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Nesta rua da Charneca da Caparica, os vizinhos viram tudo. Viu o vizinho da frente, viu o vizinho do lado, viu o vizinho de trás. Viram as obras na casa de Álvaro Pires, diretor financeiro da Polícia Judiciária desde o tempo de Luís Neves à frente da instituição.
Viram e reconhecem a cara de quem lá esteve: João Santos Carvalho, empreiteiro de Barcelos contratado por 17 vezes pela PJ e que, em simultâneo, também fazia obras em pelo menos dois montes do seu amigo Luís Neves em São Teotónio, Odemira. Viram e memorizaram a carrinha da Construbarcelos estacionada à porta da casa de Álvaro Pires, mais o entra e sai de operários e materiais de construção.
Eles viram tudo, registaram-no em imagens e até estão dispostos a testemunhar junto das autoridades.
A notícia das obras na residência de Álvaro Pires surgiu na edição impressa do SOL de 7 de agosto, com pormenores que estamos em condições de reafirmar esta semana: João Santos Carvalho não emitiu faturas e nem o diretor financeiro da PJ nem a sua mulher fizeram qualquer pagamento de que haja registo.
A notícia incluía uma curta declaração escrita de Álvaro Pires: «Não sei do que está a falar. Não foram efetuadas obras na minha casa por essa empresa». Nesse mesmo dia, a PJ dizia à imprensa: «A direção nacional desta polícia questionou, imediatamente, o dirigente em causa, que desmentiu, de forma categórica, terem sido realizadas quaisquer obras na sua residência particular com a empresa Construbarcelos». Concluía: «Nessa conformidade, e em virtude de a direção nacional da Polícia Judiciária não ter qualquer elemento que indicie a realização das referidas obras, não ordenou a abertura de qualquer processo disciplinar relativamente a este dirigente».
Esta resposta não esclarecia se a direção nacional, hoje liderada por Carlos Cabreiro, tinha questionado Álvaro Pires sobre o porquê de uma carrinha da Construbarcelos ter estado à porta de sua casa por largos meses em 2025. Mas este pormenor, que a instituição persiste em não querer esclarecer, é uma peça-chave.
A nossa equipa regressou esta semana ao local e voltou a falar com testemunhas. Obtivemos novas imagens da carrinha branca Fiat, de 2013, com a matrícula 41-NR-86, propriedade da Construbarcelos, estacionada mesmo em frente à porta do diretor financeiro. Foi filmada pelas câmaras de um Tesla.
«Negar as obras, é lá com ele», começou por nos dizer Pedro Rosa, que mora na mesma rua de Álvaro Pires e tem uma empresa de reboques. «Ele não pode é negar que eu tenha visto materiais de construção a entrar e que tenha visto a carrinha das obras lá parada».
ERA O EMPREITEIRO
Segundo Pedro Rosa, os materiais de construção utilizados nas obras na casa de Pires saíam precisamente da carrinha branca Fiat, que «estava a fazer de estaleiro de obra». Eram ripas de madeira, tubos, ferros. Seguiam «amiúde» para a garagem de Álvaro Pires.
«Eu não estava a coscuvilhar. Às vezes a carrinha estava mal estacionada e, como as portas estavam sempre escancaradas, eu via o que estava lá dentro», recordou, acrescentando não ter ouvido barulhos das obras. «A minha casa também não é ao lado».
João Santos Carvalho não fez as obras sozinho. Havia mais dois operários que chegavam e partiam noutra carrinha. Na rua estreita, quando as portas deste segundo veículo ficavam abertas, tornavam-se um empecilho. Os vizinhos faziam contorcionismo para estacionarem. Os homens eram vistos de manhã cedo durante a semana e depois ao sábado e domingo.
Em especial, Carvalho, que nas últimas semanas se tornou conhecido do grande público, tornou-se naquela altura um rosto familiar na rua de Pires. Muitas vezes era ele quem acorria a fechar as portas das viaturas da Construbarcelos que bloqueavam o trânsito: «É a mesma pessoa. A não ser que tenha um irmão gémeo», reagiu Pedro Rosa.
FILMAGEM COMPROVA
Por «azar dos Távoras», na expressão de Pedro Rosa, em certa ocasião em que estacionou o seu Tesla à frente da carrinha da Construbarcelos, o alarme do carro disparou à passagem de um carro muito próximo. Ao disparar, a câmara traseira foi automaticamente ativada e começou a gravar.
O profissional de reboques partilhou com a nossa investigação as imagens captadas na ocasião. Juntam-se à fotografia que tínhamos revelado há uma semana e não deixam margem para dúvidas.
A filmagem é do dia 30 de novembro de 2025 às 18h48. Já de noite, vê-se a carrinha Fiat da Construbarcelos à esquerda, com a matrícula perfeitamente legível. A casa de Álvaro Pires surge à direita. Mas haverá possibilidade de manipulação destas imagens? «Isto está nos servidores da Tesla. Não há nada a fazer», contrapôs a testemunha.
Para que não restassem ambiguidades, e uma vez que a própria direção nacional da PJ corroborou o desmentido de Álvaro Pires, perguntámos a Pedro Rosa se está disposto a fornecer à Polícia Judiciária a gravação e outras imagens captadas pelo seu Tesla junto à casa do diretor financeiro. Resposta pronta: «Sim, como é óbvio. Estão à disposição das autoridades».
De resto, por mensagem escrita na semana passada, a investigação SOL/TVI/CNN Portugal já tinha perguntado a Álvaro Pires estaria disponível para mostrar o interior da sua residência, a fim de esclarecer o tema das obras. O visado não respondeu até hoje.
Informada pela nossa equipa sobre a disponibilidade de Pedro Rosa para mostrar as imagens, a direção da PJ transmitiu-nos na quinta-feira que está «disponível e interessada», para fazer a «análise».
UMA PESSOA DE BARCELOS
A carrinha de Carvalho esteve nesta rua pelo menos entre junho ou julho e novembro do ano passado. Como já se escreveu nestas páginas, acabou por ter uma avaria. Foi quando entraram em cena dois homens que hoje também confirmam o sucedido: Paulo e Tiago, moradores na mesma rua.
O meio é pequeno. Álvaro Pires falou com Paulo, vizinho do lado, e pediu-lhe ajuda para reparar a carrinha de Carvalho. Paulo, por sua vez, recorreu ao amigo Tiago, que é conhecido na zona por trabalhar no ramo automóvel e entender de mecânica. Paulo deu-lhe a chave da viatura.
Depois foi o próprio João Santos Carvalho quem telefonou para Tiago. Este recordou agora ter falado com «uma pessoa que do Norte, de Barcelos». Mas nunca chegaram a ver-se, foi tudo por telefone. Tiago detetou um problema na embraiagem, que perdia óleo. Só teve autorização para montar a bomba do pedal, ciente de que o arranjo estava mais do que incompleto.
Ainda hoje não sabe como é que Carvalho terá conseguido tirar a carrinha da rua de Álvaro Pires em direção a Barcelos sem a embraiagem em condições: «Desde os meus 10 anos que estou ligado aos carros. Consigo conduzir meia dúzia de quilómetros sem embraiagem, com as chamadas mudanças diretas. Mas daqui para Barcelos, 300 quilómetros, com portagens e autoestrada, não estou bem a ver isso a acontecer».
Reafirmou-nos também, se dúvidas houvesse, de que naquela altura, na casa de Pires, decorriam obras. «Via-se pessoas a trabalhar. Não sei que obras eram, mas havia obras».