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Ouviu falar em "cúpula de calor" mas não sabe bem o que significa? O termo entrou esta semana no vocabulário de meteorologistas de meia Europa e a razão é simples: o fenómeno está a provocar temperaturas que raramente se viram tão cedo no ano em países como Reino Unido, França e Portugal. Perceba o que se está a passar e o que deve fazer para se proteger.
O que é, afinal, uma cúpula de calor?
A cúpula de calor é um sistema persistente de alta pressão atmosférica que funciona como uma tampa colocada sobre uma panela ao lume, aprisionando o ar quente e empurrando-o para baixo. O resultado é um bloqueio que pode durar dias ou mesmo semanas, impedindo a entrada de frentes frias e dissipando a cobertura de nuvens. Sem nuvens a filtrar a radiação solar e com o ar comprimido junto ao solo, as temperaturas disparam para valores muito acima do normal.
Neste caso concreto, o fenómeno resulta de uma massa de ar quente proveniente do norte de África que ficou retida sob um sistema de alta pressão sobre a Europa Ocidental. A Météo-France descreveu este episódio como uma "vaga de calor precoce, notável e duradoura", alertando para temperaturas até 12°C acima da média sazonal.
E em Portugal, o que esperar?
Em território português, as previsões do IPMA apontam para temperaturas próximas dos 40°C em algumas regiões do sul e do interior. O fenómeno deverá prolongar-se até ao dia 31 de maio de 2026, sentindo-se com maior intensidade nas regiões do interior e no sul do país.
O IPMA antecipa também a possibilidade de noites tropicais, ou seja, temperaturas mínimas iguais ou superiores a 20°C, na Beira Baixa, no interior do Alentejo e no Sotavento algarvio. O instituto alertou ainda para perigo de incêndio muito elevado em várias regiões, um risco que a combinação de calor extremo, vento e baixa humidade torna especialmente preocupante.
As poeiras do Saara: o perigo que vem a par do calor
A cúpula de calor não veio só. O ar quente trazido do norte de África transporta consigo partículas finas de areia do deserto do Saara em suspensão na atmosfera. A presença dessas poeiras deteriora a qualidade do ar, podendo agravar problemas respiratórios e cardiovasculares.
A Direção-Geral da Saúde recomenda que crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias e cardiovasculares permaneçam, sempre que possível, no interior dos edifícios e mantenham as janelas fechadas. A conjugação de calor intenso com má qualidade do ar representa um risco acrescido para quem já tem a saúde fragilizada.
Que outros países estão a ser afetados?
Portugal não está sozinho. Uma onda de calor está a atingir a Europa com temperaturas recorde para maio e alertas das autoridades em países como Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Áustria e República Checa. O impacto já é visível nos registos históricos:
O Reino Unido registou, esta segunda-feira, o dia mais quente de maio da sua história, com os termómetros a atingir os 34,8°C nos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, quebrando o recorde anterior em dois graus Celsius. Na terça-feira, esse registo foi novamente superado, com as temperaturas a chegar aos 35°C.
A França registou calor "sem precedentes" para esta altura do ano, com sete mortes direta ou indiretamente ligadas ao calor, incluindo pelo menos cinco por afogamento e óbitos ocorridos durante eventos desportivos.
Na Bélgica, os termómetros deverão subir aos 31°C. Em Espanha, as previsões da AEMET apontam para 36 a 38 graus nos vales do Ebro, Guadiana e Guadalquivir.
O que deve fazer para se proteger?
A Direção-Geral da Saúde emitiu recomendações específicas para os dias de calor extremo. Siga estas orientações:
Beba frequentemente água, pelo menos 1,5 litros por dia, mesmo sem sentir sede, e evite bebidas alcoólicas e com cafeína.
Evite a exposição solar direta entre as 11h00 e as 17h00.
Permaneça em ambientes frescos ou climatizados durante duas a três horas por dia e mantenha janelas, persianas e estores fechados nos períodos de maior calor.
Use roupas leves e de cores claras e proteja a cabeça com chapéu quando estiver ao ar livre.
Preste atenção especial aos grupos mais vulneráveis: crianças, idosos, grávidas e doentes crónicos.
Em caso de sintomas como suores intensos, febre, vómitos, náuseas ou alterações do ritmo cardíaco, contacte o SNS 24 pelo número 808 24 24 24 ou ligue 112 em situação de emergência.
Vai ser sempre assim?
O que está a acontecer esta semana não é um acidente isolado. A cúpula de calor é um fenómeno meteorológico que se torna mais provável e mais intenso devido às alterações climáticas provocadas pelo homem. A Météo-France sublinha que as ondas de calor tão precoces tenderão a ocorrer "cada vez mais cedo, mais vezes e com maior intensidade".
Os números são difíceis de ignorar: mais de 62 mil pessoas morreram de causas relacionadas com o calor na Europa durante o ano mais quente alguma vez registado no planeta, em 2024. O El Niño emergente, um padrão climático natural que pode trazer temperaturas globais acima da média, pode tornar 2026 e 2027 ainda mais quentes.