sexta-feira, 13 mar. 2026

Os monges devem renunciar às redes sociais? Prior geral esclarece a sua comunidade

A intervenção do prior geral insere-se numa tentativa de adaptar a herança espiritual de valorização do silêncio aos desafios colocados pela era digital.
Os monges devem renunciar às redes sociais? Prior geral esclarece a sua comunidade

Os monges são conhecidos como membros de uma ordem religiosa que se dedica a uma vida monástica, frequentemente em clausura ou num mosteiro, renunciando aos "luxos mundanos".

Mas será que as redes sociais fazem parte desses luxos?

O prior geral da Congregação Camaldulense da Ordem de São Bento defendeu publicamente que os monges da ordem devem limitar de forma rigorosa o uso da internet, das redes sociais e das plataformas de streaming nas suas celas, como forma de proteger o espírito de recolhimento e oração característico da vida monástica.

A posição foi expressa numa carta enviada às comunidades camaldulenses de vários países por Matteo Ferrari, responsável máximo da congregação e prior do Eremitério de Camaldoli, em Itália. O documento foi divulgado pela imprensa internacional e citado pelo jornal

Na carta, Ferrari reconhece que muitos jovens religiosos pertencem a uma geração profundamente ligada ao mundo digital e admite que a Igreja pode beneficiar das novas tecnologias. Ainda assim, defende que é necessária uma análise cuidada sobre os efeitos desses meios na formação espiritual.

“A cela, que é um lugar de escuta, oração e vida de sabedoria, pode realmente transformar-se num lugar de dispersão, de perda de tempo, de fuga de si mesmo e das suas tensões interiores? Se a cela se transforma num lugar de dispersão e numa sala de cinema individual e individualista, para onde vai a nossa espiritualidade monástica e romualdina?”, questiona.

O prior alerta ainda para os riscos associados ao consumo excessivo de conteúdos audiovisuais. “Acredito que a cela monástica não é o lugar para assistir a filmes individualmente e que é muito mais saudável pensar em momentos comunitários", escreve. "A Netflix e outras plataformas de streaming online, assim como redes sociais como o Instagram e o Tik Tok, pensadas especificamente para causar dependência, acho que devem ser absolutamente evitadas, também por uma questão de pobreza e sobriedade", aconselha ainda na carta.

Segundo Ferrari, os meios digitais devem ser usados apenas como instrumentos de trabalho e não como formas de distração. Em declarações à imprensa italiana, o prior sublinhou ainda que o objetivo da carta não é censurar os monges, mas promover um debate interno sobre um fenómeno que marca a sociedade contemporânea.

“A Regra [de São Bento] fala claramente do ‘silêncio’ depois das completas”, afirma, referindo-se à Regra de São Bento. “Penso que esta custódia do silêncio com amor, hoje, diz respeito também e sobretudo às redes sociais, à internet, aos filmes", explica.

A Congregação Camaldulense mantém uma tradição de forte valorização do silêncio. A intervenção do seu prior geral insere-se, assim, numa tentativa de adaptar essa herança espiritual aos desafios colocados pela era digital.