A obra do túnel da avenida João XXI impacta diretamente a freguesia do Areeiro, mas o presidente garante que os residentes a receberam bem. No futuro está prevista a requalificação da avenida de Roma e a construção de um teatro, no âmbito da iniciativa municipal ‘Um Teatro em Cada Bairro’.
Pedro Jesus escolheu o Jardim de Infância António José de Almeida, no bairro do Arco do Cego, para uma conversa descontraída com a VERSA.
Gostava que começasse por me falar deste jardim de infância, onde nos está a receber, e que foi recentemente inaugurado pelo presidente do município, Carlos Moedas.
Isto é o antigo edifício municipal, era o arquivo municipal, que foi convertido em jardim infantil. É uma gestão nossa, da junta de freguesia, que alberga cerca de 100 crianças. Temos aqui uma oferta para as famílias, para cerca de 100 crianças, em quatro salas.
Todo o edifício foi requalificado?
Sim, é uma obra de arquiteto.
Dado que se tratava de um edifício municipal, de que forma é que houve um entendimento entre a câmara de Lisboa e a junta do Areeiro, quanto à gestão do infantário?
A gestão dos jardins de infância é uma competência da junta de freguesia, de forma administrativa. Portanto, houve aqui uma transição natural que foi articulada.
Quais são os principais objetivos que tem para este mandato?
O nosso projeto está assente em três pilares. Um é um espaço público muito homogéneo com aquilo que é a política de gestão territorial da cidade e do município de Lisboa. O segundo é o apoio às famílias e o terceiro é a cultura.
No que respeita às famílias, concretamente, o que é que tem pensado?
Nós temos ofertas desde a infância até à componente sénior. Na infância, nós inaugurámos recentemente uma creche e este jardim de infância. E temos mais: estamos a articular com a câmara a construção de mais uma creche.
Relativamente à componente sénior, temos um centro de dia com oferta de valências de entretenimento e apoio no dia-a-dia, mas também queremos começar a fazer apoio domiciliário. Além disso, um dos projetos que estamos a articular, tanto com a câmara como com a Santa Casa, é a construção de uma residência sénior.
Em que zona será?
Será no Bairro dos Atores.
Estava também a falar-me da cultura. Que papel é que a junta tem nesse aspeto?
Há quem me diga que aquilo que fazemos não é cultura, é entretenimento. As pessoas, no seu dia-a-dia, gostam de entretenimento e de ocuparem o seu tempo livre. Portanto, nós damos o entretenimento, mas também apoiamos os agentes culturais. E, com isso, também temos já em andamento a construção de um projeto que é ‘Um Teatro em cada Bairro’.
E onde é que será instalado esse equipamento?
Será aqui no Bairro do Arco do Cego.
E quanto ao espaço público, outro dos pilares da sua estratégia?
O Areeiro, os seus jardins, os espaços verdes. Temos a Alameda, temos a Praça de Londres, temos os logradouros. E, portanto, aquilo que nós gostamos é que as pessoas tenham um bom espaço de lazer, um bom espaço para os seus filhos, parques infantis, estacionamento, passeios que sejam dignos e uma boa limpeza urbana.
Há também a preocupação com o apoio médico aos fregueses.
Sim, nós temos um posto clínico com uma oferta na vertente da clínica geral e na questão da clínica dentária. Preocupamo-nos agora também com a saúde da mulher, nomeadamente com consultas de nutrição no âmbito da menopausa.
O senhor preocupa-se também com o apoio veterinário.
Exatamente. Nós damos apoio aos gatos nos abrigos de rua. Acompanhamos também as colónias existentes de gatos aqui no Areeiro e ajudamos os fregueses que se dedicam a tratar dos gatos de colónia. E temos, para as pessoas que têm carências económicas, apoio veterinário.
No meio disto tudo, quais são os valores que imprime na sua governação da junta?
Acima de tudo, eu entendo o meu mandato com espírito missão. E, portanto, este cargo, em si, deve ser um missionário no bem-fazer público. Ou seja, o principal valor é a missão. O segundo é o bem-fazer e a causa pública. E depois o espírito de proximidade.
Por falar nessa proximidade, o senhor contou-nos que logo às oito e meia já estava a falar com munícipes. Como é que é esse contacto com os fregueses, com que regularidade e quais são as situações que o motivam?
O meu escritório é a rua. Todos os dias eu estou permanentemente na rua, em contacto com os munícipes, com os comerciantes, com os fregueses. E, portanto, é este o espírito de contacto.
E recebem-no bem?
Recebem bem. Ainda estou em estado de graça. E, portanto, recebem bem.
Esta freguesia está aqui numa zona central da cidade. É uma freguesia grande e onde há, tradicionalmente, uma população de classe média e média/alta. Em termos de segurança, com que questões é que se debatem?
Não é uma freguesia que seja daquelas que estão no topo da insegurança. Contudo, já temos alguns problemas de segurança derivados da pressão existente na avenida Almirante Reis. E temos aqui uma comunidade de imigrantes muito pouco colaborantes, que é uma comunidade nómada, romena, e que, essa sim, tem causado problemas de insegurança.
Fala-me mais sobre essa comunidade.
É uma comunidade cigana romena que pernoita nas nossas ruas e que não aceita respostas sociais. Este grupo tem sido o alvo de sinalização, tanto da parte da junta, como da câmara, da Santa Casa e das Forças de Segurança. Mas não temos conseguido encontrar ainda uma solução.
Trata-se do grupo que pernoita junto ao início da avenida Gago Coutinho?
Exatamente, é esse. Devo contar-lhe que há cerca de um mês, em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, experimentámos algumas interações com eles. Eles não aceitam, como lhes disse, respostas sociais. Então, eles decidiram em vez de pernoitarem naquele território, espalharem-se por todo o território do Areeiro. Portanto, o que nós temos feito, diariamente, é tentar demovê-los de pernoitarem em vários locais, o que se torna incómodo para os residentes.
Eu creio que eles também estavam envolvidos na questão dos cães para mendicidade.
Agora já não temos essa questão, felizmente.
Esta freguesia também é muito conhecida pelo comércio, que mistura lojas tradicionais e até históricas com lojas modernas. Que perspetiva é que tem do funcionamento do comércio no Areeiro?
Nós temos aqui algumas lojas icónicas e o comércio acaba por ser uma oferta que as pessoas gostam de usufruir. Aqui, a comunidade residente gosta de usufruir do espaço público, mas também do comércio, no seu dia-a-dia. Fazem muitas compras no próprio bairro. O nosso desafio é continuar a manter e garantir que essa oferta exista. Nós sabemos que os proprietários das lojas, cada vez mais, aumentam as suas rendas. O nosso desafio é que consigamos fixar os comerciantes.
Há pouco tempo fechou a loja dos Tricots Brancal, que era uma das lojas mais históricas daqui. E no grupo ‘Vizinhos do Areeiro’, no Facebook, as pessoas queixam-se muito. Que muitas das lojas tradicionais estão a ser substituídas por algum comércio, como mercearias de imigrantes. É assim?
Bem, essa loja, que era uma Loja com História, começou a ser desativada devido, também, ao fecho da fábrica, na Covilhã. A fábrica deixou de produzir e isso levou ao fecho da própria loja. Nós ainda temos muitas lojas tradicionais e duas Lojas com História: a pastelaria Mexicana e a livraria Barata. Hoje, a livraria Barata é uma Fnac, mas mantém a sua traça. Relativamente à proliferação de lojas de conveniência, de lojas de pessoas migrantes, nós não somos contra a comunidade migrante. Queremos é um comércio de qualidade.
Aquilo que temos feito é, relativamente a essas lojas, denunciar os maus usos e os licenciamentos que não são realizados para o efeito que se produz. Nós estamos com um inquérito em curso com os comerciantes. Já temos cerca de 300 comerciantes sinalizados para tentar perceber também como é que os podemos apoiar.
Além disso, no âmbito do projeto Radar temos cerca de 200 radares comunitários ativos, que são comerciantes que se dispõem a colaborar com a junta de freguesia. E, portanto, estamos em crer que com essa parceria vamos conseguir produzir atividades.
O senhor estava a falar no projeto Radar. Quer explicar melhor em que consiste?
O Areeiro foi uma freguesia-piloto, em conjunto com a Santa Casa da Misericórdia, na implementação de um projeto que é de proximidade com as pessoas em situação de isolamento. Sejam seniores ou não, nós fazemos o apoio em três âmbitos. Um é no âmbito do ‘Olá Areeiro’, que é um projeto que nós temos de acompanhamento diário. Fazemos uma chamada para os nossos utentes, geralmente pessoas em situação de solidão. Depois, outra ação no âmbito desse projeto é o apoio, seja domiciliário ou não, na questão do acompanhamento, seja na saúde, seja na alimentação. E o terceiro tem a ver com o acompanhamento no âmbito daquilo que chamamos de ajudas técnicas e hospitalares. Ou seja, nós podemos fornecer uma cadeira de rodas, uma cama articulada, mas também apoiamos nos transportes hospitalares e às consultas, garantimos esse transporte.
Estava a dizer-me que há comerciantes envolvidos neste projeto. Assim sendo, as pessoas são sinalizadas ou têm de inscrever-se?
Pode ser das duas formas. Mas são também sinalizadas por comerciantes, porque os estes acabam por ser o ponto de apoio. E ainda pelos nossos assistentes sociais.
Há obras a decorrer aqui na freguesia. A grande obra é a do túnel da avenida João XXI. De que forma é que isso tem impactado a freguesia?
As pessoas aceitaram bem esta requalificação, que era uma requalificação necessária. A mensagem também foi bem passada pelo município e pela junta de freguesia, porque pretende-se que esta requalificação seja rápida, pronta em dez meses.
Depois vamos ter aqui duas empreitadas que vão ser impactantes. Uma é a requalificação da avenida Roma. Neste caso, pretende-se que este um eixo viário aceite todo o tipo de mobilidade, ou seja, mobilidade suave, de ciclovia, e também outro tipo de mobilidade, que é a dos automóveis. Também se pretende privilegiar as zonas de sombreamento e iluminação. O outro eixo é aquele já atualizado, a requalificação da Avenida Almirante Reis, que também terá impacto na alameda Afonso Henriques.
Exato. Sendo que a Avenida Almirante Reis não pertence toda a esta freguesia.
Não, nós temos uma pequena parte.
Além dessas obras de que nos estava a falar, há mais alguns projetos que gostasse de destacar?
Sim, como disse há pouco, é a construção de ‘Um Teatro em cada Bairro’ e a construção de uma nova creche. Entretanto, terei uma reunião com o presidente dos serviços sociais da câmara, na qual nós iremos discutir a construção de um novo centro de saúde aqui no Areeiro.
Como é que tem sido a interação da junta com a câmara municipal? Como é que é feita a ponte entre as duas entidades e em que assuntos?
Desde a reforma administrativa da cidade de Lisboa, ou seja, desde 2013, que Lisboa passou a ter 24 freguesias com bastantes competências, competências essas que transitaram do município de Lisboa para a esfera das juntas. Portanto, nesse âmbito, as juntas já têm competências próprias, mas que também trabalham em articulação com a câmara. Para lhe dar um exemplo, na questão da limpeza urbana: as juntas de freguesia fazem toda a parte de manutenção de área, seja de lavagem, de varredura, de jardinagem, mas a remoção do lixo doméstico continua a ser da câmara.
Portanto, a junta e a câmara têm que estar aqui em sintonia para manter um bom serviço público.
Se o senhor tivesse de convidar alguém a vir morar no Areeiro o que lhe diria?
Eu convidaria o próprio Carlos Moedas a residir no Areeiro porque acho que é a freguesia mais aprazível de Lisboa. Tem uma boa comunidade escolar, tem uma boa escola, centro de saúde, lojas, comércio e bons fregueses.