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O caso é em tudo semelhante ao que envolve Luís Neves desde o início de julho. O homem que conseguiu 17 contratos para obras de construção civil na Polícia Judiciária, no valor de 2.2 milhões de euros, entre 2019 e 2025, e que ao mesmo tempo fazia obras nos montes da família do então diretor nacional da PJ, e alegadamente se oferecia para transportar do Seixal para Barcelos uma galera apreendida, carregada de bidões com produtos químicos para produção de droga, esse homem, João Santos Carvalho, afinal também fez obras na casa de Álvaro Pires, diretor dos Serviços de Gestão Financeira e Patrimonial da Polícia Judiciária desde o tempo de Luís Neves, revelam documentos e testemunhos.
As obras são recentes e terão começado nos últimos meses de 2025. A investigação SOL/TVI/CNN Portugal sabe que João Santos Carvalho não emitiu faturas e que nem o diretor financeiro da PJ nem a sua mulher fizeram nenhum pagamento registado.
Vizinhos viram tudo
A nossa investigação deslocou-se à Charneca da Caparica, no concelho de Almada, onde vive Álvaro Pires. Numa rua de vivendas, com circulação praticamente limitada a moradores, vários residentes confirmaram o que várias fontes já nos tinham garantido: houve obras há poucos meses na casa de Pires e foram feitas por João Santos Carvalho.
Pedro Rosa, da empresa Rosa Reboques, que vive a duas casas de distância do financeiro da PJ, contou que as obras aconteceram na cave. A mulher de Rosa, que é advogada, saía pelas sete da manhã para levar a filha à escola e cruzava-se com o empreiteiro de Barcelos. «Ele não tinha bom aspeto», disse-nos.
A porta da casa de Álvaro Pires estava muitas vezes aberta, para o material de construção entrar. Três homens da Construbarcelos tratavam da empreitada sobretudo aos fins-de-semana.
Há mais. Segundo Pedro Rosa, e uma outra vizinha, durante várias semanas esteve estacionada à porta do diretor financeiro da PJ uma carrinha branca da marca Fiat com a matrícula 41-NR-86, de 2013. Foi notada porque as portas da carrinha estavam sempre abertas e dificultavam a circulação dos carros dos vizinhos na estreita rua.
A certidão automóvel, que entretanto consultámos, não deixa margem para dúvidas: a proprietária do veículo é a Construbarcelos, de João Santos Carvalho. A base de dados online da Autoridade de Supervisão de Seguros indica que à data de hoje aquela carrinha está sem o seguro obrigatório.
Os relatos prosseguem. A carrinha de Carvalho avariou-se enquanto decorriam as obras na Charneca. A caixa de velocidades não respondia. Uma testemunha que trabalha no ramo automóvel, e que pediu para não ser identificada, foi na ocasião contactada pelo financeiro da PJ, e não pelo dono da viatura, para fazer o arranjo.
Chegou-se à conclusão de que o problema estaria na embraiagem e na bomba interna, mais a bomba do pedal. Ambas perdiam óleo. Esta testemunha ligou então a Carvalho, a pedido de Pires: só a embraiagem seriam perto de mil euros, mais o resto.
O empreiteiro de Barcelos pediu para a reparação ser feita só na bomba do pedal. E assim aconteceu. A peça foi encomendada à loja Sofrapa de Corroios e na ocasião tirou-se uma fotografia à matrícula, como é habitual, para se identificar com rigor a peça necessária para aquele modelo de carrinha.
A nossa fonte montou a peça do pedal e garantiu-nos que o preço final, 90 euros da peça mais 60 euros de mão-de-obra, foram pagos em dinheiro num envelope que alguém da família Pires lhe deixou na sua caixa de correio.
Mas a embraiagem continuava a verter óleo. Era preciso novo arranjo. Carvalho não quis. Aventou a hipótese de levar a carrinha de volta para Barcelos a meter mudanças diretas. E assim terá feito.
Apesar destas provas inequívocas, os dois visados juram que tais obras nunca aconteceram.
À porta de casa, Álvaro Pires atirou: «Obras? Tem de provar». Esta semana acrescentou por escrito: «Não sei do que está a falar. Não foram efetuadas obras na minha casa por essa empresa». E terminou assim: «Se por mero acaso o meu nome for envolvido nesta vossa demanda, informo que defenderei a minha honra nos locais adequados. Mantém-se em vigor o lema da vossa empresa: se a notícia que queremos não existe, nós inventamo-la».
Também João Santos Carvalho oferece uma negação categórica. Há dias, em entrevista aos repórteres Francisco Ferreira e António José Leite, da TVI/CNN Portugal, foi questionado sobre se fez mais obras para outros elementos da PJ, além de Neves: «Não, não, nada. O que fiz foi só para o Luís Neves».
O homem do atrelado
O nome de Álvaro Pires saltou para a ribalta na semana passada. No dia anterior à já famosa conferência de imprensa do ministro da Administração Interna, a CNN Portugal noticiou que o diretor financeiro da PJ, com competência para a gestão dos bens apreendidos, tinha assumido internamente ter sido dele a iniciativa de entregar de forma provisória a guarda do atrelado com bidões de produtos químicos ao empreiteiro de Barcelos.
Neves iria declarar no dia seguinte, segundo o texto da sua intervenção, remetido aos jornalistas pelo gabinete do ministro: «Concordei com uma proposta de armazenamento que me foi apresentada por um alto quadro da Polícia Judiciária, cuja competência e integridade mereciam então – e continuam a merecer – a minha total confiança. Assumi essa decisão e assumo-a hoje. É uma decisão minha».
Álvaro Davide Esteves Pires, de 60 anos, licenciado em Direito e antigo quadro do Exército, chegou à PJ em 2018, saído do Ministério da Justiça, que tutela a polícia da Rua Gomes Freire.
Até então era diretor dos serviços de recursos financeiros da secretaria-geral do Ministério da Justiça. Quem assinou a sua nomeação para a Judiciária foi a ministra Francisca Van Dunem, no segundo Governo de António Costa.
A transição direta, do Governo para a PJ, viria a ser muito criticado na SIC, por volta de 2020, pelo presidente da associação Frente Cívica Paulo Morais e pelo jornalista José Gomes Ferreira. Este último observou então: «O controle das instituições está a ser feito de tal maneira que na PJ estão a substituir diretores por pessoas que vêm do Ministério da Justiça. Ninguém vê isto? É mais um controlo de uma instituição que deveria fazer o combater à corrupção de forma isenta e independente?».