No rescaldo do comboio de tempestades que assolou Portugal nos dois primeiros meses de 2026, importa decidir o que fazer no futuro. Ao contrário do que tem sido feito nos últimos anos, seria inteligente decidir com visão estratégica onde colocar os nossos recursos finitos.
Engenharia à prova de catástrofes?
Sempre que ocorre uma cheia devastadora, um sismo ou uma tempestade fora do padrão, regressa a mesma pergunta: por que não construímos estruturas verdadeiramente à prova de catástrofes? A resposta é menos confortável do que parece. Não se trata apenas de falhas técnicas ou negligência política, mas de um limite estrutural imposto pela própria matemática do risco.
As catástrofes pertencem ao domínio dos valores extremos, não ao da experiência regular. A engenharia trabalha com distribuições probabilísticas - cargas médias, picos expectáveis, margens de segurança. Nos fenómenos naturais extremos - sismos, cheias, ventos, ondas, temperaturas elevadas - o que importa não é o comportamento médio, mas o máximo possível ao longo do tempo. É aqui que entram dois conceitos distintos: resistência e resiliência. Resistência é a capacidade de não sofrer danos perante uma perturbação; resiliência é a capacidade de absorver, adaptar-se e recuperar após essa perturbação.
Estes fenómenos são descritos pela estatística de valores extremos, que estuda a distribuição dos máximos (ou mínimos) de um conjunto de observações. A teoria mostra que, sob condições gerais, os extremos convergem para famílias específicas de distribuições, como a distribuição generalizada de valores extremos (GEV) ou, no caso de excedências acima de um limiar, a distribuição de Pareto generalizada. Em muitas situações físicas, estas distribuições apresentam caudas pesadas: pequenas variações no parâmetro de forma implicam grandes diferenças na estimativa de acontecimentos raros. Ao extrapolar para períodos de retorno de 50, 100 ou 1000 anos, entra-se numa região de escassez de dados e elevada incerteza.
Quando se fala em eventos de ‘100 anos’ - como a expressão ‘cheia centenária’ - refere-se uma probabilidade anual da ordem de 1%, não uma periodicidade fixa. Trata-se do quantil associado a um período de retorno de 100 anos. Em Coimbra, no Mondego, as cheias de 1948 são um evento dessa ordem, com caudais superiores a 3000 m³ por segundo, que em 2026 não se verificaram. Dois eventos dessa magnitude podem ocorrer em anos consecutivos, ou pode passar um século sem que se repitam. A linguagem comum sugere regularidade; estamos perante probabilidade. Projetar para o pior cenário concebível implicaria projetar para o quase ilimitado - algo estatística e economicamente impraticável.
Por isso, a engenharia não elimina o risco; otimiza-o. O objetivo não é segurança absoluta, mas minimizar o risco total esperado: probabilidade de falha multiplicada pelo custo das consequências, ponderada pelos custos de construção e manutenção ao longo da vida útil. Construir para eventos extremamente raros exige investimentos elevados para evitar ocorrências que podem nunca acontecer. Esses recursos deixam então de estar disponíveis para manutenção, redundância, sistemas de alerta ou áreas essenciais como educação, investigação, cultura, saúde e segurança.
Estruturas excessivamente rígidas tendem a falhar de forma súbita quando o limiar de projeto é ultrapassado. A engenharia moderna prefere estruturas que deformam sem colapsar, diques que galgam sem romper e redes com redundâncias em vez de pontos únicos de falha. Valoriza também soluções adaptadas ao contexto envolvente - como enrocamentos dimensionados para leitos de cheia junto a infraestruturas críticas, designadamente autoestradas. O foco deixa de ser impedir qualquer falha e passa a ser limitar as consequências quando ela ocorrer.
Esta lógica aplica-se também à decisão individual. Quem constrói em leito de cheia, numa encosta instável ou numa zona costeira vulnerável faz uma escolha sob risco. Beneficia, na maior parte do tempo, da localização ou do menor custo inicial, mas assume uma probabilidade não nula de perda significativa. Não é possível querer simultaneamente o benefício permanente da localização e a eliminação total do risco associado. A decisão coerente é adaptar a construção ao risco - elevando pisos, reforçando estruturas, aceitando danos controlados - ou transferi-lo através de seguro, inevitavelmente mais caro. O que não é racional é esperar que perdas recorrentes sejam sistematicamente suportadas pela coletividade. O planeador público deve ser estratégico na definição da ocupação do solo; o investidor privado deve ser criterioso na escolha do terreno e na construção.
O mesmo princípio vale para a construção pública. Quando o Estado investe em pontes, hospitais, escolas, barragens ou redes elétricas, compromete recursos presentes e futuros. Projetar abaixo do nível adequado gera custos futuros elevados; projetar muito acima pode imobilizar capital escasso que reduziria riscos mais prováveis. Acresce um problema de incentivos: poupanças imediatas são politicamente visíveis; falhas graves surgem muitas vezes décadas depois. A gestão responsável exige critérios explícitos de risco, análises custo-benefício transparentes e incorporação de cenários extremos plausíveis - sem cair na ilusão de invulnerabilidade absoluta. Por exemplo, enterrar toda a rede elétrica é extremamente caro; enterrar segmentos críticos em zonas de risco elevado é racional.
O risco é dinâmico
Estes pressupostos não são estáticos. A teoria clássica dos valores extremos assume frequentemente estacionariedade - a ideia de que a distribuição não se altera no tempo. As alterações climáticas fragilizam essa hipótese. Se os parâmetros evoluem, tornando fenómenos mais frequentes ou intensos, os períodos de retorno deixam de ser constantes e o próprio conceito de ‘fenómeno centenário’ torna-se dinâmico. Um evento que ontem correspondia a uma probabilidade anual de 1% pode hoje representar risco superior.
Isso não invalida a lógica do risco calculado, mas exige revisão periódica dos parâmetros de projeto e das prioridades de investimento. Em vez de sistemas concebidos para o clima do passado, é necessário projetar para distribuições em mutação.
Proteger o essencial e cuidar rapidamente das populações
O conflito não é entre segurança e imprudência, mas entre recursos finitos e incerteza extrema. A gestão racional assenta no cálculo do risco e na preparação para o raro.
Nem todas as estruturas têm o mesmo peso sistémico. Algumas são críticas: comunicações, sistemas elétricos, abastecimento de água, hospitais, centros de comando de proteção civil, forças de segurança e bombeiros. A sua falha desencadeia efeitos em cascata.
Nestes casos, o projeto deve assegurar robustez superior, redundância efetiva e capacidade autónoma de funcionamento. Nas comunicações, isso implica integrar ligações por satélite, redes de emergência e nós descentralizados. Hospitais e quartéis devem dispor de energia independente e reservas adequadas. Centros de comando protegidos garantem continuidade operacional em condições extremas. O objetivo não é criar fortalezas invulneráveis, mas assegurar um núcleo funcional capaz de coordenar resposta e recuperação.
Num sistema interdependente, proteger nós estratégicos tem retorno sistémico superior ao reforço indiscriminado de todas as estruturas. A boa política pública identifica prioridades críticas e reforça seletivamente o que sustenta o conjunto.
A mesma lógica aplica-se aos recursos hídricos. A resiliência não depende apenas da resposta à emergência, mas da capacidade estrutural de armazenamento e regulação. Num país sujeito a secas prolongadas e a precipitações concentradas, a gestão da água é infra-estrutura estratégica. A construção de novas barragens onde tecnicamente se imponham - como o projecto de Girabolhos na bacia do rio Mondego -, entre outras a construir no país, não é capricho desenvolvimentista, mas instrumento de estabilização sistémica. A oposição sistemática a estas decisões por pequenos grupos de pressão, mesmo quando sustentadas por critérios ambientais, revela a dificuldade crónica em distinguir entre prudência ambiental e bloqueio estratégico. A resiliência exige escolhas. E escolhas implicam decisão.
Há que conciliar entre as reservas dos ecologistas e a protecção da vida dos cidadãos e da comunidade.
Proteção civil e militar
Quando comunicações falham e vias estão cortadas, é essa capacidade que determina a diferença entre perturbação grave e colapso prolongado, como veio a ocorrer, sintoma de extrema impreparação para fenómenos extremos.
A resposta exige meios próprios, mobilizáveis sem atrasos administrativos nem dependência exclusiva de empresas privadas igualmente afetadas. É necessária capacidade orgânica do Estado: transporte pesado, engenharia de campanha, pontes provisórias, desobstrução de vias, comunicações temporárias, hospitais de campanha e abrigos.
Historicamente, essa função era assegurada por uma engenharia militar robusta e unidades de sapadores especializadas. A sua redução criou um vazio operacional. Em cenários de grande escala, o país necessita de forças treinadas, profissionais, disciplinadas, com comunicações próprias e logística autónoma, capazes de atuar nas primeiras 24 a 48 horas. A futura alocação de 5% do PIB à defesa deveria reforçar esta capacidade.
Não se trata de militarizar a proteção civil, mas de reconhecer que engenharia pesada e mobilização rápida são ativos estratégicos. Um sistema resiliente deveria incluir regimentos de engenharia com capacidade de projeção interna e batalhões de sapadores especializados em catástrofes, integrados com autoridades civis.
Onde houve profissionalismo e competência - como nas forças armadas, IPMA e na APA - a resposta foi eficaz e evitaram-se males maiores. A alternativa é improvisação. A experiência recente evidenciou fragilidades de coordenação e escassez de meios disponíveis; o SIRESP permanece um exemplo paradigmático dessas limitações. A resiliência constrói-se antes da emergência.
Investir em capacidade própria não exclui parcerias privadas, mas garante um núcleo autónomo capaz de estabilizar a situação até à normalização logística. Tem custo permanente, mas revela o seu valor quando o improvável acontece.
O verdadeiro teste
Num contexto de alterações climáticas e aumento de eventos extremos, a discussão não deve centrar-se apenas em pacotes de legislação ou planos abstratos, comissões técnicas independentes que fazem relatórios que ninguém lê, mas na pergunta essencial: estamos organizados para agir nas primeiras horas?
Se a resposta não for inequívoca, então não estamos preparados.