Para alguns de nós que, de bom grado, apagariam inteiramente das suas memórias os largos anos em que se viam despejados diariamente nesses lugares de domesticação e condicionamento, numa época em que o tempo nos parecia a coisa menos relativa do mundo, com uma fortificação que não precisava de muros, bastando-se na sua inviolabilidade por estarmos convencidos de que não nos restavam alternativas, que tinha mesmo de ser assim, obrigados a passar os dias constantemente de castigo, e, ainda por cima, sofrendo todo o tipo de admoestações e sovas verbais, aqui e ali apimentadas com um estalo ou uma reguada, se nos entregávamos a algum impulso espontâneo, algo que extravasasse os estreitíssimos limites do que é relevante no contexto da sala de aula… Como dizia, para alguns de nós, sempre que se fala dos problemas da escola, é difícil reprimir um reflexo vindo desses dias, e que nos faz proferir algum cacarejo trocista em resposta à última crise, sendo que, não tão secretamente como isso, só estamos à espera da notícia de que nalguma dessas escolas se deu um motim digno de inspirar e contagiar todos aqueles de que se livra a sociedade quando o pavor dos seus castigos perde a eficácia, enchendo as suas prisões. Que se danem. Quando morreu no final do mês passado um dos lendários gazeteiros dos nossos tempos, regressei aos seus escritos, às páginas onde nos serve uma espécie de alforria moral, notando que «às néscias pretensões do mestre a reinar tiranicamente na aula, correspondem com igual tolice o chinfrim e a algazarra que servem de escape às energias reprimidas». Foi numa das páginas do Aviso aos alunos do básico e do secundário de Raoul Vaneigem que li a frase através da qual, depois de anos em que me convenci que tinha tido comportamentos inaceitáveis nas escolas por onde passei, foi como se vislumbrasse essa enorme irmandade com zero a comportamento: «A mão do aluno vinga-se mutilando mesas e cadeiras, maculando as paredes com sinais insolentes, rasgando os ouropéis da fealdade, sacralizando um vandalismo em que a raiva de destruir nele se desforra do sentimento de ver-se destruído, violentado e saqueado pelo embuste pedagógico quotidiano.» Se fui levado a temer esse meliante que se adivinhava por actos e comportamentos que teria dificuldade em confessar, é certo que ficámos sempre à espera de alguém que pagasse a caução não tanto de uma sala onde nos vimos retidos, mas da imputação de que havia algo de seriamente errado comigo. Ainda bem que nalguns casos ainda se nota. «O desprezo de si mesmo e dos outros é inerente ao trabalho de exploração da natureza terrestre e da natureza humana. Por isso pouca gente se indigna pelo facto de o desprezo ser moeda corrente nas relações entre professores e alunos.» Vaneigem continuará por aí a pagar essa caução em nome desses tantos miúdos que não reprimem inteiramente a forma como os lesa «a aberração do mundo às avessas». É certo que, como eu, tantos mais passaram por lá e saíram para provar que, no caso deles, a escola só lhes fez bem. Pois é. «Uma vez fechado o parêntese da desordem tolerada, o espírito recobra os seus direitos, com a missão de reinar sobre o caos. Aqueles que o poder professoral aureolou com a santidade do saber reintegram os seus lugares à cabeça do pelotão. A intelectualidade destes manda para as trevas a besta que roda nas profundezas do ser, ao passo que a sua superioridade se afirma contra a horda dos indisciplinados, dissipados e cábulas, todos qualificados de bestas, segundo um insulto que mereceria ser analisado mais de perto (quando se tomar consciência de que renegar a animalidade das pulsões, em vez de a apurar, não conduz à humanidade, mas sim a uma bestialidade de aparência humana).» De qualquer dos modos, e para facilitar, não me tomem por algo mais que uma simples besta. Mas que isto sirva de introdução, para ultrapassarmos cada um de nós as nossas repulsas e falarmos um pouco sobre a escola que temos e a outra, que gostaríamos de ter.
O pior do debate que se seguiu à catastrófica reforma com a qual nas últimas semanas se quis levar a cabo a digitalização no modo de classificar os exames nacionais, foi o quão pouco se discutiram sequer os pressupostos desta reforma, que irá avançar perante uma espécie de fatigada indiferença, sendo que um dos ardis destas trapalhadas passa por distrair-nos do essencial, não tendo faltado quem corroborasse que eram excelsos e inatacáveis os propósitos da reforma, que, no fundo, serve para subjugar ainda mais os professores, transformá-los nos agentes de uma máquina que não se fica pela avaliação, mas que introduz o regime linear do cálculo e da medida, como nos foi descrito por António Guerreiro num par de crónicas, um regime de pura quantificação, em que ao professor já não é possível introduzir qualquer outro critério, nomeadamente do lado da qualidade, sendo que esta categoria dos professores classificadores constitui, assim, uma «última estação de um percurso que retira aos professores o estatuto de sujeitos de saber», diz-nos Guerreiro. «O saber seria um direito à autonomia, que é precisamente aquilo de que eles foram despojados. Subtraídos ao saber como fonte de legitimidade, só têm direito ao reconhecimento pelo ministro e todo o aparelho gestionário quando cumprem o sacrifício do zelo e da abnegação.» Reduzidos a máquinas calculadores, ou seja, a autómatos, segundo o cronista, «tudo é feito para que o professor classificador intervenha com o seu juízo o menos possível, para que se cumpra uma idealizada e alucinatória objectividade.»
Empurrados desde há décadas para a irrelevância por sucessivas políticas que procuram reformar o sistema de ensino de modo a que este se submeta inteiramente às exigências e aos critérios do mercado de trabalho, os professores têm sido as cobaias de todo este aparelho de saturação ideológica, vendo ser-lhes retirada toda a margem de criatividade, e obrigados a executar infindáveis tarefas burocráticas, perdendo qualquer capacidade de exercer algum arbítrio, e ficando inteiramente à mercê dos processos gestionários e funcionários governamentais dessa máquina que passou a tutelar a escola. Neste sentido cumpre-se à linha aquilo que previra Raoul Vaneigem num dos capítulos do seu livro Arte de Viver para a Geração Nova (1967), quando notava que à medida que se impunha o reino do quantitativo, tudo aquilo que antes definia as atribuições de uma profissão vai-se dissolvendo para fazer de cada indivíduo um ponto «num diagrama no qual os elementos, colocados em abcissas e ordenadas, lhe atribuem o lugar exacto. E não devemos sequer espantar-nos com isto, pois «uma vez que os indivíduos aceitam e fazem existir o poder, o poder também os reduz à sua medida, padroniza-os.»
Há muito que estamos conscientes de como, apesar das tão audazes e consecutivas reformas a que o ensino vem sendo submetido, cada vez mais a escola se transformou numa zona de abate sistemático das tensões apaixonadas e do modo como a juventude se balança entre o prazer e a busca aventurosa, até, por fim, se ver obrigada a ceder, e aquela força vital se «desagregar numa sucessão ofegante de gestos reproduzidos mecanicamente». Como nos diz Vaneigem num passo decisivo do seu Aviso aos alunos do básico e do secundário, «a escola encontra-se no centro de uma zona de turbulência onde os anos da juventude se perdem na melancolia, onde a neurose conjunta do professor e do aluno imprime o seu ritmo à oscilação entre a resignação e a revolta, entre a frustração e a raiva.» Hoje, a escola resiste perante a desolação de todos os seus ideais, limitando-se a impingir ao aluno esse concentrado de valores e ilusões de um mundo que vê já o seu horizonte desfazer-se em pedaços, todas as suas promessas condenadas como ilusões insustentáveis, e desde há muito ridicularizadas pelas próprias matérias disciplinares que devia ensinar, e que se forem apreendidas um pouco além dos limites estritos definidos pela avaliação, quando a ideologia não consegue já amolecer nem deturpar as suas indagações, revelam ao aluno o desastre das circunstâncias em que nos achamos. E assim sendo, «por que razão haveriam então os jovens de se conformar por mais tempo a uma sociedade sem alegria e sem futuro, a uma sociedade que os adultos já só têm a resignação de suportar com azedume e mal-estar crescentes?», interroga este pensador belga.
«O mau ensino, a rotina pedagógica, esse tipo de instrução que, conscientemente ou não, é cínico nos seus objectivos puramente utilitários, é ruinoso. Arranca a esperança pela raiz. O mau ensino é, quase literalmente criminoso e, metaforicamente, um pecado. Diminui o aluno, reduz a uma inanidade cinzenta a matéria apresentada. Derrama sobre a sensibilidade da criança ou do adulto o mais corrosivo dos ácidos, o tédio, o metano do ennui. Para milhões de pessoas, a matemática, a poesia, o pensamento lógico foram destruídos por um ensino inane, pela mediocridade, talvez conscientemente vingativa, de pedagogos frustrados.» Não deveríamos precisar das palavras de George Steiner para dizer o óbvio, mas deve ser sinal da ineficácia sucessiva das nossas denúncias, da enorme autoridade dos preconceitos, da força extraordinária que assume hoje a inércia e a resignação costumeira, se até para isso precisamos de alguma figura de autoridade, uma vez que se tem provado à saciedade a tese de Pasolini de que não há nada mais anárquico do que o poder, este que põe e dispõe como quer, mostrando-se completamente arbitrário, substituindo antigos valores por novos, sempre com base na eficácia, nas necessidades de carácter económico e que escapam à lógica comum.
Se também é certo, como refere Vaneigem, que há professores muito entusiastas, capazes de arrebatar o auditório e de pôr no olvido, por momentos, as detestáveis condições que lhes degradam o ofício», a pergunta que nos devemos fazer é se não será ainda mais desesperante a luta destes, e por quantos mais anos irão aguentar, até acabarem trucidados pelo mesmo enredo que procuram salvar? «Enumerem só, de um lado os burocratas que aterrorizam a turma e por ela são aterrorizados, e do outro os artistas, prestidigitadores e funâmbulos do saber, capazes de cativar sem nunca precisarem de se transformar em vigilantes de escravos ou em sargentos…»
As condições são as piores, e mostram-se cada vez mais penosas sobretudo para estes, para professores como Maria do Carmo Vieira, que morreu dias depois de Vaneigem, e cuja notícia da morte causou bem mais comoção do que a de figuras aparentemente com mais relevo e prestígio social, talvez por muitos mais se reverem nela, ou nessas figuras anónimas, isoladas, que, ao moverem até ao limite das suas forças, da sua paixão, uma luta pela autonomia e a exigência nas escolas, permitindo resguardar algo desse equilíbrio entre confiança e vulnerabilidade, entre responsabilidade e sensibilidade, fazem parte do número desses professores que permanecem disponíveis, nas aulas e depois delas, capazes de despertar o talento de uma criança ou de um adolescente, seja emprestando um livro, fazendo-lhe alguma outra recomendação, ou suprimindo necessidades mais imediatas, conseguindo, por vezes, pôr em marcha uma obsessão, ou lembrar, pelo menos, que a escola podia ser outra coisa. E, aqui, Vaneigem lembra-nos que apesar destes professores excepcionais, este sistema não se limitou a pôr o aluno do ensino básico em edifícios sem alegria, destinados a lembrar, caso o esquecesse, que não está ali para se divertir, mas que, além disso, faz-lhe pairar por cima da cabeça o gládio, simultaneamente ridículo e ameaçador, de um veredicto. «Todos os dias, quer o queira ou não, o aluno penetra num tribunal onde comparece ante juízes sob a conjecturada acusação de ignorância. Tem de provar a sua inocência regurgitando, conforme lhe requerem, os teoremas, as regras, as datas e as definições que hão-de contribuir para a sua libertação no fim do ano escolar.»
E não é curioso como, a partir de certa altura, este regime se reversibilizou, sendo que, nos nossos dias, são cada vez mais os professores aqueles que estão constantemente a ter de dar provas da sua inocência, da sua conformidade às regras, aqueles que foram engolidos pela infindável trama desses enredos reduplicados que levam a que a profissão escolar seja das ocupações sobre as quais parece incidir um maior grau de suspeitas, de tal modo que os professores foram chamados a servir de exemplo, sendo as cobaias da engrenagem totalitária que exprime esse «reflexo de aniquilamento que se inscreve na lógica mortal duma sociedade mercantil cuja necessidade lucrativa esgota o lado vivo dos seres e das coisas, o degrada, o polui, o aniquila». Como lembra Vaneigem, «a expressão examinar, ou seja, proceder em matéria criminal, ao interrogatório de um suspeito e à exposição dos indícios de culpabilidade, evoca perfeitamente a conotação judicial que revestem as provas escritas e orais infligidas aos alunos». Devemos agora compadecer-nos porque, finalmente, também os professores foram submetidos ao mesmo regime? Devemos esquecer que isto funciona como um modo de inversão, em que os processos governamentais se dão conta de que a melhor forma de lidar com os cidadãos é generalizando esta inversão do ónus da prova, cabendo a cada um de nós em todas as circunstâncias comprovar a sua inocência, a sua conformidade com as regras?
Afinal, como também vincou o pensador belga, «uma sociedade cuja única resposta à miséria é o clientelismo, a caridade e a cunha é uma sociedade mafiosa» Por isso se mostrou absolutamente estratégico estender aos professores e, progressivamente, às restantes profissões, aquela convicção de ordem religiosa, uma espécie de pecado original, que pressupunha no aluno «uma fraqueza constitutiva, sempre exposto ao pecado da preguiça e da ignorância de que só o pode absolver a missão por assim dizer sagrada do professor»… Agora, são os burocratas das funções gestionárias da governação quem zela pelas nossas almas, e nisto se funda toda a sua função arbitrária. Ora, só foi possível fazer-nos engolir tal perspectiva depois de um largo período de teste, e daí a necessidade de pôr a escola sob a égide da competitividade, que, como insiste Vaneigem, era um modo de «incitar à corrupção, que é, afinal, a moral dos negócios». De ora em diante, é até difícil encontrar quem estranhe ou conteste o facto de a instituição escolar pertencer hoje ao mundo dos negócios, que, na perspectiva da rendibilidade, não abrirá mão, certamente, de administrá-la cinicamente, reduzindo por igual alunos e professores à função de engrenagens lucrativas.
É também fácil perceber por que estes debates que em tempos foram tão acesos, nos nossos dias se estendem apenas pelo tempo necessário a serem ouvidas e se digladiarem entre si essas «personagens mediáticas que multiplicam a imagem pessoal a fim de conjurarem a nulidade que reflecte o espelho do seu dia a dia». Até aquele vigor das frases que eram sentidas como punhaladas, até isso se desvaneceu. Se Vaneigem nos diz que estamos perante «uma escola onde se aprende a sobreviver, desaprendendo a viver», se em vez desse campo entrincheirado onde tristemente vai apodrecendo uma mão-de-obra de reserva, ele até se pôs ao nível dos nossos actuais governantes, esses que só pensam em termos de atracções e eventos, e os interrogou «por que não fazem vocês da escola um parque de atracções do saber, um lugar aberto aonde os criadores irão falar dos seus ofícios, dos seus arrebatamentos, das suas experiências, daquilo que levam a peito?»
Ao mesmo tempo, e se enquanto advertia que «uma escola onde a vida se aborrece só ensina a barbárie», parecia reagir a essa espécie de sanha inócua dos argumentos que foram pedindo a cabeça (?) do ministro da Educação. Afinal, não agiu ele de acordo com a típica sobranceria e o desprezo que são a forma acertada de transmitir mensagens cujo sentido só diz respeito a quem desistiu já de entender a escola senão como «uma arena onde as frustrações se despedaçam». «A pior resignação», diz-nos Vaneigem, «é aquela que a si mesma atribui o álibi da revolta. Terão vocês acaso tão pouca estima pelas vossas próprias pessoas que nem tempo tenham para identificar os vossos desejos viventes?». No fundo, e com raríssimas excepções, o debate só serviu para abrir espaço a outra arena em que outros especialistas fingissem saber já o que deve ser a escola, e isto no seio duma sociedade que continuamente prescreve a renúncia à vida para melhor se consagrar a um labor que a esgota. Afinal, aumente-se ou diminua-se o nível da exigência, e mesmo que os programas sejam substancialmente revistos e melhorados, como vinca Vaneigem, «é necessária toda a parvoíce dos pedagogos especializados para alguém se espantar pelo facto de tantos esforços e canseiras infligidos aos alunos redundarem em tão medíocres resultados». Porque o problema de fundo mantém-se: «Aprender sem desejo é desaprender a desejar.» Outro frase forte para desenjoar das pequenas intrigas de poder entre rivais que, no fundo, concorrem para alterar só um pouco as coisas, para que tudo permaneça na mesma: «Aquilo que se ensina pelo medo torna o saber temeroso»… E, desenvolvendo esta ideia, no seu aviso o belga nota que a autoridade legalmente atribuída ao docente põe um gosto tão amargo no conhecimento que a ignorância chega a enfeitar-se com os louros da revolta.
Mas porque esta temperatura radical se torna meio achacante face à nossa tentação para o conformismo, e em sendo necessário temperá-la com a persuasão daquelas figuras que esbanjam reputação, fiquemos com uma frase simétrica de Steiner. «De facto, como bem sabemos, muitos daqueles a quem entregamos os nossos filhos nas escolas secundárias, a quem pedimos orientação e exemplo na academia, pouco mais são do que amigáveis coveiros. Trabalham para reduzir os alunos ao seu próprio nível de fatigada indiferença.»
Como é quase sempre o caso, o buraco está mais em baixo, e já em 1827, numa carta a um amigo, Goethe assinalava a forma como a velocidade se tornara a característica fundamental da contemporaneidade: «Riqueza e velocidade, eis aquilo a que o mundo admira e a que todos aspiram. Caminhos-de-ferro, correios rápidos, barcos a vapor e todas as facilidades possíveis da comunicação, eis para o que tende o mundo civilizado, de modo a sobrecivilizar-se, persistindo assim na mediocridade…»
Aparentando ser um simples incremento do estado de coisas, na verdade, a velocidade altera-as profundamente, sendo que a técnica chegou hoje a um ponto de aceleramento tal que restringe a capacidade da maioria de nós de responder ao novo, ficando lançados para fora do tempo, havendo uma revolução que se opera, assim, de forma a privatizar a própria comparência, deixando a vida de ser um dom, fazendo da miséria uma condição que cada vez mais força a que se calcule tudo em termos de risco e ganho. Em suma, somos lançados num vórtice em que levamos as nossas vidas absorvidos numa espécie de especulação desesperada – tendo a própria regularidade do trabalho sido substituída pelo risco de vida, e cada um reconhece o perigo de deixar de se pertencer, ver o seu tempo dominado por coacções articuladas entre si, que, na prática, levam o homem a viver uma ocupação interior, uma espécie de automatização reflexa.
No fundo, na escola como em tantos outros níveis onde se consome o tempo das nossas vidas, é evidente como a técnica das máquinas se tem imposto de forma ubíqua, ao mesmo tempo que tende para se dissimular e miniaturizar, transmigrando para o interior dos corpos, muitas vezes sendo a própria estrutura que define os métodos de organização. Assim, o espaço de controlo leva a que os imperativos económicos sejam instituídos a par dos processos de informatização, num regime cada vez mais acelerado e, no qual, se leva a cabo uma revolução permanente que tem lugar de forma tão rápida que ninguém parece dar por ela.
«A inteligência mantém-se fossilizada, aparentando impotência para apreender a mutação que está a operar-se ante os nossos olhos, diz-nos Vaneigem. «À cadência com que os imperativos económicos se apropriam dos sentimentos, das paixões, das necessidades, pagando a pronto a sua falsificação, em breve nada mais restará ao homem que a lembrança de ter existido um dia. A história, na qual se viverá retrospectivamente, será o consolo de se sobreviver. Como poderia a verdadeira alegria caber num espaço-tempo mensurável e medido?»
E, no entanto, o sistema económico não dá sinais de oferecer tréguas, atenuar a asfixia, continuando a reclamar do sistema de ensino uma fabricação maciça de estudantes incultos, incapazes de pensar, que assumam de forma dócil que devem contribuir para o estado de coisas provando que estão ideologicamente amestrados, incapazes de reconhecer o desequilíbrio obsceno que se lhes exige, entre estágios laborais com o tinir quotidiano do engodo da remuneração a ressoar absurdamente, enquanto se acatam condições humilhantes, buscando um alívio, um vínculo de qualquer espécie e que traga consigo umas tréguas, enquanto o próprio dinheiro se vai desvalorizando, e uma falência comum leva a maioria a sacrificar os melhores anos e, depois, também os piores da sua vida, entre baixos salários, recibos verdes, precariedade, anuindo às noções de flexibilidade, adaptabilidade, sem nunca alcançar a tal condição satisfatória. Estamos sempre sob o efeito dessa miserável esperança da promoção social, duma carreira que aligeire o peso com que suportamos cada dia, como se a vida fosse apenas uma preparação para a própria vida.
Foi contra essa opressão generalizada e escravidão mercantil que toda a vida se bateu Raoul Vaneigem, contra a «gélida obscuridade duma vida ausente», foi nestes processos de degenerescência das instituições que pretendiam servir a invenção da humanidade que ele reconheceu como os autocratismos estavam já por toda a parte, ainda que dissimulados. «A democracia triunfa com a automatização social. A democracia é o poder limitado do maior número e o poder do maior número limitado», assinalava ele no seu libelo de 1967. E noutra passagem desse livro que, juntamente com A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord, e Da Miséria no Meio Estudantil, de Mustapha Khayati, ofereceu uma linguagem à insatisfação que viria a explodir no movimento das ocupações do Maio de 68, Vaneigem provou a estupenda clarividência das suas análises ao notar que, «à medida que a automação e a cibernética deixam prever a substituição em massa dos trabalhadores por escravos mecânicos, o trabalho forçado revela pertencer puramente aos processos bárbaros de manutenção da ordem». «O poder fabrica assim a dose de fadiga necessária à assimilação dos seus ultimatos televisionados.»
A revolução em curso não seria possível sem esse efeito de assimilação ou de cumplicidade das pessoas, a sua complacência perante todas as misérias, e significa que a grande receita ideológica fora já disseminada entre os indivíduos, na medida em que deixaram de se identificar entre si, e procurar afinar a partir daí as suas diferenças, estabelecendo relação de solidariedade, colocando a amizade e a espontaneidade à frente da sanha de se beneficiar dos demais. Toda a degradação que se tornou possível, toda essa dimensão anárquica e autocrática do poder, dependia de uma privatização da própria metafísica. O indivíduo fora levado a só se identificar consigo mesmo no momento em que se separa dos demais, entrava em conflito, competia para assumir preponderância, para submeter a si os outros. Nada disto está na natureza do homem, mas, como assinala Vaneigem, «esfolando-nos vivos, o poder considera ponto de honra persuadir-nos de que somos nós que mutuamente nos esfolamos». Assim, com as suas mentiras reiteradas, a ideologia vai penetrando na carne daqueles que não conhecem do mundo um toque que não os fira, e assiste-se, deste modo, «à absolutização de pequenos seres particular, de pequenos ‘cidadãos’ disponíveis devido à atomização social; a imaginação inchada do egocentrismo erige em universo aquilo que cabe num ponto, igualzinho a milhares de outros pontos, grãos de areia livres, iguais, fraternos, afadigados como formigas cujo sábio labirinto foi posto em desordem».
De algum modo, a crise da metafísica é uma consequência da forma como o mundo da mercadoria se impõe aos desejos, sendo «o seu movimento idêntico ao afastamento dos homens entre si». Tudo se degrada na sua representação, as imagens destroem à medida que viram tudo o que é concreto do avesso, até só nos permitirem uma coerência abstracta. Essa constatação viria a arrastar consigo a dissolução do próprio movimento situacionista, que Vaneigem integrou entre 1961 e 1970. Com o Maio de 68, quando o slogan «a imaginação ao poder» apareceu por toda a parte nos muros de Paris, e assim se mostrou de forma esmagadora a astúcia da sociedade do consumo, na sua capacidade de incorporar e apropriar-se dos próprios signos da revolta, levando a que a imaginação se cristalizasse no Imaginário. Como refere Franco ‘Bifo’ Berardi, esse predomínio do imaginário acabou por paralisar a imaginação, ficando cada vez mais claro que vivemos submetidos às máquinas de produção do imaginário padronizado, que se infiltraram na mente colectiva e vão introduzindo automatismos psíquicos, linguísticos e relacionais.
Na cisão entre Debord e Vaneigem, está uma dissensão sobre a possibilidade de reclamar ainda uma «verdadeira vida», tendo Debord insistido que «a sociedade real não seria já capaz de imaginar nada que não tenha sido produzido nos laboratórios do Sistema Global Homologado». Esse efeito de homogeneização do imaginário, a que Debord chamou «espectáculo», diz-nos que aquilo que deve ser visto, que cada vez mais faz por aparecer, não pode ser de nenhuma forma vivido.
Vaneigem procurou reagir a isto, e na sua carta de demissão da Internacional Situacionista, em 1970, começou um processo de auto-crítica do movimento em que participara de forma tão apaixonada, reconhecendo que o mal-estar que se gerara no seio do grupo se devia em parte à falta de penetração das suas ideias no meio proletário, mas também ao facto de o modo de comportamento situacionista tender para duplicar o ódio de si, uma vontade de demolição que não estava isenta de niilismo, de pulsão de morte. «Na histeria paranóica do nosso grupo de hemofílicos esfolados ressoava o eco de uma exaltação que queríamos que fosse romântica; mas era apenas mórbida.»
Muitos anos mais tarde, ao reflectir sobre a desagregação do grupo, Vaneigem diz-nos que a dissensão entre os seus membros se intensificara até ao ponto da denúncia paranóica: «de traições à radicalidade, de desvios do espírito revolucionário, de abandono da consciência». «Esses tempos de catarse e anátema estão agora há muito ultrapassados, e talvez seja útil examinar de que modo lançámos as sementes do fracasso pelo qual o grupo acabaria por pagar um preço tão elevado.» Contudo, numa reflexão mais abrangente, sobre os próprios efeitos do Maio de 68, Vaneigem continuou a reclamar a força das recusas que desde então não mais deixaram de se fazer sentir no meio das nossas sociedades. «Ainda que hoje assistamos à reciclagem de ideologias e a um remendar à pressa as velhas enfermidades religiosas, lançadas depois ao consumo para alimentar um desespero generalizado, de que os nossos mandantes e negociantes tiram proveito, estes esforços não poderão ocultar por muito tempo a mudança de civilização revelada pelo Maio de 1968. A ruptura com os valores patriarcais é definitiva. Caminhamos para o fim da exploração da natureza, do trabalho, do comércio, da predação, da separação de nós próprios, do sacrifício, da culpa, da renúncia à felicidade, da fetichização do dinheiro, do poder, da hierarquia, do desprezo pelas mulheres e do medo que elas inspiram, do engano das crianças, da dominação intelectual, do despotismo militar e policial, das religiões, das ideologias, da repressão e das soluções mortíferas para as tensões psíquicas. Não descrevo um facto, mas um processo em curso que simplesmente exige de nós uma vigilância, uma consciência e uma solidariedade acrescidas para com a vida. Temos de voltar a enraizar-nos para reconstruir – sobre fundamentos humanos – um mundo arruinado pela desumanidade do culto da mercadoria.»