terça-feira, 16 jun. 2026

O lado escondido do Jardim Zoológico de Lisboa

Fomos conhecer o parque, que acaba de celebrar 142 anos e conta com mais de dois mil animais selvagens e muitas atividades, sobretudo para as crianças. A VERSA conta-lhe tudo o que há para fazer e mostra-lhe os bastidores deste jardim encantado.

Entrámos no Jardim Zoológico de Lisboa por uma das portas dos fundos e contamos-lhe o lado desconhecido do maior parque de animais selvagens do país. A primeira paragem é nas instalações dos koalas. Nasceu uma cria há sete meses mas ainda não tem nome. «Neste momento temos quatro koalas e uma cria. Ainda não tem nome porque passa muito tempo resguardada na bolsa da mãe e ainda não conseguimos fazer a sexagem», começa por revelar Sara Vicente, bióloga e tratadora destes e outros marsupiais, como os cangurus. «Daqui a um mês, mês e meio, quando a cria começar a andar cá fora, fazemos a sexagem e depois é-lhe atribuído um nome».

Para entrarmos nas instalações dos koalas, que incluem uma cozinha onde é preparada a alimentação dos animais, tivemos de passar os sapatos por dois líquidos desinfetantes. «Temos de ter o cuidado de manter esta zona o mais limpa possível e, também, o mais calma possível». Tudo isto porque estes pequenos seres oriundos da Oceânia são extremamente delicados. «São muito sensíveis», avisa a tratadora. «Os koalas dormem mais de 20 horas por dia devido à alimentação. São animais que se alimentam exclusivamente de eucalipto. O eucalipto, além de tóxico, tem poucos nutrientes. Por isso eles têm de descansar bastante, para conseguirem fazer a digestão e também para acumularem energia com poucos nutrientes».

Estamos, por agora, dentro da cozinha de apoio, um dos espaços dentro das instalações dos koalas. Uma arca frigorífica, encastrada na parede, esconde inúmeros ramos de eucalipto. «Ao contrário do que as pessoas possam pensar, o eucalipto não é todo igual; há vários tipos diferentes de eucalipto. Eles não comem as folhas, só os rebentos que estão a nascer nos galhos», explica Sara Vicente, enquanto mostra algumas ramagens que já foram exploradas pelos koalas e onde os rebentos já não existem.

Mas há mais trabalho para fazer na cozinha dos koalas. «Nesta cozinha também fazemos a preparação da comida do urso formigueiro, que para já está aqui ao pé de nós». Também no zoo a tempestade Kristin teve os seus efeitos e destruiu parte das instalações deste urso. O animal acabou por mudar de casa e tem agora, como vizinhos, os marsupiais até que as suas instalações voltem a estar prontas para o receber. «Também temos os cangurus, também preparamos aqui a sua comida e, aproveitamos, já que temos a arca frigorífica, para guardar os vegetais – sobretudo no verão – para termos a certeza de que nada se estraga».

Por ali, há também material de limpeza para as instalações dos koalas. Sara revela como são tratados os koalas, todos os dias. «O maneio acontece da seguinte forma: temos as instalações climatizadas e fazemos um registo de temperaturas três vezes ao dia. Também temos de ter cuidado com as humidades. Depois, fazemos o registo do eucalipto, o que eles comeram e em que quantidades, e procedemos à limpeza das instalações».

Na cozinha há uma balança com um tronco em cima que chama a atenção. «Devido à alimentação, os koalas são uma espécie em que tem de ser ter muito cuidado em termos de pesagem. Mantemos sempre o peso dos animais bastante monitorizado e, uma vez por semana, pegamos nos koalas e trazemo-los à balança». E porquê o tronco? «Como são animais arborícolas e queremos que se sintam o mais confortáveis possível, temos esse tronco onde eles ficam sentadinhos e quietinhos. Assim, conseguimos fazer a pesagem com calma e exatidão».

A acompanhar a visita da VERSA ao zoo está Luísa Paulos, do Departamento de Comunicação e Marketing. É quem nos explica de onde vem o eucalipto para os koalas. «Neste caso específico temos uma parceria com uma empresa florestal que nos fornece os vários tipos de eucalipto». Há muitos mecenas a contribuir para o Jardim Zoológico de Lisboa, nomeadamente grandes superfícies comerciais que oferecem frutas, legumes e carne para os animais, entre outros alimentos. Ainda assim, grande parte da alimentação tem de ser comprada pela instituição.

PERGUNTAS “ESPETACULARES”

Com mais de duas mil bocas para alimentar, o preço dos bilhetes de entrada no zoo é muito importante para a sua manutenção. «O Jardim Zoológico não é só uma montra de animais selvagens, mas sê-lo também é muito importante», começa por dizer Rui Bernardino, veterinário-coordenador do Jardim Zoológico. «A montra é importante por duas razões: uma porque o nosso jardim zoológico sempre foi privado e, se não for a montra, as pessoas não veem estes animais. Além disso, se o zoo não for, também, uma montra, com bilheteira, não há dinheiro para alimentar os bichos».

O veterinário defende que o caminho para a autossustentabilidade do Jardim Zoológico assenta numa mudança de mentalidades. «Ou as sociedades se organizam para que este tipo de instituições funcione sem a necessidade da bilheteira e, então aí, não há a preocupação de haver uma montra. Mas para serem autossustentáveis, que é um conceito que deve ser valorizado, temos de perceber como é que uma máquina destas funciona sem qualquer tipo de ajuda». Rui Bernardino chega a uma conclusão: «Obviamente, que estes animais têm de ser vistos pelo público».

De qualquer das formas, a exposição dos animais selvagens acaba por ser importante. «A sociedade está cada vez mais longe daquilo que são os valores da vida animal e daquilo que estes simbolizam. Há aqui uma oportunidade, também única, de consciencializar as pessoas que nos visitam». O público infantil contribui bastante para esta consciencialização sobre a vida animal. «Essa consciência começa muito pelas crianças mas, algumas vezes, temos de tirar os pais da equação, porque não estão preparados para as dúvidas das crianças, nem estão preparados para olhar para uma placa informativa e ver o que lá está: ou seja, não estão preparados para não terem uma resposta e para irem à procura dessa resposta», resume o veterinário.

Rui Bernardino já assistiu a situações curiosas. «Vejo perguntas espetaculares dos miúdos, que podem ser respondidas em três segundos, mas o pai nem se dá ao trabalho de ver o que está escrito na placa informativa que existe junto dos animais». E lembra um caso concreto: «Já ouvi uma criança a perguntar ao pai que animal era aquele. O pai dizia que era um urso, mas era um gorila. E a placa estava ali a dois metros. As pessoas até podem não saber distinguir os animais, mas está lá a informação».

O HOSPITAL ONDE SE OPERAM GIRAFAS

Enquanto conversamos visitamos as diversas salas do hospital veterinário do Jardim Zoológico de Lisboa. «Nos nossos projetos educativos há a possibilidade de as crianças virem até aqui. Temos uma equipa muito boa ao nível da educação, que trabalha muito bem com as crianças e dá esse suporte. As crianças não só visitam o hospital como visitam os bastidores e falam, diretamente, com os tratadores», sublinha o veterinário enquanto nos mostra as salas onde são tiradas ecografias, radiografias, feitas endoscopias e até cirurgias. Uma grande maca insuflável chama as atenções, no bloco operatório. «Aqui foi operada uma girafa há pouco tempo», conta Rui Bernardino, que estagiou no Jardim Zoológico e por cá ficou, há 23 anos. Há também uma farmácia e salas cheias de utensílios para todos os tipos de tratamentos, à semelhança do que acontece num hospital para humanos.

Uma gorila está doente. «Tem um problema neurológico e até contámos com a ajuda de um neurologista de humanos para tratá-la. Felizmente, está a responder bem aos tratamentos». No caso dos primatas, estão habituados a receber, diariamente, colheres com arroz ou iogurte. Por isso, não é necessário injetá-los ou adormecê-los: a medicação é dada na mesma colher, que eles lambem satisfeitos.

Mais à frente, numa das muitas zonas ajardinadas do parque, encontramos Diogo Gomes, biólogo e responsável pelos programas educativos do centro pedagógico do Jardim Zoológico de Lisboa. «Temos algumas parcerias-chave, incluindo o ministério da Educação. Os programas educativos que temos, neste caso para as escolas, são reconhecidos pelo ministério e funcionam como um complemento à sala de aula», observa Diogo Gomes.

Neste caso, as crianças ou adolescentes, acompanhados pelos professores, têm acesso a uma verdadeira aula ao ar livre. «Não é uma simples vinda para ver os animais mas sim para ter essa aula ao ar livre, junto dos animais, junto desta biodiversidade. Os educadores ambientais falam dos mesmos conteúdos que o professor e com a mesma linguagem, mas com técnicas diferentes, para chegarem a este público».

ATIVIDADES PARA TODAS AS CRIANÇAS

Há programas para todos os gostos e faixas etárias juvenis. «Temos programas adaptados aos vários níveis de ensino, desde o pré-escolar – em que os meninos podem ver uma princesa a andar pelo seu reino, que é o reino dos animais – até visitas com conteúdos mais complexos, como a evolução das espécies, o darwinismo, o lamarckismo, para os alunos do 11º e 12º anos, em que aprendem sobre as teorias da evolução», desvenda o responsável pelos programas educativos do zoo.

No Dia da Criança, 1 de junho, o Jardim Zoológico está ainda mais preparado para dar as boas-vindas aos mais novos. Haverá várias atividades, entre elas as tão desejadas pinturas faciais, para tornar o dia ainda mais divertido e especial. E numa altura em que se aproximam as férias escolares, há muito mais para fazer neste espaço. «Temos os campos de férias, que são um grande sucesso, desde o público mais novo, a partir dos três anos, até aos 16 anos. Os campos de férias incluem muitas atividades, jogos, caças ao tesouro e encontros com alguns profissionais do zoo, como os jardineiros ou os tratadores».

Durante os campos de férias, as crianças passam o dia todo no Jardim Zoológico, de segunda a sexta-feira, entre as 08h30 da manhã e as seis da tarde. O preço começa nos 65 euros por criança.

‘À noite no Zoo’ é outra oportunidade prevista para os mais novos conhecerem melhor o parque centenário, em Sete Rios. «Temos também para várias faixas etárias mas é mais focado nas crianças. Podem participar escolas ou grupos de escuteiros», explica Diogo. «Os valores que são transmitidos nos escuteiros, que também são um público que nos visita muito, são muito semelhantes àqueles que transmitimos aqui no Jardim Zoológico e têm a ver com o respeito pela biodiversidade e a conservação das espécies».

Neste caso, os grupos de crianças têm dormida no Jardim Zoológico e assim podem ver o que acontece quando a noite cai. «Temos muitos animais noturnos, que começam a acordar ao final do dia, e as crianças têm esse privilégio de os ver acordar, de os ver mais ativos e, claro, encontrar-se com os tratadores desses animais que lhes vão explicar os inúmeros mistérios que envolvem os animais noturnos». As experiências com este programa têm corrido muito bem. «Os miúdos saem daqui encantados e com motivação para proteger os animais», diz, entusiasmado, o coordenador de projetos educativos.

Os grandes felinos, como tigres, leopardos ou leões, mas também os rinocerontes ou os koalas são alguns dos animais que têm maior atividade noturna. «É a oportunidade perfeita para apresentar os animais às crianças, durante a noite. E elas adoram, também, andar pelo Jardim Zoológico com as luzes apagadas. É todo um ambiente que as crianças gostam imenso».

Para desfrutar do programa ‘À noite no zoo’ os preços, com alojamento e pequeno-almoço, começam em 75 euros por criança. Os meninos entram no Jardim Zoológico às seis da tarde e saem no dia seguinte, perto do meio-dia. «Temos umas salas que são próprias para tal e os meninos dormem nessas salas. Depois, existem todas as atividades, seja no período noturno ou até na manhã do dia seguinte, em que eles veem o Jardim Zoológico a acordar, os tratadores a chegar, a pôr as alimentações dentro das instalações dos animais. Todo o programa acontece na rua, no exterior».

As suricatas e os linces-ibéricos são, por agora, os animais preferidos dos mais novos. Tendências que vão mudando ao longo do tempo. «Às vezes, também está relacionado com os filmes de animação que estão mais em voga. Por exemplo, na altura do ‘Rei Leão’ eles queriam muito ver os leões», exemplifica Diogo Gomes.

Certo é que participar nestes programas do Jardim Zoológico de Lisboa pode moldar, ou acentuar, vocações. «Às vezes, o Jardim Zoológico tem um impacto tão grande na vida destas crianças, que já tivemos casos de jovens, que agora já são adultos, e que se tornaram biólogos, veterinários ou investigadores que andam pelas várias partes do mundo, a descobrir e a estudar estes animais». Algo que dá particular gosto aos cerca de 40 animadores do centro pedagógico. «Obviamente, vamos percebendo que temos impacto na vida destas crianças, sobretudo quando temos conhecimento destes casos. É a prova provada de que estamos a fazer um trabalho bem feito e no caminho certo, em prol da conservação das espécies e da natureza», finaliza Diogo Gomes.

TRABALHO EM REDE

Para a despedida, a VERSA tem à espera Dália e Vicentina, mãe e filha. São duas okapis; a Vicentina já nasceu no zoo de Lisboa. «São animais oriundos da floresta densa do Congo», observa Bernardo Peso, um dos tratadores da espécie que é familiar das girafas. O pai de Vicentina foi, entretanto, transferido para outro jardim zoológico da Europa.

O Jardim Zoológico trabalha em rede com outros zoos europeus, para manter a conservação das espécies e a procriação também faz parte de programas de reintegração na vida selvagem. «Existe um coordenador da espécie internacional e há uma coordenação por vários zoos para manter esta espécie com diversidade genética. Como a população de okapis é reduzida é necessário haver essa rotação para não haver nenhum tipo de consanguinidade. Brevemente, iremos receber outro macho», detalha o tratador.

Os okapis são animais sensíveis sobretudo aos pequenos barulhos à sua volta, que confundem com a aproximação de predadores. É preciso falar baixo junto de Vicentina e Dália para que não se assustem. Mas, habituadas à presença de humanos, aceitam festinhas dos jornalistas. Os tratadores tratam da sua alimentação, pesagem, limpeza das instalações mas também as ajudam nos seus ‘cuidados de beleza’. «Quando é a muda do pelo escovamo-las, para ajudar a sair o pelo morto. Os cascos vão-se desgastando mas, se for preciso, também os arranjamos».

Bernardo nunca levou um coice, mas avisa: «São animais sensíveis e, cada passo que damos, tentamos não as surpreender para não sermos... surpreendidos».