Professor coordenador da pós-graduação de Intervenções Assistidas por Animais, no Instituto Universitário Atlântica, foi na Guarda Nacional Republicana que iniciou o seu percurso profissional. Dois anos depois de ter chegado a este órgão de polícia criminal, o autor conheceu Tico, o pastor alemão com quem fazia binómio e que lhe salvou a vida, evitando que fosse baleado durante um assalto a uma ourivesaria.
Em Bola pra Frente, com lançamento marcado para 21 de junho, no Soho, em Alcântara, Lisboa, Pedro Emanuel Paiva conta esta e muitas outras histórias de interação entre canídeos e humanos e dá conta do seu mais recente projeto de terapias assistidas por animais, a decorrer na Casa do Artista.
Como é que surgiu a ideia de escrever este livro?
Este livro acaba por ser a transcrição daquilo que eu tenho vindo a viver desde 2010, que é a inclusão propositada de animais com o objetivo terapêutico. E, portanto, neste momento fez-me ainda mais sentido porque vivemos numa sociedade em que se valoriza a pressa, se valoriza objetivos, se valorizam as correrias e muitas vezes esquecemo-nos de aspetos como a inclusão, como questões de dar oportunidade. Muitas vezes as pessoas estão em situação de vulnerabilidade e este livro não é um livro só sobre pessoas nem é um livro só sobre cães. É um livro sobre encontros.
De 2010 até agora, fruto destes encontros, a minha história acabou por ser também a história de outras pessoas. Diria que são as histórias das outras pessoas que acabam por fazer a minha própria história. Tive o privilégio de, em momentos muito especiais, ter tido esta oportunidade de, de alguma forma, com a presença de animais, contribuir para ajudar a transformar e a superar determinado tipo de dificuldades destas pessoas. Isso fez com que eu partilhasse este livro, neste momento, porque acho que é muito importante, cada vez mais. Este livro acaba por ser um alerta para aquilo que é a necessidade da empatia e de estarmos mais disponíveis para cuidarmos do próximo.
Estava a contar-me que desde 2010 tem desenvolvido um trabalho com outras pessoas. Queria que me falasse mais sobre esse trabalho, em concreto.
Este percurso da inclusão dos animais com objetivos terapêuticos vem de 2010 e foi, nesta fase, primeiro incluído em escolas com crianças de ensino especial – com diversas patologias, nomeadamente crianças com autismo, com trissomia, com paralisia, com déficit de atenção, com dificuldades de inclusão e integração – e depois foi-se estendendo a outros projetos, nomeadamente a inclusão de animais com crianças vítimas de doença oncológica, a inclusão de animais com a Fundação do GIL, com a Associação de Paralisia Cerebral, com instituições na área da demência, com centros de dia, com lares e, naturalmente, mais recente, acabou por ser o projeto que nós fizemos com a Casa do Artista que, neste momento, é um projeto de continuidade.
Qual é que é a estrutura que está por detrás desses projetos e quantos animais é que existem?
Quando olhamos para estes projetos de inclusão de animais com objetivos terapêuticos, existe ainda um bocadinho aquela perspetiva de que estamos a falar de uma abordagem muito lúdica e não tão terapêutica. Quando há uma perspetiva terapêutica, isso obriga-nos a ter uma equipa multidisciplinar composta por diversos especialistas. Nomeadamente, quando olhamos para o contexto da educação, falamos de psicólogos e professores, em conjunto com os treinadores devidamente preparados e os cães também devidamente preparados para isso.
Quando olhamos para contextos de saúde humana, podemos estar a falar de especialistas na área da fisioterapia, da pediatria, médicos, psicólogos. E quando olhamos, inclusive, para contextos de justiça – que também existe o retrato de um desses casos em contexto de justiça, no livro – falamos muitas vezes do envolvimento com um juiz de família de menores, assistentes sociais, psicólogos, professores. Portanto, esta medida da terapia com a inclusão propositada de animais é uma medida multidisciplinar, que nos obriga a fazer um trabalho muito abrangente. Há países, nomeadamente os Estados Unidos, Espanha, Canadá, que têm projetos de inclusão de animais muito desenvolvidos, muito estruturados.
E aqui em Portugal?
Portugal tem dado alguns passos importantes nessa matéria, mas ainda temos muito para fazer. É, sem dúvida, um trabalho onde os resultados são claros, as evidências estão aí, mas a sociedade, e eu diria às vezes até a questão do próprio conhecimento das medidas públicas, ainda não abraça as terapias. E este também é um dos objetivos deste livro.
Mas, então, tem essa estrutura montada por detrás deste trabalho?
Tenho uma estrutura maioritariamente de treinadores. Muitos destes treinadores são licenciados nestas áreas e depois procuram aqui, através da presença do animal, um parceiro. Muitos destes técnicos, que estão a trabalhar comigo, eram técnicos licenciados em psicologia, professores, professores de ensino especial, que depois procuram perceber como é que a inclusão do animal faz sentido, no âmbito desta equipa multidisciplinar. Aquilo que acontece é que, depois, através de protocolos que são celebrados com instituições, os técnicos dessas instituições também passam a fazer parte da equipa.
Falou no uso de cães em contexto de justiça…
Sim. De facto, coordenei o único projeto em Portugal, até hoje, em questões de tribunal de família de menores, que previa a inclusão de animais para colaborar diretamente com a comarca e com o tribunal de família de menores na decisão das guardas partilhadas. E esta medida era incluída naquilo que o juiz defendia como o especial interesse da criança.
Estamos a falar de crianças que tinham dificuldade em comunicar, que se sentiam muito fragilizadas no âmbito desta questão. Quando olhamos para questões de alienação parental, sabemos perfeitamente que há um conjunto de fenómenos associados que fazem com que a criança se isole, se feche, ou que tenda a pender apenas de um lado. E, numa perspetiva daquilo que era o especial interesse da criança, o juiz pedia a nossa intervenção, através deste grupo multidisciplinar, onde o cão funciona, com a sua presença, como um desbloqueador.
E é isto que é diferenciador. Funciona como um desbloqueador porque o animal tem a capacidade de se vincular imediatamente com a pessoa, independentemente da idade, do status social, das fragilidades: a entrega do animal é incondicional.
O título, ‘Bola Pra Frente’, tem a ver com o comportamento dos cães?
Tem a ver com o comportamento deles também. Ou seja, é uma mensagem de esperança. Para já porque a bola é uma ferramenta muito utilizada durante o contexto de terapias. O cão adora a bola, para brincar, para jogar, é um momento de satisfação para o cão e, ao mesmo tempo, a criança ou o utente ao conseguir controlar aquilo que o cão quer, sente-se empoderado. Toda esta dinâmica do jogo da bola, a alegria, a satisfação, o empoderamento que nós damos aos nossos utentes, fez com que eu escolhesse este título. Porque a bola tem, de facto, um significado muito especial.
E depois é a mensagem que os animais nos passam, que é viver o presente. Não carregar o peso do passado, nem estar sempre preocupado com o futuro. Vamos viver o momento, vamos jogar, vamos divertir-nos. E a essência do cão é, efetivamente, isto. Portanto, isto é uma mensagem de bola para a frente. Há sempre esperança.
A sua vida está muito associada a um cão, o Tico. Conte-nos a vossa história.
O Tico tem a ver com o meu percurso profissional. O Tico foi, de facto, o meu grande mestre naquilo que foi a aprendizagem e a minha mudança de visão em relação à forma como nós nos relacionamos uns com os outros.
O Tico entrou na sua vida porque o senhor foi militar da GNR.
Exato. Comecei em 2002 o meu percurso na GNR e o Tico entrou um ano depois, nessas funções. Muito bebé, muito cachorro. Era um pastor alemão porque, de facto, os cães-polícias por norma são destas raças. Isso tem a ver com uma garantia em termos comportamentais. Foi sempre um cão muito especial.
Que lhe salvou a vida.
Salvou e até mais do que uma vez! Mas a situação relatada foi um caso em que fomos chamados para Colares, para um assalto a uma ourivesaria. Era um assalto à mão armada, os assaltantes estavam com caçadeiras. Deu-se a coincidência de, no piso de cima, estar outra patrulha, para outra ocorrência, e foi tudo muito rápido. Os militares aperceberam-se do assalto e atuaram de imediato. Estamos a falar de fogo cruzado, entre os militares e os assaltantes. Nisto, um assaltante foge para uma zona de floresta. Nestas situações, de elevada perigosidade, por norma, os cães de busca e salvamento, e os cães de ordem pública, são ativados para conseguirem detetar a localização dos suspeitos.
É assim que eu apareço neste cenário com o Tico. A dada altura, deixei de ver o Tico por uns instantes e é nesse momento que ele começa a ladrar, o que era sinal que tinha encontrado alguém. Sabendo nós, antecipadamente, que era um indivíduo armado, tentámos, de certa forma, protegermo-nos, mas a minha preocupação era o cão. O Tico estava lá e o indivíduo estava armado. E, portanto, aquilo que eu faço imediatamente é chamá-lo, ele sai por trás do arbusto, olha para mim e ‘pergunta-me’ o que devia fazer. E eu dou-lhe indicação para ele atacar o indivíduo.
Assim que começámos a ouvir os gritos, avançámos todos e conseguimos imobilizar o indivíduo e detê-lo. Foi uma das situações em que, de facto, o Tico me salvou. Porque, seguramente, se nós continuássemos a avançar sozinhos, eu ou outro, teríamos sido alvejados.
O Pedro já tinha tido animais sem ser em contexto de trabalho?
A minha primeira relação, que deixou a primeira semente, tinha eu oito, nove anos, foi uma cadela que nós adotámos, que era a Diana, uma salsicha. Foi a cadela que mais me marcou. A Diana estava sempre comigo. Eu apanhava o autocarro, ela vinha sempre comigo ao autocarro para me trazer de manhã, às oito da manhã, e depois voltava para casa. Criei uma relação tão especial que, muitas vezes, a minha mãe dizia que a Diana é que era a minha irmã.
Já o Tico, além de ter sido cão-polícia, transformou-se em cão-terapeuta, não foi?
Exatamente, é isso mesmo. E é aí, nesse momento, que vem o grande clique. Porque, de facto, eu assisti a um cão que teve uma capacidade de transformação enorme e uma capacidade de evolução. Porque estamos a falar de um cão que com dois anos estava no Euro 2004 a fazer ordem pública. Depois, passados quatro anos, passou a um cão de busca e salvamento, onde encontrou mais de 400 pessoas, umas vivas, outras mortas. E depois, no final, ainda se adaptou e passou a ser um cão de terapias com crianças. E, portanto, esta capacidade de adaptação e de aprendizagem dele fez-me sentir que, de facto, se eles conseguem, nós, humanos, também conseguimos.
Quando saí da GNR, fundei uma associação sem fins lucrativos, a Pet B Havior, em homenagem ao Tico, e é a partir daqui que começam a surgir todos estes projetos.
Em que é que consiste o projeto mais recente com a Casa do Artista. O que é que os cães conseguem fazer pelos séniores?
A Casa do Artista tem um contexto diferente. Isto porquê? Porque estamos a falar de residentes. E estamos a falar de pessoas que passaram uma vida, a maior parte delas, de alguma exposição, eram conhecidas. Quando propus à Casa do Artista fazermos este desafio da introdução de cães, era numa perspetiva de, primeiro, promover o dinamismo coletivo entre os residentes. E, segundo, quebrar um tabu, porque era proibida a entrada de animais na Casa do Artista. Aliás, muitos residentes da Casa do Artista que tinham animais e passaram à Casa do Artista tiveram de deixá-los. Isto mudou e foi uma grande vitória.
Neste momento, a Casa do Artista tem, inclusivamente, dois cães a tempo inteiro. Adotaram o Romeu e a Julieta. Paralelamente a isto, tem o projeto das terapias, que é um projeto de continuidade, já financiado pelo município.
Aliás, é o José Raposo a prefaciar o livro.
Sim, porque o José Raposo acreditava no projeto. E, por acreditar no projeto, claro que ele próprio teve de nos ajudar a desconstruir alguns tabus, quebrar algumas barreiras e, graças ao José Raposo e à diretora, à Dra. Joana Figueiredo, que também vai estar no lançamento do livro, no dia 21, nós conseguimos fazer essa desconstrução e quebrar essas barreiras. E, hoje em dia, o momento da terapia com os cães é sempre um momento muito aguardado.
O Pedro é o provedor dos animais de Lisboa. Qual é o papel do provedor?
A responsabilidade foi do Tico! (sorriso) Começo por fundar a associação. Depois, através da associação, começa a construir uma série de protocolos, de projetos com diversas instituições, com autarquias. Começa a dar consultadoria a autarquias. E sou convidado para ser provedor. Portanto, o culpado é o Tico.
Ser provedor foi um desafio que eu não estava à espera. Quando fui convidado para ser provedor refleti muito sobre isso. Porque a responsabilidade do provedor, sendo ele um órgão meramente recomendativo, não vinculativo, é um desafio grande.
Depois há um outro desafio que é o provedor ter uma capacidade, acima de tudo, de trazer uma mensagem de esperança e fazer pontes.
É exigente, é um cargo a tempo inteiro e em exclusividade. Lisboa tem, como eu costumo dizer, tem um ecossistema muito próprio na área da proteção. Mas a grande missão do provedor é a salvaguarda daquilo que é a proteção e o bem-estar dos animais.
Que animais tem atualmente?
Tenho a Kiki. Fui contactado por uma associação que estava a fazer a recolha de muitos animais de um dito criadeiro. Ou seja, não é um criador, é um criadeiro. O que é que estamos a falar? De animais que estavam fechados num armazém só para procriarem. E, portanto, tínhamos cães em estado clínico muito grave. Alguns deles acabaram por morrer. E a Kiki estava no meio desses cães que foram resgatados.
É uma chihuahua que já faz parte do projeto da Casa do Artista e está noutro projeto novo, que estamos a fazer, que trata da dessensibilização da fobia no dentista, com crianças. Ou seja, onde a Kiki transmite à criança a serenidade, a calma, para que o dentista possa fazer os tratamentos, como limpezas de tártaro, sem recurso a anestesia.