate, incluindo a sociedade civil, todos devem ter conhecimento do plano”, afirmou.
Também presente na sessão, a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, sublinhou que a prevenção da radicalização não se faz apenas “com proibições ou vigilância”. “Tem de ser ancorada na literacia digital, no pensamento crítico, na educação para os direitos humanos e na capacitação de professores e técnicos para reconhecer sinais de risco e saber como agir, com respostas integradas à sua disposição”, declarou.