terça-feira, 16 jun. 2026

Os sobreviventes

Mortos e feridos graves, em acidentes de viação, são uma questão cada vez mais preocupante, em Portugal. Em quatro anos, entre 2021 e 2024, perderam a vida nas estradas 2300 pessoas. A Páscoa deste ano, com 20 mortos e 53 feridos graves, foi das mais sangrentas dos últimos anos. A VERSA foi ao encontro de quem sobreviveu para contar a sua história.
Os sobreviventes

Ia com dois amigos no carro, a caminho de uma coletividade da freguesia onde vivemos. De repente, vejo o carro a vir na nossa direção, fora de mão, mas não via o motorista», descreve José Francisco Malaquias, 54 anos, motorista. Na altura, José tinha 30 anos e podia ter perdido a vida no desastre, que aconteceu numa pequena rua da Ajuda, em Lisboa. «Foi no dia 12 de abril de 2003, eram seis e tal da tarde», recorda. «Eles deixaram cair um telemóvel. E o condutor em vez de pedir ao pendura para apanhar o telemóvel, andava ele à procura do telemóvel». A reação de José Francisco foi imediata. «Tentei encostar-me, ao máximo, aos carros que estavam estacionados, para ele não me bater de frente».

Do acidente resultaram dois feridos graves, José e um amigo. O outro rapaz que ia no carro saiu ileso e pelo seu pé da viatura. «Um dos meus amigos partiu a cara toda. Ele ia atrás, a dormir, e com o embate, bateu na parte de trás do meu banco. Foi a primeira pessoa a fazer uma operação facial toda em platina».

A morte à espreita

José Francisco relata o estado em que ficou: «Fiquei preso dentro do carro, porque o pedal da embraiagem bloqueou e eu não conseguia tirar o pé. Aliás, parti um dedo do pé. Depois vieram os bombeiros e tiveram de me desencarcerar». Mas as consequências foram muito além disto. «Com a pancada fiquei com uma lesão na vértebra C2 da coluna. Os médicos disseram-me que podia ter morrido caso a lesão fosse um bocadinho mais grave, chamam-lhe a ‘lesão do enforcado’, porque é a parte do pescoço que se partir origina a morte», explica este sobrevivente.

O motorista profissional ficou internado durante um mês, numa maca especial, sem puder mexer-se. «Era uma espécie de grade. Para comer, tinha de estar virado para baixo, onde havia uma mesa, e só podia mexer os braços. Depois viravam-me a ‘cama’ como se fosse um frango assado. Durante uma semana, enquanto não fui operado, não podia mexer-me para lado nenhum», ri-se agora, passados mais de vinte anos do acidente.

Esta maca serviu para estabilizar as lesões na C2 mas, depois, teve de escolher: ou lhe punham dois parafusos na vértebra mas nunca mais poderia conduzir – para olhar para a esquerda ou para a direita teria de virar todo o corpo nessa direção – ou optava por um aparelho composto por vários ferros, apoiado na cabeça. Escolheu a segunda opção e recuperou totalmente. «Após a cirurgia estive internado durante um mês. Saí com o aparelho na cabeça e andei assim durante seis meses. Depois tirei o aparelho e andei vários meses com um colar cervical. Os médicos disseram-me que a minha sorte foi ter o cinto de segurança porque, de contrário, com a pancada que foi na cervical podia não ter sobrevivido».

O acidente provocou-lhe, também, lesões na bacia e num dos joelhos. Ainda assim, garante que todo aquele aparato não o fez ter medo, nem das consequências possíveis das lesões graves, nem de voltar a conduzir. «No momento do acidente também não tive medo. Só pensei em desviar-me ao máximo para ver se ele não me batia de frente. Quando me apercebi que estava encarcerado nem sabia o que é que me podia acontecer. Nem me mexia. Até podia ter perdido o andar… De resto, assim que recuperei e tirei o aparelho, comprei outro carro e comecei logo a conduzir».

O condutor que provocou o desastre e o amigo que ia lado fugiram do local do acidente. «O motorista ficou só com ferimentos ligeiros nas canelas. O que ia ao lado não levava o cinto de segurança, bateu com a cabeça e partiu a cabeça». Mais tarde, os fugitivos foram identificados. «O rapaz que ia a conduzir não tinha carta de condução. Eles foram apanhados porque fugiram para o hospital de São Francisco Xavier. Os polícias que estavam de serviço no hospital tomaram nota e foram ver onde é que tinha sido o acidente, em que local da cidade... Aquilo movimentou muitas ambulâncias, muita polícia, e eles foram logo apanhados».

Excesso de carga

Mais tarde, José Francisco Malaquias voltou a experimentar outra situação grave, desta vez em plena A1, na zona do Cartaxo. A carrinha de transporte de carnes que conduzia despistou-se após o rebentamento de um pneu. «A empresa, antes, só tinha carrinhas de dois rodas atrás. Nesse caso, se houver um pneu que rebente, o outro aguenta até podermos parar. Só que, entretanto, saiu uma lei que permitia à empresa pagar menos impostos, se tivesse carrinha só de uma roda atrás. E assim foi. Vieram as carrinhas só com uma roda atrás e quando carregavam a carrinha ultrapassavam os limites de peso. Eu andava sempre a dizer que um dia rebentava uma roda e era eu que ia lá dentro. Naquele dia levava cerca de duas toneladas de carne e aconteceu. Foi em 2022», recorda o motorista.

«Nessa madrugada saí da fábrica com um colega que fazia a volta de Castelo Branco, enquanto eu iria primeiro a Vendas Novas, descarregar na Escola Prática de Polícia, e depois seguia para Leiria e Coimbra. Parávamos sempre na área de serviço da A16 para beber um café antes da viagem. Nesse dia até fotografei o estado em que ia a carrinha, com a jante quase a rasar no chão», conta. «Avisei várias vezes não só o patrão, como o filho e a filha. Aliás, só o peso que a carrinha levava podia dar problemas com a polícia. Porque só podia carregar entre 600 a 800 quilos e levava duas ou três toneladas de cada vez», explica.

José Francisco saiu da área de serviço e continuou caminho pela A1 até se dar o rebentamento do pneu que originou o despiste. «A roda rebentou e só não fui parar à ladeira porque comecei a puxar a carrinha. Nem sequer podia ir em excesso de velocidade, porque a carrinha com aquele peso não dava mais do que 70 a 80 quilómetros hora. Quando se dá o estouro a carrinha começou a fugir mas consegui não ir parar lá abaixo porque era a roda traseira».

Certo é que o motorista nunca se sentiu seguro desde que foi obrigado a conduzir as novas carrinhas com apenas uma roda atrás, de cada lado. «Eu ia sempre com aquela ideia, todas as vezes que saía: um dia vai rebentar o pneu. Naquela manhã, era perto das sete da manhã, quando tudo aconteceu, consegui segurar a carrinha em certa medida, porque com o peso ela acabou por tombar na estrada e foi de rastos. A caixa da carrinha partiu toda e havia caixas de carne por todo o lado. A carne congelada conseguiu-se aproveitar, a fresca ficou moída. Até nas dobradiças das portas havia carne moída», lembra-se o motorista.

Quando a carrinha se imobilizou, e apesar de não estar ferido, José Francisco Malaquias não conseguia sair do veículo. «Ainda tentei partir o vidro da frente para sair, mas seria difícil. Passou um camião do lixo com dois homens e eles é que me ajudaram. Subiram a carroçaria, abriram a outra porta, subi para o banco e saí». Mais tarde, apareceu socorro. «Veio uma carrinha da Cruz Vermelha, parou e perguntaram-me se eu precisava de alguma coisa. Estava a quente, não sentia nada. Depois vieram os bombeiros, meteram-me dentro da ambulância, mediram-me a tensão, verificaram várias coisas e disseram-me que, apesar de me sentir bem, era melhor ir para o hospital».

No meio de todo o caos, José Francisco ainda se lembrou de ligar para os patrões a contar o que tinha acontecido. A primeira preocupação dos patrões foi… com a carne. «Mandaram logo um carro com quatro funcionários para fazerem a trasfega da carne mas só conseguiram aproveitar os congelados. A carga fresca estava toda moída, espalhada pela autoestrada».

José Francisco garante que nunca se sentiu traumatizado, apesar destes dois acidentes, um na cidade, outro na autoestrada. «Se calhar também é porque gosto muito de conduzir, não sei…».

Choque frontal

Mas se José Francisco Malaquias é um caso natural de superação há outros acidentados que, anos depois dos desastres, continuam a sentir pânico ao volante ou evitam passar nos locais onde aconteceram as tragédias. É o caso de Ofélia Tomás, 74 anos, contabilista. «No dia 1 de dezembro de 2021 seguia do Porto Alto para Alcochete. Há uma reta muito grande, com dois traços contínuos. Eu vinha numa carrinha, com um primo, tínhamos ido buscar um cão», detalha a contabilista. «De repente, vejo um indivíduo em contramão e disse o que é que aquela besta estava a fazer em contramão, com dois traços contínuos. Quando parei já estava encostada a ele. Devo ter perdido os sentidos porque há coisas que já não me lembro».

Em tempo indeterminado, Ofélia veio a si. «Havia muito pó do airbag e não quis olhar para o lado, com medo de ver sangue. Nisto, quis abrir a porta mas não consegui, porque a carrinha com o embate encolheu. Tinha o vidro aberto e comecei a pedir socorro».

Um bombeiro acabou por se aproximar. «Socorreu-me e acabei por entrar no carro de uma senhora para me sentar, mas ela vinha com crianças e entraram em pânico, porque doía-me tudo e mais alguma coisa. Nisto vieram mais bombeiros e lembro-me de um fulano, num camião, aos berros, a perguntar quando é que tiravam aquela merda dali, que era a minha carrinha. Fui para o hospital, vi os bombeiros, vi a polícia, isso tudo. Só quis saber, e perguntei, se havia crianças no outro carro. Felizmente, não havia».

No outro veículo estava o condutor e um amigo que não quiseram ir ao hospital. Ofélia, por portas e travessas, veio a descobrir mais tarde o contacto da mãe do condutor. Ligou-lhe. «A senhora disse que o filho não quis ir para o hospital porque ela iria ficar muito apavorada. Ninguém me tira da cabeça, e eu tenho um dedo que adivinha, de que ele tinha consumido droga».

Encaminhada para o hospital de Vila Franca de Xira, Ofélia fez inúmeros exames. «Vim a apurar que tinha uma quantidade de costelas partidas do lado esquerdo, o ombro esquerdo dilacerado – era para ser operada mas não quis – e o joelho também ficou danificado», revela a contabilista.

Trauma que fica

As sequelas ficaram até hoje. «Estive um mês a dormir sentada numa cadeira de massagem. Por acaso estava perto da cama e dava para esticar as pernas». O primo e o cão saíram ilesos do acidente. «Ao longo destes quatro anos fiz exames a tudo e mais alguma coisa. Ainda não consigo estar mais do que dez minutos virada para a esquerda, dói-me muito. O joelho também. Tenho dificuldades com o braço», desvenda.

Além das mazelas físicas, ao contrário de José Francisco Malaquias, Ofélia ficou com danos psicológicos. «Sinto pânico, basta-me ouvir o barulho dos carros na rua», comenta. «Em abril de 2022 comprámos um carro. Um dia fui lá abaixo, ao carro, para ajustar as funções, como o GPS, o satélite, essas coisinhas que as mulheres gostam». O marido desafiou-a a conduzir. «Foi como dar um mergulho em água gelada. Mas peguei no carro e quando terminei a viagem senti aquele prazer de estar a conduzir de novo».

O local do acidente ainda mexe consigo. Ofélia é capaz de fazer muitos mais quilómetros só para não ter de passar naquela estrada. «Às vezes penso que tenho de ir a um psicólogo outra vez. Tenho momentos, de noite, em que acordo e vem-me aquela imagem à cabeça. É um trauma que fica para sempre».

Ao mesmo tempo, a contabilista agradece o que lhe aconteceu. «Na rotunda de Porto Alto houve um homem que tentou meter-se à minha frente. E eu não deixei! Pensei mesmo: ‘Este não se vai meter à minha frente!’. Ele seguiu atrás de mim e vinha com duas crianças. Comove-me muito, porque podia não acontecer nada, mas também podia ter sido ele a bater de frente com o outro e as crianças ficarem feridas. Por isso, foi melhor acontecer-me a mim», avalia Ofélia Tomás. «Agradeci a Deus por me ter salvo e, ao mesmo tempo, com tantos exames, descobri que tenho um aneurisma. Portanto, acho que nada nesta vida é por acaso».

Escola de condução pode ajudar

Para voltar a conduzir sem receios pode haver solução. Uma é voltar à escola de condução. «Todos nós somos formados de maneira que consigamos ajudar estas pessoas com traumas de acidentes», avança João Januário, 31 anos, instrutor de condução há cinco. «Na nossa formação isso já está incluído».

Januário garante que gosta muito de conduzir e de ensinar, condições fundamentais para transmitir segurança aos alunos, sejam ou não encartados. Quanto a situações de trauma já apanhou vários casos. «Temos miúdos, de 16 a 17 anos, que nunca tinham conduzido mas que iam ao lado dos pais ou de amigos e tiveram acidentes. E eles, apesar de não terem podido controlar a situação, ficaram traumatizados devido aos acidentes. Depois, temos as pessoas que têm um acidente logo após tirar a carta de condução. E temos outras que têm acidentes, em que podem ou não ser culpadas, mas com vítimas mortais. Estes são os casos mais graves que nos aparecem, nas escolas de condução», explica João Januário.

Muitas destas pessoas já tiveram, ou estão a ter, consultas em psicólogos que, muitas vezes, aconselham o paciente a voltar à escola de condução. «São pessoas que não conseguem mesmo conduzir. Chegam ao pé do instrutor, na primeira aula, muito nervosas. O grande passo é essa pessoa ter procurado ajuda e, essa ajuda, ter indicado a escola de condução. O segundo passo é a pessoa ir, realmente, à escola e ter força de vontade», realça o instrutor de condução. «Há pessoas que não têm essa força de vontade porque ficaram traumatizadas de tal maneira que não conseguem mesmo conduzir. Depois, as que conseguem, chegam ao pé de nós com muitos medos e vêm muito nervosas, muito ansiosas».

Ondas de choque

João Porfírio explica, em detalhe, o que acontece quando é confrontado com estes alunos. «É quase como se fosse uma primeira aula de condução. As pessoas vêm mesmo a tremer muito. Por exemplo, temos pessoas que quando entram no carro choram muito, têm de ter ali um período para se adaptarem. Nessas situações temos sempre de perceber o que é que aconteceu, não entrando assim em muito detalhe porque é traumático para a pessoa ter de falar nessa situação».

Noutros casos, há alunos que contam logo o que é que se passou. Outros, com o choque, não se lembram dos acidentes em pormenor. «A pessoa entrou de tal maneira em choque que não se lembra. Acontece muito. E depois há pessoas que também não querem, de todo, contar o que aconteceu. Quando as pessoas não querem falar, sabemos que é uma coisa mais grave, até pela própria expressão facial».

O instrutor de condução recorda dois casos. Um deles foi o de uma aluna, que não sabia conduzir, mas ficou traumatizada após vários desastres ao lado da mãe. «Ela procurou-nos para tirar a carta de educação, já tinha à volta de 40 anos de idade. Ela nunca tinha conduzido mas tinha imensos traumas. Em criança, a mãe teve bastantes acidentes com ela dentro do carro», conta. «Um dos traumas que ela tinha é de se lembrar, já com uns 15 a 16 anos, de terem ficado capotadas dentro do carro, numa autoestrada».

Para conseguir levar a aluna a vencer o medo o instrutor João Porfírio deu as aulas de condução por fases. «Fez as aulas normais, dentro das localidades, fora das localidades, com as suas dificuldades, mas conseguiu. O pior é foi quando fomos para a autoestrada. Aliás, tive de estabilizar um bocadinho o carro, com o volante, porque tremia muito». No final das contas, depois de encartada, a aluna telefonou-lhe, com boas notícias. «Contou-me que estava no Porto e que tinha ido pela autoestrada, sem quaisquer problemas».

Outro caso, mais dramático, envolveu a morte de um dos condutores. «Apesar de ele não ser culpado da situação, devido à outra pessoa não ter parado no sinal de Stop, essa pessoa acabou por falecer no local do acidente. Esse também foi um caso bastante grave, o senhor também fez consultas de psicologia e depois tentou vir a uma escola de condução, porque estava com algum receio de pegar no carro. No início estava tão nervoso que nem conseguíamos sair do parque de estacionamento».

O aluno ficou, de acordo com o relato do instrutor de condução, «convencido de que tinha matado o outro condutor. Ficou bastante combalido, apesar de mais tarde ter conseguido voltar a conduzir. Aliás, era quase imperativo voltar a conduzir porque mora numa zona rural, mal servida de transportes, e a esposa não tem carta. Mas, até aos dias de hoje, o pensamento dele é esse: ‘Eu matei uma pessoa’. Nas situações mais graves, o trauma fica para, mesmo, sempre», conclui João Porfírio.