A nova vaga de buscas judiciais desencadeada nos últimos dias em Portugal no âmbito da Operação Picoas, para investigação de alegados crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais em volta da multinacional de telecomunicações Altice, deu origem à constituição de mais cinco arguidos - apurou o Nascer do SOL.
Destas diligências, desenvolvidas na quinta-feira da semana passada e na última terça-feira, numa operação conjunta de entidades portuguesas e francesas, resultou ainda a apreensão de diversa documentação considerada fundamental para os autos da investigação que decorre em França em paralelo com o processo aberto em Portugal.
As buscas concentraram-se essencialmente no Norte, entre Porto e Braga, locais de residências e escritórios dos dois principais arguidos, constituídos há três anos, quando foi desencadeada a Operação Picoas: Armando Pereira, cofundador da Altice, e o seu amigo e empresário bracarense Hernâni Vaz Carvalho, suspeitos pelo Ministério Público (MP) de, em conjunto, terem defraudado a Altice Portugal, o ramo nacional da tecnológica, em 240 milhões de euros.
Tanto a mansão de Armando Pereira, em Guilhofei (Vieira do Minho) como a vivenda de Vaz Antunes, em Gualtar, assim como diversas sociedades deste, foram visadas pelas buscas. A documentação agora apreendida tinha já sido dada como perdida pelos investigadores uma vez que, como suspeita o MP, os arguidos terão sido avisados antes do arranque da Operação Picoas, em 2023, de que se iriam realizar buscas (levando aliás, na altura, à fuga do país de Vaz Antunes e do genro de Armando Pereira, Yossi Benchetrit, considerado um testa de ferro do sogro e também arguido, que se encontrava de férias em Portugal) e tiveram tempo para a mudar de local. Após as buscas, esse material incriminatório, voltou ao local original e foi, finalmente, apreendido. No total, foram agora buscadas 15 sociedades, cinco das quais por utilização indevida da Zona Franca da Madeira, um dos circuitos financeiros forjados pela dupla para fazer circular os lucros ilícitos obtidos com a Altice, conseguindo com o esquema lesar o Estado português em pelo menos 110 milhões de euros. Os novos arguidos foram precisamente os alegados testas de ferro colocados por Vaz Antunes à frente dessas empresas.
Entre os cerca de 80 operacionais presentes no terreno durante as últimas diligências, destacavam-se seis procuradores de ambos os países e seis polícias franceses, figurando, nomeadamente, o inspetor Paulo Silva, coordenador da Direção de Finanças de Braga, e o procurador Rosário Teixeira, que em 2023 avançaram com a Operação Picoas.
Buscas em França em setembro passado
A dupla que esteve por trás da detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, recorde-se, tinha estado também em solo francês, em novembro de 2025, onde esta inédita cooperação internacional deu os primeiros passos, tendo sido apreendidos cinco apartamentos de luxo de Armando Pereira. Este, em conluio com o empresário e amigo Hernâni Vaz Antunes, são os principais suspeitos de terem praticado a burla monumental à multinacional de telecomunicações francesa.
Os apartamentos apreendidos a Armando Pereira, ex-emigrante em França e detentor da 19.ª maior fortuna daquele país, situam-se nos Vosges, na Córsega e em dois municípios dos arredores de Paris: dois deles no município de Neuilly-sur-Seine (a 1,5 km do Arco do Triunfo), com vista para o Bosque de Bolonha, e outro no município vizinho de Levallois-Perret, com vista para o Rio Sena.
O apartamento apreendido ao cofundador da Altice em Levallois-Perret terá sido adquirido por Vaz Pereira através de uma offshore mas a pedido do amigo, para cujas mãos o passou a seguir. Os investigadores depararam-se nesta habitação com uma quantidade significativa de obras de arte, que foram também apreendidas. Não estando presente em nenhum dos apartamentos (onde foram os empregados a abrir a porta aos investigadores), Armando Pereira não terá sido por isso ainda constituído arguido em França.
Nessas buscas realizadas em simultâneo em várias regiões do território francês foram também aprendidos documentos considerados fundamentais para a investigação, diversas viaturas top de gama (incluindo dois Porsches pertencentes a Armando Pereira), contas bancárias (nomeadamente em offshores) e cerca de 600 mil euros em dinheiro vivo.
Aliás, a investigação em França foi aberta, em 2023, na sequência da portuguesa, onde também tinham sido apreendidas várias viaturas topo de gama, como um Rolls Royce, vários Ferrari (incluindo um Ferrari Monza), quatro MacLaren Senna, três Lamborghinis e dois Bugattis.