quinta-feira, 11 jun. 2026

No Areeiro Ninguém se Esconde: “Não sofram em silêncio. Denunciem!”

O projeto desenvolvidopela Junta de Freguesia do Areeiro em parceria com o Departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa, pretende reforçar a importância, desde cedo, dos valores humanos como o respeito, inclusão, e empatia entre os mais jovens. 
No Areeiro Ninguém se Esconde: “Não sofram em silêncio. Denunciem!”

É unânime… As escolas deviam ser vistas, pelos alunos, como um lugar seguro, um refúgio de aprendizagem, um sítio de partilha. No entanto, todos os dias, ficamos a conhecer situações que nos fazem duvidar: o bullying, esse flagelo silencioso que mina a auto-estima e o bem-estar de milhares de jovens, tem registado um aumento significativo nos últimos anos. Segundo os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), entre 2020 e 2022, os casos de bullying aumentaram 181% entre 2020 e 2022, com mais de metade das vítimas entre os 11 e os 17 anos, e 81% dos episódios a ocorrerem em estabelecimentos de ensino, especialmente em Lisboa e Porto. 

E esse crescimento não é isolado: entre o ano letivo 2019/2020 e 2023/2024, as ocorrências em contexto escolar subiram de 4823 para 7128, um incremento de 48%. Num inquérito nacional realizado pelo ISPA em colaboração com a Direção-Geral da Educação, envolvendo mais de 31 mil alunos dos 11 aos 18 anos, 5,9% reportaram já ter sido vítimas de bullying – um número alarmante quando comparado com estudos semelhantes em países como a Finlândia ou o Japão, onde as taxas rondam os 2%. Em 2023/2024, a PSP e a GNR registaram 270 casos de bullying e cyberbullying nas escolas, um aumento face a anos anteriores.

Uma iniciativa necessária 

Atenta ao problema, a Junta de Freguesia do Areeiro, em parceria com o Departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa, desenvolveu o projeto ‘No Areeiro Ninguém Se Esconde’, que pretende reforçar a importância, desde cedo, dos valores humanos como o respeito, inclusão, e empatia entre os mais jovens. Segundo o Presidente da Junta de Freguesia do Areeiro, Pedro Jesus, a ideia surgiu depois de, em 2022, ter sido desenvolvido pelo Departamento de Educação da Câmara Municipal de Lisboa um outro projeto para as escolas do Município. «O resultado do impacto foi tão positivo, que passado quatro anos decidi criar uma parceria de forma piloto para implementar um projeto na Freguesia do Areeiro», conta à VERSA, acrescentando que este é um trabalho «mais focado» e «personalizado» sobre o tema, que se mantém «muito atual» e que «impacta negativamente qualquer pessoa em qualquer idade». 

De acordo com Pedro Jesus, o projeto pretende sensibilizar e prevenir o bullying no meio escolar – 1º e 2º ciclos na freguesia -, com especial incidência para o bullying relacionado com a obesidade infantil. «Prevenir e combater o bullying em todas as suas dimensões é uma prioridade para esta freguesia. Queremos garantir um ambiente de aprendizagem seguro, onde todas as crianças possam crescer felizes e sem medo. Queremos colocar as crianças e os jovens a falar sobre o tema e, em contexto fora da sala de aula, proporcionar momentos de partilha e conhecimento», revela.

«A base do projeto foi o livro ‘Esconderijo’, promovido pela ADEXO – Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade. O trabalho é realizado em conjunto, junto das escolas, e também extensível à comunidade», revela Sofia Simão, Psicóloga Júnior, que também está envolvida na iniciativa. «A temática central do livro é a relação entre o bullying na escola e a obesidade infantil. Está baseada na história entre um rapaz e uma rapariga (em que ambos são vítimas de bullying por parte dos colegas), e a forma como conseguem superá-lo com o apoio de uma professora», detalha a especialista. 

O lançamento do projeto aconteceu no dia 6 de março de 2026. «Fizemos inicialmente um vídeo que pretende sensibilizar os alunos da escola, do ensino básico aqui na freguesia, sobre o tema. Foi realizado na EB23 Luís de Camões, e através de uma narrativa construída com e a partir das próprias crianças, realizámos uma curta-metragem com o mesmo nome do projeto. Um grupo de alunos decidiu dar voz às suas experiências, de forma muito simbólica, e o vídeo culmina numa manifestação no pátio da escola», afirma. «Pretende-se com esta curta-metragem sensibilizar e promover a empatia, a união, a reflexão junto aos jovens, com uma abordagem de consciencialização e prevenção do bullying», alerta Sofia Simão, referindo que os alunos tiveram uma participação ativa, com diversas dinâmicas. «A ideia era mesmo que todos pudessem participar e simbolicamente pudessem representar as situações de bullying de uma forma muito simples», aponta. 

A psicóloga lembra que, nos anos 80, muitos dos casos eram considerados «situações de criança». «O chamar nomes, o ofender, desrespeitar, o discriminar, excluir, não era visto com a gravidade com que vemos nos dias de hoje… Felizmente, dada a importância do tema e a sua prevalência, atualmente vemo-lo de forma diferente. Estamos mais atentos. O bullying acaba por ter características próprias: é o humilhar, discriminar, excluir, chamar de nomes de uma forma repetitiva e constante, o que acaba por causar danos muitas vezes irreversíveis», sublinha. Ou seja, é caracterizado pela «intencionalidade, persistência ao longo do tempo e perceção de poder sobre a vítima». 

«Felizmente existe uma maior sensibilização para o tema (...) Atualmente, os direitos humanos e os valores pela dignidade da pessoa estão mais protegidos e  salvaguardados. Há uma maior atenção comparativamente com há 20 anos pela relevância dos impactos graves a curto, médio e longo prazo na Saúde Mental dos Intervenientes. Temos de combater esse flagelo», refere. 

Um pesadelo que se estende no tempo 

E Margarida, de 18 anos, ainda hoje o sente na pele. Segundo a trabalhadora estudante, que frequenta o 12º ano, o sofrimento começou logo aos quatro ou cinco anos na pré-primária. «Já aí eram brincadeiras maldosas, mas os adultos chegavam a achar piada. Eram comentários desnecessários e repetitivos», desabafa. Sempre esteve acima do peso e, de acordo com a jovem, para as crianças, muitas vezes, isso é razão suficiente para ver alguém como um alvo. «Basta ser diferente… A partir dos 10 anos deixou de ser apenas por causa do peso. O facto de eu ter boas notas e me dar bem com praticamente todos os professores e adultos presentes no ambiente escolar passou a ser ‘um problema’», lamenta. 

Atualmente, ouve comentários maldosos e é metida de parte. «Há colegas que me insultam, me deixam de parte e viram a turma contra mim (...) Mas no passado chegou a ser físico. Sofria com empurrões... A situação que mais me afetou psicologicamente aconteceu quando estava no 6º ano. Um colega decidiu que seria engraçado empurrar-me das escadas e espancar-me logo de seguida», admite.  

Os sinais não se limitam só à agressão física e verbal. «Infelizmente toda essa prática de bullying desencadeia danos que são irreversíveis e que se vão perpetuando ao longo do tempo até à fase adulta, nomeadamente situações de ansiedade, muitas vezes comportamentos autolesivos, o isolamento, a baixa autoestima e que leva muitas vezes à ideação suicida. O comportamento autolesivo está muito relacionado a um sofrimento que é escondido, que não é verbalizado ou que não é compreendido», alerta a psicóloga. 

Margarida chegou à conclusão que «a melhor forma de lidar com a situação é ignorar». Porém, no passado, chegou a arranhar-se e a cortar-se. «Mexe imenso com o meu psicológico e deixa-me com diversas inseguranças que sei que infelizmente vou levar para a vida. Acho que uma das piores consequências é a baixa auto-estima e o medo enorme de me julgarem», partilha. Nunca quis pedir ajuda diretamente, muitas vezes por medo de a acharem fraca ou a julgarem, mas deu «dicas» e tentou demonstrar o que se estava a passar. «Acabei por fazê-lo… Se continuasse assim, não iria aguentar muito mais», afirma. Felizmente, a sua mãe deu-lhe um grande apoio e ajudou-a a candidatar-se a ajuda psicológica no 9º ano. Atualmente já não tem consultas. 

Rejeitada pelas amigos 

Leonor Madeira começou a sofrer de bullying no início deste ano letivo. É aluna do 7º ano e, uma colega, que até considerava amiga, começou a fazer de tudo para que a sua turma a excluísse. «E resultou. De repente, as minhas amigas não me deixavam estar com elas (...) A ideia era excluir-me das atividades desportivas, dos trabalhos de grupo e das atividades normais de um grupo de amigas. Antes disso estava super integrada. Foi muito difícil perceber o que estava a acontecer», admite. Segundo a jovem, não chegou a ser físico: «De acordo com os psicólogos e o agente da polícia segura que seguiram o meu caso, há sempre um início assim e depois vai ficando pior, muito agressivo, e pode chegar a ser físico. Felizmente, os meus pais atuaram muito rapidamente», revela.  

Interrogada sobre aquilo que sentia na altura, Leonor fala de muita tristeza. «A tal menina que chefiava tudo tinha sido minha amiga muito próxima. Eu achava que a culpa talvez fosse minha. Era tudo muito estranho e incompreensível. Perdi a alegria que me caracteriza, mudei a minha maneira de estar, e os meus pais perceberam isso», conta.  «Sempre fui muito alegre e expansiva. Canto, danço, digo piadas, puxo pelos amigos. O meu pai diz que a nossa casa parece um musical do La Féria (...) Mas com o que aconteceu, perdi a alegria. Deixei de ser eu. Andava calada, triste e sem a boa disposição habitual. A minha mãe é super atenta a tudo e desconfiou. Depois falou com o meu pai e tiveram uma conversa comigo. Obrigaram-me a contar o que se passava. Foram de imediato falar com professores, com os pais, com a escola. A resposta foi zero. Ninguém se importou. Então eles mudaram-me de escola e falaram com a polícia, com psicólogos. As pessoas não se podem calar. Nunca», relata a jovem. 

De acordo com Leonor, a mudança de escola e o afastamento das pessoas envolvidas ajudou a que recuperasse. «Já não me sujeito a certas coisas. Continuo alegre, mas sou mais defensiva (...) Quando pertencemos a grupos sentimos que fazemos parte de algo. Estamos integrados. Viver sozinho é triste. Eu experimentei isso aos 12 anos. Marcou-me, mas reagi. Hoje sou um pouco mais cautelosa, mas recuperei a alegria e, curiosamente, as minhas amigas. Pelo menos recuperei as que interessavam», afirma.  Soube entretanto que a mesma menina voltou a fazer bullying a outras colegas. «Ou seja, o problema não era eu. O problema não é a vítima. O problema é o bully e deixarem que ele continue ‘à solta’», garante. «Livrei-me daquilo tudo e pude recuperar em paz e sossego com apoio de várias pessoas, mas na prática não resultou em grande coisa para quem fez o mal. Nenhum pai foi incomodado e o bully continua alegremente no mesmo sítio de sempre com a sua vida intacta. Eu é que mudei a minha vida de pernas para o ar. Ou seja, é mais fácil ser bully. É mais fácil ser mau. Essa é a lição que eu posso tirar disto. E às vezes  penso noutros meninos cujos os pais não consigam atuar tão rapidamente e com firmeza como os meus. É horrível para eles. Eu sei que é», lamenta. 

Segundo Sofia Simão, o envolvimento dos pais é «importantíssimo». É essencial que sejam trabalhados estes temas de maneira multidisciplinar, quer junto dos jovens, em casa, quer no acompanhamento escolar. «Ou seja, a existência de uma sinergia entre pais e escola acaba por ser fundamental para conseguir trabalhar esta questão. Quer o bully, que é o agressor, quer a vítima que é a que sofre as consequências do bully. É importante perceber que ambos precisam de apoio», alerta a psicóloga, referindo que, muitas vezes, «os pais também não têm as ferramentas suficientes para conseguir lidar com a situação». «E aqui, essa partilha de informação e de apoio, é fundamental. Porque mesmo que se trabalhe o bullying em contexto escolar, depois em casa deve ser trabalhado também», reforça a especialista.

Ao mudar de escola as coisas acalmaram. No entanto, Leonor revela que o pesadelo continuou nas redes sociais. «As mesmas pessoas, da escola antiga, começaram a fazer cyberbullying. Fui insultada com coisas muito graves, que não são para a minha idade. Havia perfis falsos a dizer coisas horríveis sobre mim. Está tudo na polícia. Não podemos fazer mais do que isso. Infelizmente é assim», acrescenta. 

A psicóloga revela que ao longo das conversas com os alunos - graças a este projeto -,  tem havido relatos de meninos que acabam por admitir certas situações, «ou porque presenciaram, ou porque também já viveram uma situação que lhes causou sofrimento e tristeza». 

Transformar a dor em ajuda 

A dor de Diana Ginja, de 12 anos, fez nascer o livro Beliscaram a Minha Felicidade, publicado em 2023. A jovem atriz sofreu de bullying na primária, durante dois anos e, o caderno, a dada altura, era a sua melhor companhia. Era lá que escrevia os seus pensamentos que mais tarde entendeu que poderiam ajudar outras crianças que estivessem a passar pelo mesmo. «As coisas correrem normalmente até ao segundo ano. Depois entraram pessoas novas na turma que não gostavam de mim e comecei a sentir-me excluída. Começaram a deixar-me de parte, ficava sozinha, ignoravam-me, chamavam-me nomes, criavam brincadeiras em que eu não podia entrar…», exemplifica. 

Diana lembra-se que esse grupo - composto por cerca de cinco raparigas -, criava brincadeiras próprias e, quando esta pedia para brincar, diziam-lhe que tinha de saber o «código». «O código era do género: ‘A Diana não pode entrar’, ‘A Diana aqui não!’ ou ‘A Diana é chata!’. E eu ficava triste porque eu era só uma criança com sete ou oito anos. Não sabia bem o que é que estava a acontecer e sentia que o problema era eu», conta. Houve vezes onde a empurraram, mas a jovem admite que nunca lhe bateram realmente. «Os professores adoravam-me, mas não achava que era esse o motivo. Ainda hoje não percebo o porquê de ter sido o alvo. Também nunca lhes perguntei, nem faço questão de perguntar», garante. 

Aos poucos, Diana foi perdendo o brilho que a caracterizava. Inventava desculpas para não ir à escola e, quando lá estava, pensava em formas de a enviarem para casa. «Não me sentia bem. Sentia-me rejeitada e sozinha, mas nunca disse a ninguém que trabalhava lá. Tinha medo que não acreditassem em mim e que também me rejeitassem», confessa. A dada altura, resolveu mostrar os seus textos a um professor substituto que lhe perguntou o que é que estava a acontecer. «Disse-lhe por alto, sem dizer quem eram as meninas. Comecei a passar os intervalos com ele, ajudava-me a escrever… Senti que me estava a dar apoio num momento em que eu não queria falar com ninguém. Claro que me recomendou falar com os meus pais e eu disse que o ia fazer, mas não fiz», revela a atriz. 

A sua mãe descobriu o que se estava a passar depois de encontrar os seus textos no computador. «Veio falar comigo e eu chorei muito. Eu achava que os meus pais iam colocar a culpa em mim ou que me iam ignorar. Elas fizeram-me acreditar que ninguém me ouvia», lembra. «Na verdade, eu já não aguentava mais estar calada. Depois disso, os meus pais apoiaram-me em tudo. Eu só não queria mais problemas para mim», acrescenta. Felizmente, depois de Ana, sua mãe, intervir, o bullying parou. «Simplesmente começaram a vir ter comigo e a deixar-me brincar com elas de novo. Nunca tive um pedido de desculpas e não preciso», garante. 

Hoje, dá palestras em escolas, contando a sua história e inspirando outras crianças. «Vejo algumas pessoas que se abrem e que falam sobre o que está a acontecer, tanto na turma como fora. Não nos devemos isolar e esconder as coisas. Devemos falar com os nossos pais, com os professores… Um dos meus maiores arrependimentos foi demorar tanto tempo a contar. Teria sido tudo mais fácil se tivesse pedido ajuda mais cedo», acredita. 

O papel dos pais e professores

Para uma mãe, nunca é fácil ver os filhos sofrer, e Ana nunca largou a mão da filha. «Acho que o conselho que eu posso dar aos pais que estejam a passar pelo mesmo, é pedir ajuda. Enquanto família, foi o que nos ajudou a ultrapassar já depois de sabermos tudo o que se passava. Não são coisas que passam de um dia para o outro. É todo um caminho. Aqui em casa houve terapia para todos. Ajudou muito a Diana, ajudou-me muito a mim a lidar com ela e com as suas dores», revela. De acordo com Ana, muitas vezes os pais sentem uma grande revolta, pois não sabem onde encaixar tudo o que sentem. «Todas as noites ela queria conversar comigo a fundo sobre o que estava a sentir. A certa altura, já sentia que não estava com capacidade para conseguir ouvir e lidar, porque eu própria também estava muito cansada, estava a gerir as minhas emoções e as dela. Acho que o que fez mesmo diferença cá em casa foi pedir ajuda. E sei que não é fácil, porque nem toda a gente consegue ter acesso, mas é fundamental», reforça. 

Luisa Pereira, professora de francês na Escola Padre António Macedo de 3° ciclo e secundário (8°,  9° e 11° anos), em Vila Nova de Santo André, defende que para além do bullying ter aumentado nas escolas portuguesas, se tornou «mais agressivo» e «persistente». Ao longo dos seus cerca de 37 anos como docente e diretora de turma, nota que muitos alunos estão hoje «menos empáticos», «menos tolerantes à diferença» e «mais rápidos a humilhar quem não se enquadra nos padrões do grupo», seja pelos aspetos físicos, personalidade, dificuldades de aprendizagem ou contexto familiar. «Apesar de existir atualmente muito mais sensibilização nas escolas, com palestras, projetos e sessões promovidas por diretores de turma, psicólogos e entidades externas, a verdade é que muitas vezes os alunos até compreendem o discurso, mas isso nem sempre se traduz numa mudança de comportamento», explica. 

A professora também considera que há uma «perda de valores fundamentais» que antes eram «mais trabalhados em casa». «Muitos pais desvalorizam situações graves, dizendo que ‘são brincadeiras’ ou que ‘sempre existiram’. O problema é que aquilo que antigamente podia ficar limitado ao espaço escolar hoje se prolonga através das redes sociais, do cyberbullying e dos conteúdos agressivos a que os jovens são expostos diariamente. As vítimas deixam de conseguir ter um espaço seguro», acredita, sublinhando que o bullying deixa marcas profundas. 

Ao longo da sua carreira acompanhou muitos casos difíceis, alguns dos quais a marcaram profundamente enquanto professora e pessoa. «Tive alunos sujeitos a violência verbal constante durante anos, situações em que foi necessário alertar encarregados de educação, direção, professores e acompanhar diariamente os conflitos para tentar travar o sofrimento da vítima. Em alguns casos conseguimos inverter a situação a tempo», agradece. Outro caso, no início da sua carreira em Lisboa, tirou-lhe o sono e até lhe provocou pesadelos. «Tratava-se de uma aluna com necessidades específicas especiais, constantemente humilhada pelos colegas devido ao seu aspeto físico e limitações. Na tentativa desesperada de ser aceite, começou a tirar dinheiro aos avós para comprar materiais e oferecer aos colegas. Mais tarde, acabou por ser vítima de abuso sexual por parte de um homem adulto que se aproveitou da vulnerabilidade emocional dela. Fui eu quem desconfiou da situação e acabou por denunciá-la. Tive inclusive de testemunhar em tribunal. Foi uma experiência profundamente marcante», lembra com tristeza.

Luisa Pereira revela que, no seu agrupamento, são feitas ações de sensibilização, palestras, sessões em contexto de turma, projetos de cidadania e trabalho articulado entre diretores de turma, psicólogos, direção, CPCJ e até forças policiais quando necessário. «Enquanto docente e diretora de turma, tento sempre agir o mais cedo possível: ouvir os alunos, envolver os encarregados de educação, articular com os colegas e encaminhar para apoio psicológico quando necessário. Muitas vezes são os pequenos sinais que permitem evitar situações mais graves», conta.

Atualmente lida com uma aluna que sofre de bullying. «Há uns dias veio contar-me no final da aula (acompanhada por uma amiga que a tem apoiado) que um colega da escola lhe chama ‘gorda’ diariamente e o que podia fazer para que isso parasse. Há cerca de uma semana, já me tinha sido reportado pelas funcionárias do refeitório e por uma professora que lá almoça que a aluna deixava toda a comida no tabuleiro. Calculei que havia algum problema e aproveitei a sessão sobre Saúde Mental, que está a decorrer na minha aula de Assembleia de turma, com a psicóloga da escola, para falar da Anorexia. Pelos vistos, deve ter ajudado a aluna a vir falar comigo», reflete, revelando que todos os anos existem alunas com anorexia diagnosticada por situações semelhantes na sua escola e que acabam por ser internadas. «Estes sinais não podem ser ignorados. O bullying começa muitas vezes em comentários aparentemente ‘pequenos’, mas o impacto psicológico pode ser enorme», reforça a professora de francês.

Luisa Pereira admite ainda que este tipo de situações a afetam muito emocionalmente. «Há casos que nunca esquecemos e que nos acompanham durante anos. Tento estar atenta e fazer sempre tudo o que está ao meu alcance para proteger os alunos e ajudá-los, mas há situações em que sentimos alguma impotência, sobretudo quando os alunos já chegam à escola profundamente fragilizados ou quando as próprias famílias não têm capacidade emocional, social ou psicológica para ajudar», lamenta.

O que mais lhe custa é perceber que algumas destas marcas ficam para a vida. «Ao fim de tantos anos, aquilo em que mais acredito é que nenhum aluno deveria sentir medo de ir para a escola. O bullying deixa marcas muito profundas e, muitas vezes, invisíveis. Precisamos de escolas atentas, mas também de famílias presentes e de uma sociedade mais empática. Uma palavra pode ferir muito, mas também pode salvar. Apesar dos casos difíceis que acompanhei, continuo a acreditar que vale a pena insistir na educação para o respeito, para a empatia e para a diferença. Às vezes basta um adulto atento para mudar completamente a vida de um aluno. Não sofram em silêncio. Denunciem!», apela.

«Se estiverem a sofrer bullying peçam ajuda aos pais, aos avós, aos professores, à APAV, ao diretor de turma ou à polícia. A polícia tem um agente só para o bullying em cada esquadra. Falem com ele. Falem com toda a gente. Alguém vos vai ajudar. E se ninguém ajudar é porque estão todos a ignorar uma criança que está a sofrer. E quando todos ignoram é porque todos fazem parte do problema. Mas ficar calado não é solução. Por isso falem», aconselha igualmente Leonor Madeira. 

Atualmente com o planeamento de atividades e iniciativas que a Junta de Freguesia do Areeiro tem até ao final do ano letivo, Pedro Jesus prevê alcançar os 1000 alunos das escolas da freguesia e mais de uma centena de crianças e jovens residentes no Areeiro e em toda a cidade. «Queremos contribuir para a reflexão sobre o tema, e promover os valores humanos e a empatia entre pares», remata.