Não se ensina aquilo que se aprende, quer porque não se aprende aquilo que foi ensinado, quer porque o que foi ensinado é rejeitado pela consciência. Em qualquer dos casos, o transvase de conteúdos é impossível e indesejável porque deve ser escrupulosamente repensado a partir de cada um. É isto o que devo argumentar a partir de José Afonso enquanto professor. Mau aluno confesso, cabeça na lua propenso ao lirismo precoce, Zeca começou por ensinar num colégio privado em Mangualde nos anos 50, antes da primeira experiência no ensino público nos anos 60, de onde foi expulso - os revezes do azar, de professor conhecido nos meios políticos e na oposição, para a difusão popular até aos dias de hoje enquanto cantor, a 14 contos por mês ao troco de um disco por ano entre 1968 e 1973.
O que mais podemos inferir a partir do ensino de José Afonso? Maus alunos podem ser excelentes professores, e muito bons alunos podem ser professores maus. Há ainda um segundo sentido da tese que comecei por apresentar. Não se ensina o que se aprende porque também se partilham dúvidas, problemas por resolver, dificuldades de leitura.
Também aqui, “saber” no sentido pastueño do termo - ter a certeza absoluta, i.e., ter lido isso em qualquer manual de instruções - não é necessário para dar lições. Há uma anedota boa de José Afonso, que terá dito: «eu seria incapaz de ler “O Capital” no seu conjunto». É claro, há mais qualquer coisa a inferir: José Afonso mostrou que o método mais eficaz de mudar de assunto é mudar de assunto. Do ponto de vista retórico, argumentar contra é ainda lidar com a presença de um cenário como se ele fosse real, como num debate parlamentar sobre orçamentos. Disse José Afonso na sala de aula: «Sou contra esta situação. O Salazar é um bandido. Não vos vou dar Organização política, isto é tudo mentira». Criticar a organização política das colónias de uma forma detalhada seria ainda valorizá-la. Ou ainda, cair num credo de sinal contrário (no caso marxista-leninista) seria perder a razão. Ao lado de uma montanha de propaganda, fazer um lago de peixes.
O que eu sinto na presença de um bom professor é a abertura de um novo mundo, imaginário e real a um tempo. Ensinar não é sobretudo dizer “certo”, “errado”, pôr números à frente de pessoas, o que se chama avaliar. Não. Ensinar é partilhar um esboço a lápis com a turma que será passado, deformado e colorido ao traço de cada aluno, com muitas cores diferentes. Escuso de dizer que este modo não é o mais frequente. Isto foi dito por um filósofo português (vivo) de forma sugestiva: não temos de escolher entre o modelo antigo do aluno paciente e o modelo novo do aluno cliente. Um dos principais vetores das aulas do Zeca era, a contra-senso, restaurar nos estudantes a ideia principal do crescimento: a autonomia. «O meu envolvimento nas coisas foi sempre existencial, de observação directa das situações que me revoltaram. É algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo».
Eles deveriam fazer a sua parte. «Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes o portão do conhecimento, da cultura e da verdade». José Afonso chamava o propósito existencial das suas aulas.
É muito fácil de ver que há uma discrepância entre o valor fundamental que José Afonso atribuía à sua posteridade enquanto professor face à de cantor e poeta. «Quero que um dia mais tarde me recordem como um professor honesto e decente que nunca se vergou». Sendo o autor de “Com as minhas tamanquinhas” muito intuitivo e pouco dado à reflexão processual sobre a criação de composições musicais, era ao invés extremamente auto-consciente do seu papel e do seu individual “método” de ensino. Por “método” não entendo um modelo pedagógico mas um conjunto de passos relativamente estável na sua forma específica de ensinar. José Afonso era daqueles que acha que se ensina pelo caráter, e que não há método transmissível. «Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso acho que não devem copiar. Há-que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês».
A minha dúvida parece estar menos funda. Como seria possível a um aluno revel ensinar fosse o que fosse? É o caso para dizer que se encontra a resposta também na vida, na minha experiência, mas não desejo ir por aí. As aulas do professor José Afonso eram, revistas agora, exatamente aquilo que eu esperava que fossem. Uma espécie de catarse. O seu lado introspetivo deslaçava numa libertação efusiva. Era frequente que o professor passasse os primeiros minutos da aula calado a olhar o pátio da escola pela janela, antes de se levantar num espanto e começar a relampejar, num improviso, que tomava um tom épico. É isso que nos dizem os relatos dos alunos. Isto nos diz, de novo, que a tarefa de José era manter a mente ativa dentro da sala de aula. Pensar em voz alta. Um estímulo para que os alunos compreendessem o velho Sócrates desafiante.
Cada aula do Zeca era diferente da outra. Há qualquer de repentista e inesperado: um elemento estranho, um novelo que vai sendo puxado a partir da deflagração inicial do problema. Há, com certeza, um lado experimental numa boa aula. E há um elemento de contra-poder, como divagar acerca de um conjunto de verdades pessoais. Assim, segue se intuitivamente um princípio dado por um filósofo inglês há 100 anos: «Desconfie sempre das autoridades, pois que há sempre uma autoridade em sentido contrário para ser encontrada».
Extrapolando, eu aplicaria com proveito uma máxima conhecida dos antigos. Só deveria exercer a autoridade quem não desejasse muito fazê-lo. Um dos testemunhos diz-nos que José era muito diferente dos outros docentes. Assim podemos dizer, corrigindo uma frase famosa, que os bons professores são todos diferentes, e que os professores maus são todos parecidos entre si. Um erro castiço destes últimos é confundir formar com formatar, boa educação com boas maneiras e cortes de cabelo. Até aí, tudo bem. A coisa é mais grave quanto o erro é de má-fé e a boa educação tem que ver com perfilhamentos, intimidações e assédio. Não é mau dizer bom dia ou chegar a horas, mas é mais importante compreender o que são dias maus e o que significa chegar cedo demais. Alguém cujo nome ignoro disse que só se pode ensinar aquilo que pode ser aprendido. Eis um limite ao poder do professor, que às vezes perde o tino e começa a falar de assuntos privados, coisas que só ele entende. Com linguagem privada se faz nada.
Um bom professor tende a ser autónomo, como um jornalista, um poeta, ou um humorista. Há uma razão para que o poder institucional quase nunca lide bem com professores bons. Eles disputam o mesmo género de poder, e como se diz acontecer entre tribunais e governo: o ganho de um é a perda do outro. A isto se chamou o poder do carisma: governantes querem guardá-lo no bolso como ao santo graal, dominar a sua fórmula e mantê-la em segredo. A capacidade de dizer palavras em voz alta é, desde sempre, um domínio reservado às elites. Assim se explica o perpétuo efeito de desmoralização dos professores como um alargamento do poder autoritário. Não é caso singular de repressão: ora os políticos se fazem passar por jornalistas, ora os despedem. Ora as faculdades servem para os ministros laurearem umas aulas, ora os ministros impedem que se dê aulas. Há ainda um terceiro grupo, que não consta que alguma vez tenha frequentado aulas.
* Setúbal, I Congresso Internacional
José Afonso, 26 de outubro de 2024