A tese central é simultaneamente simples e cruel: quando um político do mainstream, com medo do populismo, veste a casaca populista para tentar evitar que o populista original chegue ao poder, a história mostra que a coisa não funciona. O que é autêntico e genuíno manifesta-se sempre com mais eficácia do que o que é postiço. E o postiço, concluiu Pedro Passos Coelho com a escolha de palavras que todos registaram, «fica como um prostituto sem caráter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o momento lhe possa fornecer».
Passos dominou a semana política como raramente o tinha feito - não apesar das palavras que escolheu, mas por causa delas. Há quem se queira agarrar à violência dos termos e discorrer a partir daí. Há quem não consiga dissociar o que disse do facto de o ter dito na presença de André Ventura, ao lado de quem se sentou no auditório da Faculdade de Direito de Lisboa, na apresentação do livro do Professor Carlos Blanco de Morais - que participou nas jornadas parlamentares do Chega. Mas Passos é, definitivamente, uma peça do jogo político atual, com um domínio que outros não têm: age sobre as circunstâncias, transforma-as ou escolhe como lhes responder.
Ventura chegou à Faculdade de Direito com uma missão que não escondeu: queria que Passos falasse mais. Mais sobre a revisão constitucional. Mais sobre o SIRESP. Mais sobre tudo. «Pessoas que tiveram altos cargos e têm algo a dizer não devem ficar encurraladas nem desviadas do espaço público», declarou à entrada, com a generosidade de quem oferece o palco.
Passos não precisava do convite. Mas a imagem dos dois à conversa, antes de a apresentação começar, com os microfones a apanhar o que era possível apanhar - «era bom que as coisas ganhassem um pouco mais de ritmo» -, disse-nos quase tudo. Ali estava o ex-primeiro-ministro do PSD e o presidente do Chega, dois homens que já estiveram no mesmo partido, a concordar que o Governo de Luís Montenegro está aquém do que prometeu.
Há duas formas de ler o que está a acontecer. A primeira é a tese da urdidura: Passos tem um plano, que é demolir Montenegro, criar espaço para uma nova direita e, quem sabe, regressar em momento oportuno. A segunda é a tese da vitimização ‘montenegrista’: Passos está desenfreado, ressentido, e o PSD devia demonizá-lo para se proteger - o sentimento é de emoções contidas, até ver.
Mas há uma terceira leitura, menos conveniente: Passos pode simplesmente ter razão.
Por um lado, Passos
Miguel Morgado, ‘passista’ confesso, lembrou George Orwell - «é perfeitamente normal que escritores e jornalistas prostituam os seus talentos ao serviço de causas políticas» - numa jogada intelectualmente interessante, mas pouco honesta, dado que a ninguém escapou que o próprio Ventura já se referiu ao PSD como «uma espécie de prostituta política». O termo entrou há muito no léxico político português. Morgado argumentou ainda que as palavras de Passos eram dirigidas ao líder do Chega, o protagonista atual do populismo de direita que Passos critica desde 2014.
Pedro Duarte, ‘montenegrista’ assumido, optou por dizer que as palavras de Passos são de tal modo «encriptadas» que não ficou claro a quem se dirigiam. Logo a seguir, considera o azedume «respeitável» e admite que, no que tem de mais substantivo, pode ser «útil». Recusa-se a fazer a «psicanálise» das intervenções do antigo líder do PSD e diz desconhecer as suas motivações. Mas acrescenta que há pessoas que assumiram visões catastrofistas sobre o país, erraram, e em vez de corrigirem o erro aguardam que a realidade lhes venha dar razão: «Se disser que são nove e meia da manhã é uma informação errada, mas amanhã talvez tenha razão». Também Pedro Duarte não nomeia ninguém. A metáfora é clara.
As palavras de Passos irritaram profundamente os ‘montenegristas’, a tese do ‘azedume’ faz o seu caminho, mas é ainda Pedro Duarte que admite que o Governo pode não estar a comunicar bem o ritmo da sua governação, criando a perceção - não necessariamente verdadeira, ressalva - de que governa devagar.
O debate quinzenal
Há praticamente um mês que o primeiro-ministro não ia ao Parlamento para os habituais debates quinzenais. Quando foi, esta semana, a sessão não podia ter sido mais sui generis. Entre perder a cabeça e agir de cabeça perdida há alguma diferença - assistimos ao debate e ficámos com a sensação de que o líder da bancada parlamentar do PSD, Hugo Soares, encontrou uma forma de alcançar os dois em simultâneo, e o Parlamento transformou-se num cartoon com Lucky Luke (Ventura), Speedy González (José Luís Carneiro), Cebolinha (Hugo Soares) e Peter Pan (o primeiro-ministro). Dito isto, disse-se quase tudo.
Restam dois momentos que valeram o debate. Numa interpelação de Isabel Mendes Lopes, Montenegro encontrou espaço para falar do «imobilismo da esquerda». Numa resposta a Paulo Raimundo - e, de passagem, a Pedro Passos Coelho -, o primeiro-ministro escolheu a metáfora do atletismo: «Somos corredores com endurance, somos corredores de fundo, que sabem que para chegar ao fim numa maratona não se pode sprintar nos primeiros tempos, nem se pode ir demasiado devagar». José Luís Carneiro fez tudo para escapar ao cartoon em que o Parlamento se transformara: foi institucionalista, voltou a falar do aumento de impostos sobre os combustíveis e da «insensibilidade e teimosia» do Governo, evitando, com cuidado, falar da reforma laboral - matéria em que o PS já deixou claro o que vai fazer, e o Chega mais ou menos.
Por outro lado, Seguro
O Presidente da República, alheado de todo este ruído, em espaço próprio e ao seu ritmo, tem vindo a produzir declarações públicas que maçam o Governo com uma regularidade que não pode ser ignorada. Profundamente maçador deve ter sido, para o Executivo, a divulgação do relatório de 96 páginas da Presidência Aberta na região Centro, a 23 de maio, em que se reitera que «para muitas famílias, empresas e comunidades, esta crise ainda não terminou» e que o território está «ainda vulnerável à entrada do verão». Montenegro voltou a Leiria esta quinta-feira, dia 28, para visitar o Comando Integrado de Prevenção e Operações instalado no quartel dos Bombeiros Sapadores.
Na quarta-feira, dia 27, numa outra intervenção, o Presidente reforçou que Portugal tem «uma cultura de desorganização e desarticulação que nenhum improviso compensa, e isso tem um custo» - os «projetos que não acontecem, investimentos que não chegam, talentos que partem porque não encontram aqui a previsibilidade de que precisam». E acrescentou: «Os futuros constroem-se com método, com planeamento, com instituições que funcionam de forma consistente, independentemente de quem está na sua liderança».
O Presidente da República e o primeiro-ministro viajam juntos para o Luxemburgo na próxima semana, em antecipação das celebrações do 10 de Junho. Não há entre eles sinais visíveis de crispação. Mas Seguro tem deixado claro, ao contrário do que foi Marcelo com Costa, que não leva o primeiro-ministro ao colo.
O ‘efeito Seguro’
Entretanto, circula a possibilidade de emergir um novo partido de direita liderado por Passos Coelho. Uma possibilidade que tem tudo para não funcionar nas urnas. Uma direita ainda mais fragmentada, com o Chega a continuar a crescer nas sondagens, arrisca a oferecer ao PS uma maioria que a aritmética da direita tornaria possível. O ‘efeito Seguro’ - que levou um candidato à presidência a Belém em grande parte por obra e graça de uma direita incapaz de se entender - é o pesadelo de qualquer estratega desta área.
Por agora, dentro do PSD, há quem prefira demonizar Passos, transformá-lo no conspirador ressentido que não aceita ter perdido o protagonismo. O risco é que, ao fazê-lo, o partido confirme exatamente aquilo que Passos diz: que o mainstream prefere atacar quem fala claro a responder às perguntas que ele levanta.
Montenegro controla o Governo, controla o aparelho do partido e desembaraça-se bem no Parlamento - está à vontade no papel de Peter Pan a falar da Terra do Nunca, sem permitir que o Chega, o PS ou os restantes partidos lhe estraguem a fantasia. A maior oposição ao líder do PSD não vem, por agora, da esquerda nem da direita populista - vem de tudo o que Passos tem dito e feito, ou do que têm dito e feito por ele. E do que o Presidente da República, que tem um passado político para resgatar, precisa de dizer e fazer. Quem pensa que Passos é um general sem exército, um líder sem partido, tem de pensar igualmente que o ex-primeiro-ministro partilha com Ventura uma capacidade que poucos têm: captar o zeitgeist, os sinais dos tempos. E o tempo político é da direita. Por mais estreito que seja o caminho - e é -, Passos intui que o povo voltará a dar-lhe razão. Depois de experimentar outras alternativas.