No último século, milhões de pessoas pagaram, com doenças evitáveis e a própria vida, os lucros indevidos de empresas e investigadores sem escrúpulos. A denúncia é do cientista-médico que preside à poderosa FDA, agência reguladora do medicamento dos EUA.
Os medicamentos trazem todos uma ‘bula’ em papel, onde são descritas indicações terapêuticas e efeitos adversos. O livro Cegueira Clínica é esse folheto informativo, indispensável à nossa segurança, aplicado ao sistema médico e científico como um todo. O autor é cirurgião e investigador da Johns Hopkins University. No ano passado, foi nomeado comissário da Food and Drug Administration (FDA), a mais poderosa agência reguladora de medicamentos e alimentação do mundo.
Com a espada do método científico, Marty Makary corta a cabeça a dezenas de falsas ‘evidências’ em saúde. São produto «de uma forte pressão exercida por algumas poucas pessoas altamente influentes». Pagando a um punhado de líderes de opinião em cada país, a indústria farmacêutica e a alimentar conseguem impor mentiras altamente rentáveis para os respetivos acionistas. Por mais escandalizado, cada leitor pode verificar o que ele alega pela consulta de 441 notas bibliográficas. Vai encontrar duas galerias documentais: uma, de estudos científicos virtuosos; outra, de horrores: ensaios viciados, conclusões manipuladas pelos autores, dados censurados para proteger fármacos nocivos.
Jovens médicos e cientistas devem seguir três regras de ouro: fazer sempre perguntas, mesmo que desafiem consensos; dar tempo à manifestação dos efeitos de terapias inovadoras no longo prazo; aproveitar cada doente para aprender, com empatia e humildade. «Bons médicos tanto usam a experiência clínica individual quanto as melhores evidências externas disponíveis, e nenhuma isoladamente é suficiente», escreveu David Sackett (1934-2017), considerado o pai da Medicina Baseada na Evidência. De Tito Lívio a Warren Buffett, Cegueira Clínica é uma fonte abundante de saborosas epígrafes.
1. Como a indústria alimentar financiou uma mentira
O consumo de gordura como bode expiatório das doenças cardiovasculares é «a maior fraude científica dos nossos tempos». Vários ensaios clínicos foram manipulados. Posteriormente, revisões de dados, pelo método científico, demonstraram o logro. Só que «a indústria do açúcar pagava discretamente aos cientistas que demonizavam a gordura». Assim se impôs, à escala global, o mercado de alimentos ultraprocessados, carregados de açúcar. A indústria farmacêutica fez o mesmo, para alcandorar medicamentos contra o colesterol a campeões de vendas. A Associação Americana do Coração transformou o engodo numa máquina de fazer dinheiro. Vendeu em massa o seu selo «coração saudável» a alimentos e restaurantes com baixo teor de gordura, fechando os olhos aos hidratos refinados. Só em 2015 mudou de recomendações, discretamente, sem perder a face nem o negócio. O pecado original ainda hoje produz inflamação crónica, enfartes e AVC em milhões de pessoas.
2. Antibióticos: a bomba-relógio da Saúde Pública
Nas últimas décadas – e ainda hoje – cerca de «metade dos antibióticos prescritos são desnecessários, estimativa reiterada por vários estudos». São receitados em constipações causadas por vírus, dores de garganta banais, infeções ligeiras. O resultado é uma bomba-relógio sanitária. A cavalo da ganância e da imprudência, as bactérias estão a ganhar a guerra à Humanidade. Hoje, infeções benignas voltaram a matar. Cirurgias simples tornaram a ser um risco, como antes do aparecimento da penicilina. O criador desse primeiro antibiótico, Alexander Fleming (1881-1955), alertou em vida: «O público vai exigir uma nova droga milagrosa, iniciando uma era de abusos». Foi premonitório. Infelizmente, não foi ouvido. As crianças tratadas com antibióticos desnecessários têm riscos aumentados de asma (+90%), obesidade (+20%), dificuldade de aprendizagem (+21%), défice de atenção e hiperatividade (+32%). A doença celíaca (+289%) é uma pandemia nesta população.
3. Mulheres enganadas na menopausa
No século XX, a terapia de reposição hormonal (TRH) na menopausa beneficiou milhões de mulheres: grande redução do risco cardíaco e de fraturas ósseas; melhoria do sono, das emoções e da qualidade de vida. Em 2002, médicos dos National Institutes of Health (NIH), dos EUA, fizeram um estudo com 17 mil mulheres. E interromperam-no a meio, para um anúncio bombástico: a TRH, disseram em conferência de imprensa, aumentava em 26% o risco de cancro da mama. O pânico instalou-se. Mulheres deitaram medicamentos fora, médicos deixaram de os prescrever. «Havia apenas um problema: o estudo NÃO demonstrou essa conclusão». Os autores «haviam distorcido os dados», mas isso foi varrido do debate público. Resultado: uma geração privada de tratamento eficaz. Novos estudos confirmaram os benefícios da TRH, inclusivamente na redução do risco de cancro. Ainda hoje, em Portugal e em todo o mundo civilizado, há médicos a seguir o erro. E mulheres a pagar por isso – muitas delas com a morte por causas evitáveis.
4. O branqueamento dos charros
A canábis foi apresentada como medicamento antes de provar que o era. Com base em estudos sem qualidade científica, o discurso oficial passou a tratar esta droga como inofensiva, apesar da evidência em sinal contrário. «Chamaram-lhe medicina antes de terem feito a medicina». O consumo disparou, sobretudo entre jovens, com produtos cada vez mais potentes. Estudos e meta-análises rigorosos concluíram que a canábis aumenta até seis vezes o risco de esquizofrenia e mais de três vezes o de pensamentos suicidas na adolescência. Enfartes, AVC, depressão e ansiedade são outros efeitos documentados. Marty Makary reconhece o benefício do THC, ingrediente ativo da canábis, em doentes de Crohn e com cancros terminais. Mas critica a legalização do consumo recreativo numa vintena de estados americanos. Em Portugal, foi descriminalizado. «A normalização veio antes da evidência» – e uma geração está a servir de cobaia.
5. Os amendoins de cientistas-macacos
Dois estudantes africanos, recém-chegados a Nova Iorque para estudar na Universidade Johns Hopkins, são surpreendidos no restaurante: antes de os servir, a empregada pergunta se alguém tem alergia a frutos secos. «Em África – respondem – isso não existe». Então, por que razão é um flagelo nos EUA? Nos anos 90, a American Academy of Pediatrics, sem ensaios clínicos sólidos, decidiu proibir os amendoins, em nome da proteção dos bebés. Pediatras do mundo inteiro replicaram a ordem. Pais obedeceram. Creches baniram manteiga de amendoim. Anos depois, quando finalmente se estudou o assunto a sério, descobriu-se o óbvio: a exposição precoce reduz drasticamente o risco de alergia. «Criámos uma epidemia ao tentar evitá-la». As crianças africanas continuavam a comer sopa de amendoim, livres de alergias. Enquanto isso, uma geração de jovens americanos aprendeu a andar com injeções de adrenalina. E a medicina ganhou mais um erro histórico.
6. O 1x2 do Ozempic e similares
As novas injeções ‘milagrosas’ para a perda de peso têm potencial para reduzir efeitos nefastos da obesidade, como doença cardíaca, hepática e insuficiência renal. E não terão riscos, sobretudo a longo prazo? «A verdade é que ainda não sabemos». Os estudos que sustentam os benefícios olham sobretudo para os primeiros anos de uso. E há um alerta que raramente entra nos comunicados: «Esta classe de medicamentos parece reduzir tanto a gordura excessiva quanto a massa muscular». Ora, a massa muscular «é o principal indicador de longevidade». Por isso, os médicos responsáveis exigem aos doentes contrapartidas: exercício físico, proteína, vigilância clínica, tempo. «Embora pareça que estamos a observar benefícios impressionantes para a saúde com estes medicamentos, devemos estar abertos à possibilidade de que futuras pesquisas nos mostrem que as pessoas que os tomam a longo prazo podem ter vidas mais longas ou mais curtas».
7. O cão de Pavlov da febre
Antes da era dos antibióticos, «os médicos induziam a febre numa tentativa de combater as infeções». Isso fazia sentido, porque a temperatura elevada não é inimiga – é defesa, «faz parte da resposta imunitária». Nos anos 1950, apareceu o Tylenol (substância ativa: paracetamol), apresentado como alternativa mais segura à Aspirina. Tal e qual o cão de Pavlov, a maioria dos médicos e dos pais adquiriu um reflexo condicionado: se sobe a temperatura, entra o paracetamol. Ora, bloquear sistematicamente a febre interfere com o próprio mecanismo de combate às infeções. Estudos científicos mostram que isso prolonga doenças virais e aumenta a transmissão. Pior: tem riscos. Em doses ligeiramente acima do recomendado, o paracetamol pode causar lesões hepáticas graves – é uma das principais causas de falência aguda do fígado. «Estamos a medicar crianças para sintomas que o corpo criou por uma boa razão». Será que andamos a brincar aos termómetros, em vez de tratar as doenças?
8. A praga das cesarianas
A cesariana salva vidas quando necessária. O problema é que virou moda, uma espécie de produto de consumo. A Organização Mundial de Saúde recomenda taxas entre 10 e 15%. Em Portugal, atingiu 33% no SNS e 64% nos hospitais privados. Isto representa um atentado à Saúde Pública porque «o modo como nascemos molda a nossa saúde para o resto da vida». Entrar no mundo pelo canal uterino é determinante para a formação de um microbioma rico em bactérias boas. A cesariana, pelo contrário, favorece a colonização do intestino por bactérias hospitalares, patogénicas e resistentes aos antibióticos. Crianças nascidas por cesariana têm risco aumentado de asma (+20–30%), obesidade (+15–30%) e diabetes insulinodependente (+20%). Estudos epidemiológicos concluem pela maior probabilidade de autismo (+30%), esquizofrenia (+30–40%) e psicose (+30–35%). Para a mãe, aumentam os riscos de infeção, hemorragia e complicações em gravidezes futuras.
9. Vacina única para a gripe na gaveta
Dois investigadores do NIH desenvolveram uma vacina universal para a gripe, de toma única ao longo da vida. Alcançaram «resultados incríveis», tanto nos ensaios com animais como nos de ‘fase 1’ em seres humanos, em que é avaliada a segurança em grupos restritos de voluntários. A falta de financiamento está a atrasar o desenvolvimento de uma arma que poderá ser preciosa para a Humanidade. As farmacêuticas preferem «fazer milhares de milhões» com vacinas todos os anos, apesar de se revelarem ineficazes quando não acertam nas estirpes predominantes. A Fundação Gates aposta tudo nas vacinas de mRNA, como a da Covid-19. E até a agência federal dos EUA prefere investir em «vacinas inovadoras com direitos de propriedade intelectual que possam pagar royalties consideráveis ao Governo». O problema é que a vacina universal contra a gripe recorre ao método tradicional, por vírus inativado – e os vírus não podem ser patenteados.
10. Para onde vai o dinheiro?
O sistema promove e recompensa a doença crónica, não a cura. O mercado global das estatinas ultrapassa dezenas de milhares de milhões por ano; as novas injeções contra a obesidade já valem mais de 100 mil milhões nas projeções bolsistas. «Uma pílula diária garante receitas diárias». A indústria farmacêutica é acusada de preferir investir em fármacos vitalícios do que em soluções definitivas: «Os medicamentos crónicos são mais lucrativos do que as curas». Estudos promissores sobre jejum, alimentação, microbioma, estilos de vida — e até para o reposicionamento de medicamentos com patente caducada – não obtêm financiamento. O modelo de negócio determina o que a medicina estuda, aprova e prescreve. «É incrível que gastemos milhares de milhões a tratar doenças sem benefícios, enquanto investimos cêntimos para saber mais sobre a causa dessas doenças», lamenta Marty Makary. O dinheiro seleciona o que tem e o que não tem ‘evidência’. O método científico está capturado.