Um senhor de idade deixa cair à sua frente uma carteira cheia de dinheiro. Devolve ou fica com ela? Ficaria incomodado se uma pessoa discriminasse um casal homossexual que adotou uma criança? Como reagiria se visse uma pessoa a colocar substância no copo de outra? O que faria se visse uma criança perdida no meio da rua? Como é que os portugueses tratam um sem-abrigo? De que maneira atuava se visse uma cliente a discriminar um empregado imigrante? E a destratar um idoso? E se visse alguém a criticar um menino por brincar com bonecas? Estas são apenas algumas das perguntas colocadas na rubrica ‘Nas costas dos outros’, às segundas-feiras, no Jornal Nacional (TVI). Já são mais de 40 episódios gravados e o apresentador e jornalista Pedro Benevides garante que ainda há muitos temas por explorar.
Como nasceu a ideia para este programa? Sentiam que faltava um formato destes na televisão nacional?
Eu cheguei à ideia um bocadinho tarde. Ou seja, a ideia estava a ser pensada numa colaboração entre a Direção de Programas, a Direção de Informação e a Direção Geral, no caso José Eduardo Moniz. Ligaram-me já perto da estreia a apresentar o projeto. O formato não é inédito nem na televisão portuguesa, nem na televisão mundial. Vimos programas parecidos nos EUA, no Brasil… Foi aí que fomos beber. Acreditaram que este formato se adequava bem numa rubrica do Jornal Nacional, não porque tenha uma notícia em si próprio, mas porque alerta para muitos comportamentos cívicos de temas que dominam um bocadinho a nossa vida enquanto sociedade. E o que acontece, pelo menos o feedback que eu tenho tido, é que as pessoas, em alguns casos, têm dúvidas do que é que fariam numa determinada situação, mais ainda, o que é que podem fazer nessa situação.
Além de recriarmos as cenas para testar se as pessoas reagem, queríamos perceber se as pessoas estão adormecidas ou se estão cientes de que são responsáveis não só pelo seu próprio espaço, mas também têm responsabilidade com o outro.
Muitas vezes acabamos por falar com autoridades, por exemplo, que têm intervenção naquela matéria e que nos explicam o que é que as pessoas devem fazer em situações semelhantes… Há muita gente que nos diz que vê o programa com os filhos e que acaba por existir um debate em casa. Só por isso, acho que já é um formato vencedor.
Como é que se cria cada episódio? Como é que escolhem os temas e como é que se desenrola depois todo o processo?
Toda a equipa que faz o programa vai pensando, dando ideias. Há um espírito de grande colaboração. Toda a gente contribui e depois nós avaliamos essas ideias! O coordenador do Jornal Nacional, o João Guilherme, lembra-se de um tema; a Raquel Matos Cruz, que é o membro da Direção de Informação, lembra-se de outro. Ela dá imensas sugestões… Por exemplo, um dos episódios que vai sair é uma sugestão dela: será que as pessoas limpam os dejetos dos seus animais? E as outras pessoas incomodam-se com isso? Isso já está incorporado no nosso comportamento social?
Ou seja, surgem as ideias e depois temos reuniões ocasionais onde elencamos uma série de temas, uns mais polémicos, outros mais consensuais… Depois é ou não aprovado pela direção, porque há alguns bons, mas difíceis de executar.
As escolhas do local são estratégicas?
Sim! O que é que nós tentamos fazer? Tentamos diversificar os sítios, por razões óbvias… Para já, para que as pessoas que passam ali não saibam o que é que está a acontecer; depois para não ficar sempre em Lisboa. Claro que concentramos muito nesta zona, até por uma questão de custos, mas já fomos mais de uma vez ao Porto, já fomos a Braga...
Adequamos o local à cena que queremos recriar e, por outro lado, temos em conta o ponto de vista técnico… Precisamos de estar a acompanhar o que está a acontecer nas várias câmaras que temos montadas. Já ficámos em edifícios abandonados, também já fizemos dentro de um armário numa padaria… (risos) Eu estava lá sentado a acompanhar, nem o realizador conseguia lá estar sentado, porque não havia espaço.
E, enquanto jornalista, como é que se separa a linha entre a observação e a intervenção? Houve momentos onde já lhe apeteceu intervir?
Sim… Quando as pessoas não reagiram a uma determinada situação. Mas não seria justo, porque as pessoas não sabem que estão a ser filmadas e nós perguntamos sempre, no fim, se aceitam que a imagem passe.
Considera que somos mais solidários do que aparentamos? Ou a sociedade portuguesa tem desiludido?
A minha experiência – e nós já vamos com mais de 40 episódios –, diz-me que as pessoas não estão tão anestesiadas como eu achava que iriam estar inicialmente. Acho que as pessoas sentem, reagem, emocionam-se, enervam-se, intervêm… Deu-me uma boa dose de esperança de que nem tudo está perdido.
E há algum episódio que mais o tenha marcado?
Eu sou muito chorão. Por isso, quando há pessoas que choram e se emocionam, eu próprio também começo a chorar. Houve um episódio que me marcou desse ponto de vista. Tínhamos um miúdo com 8 anos, e o pai, por mais que não fosse agressivo com ele, estava visivelmente embriagado. O miúdo pedia para o pai parar de beber e as pessoas iam ouvindo a conversa e começámos logo a ver o incómodo. Era uma situação extrema no sentido em que é difícil perceber o que fazer nessa situação. Uma agressão é fácil, nós reagimos de imediato, mas uma situação dessas… O que é que nós fazemos? Qual é o momento em que devemos intervir e como é que devemos intervir? Tínhamos uma outra parte dessa cena em que o pai lhe dizia para irem para o carro… Foi aí que as pessoas reagiram mais… Duas ou três pessoas nesse episódio desfizeram-se a chorar depois de nós explicarmos o que estava a acontecer, porque têm filhos. Eu emociono-me imenso.
Agora, se eu tivesse de escolher um episódio que ainda hoje me faz pensar e que falo com muita gente, foi aquele em que testámos as crianças com autorização dos pais. Tínhamos várias crianças entre os 8 e 12 anos, que tinham vindo de uma colónia de férias e estavam à espera que os pais chegassem ali a um jardim público. Mandámos um estranho cujo objetivo era levá-las para o carro dele. Queríamos testar se as crianças iam ou não iam e, enquanto se dava a cena, os pais estavam sentados ao meu lado a ver tudo a acontecer em direto.
Aquilo que é mais impressionante é que todos os pais tiveram conversas com os filhos a explicar-lhes os perigos e os riscos de ir com estranhos, e o que é que eles devem fazer nessas situações… A verdade é que não houve uma única criança que não tivesse ido. Todas elas foram, todas elas revelaram os dados, explicaram onde é que moravam, qual era a morada, a que horas estavam sozinhas em casa… O estranho tinha um ar simpático, tinha um cão bebé e, de repente, a criança estava conquistada, o nível de confiança e as muralhas todas de segurança, aquilo que aprenderam dos pais, desapareceram naquele momento.
Houve pais que disseram que já sabiam que o filho ia fazer aquilo, que fala com toda a gente, e houve outros que ficaram chocados porque julgavam que os filhos estavam mais bem preparados do que aquilo. Eu próprio, enquanto pai, também não sei como é que nós resolvemos isto… Porque nós fazemos a nossa parte, mas o mundo depois funciona de formas diferentes e a reação da nossa criança à forma como o mundo reage, não conseguimos prever.
Sente que tem aprendido coisas também sobre si próprio através deste programa?
Vou para casa pensar, falo imenso disso com a família. Aprendo muito com as reações das pessoas… Às vezes com a serenidade, outras vezes com a firmeza. Aprendo, às vezes, com a franqueza das pessoas. Sinto que aprendo um bocadinho sobre como é que nós, enquanto sociedade, funcionamos. E aprendo também sobre mim… Já percebi que sou um chorão. Deve ser da idade. Estou a ficar mais mais emocional. (risos)