quarta-feira, 13 mai. 2026

Patrícia Reis: 'O telemóvel é a nossa nova sala de estar'

Jornalista e escritora, Patrícia Reis foi o rosto da revista mais luxuosa do país: a Egoísta. Lançou recentemente dois livros e diz não se importar por agora muitos a conhecerem como 'mãe do Sebastião'.
Patrícia Reis: 'O telemóvel é a nossa nova sala de estar'

Foi a responsável pela revista Egoísta do Casino do Estoril, que ganhou vários prémios. Como foi editar a revista mais luxuosa do país?

Foi um exercício de liberdade com orçamento. O luxo nunca foi o papel ou a impressão, foi poder juntar pessoas improváveis nas diferentes edições e acreditar que a cultura também pode ser ambiciosa sem pedir desculpa. A Egoísta não era sobre ostentação, era sobre risco editorial. Sendo propriedade de uma empresa privada, o Grupo Estoril Sol, a publicação prestou um papel relevante à cultura nacional e promoveu e divulgou muitos artistas, escritores, pensadores. Não creio que exista uma revista similar e não acredito que volte a existir. Se pegarmos em 26 anos de edições da Egoísta não só temos Portugal espelhado, como temos a história do mundo e, nesse sentido, é uma coleção que fixou memória e costumes, tendências e propostas de pensamento. Foi um privilégio.

O fim da Egoísta deu-lhe mais tempo e tem publicado vários livros. Apresenta-se sempre como jornalista e escritora. Qual a ‘profissão’ que lhe dá mais prazer?

Depende do dia. Quando escrevo, sinto que estou a pensar melhor. Quando faço jornalismo, sinto que estou mais próxima do mundo. Uma profissão dá-me silêncio, a outra dá-me conflito e preciso das duas para melhor entender o mundo. A Egoísta nunca atrapalhou este processo, porque editar é também uma forma de ser escritora e de ser jornalista, aí existe uma coincidência que, diria, é feliz.

Gosta de se definir como feminista. Olhando para o início da sua carreira de jornalista, acha que o mundo de hoje tem alguma coisa a ver com o desse tempo, onde nas redações havia poucas mulheres? Nota algum machismo no jornalismo de hoje?

Claro que sim, mas está mais sofisticado. Já não é tão óbvio, o que o torna mais difícil de combater. Hoje há mais mulheres nas redações e, sobretudo, mais mulheres em cargos de chefia. Quando comecei, n’O Independente, diria que existia um registo paritário, eram muitas as mulheres jornalistas e a grande repórter era uma mulher, Helena Sanches Osório. Mas O Independente não era um jornal como os outros, era outra forma de fazer jornalismo.

Disse num dos programas televisivos da manhã que é preciso ‘romper’ com o divórcio entre entretenimento e, digamos, escritores. Sente que é incompreendida pelos dois ‘campos’?

Ser incompreendido costuma ser um bom sinal. Sempre me interessou esse território híbrido onde a cultura não precisa de ser hermética nem o entretenimento precisa de ser superficial. Se isso incomoda, ainda bem. É porque não está totalmente domesticado.

É mestre em Ciências da Religião. Nos últimos tempos muito se tem falado numa ‘guerra’ entre religiões. Como é que a Europa poderá ‘absorver’ a cultura muçulmana, onde as mulheres não têm praticamente direitos?

A palavra ‘absorver’ já parte de um erro. A Europa não é um bloco homogéneo nem a cultura muçulmana é uma coisa única. O desafio não é absorver, é conviver com exigência: garantir direitos fundamentais, sobretudo das mulheres, sem cair em simplificações ou paternalismos. Isso exige política séria, não slogans.

O seu último livro, que se seguiu ao do arquiteto Siza Vieira, escrito a partir de entrevistas e conversas, tem o título de O Lugar da Incerteza. Por que diz que um dia sem medo era bom?

Porque o medo organiza demasiado as nossas decisões, muitas vezes sem darmos conta. Um dia sem medo não é um dia sem prudência, é um dia em que conseguimos escolher sem esse ruído de fundo. E isso, hoje, já seria um luxo. O romance é um espaço de pensamento, é um gesto político, e O Lugar da Incerteza aborda a contemporaneidade e a necessidade de existirem espaços para as fragilidades, para o desconhecido. Somos, hoje, atropelados pela violência da razão e pela polarização. Eu acredito que é a conversar que evoluímos, não é no ataque nem na precipitação. O romance é sobre tudo isto e um pouco mais.

Do que tem mais medo?

Do que não controlo, que é quase tudo. Mas, sobretudo, tenho medo de perder tempo com o que não importa. É um medo menos dramático do que parece, mas bastante eficaz. Quando se tem menos tempo à frente do que aquele que temos atrás de nós precisamos de definir prioridades e saber onde gastar energias.

Quantas horas por dia fica ‘agarrada’ ao telemóvel?

Mais do que gostaria, menos do que a média, ou talvez seja o que gosto de dizer a mim própria. A verdade é que o telemóvel é a nossa nova sala de estar, só que sem janelas.

Como foi passar a ser conhecida pela mãe de Sebastião Bugalho?

É um bom exercício de humildade. Passamos a vida a construir uma identidade e, de repente, somos apresentados através de uma relação. Não me incomoda, desde que não apague o resto. Poderia dizer, como faz a grande Helena Sacadura Cabral, não sou eu que sou mãe dele, é ele que é meu filho.

Como reage aos insultos de que o seu filho é alvo?

Com alguma contenção, que é mais difícil do que parece. Há um instinto imediato de defesa, claro, mas também a consciência de que a exposição pública tem este lado menos nobre. O essencial é não deixar que isso contamine o que realmente importa.

Chegou a zangar-se com alguém próximo por causa das posições públicas do Sebastião?

Não. Gosto demasiado das minhas relações para as sacrificar a debates políticos. Podemos discordar, e até devemos, mas há uma linha que não me interessa ultrapassar nem deixo que ultrapassem.