O eclipse já passou, mas o que deixou em Portugal vai muito além das imagens impressionantes

O eclipse solar levou milhares de pessoas a Trás-os-Montes, esgotou alojamentos e deixou um impacto significativo na economia local. Mas o fenómeno foi muito além do turismo: os animais estiveram sob observação, a produção de energia foi afetada e até o Presidente António José Seguro acompanhou o fenómeno a partir do Palácio de Belém.

O eclipse solar que atravessou Portugal esta quarta-feira deixou muito mais do que imagens impressionantes no céu. O fenómeno levou milhares de pessoas ao nordeste transmontano, esgotou o alojamento na região de Bragança, gerou um impacto significativo na economia local e serviu também de oportunidade para observar o comportamento dos animais perante a alteração repentina da luz.

Enquanto milhares de pessoas se concentravam em Bragança para assistir aos cerca de 26 segundos de totalidade, noutras partes do país o eclipse foi observado de forma parcial. No continente, a ocultação do Sol variou entre 92% e 99%, enquanto nos arquipélagos da Madeira e dos Açores ficou entre 74% e 77%.

O que aconteceu em Portugal?

Em Portugal continental, o eclipse começou ao final da tarde. Em Lisboa, por exemplo, a fase parcial teve início pelas 18h39, atingindo o pico cerca das 19h36 e terminou pelas 20h29, com cerca de 94,5% do disco solar ocultado no momento máximo.

A situação foi diferente no extremo nordeste do país. Numa pequena faixa de Trás-os-Montes, a Lua chegou a cobrir completamente o Sol, criando os poucos segundos de totalidade que tornaram esta região particularmente procurada para observar o fenómeno.

Em Bragança, uma das localidades portuguesas mais associadas à faixa de totalidade, o eclipse total proporcionou um breve período de escuridão durante o dia.

Bragança transformou o eclipse numa oportunidade económica

A pequena faixa do território português onde foi possível assistir à totalidade colocou Bragança no centro das atenções.

A procura por alojamento começou meses antes do fenómeno e, nos dias que antecederam o eclipse, hotéis, alojamentos locais e parques de campismo da região estavam praticamente lotados.

Mas, o impacto foi sentido para lá dos quartos disponíveis.

A presidente da Câmara Municipal de Bragança, Isabel Ferreira, e assistiu ao eclipse no aeródromo da cidade e afirmou, em declarações à agência Lusa, que a forte procura se traduziu em ganhos importantes para a região. Segundo a autarca, só em alojamento e hotelaria foram gerados mais de 300 mil euros por noite.

A estimativa dá uma dimensão do efeito que um acontecimento astronómico pode ter numa região que habitualmente não está entre os principais destinos turísticos do país.

A autarquia chegou mesmo a apresentar Bragança como a “capital do eclipse solar” em Portugal, defendendo que o fenómeno trouxe uma atenção inédita ao território.

Milhares de pessoas viajaram para ver 26 segundos de escuridão

A totalidade foi observável numa zona muito restrita do nordeste transmontano, particularmente na área do Parque Natural de Montesinho.

Entre os locais procurados estiveram as aldeias de Rio de Onor e Guadramil, onde a Lua conseguiu tapar completamente o disco solar durante cerca de 26 segundos.

No aeródromo de Bragança juntaram-se milhares de pessoas para acompanhar o momento.

Quando o Sol desapareceu por completo, a luz do dia deu lugar a uma escuridão repentina, acompanhada pela reação da multidão, que recebeu o fenómeno com aplausos e manifestações de emoção.

O acesso a algumas das zonas de observação chegou a ser condicionado devido ao risco máximo de incêndio, numa altura em que grande parte do país estava sob condições meteorológicas particularmente exigentes.

António José Seguro também assistiu ao eclipse

O fenómeno também foi acompanhado pelo Presidente da República.

António José Seguro assistiu ao eclipse nos jardins do Palácio de Belém. Uma fotografia divulgada pelo próprio nas redes sociais mostra o chefe de Estado com óculos de proteção a observar o Sol. Na publicação, Seguro associou o momento à música Here Comes the Sun, dos Beatles.

António José Seguro.instagram

O momento presidencial juntou-se assim às milhares de imagens partilhadas ao longo do dia por portugueses que acompanharam o eclipse a partir de diferentes pontos do país.

E os animais? No Zoo de Lisboa, quase não houve alterações

Um dos aspetos mais curiosos do eclipse foi perceber como os animais reagiriam à mudança repentina de luminosidade.

No Jardim Zoológico de Lisboa, porém, os animais mantiveram-se aparentemente indiferentes. Segundo a Lusa, o eclipse escureceu o parque apenas ligeiramente e os animais mantiveram as suas rotinas e comportamentos habituais.

O Zoo alberga cerca de 2.000 animais de quase 300 espécies, entre mamíferos, aves, répteis e anfíbios.

Antes do eclipse, o biólogo Ricardo Chana explicou à mesma fonte que era expectável que os animais diurnos reduzissem a atividade perante a aproximação da escuridão, enquanto algumas espécies noturnas poderiam iniciar comportamentos associados ao período noturno.

Mas a realidade acabou por ser mais tranquila.

Por volta das 19h30, uma leoa parecia preparar-se para ser fotografada, enquanto outros dois leões permaneciam juntos e quietos. O rugido de um dos animais chegou a ouvir-se durante o eclipse.

As girafas, elefantes e nialas, que partilham o mesmo espaço no parque, permaneceram igualmente tranquilas.

Entre as aves, verificou-se uma diminuição dos sons à medida que se aproximava o momento de maior ocultação, numa altura em que se aproximava também o pôr do Sol.

Em Bragança, os cientistas estavam atentos aos animais

Se no Zoo de Lisboa a reação foi discreta, no nordeste do país o eclipse serviu também como laboratório natural.

Investigadores do Instituto Politécnico de Bragança prepararam um estudo para perceber de que forma a alteração abrupta das condições ambientais influencia o comportamento de aves e mamíferos no Parque Natural de Montesinho.

A equipa concentrou o trabalho na zona entre Rio de Onor e Guadramil, precisamente uma das áreas abrangidas pela totalidade.

O objetivo era perceber se os animais alteram padrões de atividade, vocalização ou outros comportamentos perante a transformação temporária do dia em noite.

A investigação insere-se num estudo mais abrangente que procura acompanhar as respostas de diferentes espécies ao eclipse em Portugal e Espanha.

Uma experiência que não foi apenas visual

O eclipse também foi sentido no ambiente.

A astrónoma Lina Canas, diretora do Centro Ciência Viva de Constância, descreveu o fenómeno como uma “experiência sensorial”, precisamente porque não envolve apenas aquilo que se vê.

A passagem para a escuridão pode ser acompanhada por alterações na temperatura, no vento e no comportamento dos animais. A especialista recordou que, durante um eclipse total que presenciou anteriormente, observou aves a regressarem aos ninhos perante a aproximação da escuridão.

Em Constância, cerca de 500 pessoas participaram num programa especial de observação, que incluía telescópios, sessões de planetário e transmissão da fase de totalidade.

A energia solar também sentiu o efeito do eclipse

Houve ainda uma consequência menos visível, mas importante: a redução temporária da produção de eletricidade através de painéis solares.

A REN - Redes Energéticas Nacionais acompanhou o fenómeno em permanência e informou que a diminuição temporária da produção fotovoltaica foi compensada através de outras fontes de produção, nomeadamente hidroelétrica e gás natural, garantindo o equilíbrio e a segurança do sistema elétrico.

Ou seja, durante alguns minutos, o desaparecimento parcial ou total da luz solar teve consequências não apenas no céu, mas também na forma como o sistema elétrico nacional foi gerido.

Um fenómeno que Portugal só voltará a ver em 2144

O eclipse de 12 de agosto terminou, mas deixa uma marca particularmente rara na história recente de Portugal.

Para a maioria do território, o fenómeno foi parcial. Mas numa pequena área de Trás-os-Montes, o dia transformou-se realmente em noite durante alguns segundos.

E, para além do espetáculo astronómico, o eclipse deixou números, imagens e experiências que vão muito além da astronomia: hotéis esgotados, milhares de visitantes, impacto na economia de Bragança, estudos sobre o comportamento animal, acompanhamento da rede elétrica e até uma observação presidencial a partir de Belém.

Para voltar a assistir a um eclipse solar total em território português será preciso esperar mais de um século. O próximo está previsto apenas para 2144.