quarta-feira, 13 mai. 2026

"Permitiram que o pai abusasse dela todo este tempo"

A mãe do militante do Chega detido por abusar da própria filha, tinha acusado a nora, em 2025, de ser a autora desse crime. Mas em 2023 já tinha perdido a guarda da filha, o que permitiu que a menor ficasse nas mãos da mãe do verdadeiro pedófilo. O SOL entrevistou Adriana Alves, a mãe da criança agora com 5 anos protagonista de uma história que expõe as fragilidades do sistema.
"Permitiram que o pai abusasse dela todo este tempo"

A sua sogra fez várias acusações contra si: negligência em relação à sua filha, agressões físicas e, finalmente, abuso sexual. Há cerca de duas semanas o seu ex-companheiro foi detido por haver fortes indícios de ter sido ele a abusar sexualmente da própria filha desde que ela tinha três anos de idade. Como reagiu a esta situação?

Com um grande sentimento de injustiça. Até aqui, toda a gente, nomeadamente o Tribunal de Família e Menores, acreditou sempre na minha sogra, a qual me persegue desde que fui viver com ela e fez com que eu tenha sido separada da minha filha quando esta tinha três anos. Foi isso que permitiu que o pai, que ficou a viver com a menina e a avó, abusasse dela durante este tempo todo.

Li o relatório que o Instituto de Medicina Legal fez na sequência da sua queixa, em 2023, por violência doméstica. Diagnosticaram-lhe uma depressão pós-parto e dizem que passou por um ‘sofrimento profundo’. O que a levou a esse estado?

Eu e o Ivo, o pai da Iris, abandonamos os estudos pouco depois de, em 2017, nos conhecermos. Frequentávamos um curso técnico profissional no Instituto de Estudos Superiores de Fafe. Eu estava a estudar acompanhamento de crianças e jovens e ele multimédia. Apaixonámo-nos, queríamos viver juntos. Procurámos emprego, mas só ele conseguiu: começou a trabalhar numa pizaria, a fazer entregas. Ainda alugámos uma casa, mas as despesas eram incomportáveis e fomos viver para casa da mãe dele. Foi aí que começou o meu pesadelo. Logo no primeiro dia, sou surpreendida com uma grande discussão e agressões físicas entre ela e o filho.

Quer dizer que também havia agressões físicas entre mãe e filho?

Não, o Ivo apenas se defendia da mãe, nunca lhe bateu. Nesse dia, ela tinha um jarro de vidro na mão e ia atirá-lo contra ele. O Ivo apenas o tirou da sua mão para se proteger. Todos os dias, por uma razão ou outra, havia discussões e cenas como esta. Ela chegou a bater-lhe até com uma bengala e com vassouras.

Alguma vez a agrediu a si?

Só tentou uma vez, mas o Ivo colocou-se no meio para a impedir. A relação entre eles era péssima. Num jantar de família, chegou a ameaçá-lo com uma faca. Um dia expulsou-nos de casa.. Ainda dormimos na rua uns três dias, mas eu já estava grávida e um amigo convenceu-nos a voltar para casa dela e a contarmos tudo porque não era a primeira vez que ela metia o filho na rua. Antes de nos conhecermos, ele chegou a viver numa carrinha.

Mas havia alguma razão para essas discussões e violência física?

Às vezes era porque o filho não fazia certas tarefas domésticas que ela pedia, mas noutras ocasiões não havia qualquer razoabilidade (como, por exemplo, quando o queria obrigar a ir à missa, ao domingo).

A sua sogra tinha dificuldades financeiras? Essa razão não justifica esse comportamento, mas mais duas pessoas lá em casa podiam desequilibrar o orçamento familiar e levá-la a isso.

Não. Ela tinha prédios e terras. Aliás, nós não vivíamos na casa dela, mas sim numa espécie de anexo que ficava no mesmo terreno. Além disso, quando o marido morreu, ela ficou com o seu negócio de máquinas de vending (equipamentos de venda automática de produtos, como alimentos, bebidas e tabaco) que estavam distribuídas por várias fábricas da zona de Fafe e até no tribunal. Todos os dias, ela deslocava-se a esses locais para restabelecer o stock.

E os seus pais não a ajudaram a sair dessa situação?

Estão divorciados. A minha mãe, que toda a vida tinha sido doméstica, teve de começar a trabalhar depois da separação e não tinha uma situação financeira que lhe permitisse ajudar-me. O meu pai é arquiteto, mas com o divórcio tornou-se um pai ausente. Foi a primeira pessoa a quem contei que era alvo de violência doméstica e, em vez de me tirar dali, fez o Ivo prometer que não me batia mais. Foi o que se viu…

As agressões do seu companheiro começaram só quando se mudaram para casa da mãe dele ou já vinham de trás?

Houve um episódio antes de nos termos mudado. Tínhamos um cão e uma vez o animal fez chichi no router do computador dele. Estávamos quase a sair para o levar à rua, quando o Ivo deu conta. Deu-lhe tantos pontapés que o desgraçado gania desesperado. Tive pena e coloquei-me no meio para o travar. Começou então a primeira grande discussão, empurra-me e espeta-me com as chaves da porta no peito. Com os gritos, uma vizinha chamou a Polícia, mas, quando os agentes chegaram, acabei por lhes dizer que não tinha acontecido nada.

Isso é um clássico na violência doméstica. Acreditou que ele poderia mudar?

Sim, até porque ele pediu logo desculpa e disse que aquilo não se repetiria. Como passávamos por grandes constrangimentos económicos, pensei que a causa podia ser essa. Tudo se agravou com o nascimento da minha filha.

Sexualmente, alguma vez se apercebeu de comportamentos estranhos da parte dele? Uma das razões que levaram à sua detenção foi o facto de ele colocar em plataformas digitais fotografias de menores a serem abusados por adultos. Também postava fotos de mulheres, nomeadamente da sua atual namorada. Alguma vez ele lhe pediu para se deixar fotografar na intimidade?

Sim. Dizia que nos podíamos filmar porque isso nos podia render algum dinheiro. Nunca permiti. Mas ele frequentava sites pornográficos. Nunca terminava um ato sexual, dizia-me que só se conseguia satisfazer com esses filmes. O mais chocante que presenciei foi ele ver filmes pornográficos entre adultos e cavalos. Era nojento.

E achou isso normal?

Achava que a responsabilidade era minha, que não era suficientemente mulher para lhe dar prazer. Ele uma vez até me disse que tinha ido a uma casa de prostitutas, mas que se arrependeu e saiu para não me magoar.

Disse há pouco que a situação se agravou quando a sua filha nasceu…

Quando saí da maternidade, ainda tive esperança que eles tivessem mudado. A mãe dele tinha decorado o nosso quarto para receber a Íris, estava tudo bonito. Mas foi aí que perdi a minha liberdade. Passou a controlar-me em tudo, até no banho da bebé ou quando lhe mudava a fralda. Como eu não pude amamentar dizia que nem para isso servia. Quando a Íris cresceu e entrou na fase das papas, dizia que a minha comida era pastosa. Só ela a podia alimentar. Se eu forçava a situação, como a luz na nossa casa vinha de uma puxada da dela, ameaçava que nos deixaria às escuras. E deixou, muitas vezes.

A violência doméstica, portanto, era também da parte da sua sogra?

Nunca vi as coisas dessa forma. Mas tem razão, ela nunca gostou de mim e fazia-me sentir isso todos os dias. Sabia que eu tinha medo dela e retaliava. Atacava a minha família, dizia coisas horríveis da minha mãe. Se eu respondesse, era malcriada. Quando o filho me batia e eu gritava, dizia que eu parecia uma cabra a berrar. Chegou a ver-me estendida no chão a chorar, a pedir compaixão, perguntava se gostava que as filhas fossem alvo de violência doméstica, e nunca me ajudou. O único medo deles era que os vizinhos chamassem a Polícia. Uma vez, a Polícia veio e ela não abriu a porta. Aos poucos, comecei a ser incapaz de cuidar da casa, de fazer as tarefas básicas, não me fixava num emprego, nem cuidava de mim. Engordei muito.

Foi aí que percebeu que estava com uma depressão pós-parto?

Não. Comecei a perceber que não estava bem. Parecia que era prisioneira daquela família e passei a ter grandes crises de ansiedade. Depois das agressões, eles faziam-me acreditar que eu é que era culpada porque stressava demais. Depois, ele metia-me na cama e mimava-me para eu acalmar. Comecei a ir parar ao centro de saúde ou ao hospital e a andar medicamentada.

Nunca pensou denunciar a situação a um médico?

Não podia porque ele ia sempre comigo. E tinha medo porque a mãe dele dizia-me que se eu fizesse isso ele perdia o emprego e ficávamos sem a menina.

Até que um dia, no seguimento de uma denúncia anónima, perdem a guarda da vossa filha. Foram acusados de negligência.

Tenho a certeza de que quem está por trás dessa denúncia é a mãe do Ivo. Aliás, ela gabou-se disso ao meu pai. Nessa altura, estávamos a fazer obras na casa porque a Íris não tinha um quarto para ela. Para ter condições, a minha filha passou a dormir na casa da avó. Estava tudo virado do avesso. Um dia, sem mais, aparece lá uma assistente social. Eu não estava em casa, mas a avó da Íris abriu a porta na nossa ausência e a assistente social viu que a casa não estava habitável para uma criança. Ela aproveitou-se do meu estado psicológico para me tirar a menina e o caso foi para tribunal, que durante muito tempo apenas acreditou na palavra dela e entregou-lhe a guarda provisória da minha filha.

 

Foi isso que a levou a apresentar a queixa de violência doméstica?

Não. Enquanto corria o processo tutelar, houve uma escalada de violência. O último episódio foi em setembro de 2023. Durante mais uma discussão, o Ivo deu-me um empurrão que me fez bater com a cabeça na parede e disse-me que, a bem ou a mal, eu tinha de sair de casa. A seguir mete-me no carro e diz que me vai levar a casa da minha mãe. Não queria sair sem a minha filha, mas ele prometeu que eu a podia visitar. Claro que mentiu. Foi só aí que tive coragem para apresentar queixa.

Houve alguma mudança no comportamento do Ivo e da sua sogra a partir do momento em que apresentou queixa?

Vieram as represálias. Até aí, eu ainda podia ver a minha filha uma vez por semana. Passeávamos, podia conviver com os meus amigos e com a avó materna. Depois da queixa, as acusações da avó da minha filha foram crescendo. Primeiro disse ao Tribunal que quando eu estava com a Íris ela voltava para casa com navalhadas no cabelo e queixava-se que eu a picava e lhe batia. Em 2025, chegou a acusação mais grave: eu também abusava sexualmente da minha filha, o que deu origem à abertura de um inquérito onde ainda nem fui ouvida. O tribunal acreditou nela e alterou o regime das visitas. Ainda hoje, apenas a posso ver quinzenalmente e sempre com supervisão.

Segundo um relatório de uma psicóloga que acompanhou a sua filha depois de ela ter entrado no infantário, a Andreia também estava proibida de entrar na escola ou de ter acesso a qualquer informação sobre a sua vida escolar. Isto porque, além dos processos que corriam no tribunal, a sua sogra disse à educadora do infantário que o atraso diagnosticado à neta se devia ‘à falta de cuidados da mãe’ que tinha ‘problemas psiquiátricos’. Disse isto na presença do filho, que anuiu. Apesar de a criança viver com o pai, ninguém, como seria normal, suspeitou dele.

O que acho espantoso não é o que eles disseram de mim, mas sim a postura da educadora do infantário que, até hoje, já com a detenção do pai da Íris, nunca me chamou para ouvir a minha versão, muito menos para me pedir desculpa.

Mas foi essa psicóloga quem acabou por acreditar na Adriana. O retrato que a avó da menina fez de si, a criatividade, o excesso de acusações e a gravidade das mesmas fizeram-na duvidar da história. A dúvida sempre foi uma excelente conselheira.

É verdade. Mas ela não era psicóloga do infantário, pertencia ao SNIPI (Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância) que interage com as escolas a pedido das mesmas quando as crianças apresentam problemas. Era o caso da minha filha que foi diagnosticada como sofrendo de PRV (Perturbação Reativa da Vinculação), um distúrbio psicológico grave que a impedia de criar vínculos emocionais com os cuidadores que, tanto quanto percebi, surge quando há negligência grave ou abusos. Foi aí, precisamente, que a avó me acusou de abusos sexuais e que a psicóloga decidiu marcar um encontro comigo. Aos poucos, foi-se apercebendo da falsidade das acusações, que não era maluca como diziam, nem o monstro que pintavam.

Com tudo o que hoje se sabe, acha que a avó da sua filha já sabia que ela tinha sido abusada pelo pai?

Alguma coisa ela teria de saber. Porque a minha filha nunca poderia ter dito que era a mãe quem lhe fazia isso. A Íris foi treinada por alguém para dizer essas coisas. Ainda na última visita, após o pai ter sido preso, levei a minha filha à casa de banho e quando ela chegou à beira da avó disse-lhe: «A mãe tocou no pipi». A sorte é que as visitas são supervisionadas e a técnica, que estava presente, disse logo que o que ela afirmara era falso e repreendeu a Íris. Mas a culpa não é dela que não passa de uma criança. Aliás, a minha filha, segundo li nos jornais, disse na Polícia Judiciária, que tinha sido o pai quem abusou dela e desde os três anos de idade!

A partir daí, esta psicóloga tentou que a Adriana pudesse ver a Íris na escola para restabelecer os laços com a sua filha, o que, na opinião dela, era fundamental na sua terapia.

Sim, mas sem sucesso. A psicóloga, para esse fim, pediu a colaboração da assistente social da EMAT (Equipa Multidisciplinar de Apoio Técnico aos Tribunais) e à educadora da Íris, mas as duas refugiaram-se no argumento de que só o poderiam fazer com ordem do tribunal. Não se sabe como, mas a avó da Íris e o pai foram logo informados dessas diligências e fizeram com que a Íris deixasse de ser acompanhada pela psicóloga.

Nesse relatório a que tive acesso, a avó da Íris, depois de ter sido contactada para uma reunião, disse à psicóloga: ‘Quando informei sobre as coisas que a Íris conta que a mãe lhe fez, esperava a vossa ajuda para a afastar da mãe e não o contrário’

Foi o que ela quis desde que a Íris nasceu e conseguiu. Sempre protegeu o filho, todos acreditaram nela, o Tribunal, as assistentes sociais, e a escola. E eu fiquei três anos sem a minha filha que ficou às mãos de um pedófilo. Permitiram, com esta cegueira, que o pai abusasse dela todo este tempo.

O que pensa fazer?

Já fiz chegar ao Tribunal um pedido para que a Íris seja retirada à avó. A minha filha não pode mais ficar debaixo do mesmo teto onde foi abusada. Apesar de ter apenas cinco anos, isso deve-lhe trazer memórias e perturbá-la. Aquela avó contribuiu para tudo isto, se é que a sua participação não é pior ainda. Além disso, o Ivo tem família na Suíça e, tendo em conta a perseguição que a mãe me moveu, tenho muito medo que raptem a minha filha. Tenho lutado para ter a guarda dela, tenho emprego e casa, mas já percebi que o Tribunal de Família e Menores não me vai entregá-la enquanto o processo de abuso sexual que me moveram não for arquivado. A procuradora da República que tem o caso disse-me, recentemente, que estão de pés e mãos atadas.