sexta-feira, 15 mai. 2026

Pizarro na calha para Santa Casa da Misericórdia do Porto

Ex-ministro da Saúde e candidato derrotado à Câmara Municipal do Porto tem-se desdobrado em contactos para suceder a António Tavares como provedor.
Pizarro na calha para Santa Casa da Misericórdia do Porto

Manuel Pizarro tem um novo sonho: ser provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto (SCMP). O ex-ministro da Saúde anda a somar contactos e colaborações, preparatórias de uma candidatura às eleições para os órgãos sociais desta instituição de caridade e assistência social, fundada em 1499. De acordo com as nossas fontes, já garantiu o apoio do atual provedor, António Tavares, para lhe suceder no cargo. Contactado pelo SOL, Manuel Pizarro rejeitou fazer qualquer comentário.

Nos últimos meses, passou a participar nas assembleias-gerais da irmandade - marcou presença nas realizadas em novembro de 2025 e março deste ano. E será ele o coordenador do estudo ‘Perspetivas da Saúde para a próxima década’, promovido pela SCMP, missão para a qual foi convidado pelo provedor, cujo mandato termina em 2028. Quer as eleições se realizem nesse ano, ou sejam antecipadas para 2027, as conclusões desse trabalho abrangem o mandato - ou mandatos - do próximo provedor.

O TRUNFO DO HOSPITAL DA PRELADA

O PS deu este mês um sinal claro de interesse pelos destinos da SCMP, interpretado pelas nossas fontes como de apoio à futura candidatura de Manuel Pizarro. Numa pergunta escrita, dirigida à ministra da Saúde, cinco deputados eleitos pelo Porto exigiram saber o montante da dívida do Estado ao Hospital da Prelada, pertencente à SCMP. O provedor, António Tavares, fez declarações públicas denunciando pagamentos em atraso, desde outubro de 2025, no valor acumulado de 12,5 milhões de euros. «Esta situação levanta sérias preocupações quanto à sustentabilidade financeira da instituição e à continuidade da resposta assistencial prestada, num hospital que desempenha um papel relevante no sistema de saúde, em particular na região Norte», declarou o deputado Tiago Barbosa Ribeiro ao jornal digital PS Parlamento, órgão oficial do grupo parlamentar.

Manuel Pizarro, de 61 anos, é médico internista no Hospital de São João, no Porto, onde dá consultas, e no Hospital da Ordem da Trindade. Depois da especialidade, mas ainda antes dos 30 anos, dedicou-se à carreira política. Entre 1983 e 1990, integrou a Assembleia de Freguesia de Ramalde, eleito pela CDU. Continuou na vida autárquica até 2008, primeiro na Assembleia Municipal, depois como vereador sem pelouro da Câmara Municipal do Porto (CMP).

Entretanto, deixou de navegar em águas comunistas e filiou-se no PS. Em 2005, foi eleito deputado nas eleições legislativas que, com José Sócrates, deram a primeira maioria absoluta da sua história ao PS. Manuel Pizarro integrou então a Comissão Parlamentar de Saúde. Depois de António Costa tomar o poder no PS, foi eleito eurodeputado, em 2019, e nomeado ministro da Saúde, em 2022, cargo que ocupou até à vitória de Luís Montenegro nas eleições legislativas de 2024.

Entre março de 2016 e novembro de 2022, Manuel Pizarro foi presidente da Federação Distrital do Porto do PS. Por mais cargos políticos de destaque, a sua confessada cadeira de sonho sempre foi a de presidente da CMP. Candidatou-se pela primeira vez em 2013 e insistiu em 2017. Perdeu ambas as eleições para o independente Rui Moreira. Sempre atrás do sonho, nas autárquicas do ano passado, Manuel Pizarro resolveu dar razão ao ditado popular: terceira candidatura, terceira derrota, desta vez para o social democrata Pedro Duarte. Não há duas sem três.

O TRUNFO DO PARQUE DA PRELADA

O provedor, António Tavares, declarou apoio ao atual presidente da câmara do Porto. Isso não o impediu de participar em ações de campanha de Manuel Pizarro, entre as quais um almoço de campanha filmado para o programa da TVI de Cristina Ferreira. Essas aparições deram origem a muitas dúvidas sobre quem era, de facto, o candidato preferido pelo mais alto responsável da SCMP. «Sou militante do PSD, mas conheço o Manuel Pizarro há 30 anos, não lhe ia virar as costas naquele momento», declara António Tavares ao SOL. O voto é secreto. Ao invés, a cumplicidade entre amigos - e irmãos - pode ser pública e notória.

Essa cumplicidade facilitou a Manuel Pizarro uma das armas eleitorais que lançou na campanha eleitoral. Num almoço de candidatura, o candidato do PS prometeu abrir ao público o Parque da Prelada, propriedade da SCMP. «À volta deste parque moram milhares de portuenses, que passam a ter um jardim público à sua porta», anunciou Manuel Pizarro, citado pelo Jornal de Notícias. Na ocasião, garantiu já ter obtido o acordo da SCMP, bem como com da Associação de Futebol do Porto e do Sport Club do Porto. Estas agremiações mantêm, respetivamente, uma academia de formação e um centro hípico naqueles terrenos.

O provedor confirma que houve contactos sobre o assunto com o candidato do PS, mas garante que a disponibilidade da SCMP para se entender com a autarquia já vem de longe - e mantém-se firme. «O acordo de princípio remonta ao tempo de Rui Rio como presidente da Câmara e continua a ser estudado com o atual presidente, Pedro Duarte», informa António Tavares. A abertura do parque ao público, na explicação deste responsável, tem dois caminhos possíveis: um protocolo com a CMP, a fim de cobrir as despesas de manutenção e a higiene urbana; ou a cobrança de bilhetes aos munícipes, se esses encargos ficarem do lado da instituição de caridade e assistência social.

O atual provedor esforça-se por desmentir a preparação de uma candidatura a seu sucessor por parte do ex-ministro da Saúde. «Isso não faz sentido, porque eu ainda tenho mais de dois anos de mandato», comenta António Tavares. Na sua visão, a participação de Manuel Pizarro nas assembleias-gerais da SCMP «é um facto normal, porque ele é irmão». Confirma que o convidou para um estudo abrangente sobre o futuro da Saúde em Portugal, mas rejeita dar-lhe qualquer outro significado.

Nos termos legais e estatutários, António Tavares não pode recandidatar-se ao cargo. Em novembro de 2024, foi reeleito para um último mandato, recolhendo 348 votos para a Mesa Administrativa, contra 251 do candidato da oposição, Francisco Castelo Branco. Este professor universitário tem persistido, nas assembleias-gerais, num posicionamento de oposição e de escrutínio à gestão económica e financeira dos atuais corpos dirigentes da SCMP. No entanto, fontes próximas do próprio rejeitam a possibilidade de que se recandidate nas próximas eleições, «porque tudo tem o seu tempo».

Nos bastidores, Manuel Pizarro conta com o apoio de António Costa. O atual presidente do Conselho Europeu conserva intacto o interesse pela política nacional. Tem almoçado várias vezes com o seu antigo ministro da Saúde. Na ementa, temas políticos, como as presidenciais e altos cargos na cidade, da reitoria da Universidade do Porto à provedoria da Santa Casa.