O PSD dá o tiro de partida para uma rentrée política, que se prolongará até meados de setembro. Ao contrário do que acontecia no passado, o mês de agosto, apesar de registar uma redução da intensidade do debate político, está longe de significar uma interrupção total da atividade partidária e mediática.
«Os partidos políticos mantêm uma presença contínua no espaço público, ainda com menor visibilidade, e preparam desde já a rentrée política e parlamentar de setembro, considerada um momento decisivo para a afirmação de estratégias e para o confronto entre Governo e oposições», diz ao SOL Paula Espírito Santo.
A politóloga lembra que alguns dos temas que dominaram a atualidade nas últimas semanas entraram numa fase de menor exposição mediática, mas estão longe de ser assuntos encerrados. É o caso da polémica em torno do Ministro da Administração Interna e das questões relacionadas com o Tribunal de Contas, «um processo que permanece em aberto e que deverá voltar agora ao centro do debate político».
Também na área da Educação, Paula Espírito Santo admite que as dificuldades associadas ao processo de digitalização da correção dos exames e a imprevisibilidade dos prazos para divulgação das classificações continuam a gerar preocupação. «Com a realização dos exames da segunda fase já em setembro, este tema deverá manter-se na agenda pública durante as próximas semanas, sobretudo num período marcado pela colocação de alunos e pelas habituais questões relacionadas com notas e classificações», refere a especialista.
É neste contexto que os partidos começam a preparar os seus primeiros grandes momentos políticos depois da pausa de verão. A Festa do Pontal, que arranca esta sexta-feira, será o primeiro grande palco da rentrée social-democrata e terá este ano um significado especial: assinala os 50 anos da iniciativa lançada por Francisco Sá Carneiro, em 1976. Logo a seguir, os sociais-democratas organizam a sua formação política anual em Castelo de Vide, de 24 a 30 de agosto. Entre os oradores confirmados destacam-se figuras de relevo como Hugo Soares, Paulo Rangel e Paulo Portas.
Os dois momentos deverão centrar-se na na viabilização do próximo Orçamento do Estado, assim como na gestão do desgaste político que tem ganho maior relevo, após as polémicas em torno do ministro da Administração Interna e da Educação com Luís Montenegro a entrar no novo ciclo político sob um forte cerco da oposição. Com dois ministros de pastas centrais debilitados e sob forte escrutínio público, o Governo perde poder de negociação na mesa de negociações para o próximo Orçamento com os partidos da oposição a ganharem ‘trunfos’ políticos para exigir maiores cedências ao PSD, ameaçando com pedidos de demissão ou comissões de inquérito caso o Executivo não ceda nas propostas orçamentais.
Entre a estabilidade e o risco de crise
Também os socialistas escolheram o Algarve para o seu regresso político, que está marcado dois dias depois da festa laranja, antecipando o arranque do partido, que tradicionalmente ocorria em setembro. De acordo com o PS, o arraial popular irá representar «uma oportunidade para reafirmar a força do projeto político do PS, renovar o compromisso com os portugueses e preparar o caminho para os desafios que temos pela frente, com confiança, proximidade e espírito de participação».
Em Olhão, os socialistas terão, contudo, de demonstrar que continuam a ser uma alternativa de Governo. E uma das decisões mais importantes que o partido tem pela frente passa pela posição que irá assumir perante o próximo Orçamento do Estado. Se o partido permitir a aprovação do documento através da abstenção, pode dar estabilidade ao país, mas arrisca colar o PS à governação da AD, provocando o descontentamento do eleitorado mais à esquerda. Por outro lado, se optar pelo chumbo definitivo, o partido arrisca-se a ser acusado pelo PSD de provocar uma crise política artificial e de forçar eleições antecipadas. Ao mesmo tempo, com os ministros debaixo de fogo, os socialistas serão forçados a explorar estas fragilidades de forma eficaz. A rentrée será, por isso, também um teste à capacidade do PS para equilibrar oposição e responsabilidade institucional.
Igualmente no Algarve, em Quarteira, estará a Iniciativa Liberal, cujo arranque político está marcado para o próximo dia 29 de agosto. O partido deverá aproveitar a altura para manter as críticas à governação de Luís Montenegro e tentar provar que a AD falhou na aplicação de reformas estruturais e que mantém o país estagnado. «O país está num momento crítico de decisão. Sucessivos governos têm falhado em fazer as reformas de que Portugal precisa. Este governo da AD prometeu muito mas revelou-se uma desilusão, sem vontade de atacar de forma séria o que é preciso mudar em Portugal. Está tudo a ficar na mesma ao mesmo tempo que o mundo sofre mudanças desafiantes», diz na divulgação da iniciativa, acenando com o facto de o partido estar «pronto para o próximo salto de crescimento».
A posição da IL nas negociações do Orçamento será também acompanhada com atenção, sobretudo num cenário em que os partidos da oposição procuram maximizar o seu poder negocial junto do Governo.
Esquerda unida em torno da contestação
Também a comemorar os 50 anos está o PCP, que tradicionalmente escolhe a Festa do Avante!, na Quinta da Atalaia, para a sua rentrée política. O grande destaque deste recomeço será o tradicional comício de encerramento pelo secretário-geral Paulo Raimundo, que conta com desafios acrescidos face ao declínio eleitoral e o encolhimento do partido. É certo que Paulo Raimundo vai tentar canalizar o descontentamento das ruas e dos sindicatos (através da CGTP) com vista a recuperar o eleitorado contestatário que nas últimas eleições migrou para a abstenção ou para o Chega.
Aliás, esse sinal de descontentamento face à atual situação do país já foi dado no editorial do jornal Avante!: «A situação geral do nosso país continua marcada pelo aumento do custo de vida, pelas acrescidas dificuldades sentidas pelos trabalhadores e pelo povo fruto das opções políticas de direita do Governo PSD/CDS, com o apoio de CH e IL e viabilização de PS».
Para o último fim de semana de agosto está agendada a rentrée política do Bloco de Esquerda, com o regresso do Fórum Socialismo nos dias 28 e 29. O encontro realiza-se numa altura em que o partido está fragilizado por fortes convulsões internas e fraturas públicas. A recente saída em bloco de dezenas de militantes históricos, incluindo antigos deputados, autarcas e o fundador Mário Tomé, abalou a estabilidade do partido. Aliás, o maior desafio imediato da liderança é estancar esta dissidência e travar as críticas internas de que o Bloco terá cedido na afirmação de propostas estruturais em áreas fundamentais como a Habitação e o SNS.
Tal como o PCP, também o Bloco de Esquerda deverá adotar uma postura de oposição frontal e combate ao Orçamento proposto pela AD de Luís Montenegro. O partido tentará usar o Fórum Socialismo para criar pontes com as alas mais à esquerda do PS, aproveitando a presença de Alexandra Leitão e Isabel Moreira no evento.
Já o Livre organiza mais uma edição de Os Setembristas a 12 e 13 de setembro, no Porto, e deverá estar centrado na consolidação do partido, após uma mudança histórica na sua liderança e na ambição declarada de se tornar uma força de governo.
Recorde-se que Rui Tavares deixou de ser co-porta-voz devido ao limite de mandatos do partido, transitando para pastas de estratégia e comunicação. A liderança é agora assegurada por Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto (recém-eleito co-porta-voz). Aliás, a nova direção traçou uma meta ambiciosa: tornar-se o quarto partido mais votado de Portugal (ultrapassando a Iniciativa Liberal) e assumir-se como um parceiro ‘inevitável’ para governar no próximo ciclo eleitoral.
Ainda sem nada agendado está o Chega, ao contrário do que ocorreu em anos anteriores, em que organizava jantares-comício no Algarve, em agosto. Esta ausência surge num momento em que o partido se assume como o ator mais imprevisível na negociação do Orçamento do Estado para 2027, podendo usar o controlo da imigração ou medidas anticorrupção como moeda de troca. Ainda assim, o desafio de André Ventura é gerir a pressão política. Isto porque, se chumbar o documento ao lado da esquerda, arrisca-se a ser acusado pela AD de provocar instabilidade. Se viabilizar ou se abstiver, perde o discurso de oposição implacável.