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Naquele dia havia uma grande expectativa no bloco de partos do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Era terça-feira, 26 de fevereiro de 1986. O médico António Pereira Coelho, pioneiro em Portugal nas técnicas de procriação medicamente assistidas (PMA), não disfarçava a ansiedade, durante o parto, como confessou mais tarde à Imprensa. A parturiente era Alda Saleiro que, apesar de ter tido uma rutura da bolsa, lamentou não ter conseguido ir ao cabeleireiro antes de dar à luz. Foi assim que nasceu Carlos Saleiro, o bebé que haveria de se tornar um homem de 1,85 e futebolista com carreira feita em diversos clubes, incluindo o Sporting, nas épocas 2009/2010 e 2010/2011.
Aos 40 anos de idade, Carlos Saleiro já pendurou as chuteiras. O seu nascimento, esse, foi o pontapé de saída para a esperança de todos as mulheres e casais que não conseguiam ter filhos de forma natural.
Desde então, as técnicas de procriação medicamente assistida têm evoluído bastante mas é a FIV (fertilização in vitro) a que continua a dar mais resultados. A VERSA conversou com três mulheres que continuam a lutar para terem um filho. Adiar a maternidade para idades cada vez mais tardias, algumas condições de saúde ou causas desconhecidas estão na origem da infertilidade. Pedir ajuda no SNS é demorado; no privado só para bolsas bem abonadas.
Crédito para engravidar
Quem convive com a infertilidade e quer ser mãe vai até às últimas consequências. Ana Nascimento, gestora de eventos, tem 39 anos e endividou-se para seguir com os tratamentos, apesar de estar inscrita na lista de espera do Centro de Procriação Medicamente Assistida (CPMA) do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Em agosto de 2023, após uma primeira consulta no CPMA, voltou e ficou a saber que os seus óvulos já não teriam condições para formar embriões. «Quando eu vou a esta consulta deparo-me com uma médica que, muito friamente, me diz que os meus óvulos já não iam dar, tendo em conta as minhas análises. O tratamento teria de ser com óvulos de dadora, e, basicamente, perguntou-me se queria entrar na lista de espera ou não», recorda.
Ana queixa-se da alegada frieza da médica. «Foi muito desagradável. Posso, literalmente, dizer que ainda nem me tinha aconchegado na cadeira, já ela me estava a dar a notícia. Assim, como se estivesse a falar de uma coisa absolutamente normal…». Aceitou entrar na lista mas a idade limite para continuar em espera são os 40 anos, que irá completar em outubro. Por isso, decidiu recorrer a um hospital privado. «Quando fui à primeira consulta no privado o valor que nos apresentaram foi de 6500 euros».
Sem recursos financeiros suficientes, Ana e o marido resolveram pedir um empréstimo bancário para poderem continuar a sonhar com um filho biológico. «Esse valor de 6500 euros inclui uma dadora, que nos dá oito óvulos. Desses óvulos, eles garantem no mínimo dois, que têm de sobreviver. Se sobreviver só um, cancelam tudo e procuram uma dadora nova», explica a gestora de eventos.
Ana fez a primeira tentativa e engravidou, só que teve um aborto às seis semanas. No início de 2025 fez nova tentativa, com o segundo óvulo, mas também sem resultados. «Tive aquilo que eles chamam uma ‘gravidez química’, que é uma gravidez que pega mas desagarra logo a seguir, não evolui».
Naquele momento, Ana e o marido ficaram desiludidos. «Duas tentativas e oito mil euros depois continuávamos na estaca a zero. O preço aumentou porque a primeira transferência de embrião está incluída, mas a segunda já é paga à parte e são 1800 euros. E do SNS também não nos davam notícias».
Mesmo assim não desistiram. Investiram mais 6500 euros num novo ciclo de tratamentos, apesar de ainda estarem a pagar o empréstimo do primeiro. «Desta vez não precisámos de pedir empréstimo porque os meus pais e os meus sogros fizeram questão de nos ajudar», revela Ana Nascimento. «Conseguimos ficar com quatro óvulos», conta.
Ana está a ser avaliada várias vezes por semana, para a médica decidir o melhor dia para implantar o novo óvulo. «Estamos agora numa fase em que estou a ser seguida duas vezes por semana, para tentar fazer uma fertilização em ciclo natural. Pode ser a qualquer momento», anima-se a gestora de eventos a quem foi diagnosticada uma menopausa precoce. «O meu organismo é uma caixinha de surpresas. Tem de ser seguido este plano muito rigoroso até aparecer o dia certo».
Ana e o marido estão juntos há sete anos e sentem, também, uma grande expectativa por parte de amigos e conhecidos que, frequentemente, perguntam quando é que eles vão ter um bebé. Ana já aprendeu a lidar com isso. «É normal. Toda a gente conhece o meu marido desde pequeno e sabe que um dos maiores sonhos da vida dele é ser pai. Quem me conhece também sabe que sempre quis ser mãe. Portanto, é normal que perguntem». Mas nem sempre foi assim: «Já passei pela fase da raiva, da tristeza, da frustração, agora estou conformada».
Passar por este processo também «impacta a nossa vida, enquanto casal. Posso dizer-lhe que na primeira tentativa que engravidámos e perdemos, nós, enquanto casal, unimo-nos ainda mais, ao contrário de 90% dos casos. Tive a certeza de que tinha a pessoa certa ao meu lado».
Adotar uma criança também já passa pela cabeça de Ana e do marido. «Uma das coisas que nós fizemos neste ano foi ir à primeira reunião dos processos de adoção porque sabemos que também é muito difícil. Neste momento, por exemplo, para se adotar uma criança até aos três anos o tempo de espera são sete anos. Sete anos é muito, muito tempo».
Apesar de tudo, Ana garante que a adoção será sempre «a nossa última opção». Não ter filhos, biológicos ou adotados, é que está «fora de questão. Queremos ter um filho. Não sabemos como. Em último caso, será através da adoção e, se não conseguirmos um bebé, será uma criança mais velha».
Ana está animada com esta expectativa de ser chamada a qualquer momento para a implantação do óvulo da dadora. E deixa um apelo: «Gostava de dizer, a todas as mulheres, que não têm problemas nenhuns se doarem óvulos. Não impacta nada na sua saúde. Claro que as pessoas têm de tomar alguma medicação para induzir a ovulação, mas não é nada que as vá prejudicar, futuramente, para terem um filho. Acho que há pouca divulgação disto e é por isso que as listas de espera estão tão grandes, porque não há doações suficientes».
Cláudia Bancaleiro, da Associação Portuguesa de Fertilidade (APF), acrescenta: «As dadoras de óvulos e os dadores de espermatozoides são ressarcidos por este ato de altruísmo que têm. As mulheres, dado que o processo é um pouco mais complexo, por causa da medicação que têm de tomar, e as ecografias, recebem um valor superior, de cerca de mil euros. Os homens podem ganhar entre 50 e 70 euros por dádiva».
Problemas géneticos graves
Enquanto Ana Nascimento dá a cara por esta causa, muitas mulheres preferem o anonimato, sobretudo para não serem confrontadas com o assunto por familiares e amigos. É o caso de Maria (nome fictício), bióloga, de 44 anos. Aceita encontrar-se com a VERSA após vários telefonemas e, no dia da entrevista, mostra-se tensa e nervosa. «Não posso deixar escapar certos pormenores, senão percebem logo que sou eu», desabafa. Damos-lhe o seu tempo até à conversa começar a desenrolar-se.
Aos 38 anos, Maria e o companheiro decidiram que queriam ser pais. Tentaram durante um ano, sem resultado. «Aos 39, fomos a uma clínica e começámos um tratamento horrível, que não correu bem. Mesmo assim, passado um ano, voltámos. Fizemos primeiro dois ciclos, não deu certo. E depois, quando tentámos de novo, também não correu bem», recorda. Foram, ao todo, quatro tentativas frustradas.
Maria treme muito e as lágrimas tentam escapar-lhe dos olhos. «Eu sou bióloga, posso explicar o que é que está a acontecer», prossegue. «Sobretudo por causa da minha idade pedimos sempre para fazer a testagem genética dos embriões antes de implantar. E depois, quando fazem a testagem genética, o resultado é que não são euploides. Isto quer dizer o quê? Os euploides são os normais. Ou seja, têm as cópias dos cromossomas iguaizinhas. E quando são aneuploides, ou seja, não euploides, há alguma cópia que está a menos ou a mais. Isso pode motivar a falha na gestação. Muitos dos abortos espontâneos são por causa disto. Em caso de uma gravidez que é levada para a frente podem surgir problemas, como o Síndroma de Down».
Maria consegue ovular e, por isso, por agora não pensa em usar material genético doado. «Existem outras formas de sermos pais, por exemplo com a doação de espermatozoides, ovócitos e até de embriões. Já falámos sobre isso mas não é a nossa preferência, neste momento. Outra opção é a adoção, claro. No meio disto tudo, além do desgaste emocional e físico há ainda a questão financeira».
Maria e o companheiro já investiram 16 mil euros nos ciclos que fizeram de PMA. «É muito dinheiro. E, além disso, também há a medicação a tomar e as deslocações à clínica, que não fica onde nós moramos, o que implica ainda mais despesas. Tudo isto está a ter um impacto muito grande nas nossas finanças».
A relação do casal também tem sofrido altos e baixos. «Eu sempre fui a pessoa que quis insistir em continuar, apesar de ser eu a sofrer com toda a parte das injeções, as dores, as hormonas, tudo. Lia muito sobre o assunto e cheguei a ficar obcecada em encontrar uma solução para melhorar a qualidade dos meus óvulos. Ao mesmo tempo, pressionava o meu marido, para seguir tudo isto». Resultado: «Já tivemos problemas e agora também não andamos bem».
Apesar da idade e das falhas consecutivas Maria ainda não perdeu a esperança. «Sempre gostei de bebés. Há inúmeras fotografias minhas com bebés de outras pessoas, desde que era criança». No final, sorri. «Ainda esta manhã recebi uma mensagem de uma amiga, da minha idade, que também estava neste tipo de processo. Não estava a funcionar, ela quase não ovulava. E agora engravidou naturalmente! Por isso é que eu digo que tentar não é totalmente descabido, mesmo com a minha idade».
A vida num limbo
Diana, 37 anos, professora, também quer engravidar. Uma adenomiose (doença no endométrio) está a impedi-la de conseguir naturalmente e, por isso, também recorreu à PMA. «No processo de FIV conseguimos dois embriões para fazer depois a transferência. Mas não consegui a gravidez», começa por revelar. Os custos totais ascenderam aos 10 mil euros. Diana falou, então, com o médico de família e conseguiu aceder a uma consulta de PMA no SNS.
Só que para este casal, que vive no Algarve, há ainda outra situação difícil e que também implica custos adicionais: as deslocações ao Hospital Garcia de Orta, em Almada, onde são agora seguidos no CIRMA – Centro de Infertilidade e Reprodução Medicamente Assistida. Diana não desiste, apesar das viagens e dos tempos de espera. «Neste momento, o CIRMA mandou-me convocatória para voltar lá, para iniciarmos o processo. As listas de espera são absurdas mas para quem não tenha recursos económicos não há outra hipótese», desabafa.
A professora recorda, agora que deseja tanto engravidar, outras fases da sua vida. «Cresci com o medo de uma gravidez indesejada. Porque era disso que se falava, de como uma gravidez indesejada destruía a nossa vida. Portanto, eu cresci com esse medo, eu não cresci com medo de haver um fator biológico, a idade, que depois pode dificultar a gravidez».
Hoje, sente a vida parada. «Há dois anos que eu tenho a minha vida condicionada por causa disto. Porque é a medicação, são os gastos… Porque depois estou em tratamento também não posso viajar, não posso ter os meus hábitos de vida. No fim das contas, faço vida de grávida há dois anos, isso é muito desgastante».
O marido já tem dois filhos, mas o casal quer mesmo um filho em comum, embora isso implique momentos agridoces. «Há casais e casais. No meu caso, há dias e há momentos», confessa Diana.
Vivem, sobretudo, alguma angústia perante a infertilidade. «Era preferível que alguém dissesse que não vai ser possível e, a partir daí, nós redirecionávamos a nossa vida, o nosso pensamento, os nossos objetivos, para uma vida sem filhos». E continua: «Há todo um universo para quem não tem filhos. Não tenho problema nenhum com isso, acho que vidas com e sem filhos conseguem ser igualmente desafiantes e com coisas diferentes a acrescentar. Viver nisto é viver num limbo. De vez em quando, há uma consciência do ‘não posso fazer’, ‘não posso ir’, ‘este dinheiro que tenho ao invés de estar a investir numa coisa qualquer para fazer uma progressão aqui, para me potenciar ali, tem de ser para os tratamentos’… É um peso. A infertilidade é pesada».
Diana quer deixar evoluir a situação e ver no que dá, mas não deixa de lado a adoção. «A partir de determinada altura, se não conseguir ser mãe por esta via... Um processo de adoção não é algo que eu exclua, exatamente porque estou habituada a ser maternal com uma data de crianças, que não são biologicamente minhas, e isso não afeta o amor».
Pensando bem em tudo o que já passou, nos últimos dois anos, Diana quer deixar um recado a outras mulheres, que estão na mesma situação. «Não se deixem engolir por isto, como se fosse tudo e fosse a única coisa. Não é. E é muito fácil isso acontecer quando estamos num processo destes onde, de manhã à noite, temos de ter a vida controlada para um objetivo que não se sabe se ocorrerá ou não». E se não acontecer? «É muito difícil que isso depois não cause frustração porque é um jogo de probabilidades. Por isso, não podemos construir tudo à volta desta parte da nossa vida. Porque se o fizermos e não resultar, no final não vamos ter nada».
Governo chamado a agir
Em linha com todos os casos que aparecem na APF, Cláudia Bancaleiro deixa um recado também para o Ministério da Educação. «As pessoas têm de ser ajudadas e tem de haver este esclarecimento desde jovens. Esta é outra área que nós trabalhamos, que é a literacia nas escolas sobre esta questão da infertilidade, não é só a educação sexual. É muito importante falar da possibilidade de haver estes problemas», avisa. «Há que depois ter de trabalhar, obviamente, essa informação para torná-la minimamente atraente para os jovens, porque sabemos que com 15 ou 16 anos ninguém vai estar a pensar em ter filhos. Mas é importante saberem que, a partir de uma certa idade, normalmente a barreira é ali os 35, a fertilidade decresce em 50%, e portanto, quem quiser ter…».
A criopreservação de óvulos e espermatozoides é outra saída para jovens adultos que querem adiar a chegada da cegonha. Aqui, o recado da APF é para o Ministério da Saúde. «A criopreservação a nível público não existe. Uma mulher, uma jovem, não consegue dirigir-se ao Serviço Nacional de Saúde e pedir a criopreservação dos seus óvulos, a não ser que tenha uma questão médica previamente diagnosticada, que possa interferir com a sua capacidade reprodutiva», explica Cláudia Bancaleiro.
Este serviço está disponível nos serviços de saúde privados mas é muito dispendioso, além de ter custos anuais de manutenção das células. «Há quem o consiga fazer, há quem o esteja a procurar fazer, e isso existe. Mas é complicado estar a dizer às pessoas para o fazerem, quando a nível público não há essa oportunidade».