O ministro da Administração interna anda em bolandas com as suas contas bancárias e os empréstimos que fez para comprar os montes alentejanos de que tanto se fala. E a isso acresce um acidentado percurso quanto às obrigatórias declarações património, rendimentos e interesses junto da Entidade Para a Transparência.
Neste particular, questionado esta semana pela investigação SOL/TVI/CNN Portugal, Luís Neves reafirmou «total transparência dos rendimentos, financiamentos, créditos hipotecários e aquisições efetuadas». Disse mais: «As hipotecas e os empréstimos bancários encontram-se devidamente registados nas declarações apresentadas ao Tribunal Constitucional, entretanto apresentadas à Entidade Para a Transparência».
Mas não é bem assim. De resto, o agora ministro, que dirigiu a Polícia Judiciária entre junho de 2018 e fevereiro de 2026, já tinha afirmado o seguinte na célebre conferência de imprensa de 29 de julho: para comprar os montes no Alentejo «pedi emprestado à banca, cujo valor pode ser verificado na minha declaração entregue na Entidade Para a Transparência». Em jeito de desafio, lançou o repto: «E é bom que a vejam, porque ninguém lá foi ver».
Fomos ver. Mas antes de apresentar o que encontrámos, impõe-se recordar quais as propriedades em causa.
Todas no Baixo Alentejo: freguesia de São Teotónio, concelho de Odemira. Assim atesta o Registo Predial, assim provam as escrituras, que são públicas e estão depositadas no Cartório Notarial de Odemira, com estampa da notária Ana Paula Vasques.
Primeira propriedade: Corrego da Fonte, 9,6 hectares comprados pela mulher de Luís Neves em setembro de 2011 por 100 mil euros. Segunda: Corte Enxara, meio hectare comprado pelo casal em fevereiro de 2024 por 110 mil euros. Terceira: Corgo da Fonte, 11,2 hectares comprados em fevereiro de 2024 por 80 mil euros. Quarta e última: Monte da Pomba, 29,4 hectares comprados pelo então diretor nacional da PJ em junho de 2025 por 127,5 mil euros.
Ou seja, um investimento em propriedades de 417,5 mil euros ao longo de 14 anos, que não está refletido nas contas que Neves apresenta.
LÓGICA DAS EXPLICAÇÕES
Acompanhemos outra vez a explicação de Luís Neves na conferência de imprensa. Uma longa explicação, aqui transcrita na íntegra: «Uma propriedade da família da mulher há longas gerações, por força das partilhas, foi dividida. Tenho vindo, nos termos das minhas posses e do meu trabalho, paulatinamente a adquirir e a recuperar as partes que foram divididas e partilhadas. Neste momento, tenho já dois terços dessa propriedade, sendo certo que outro terço é da minha sogra».
As explicações prosseguem. «Adquiri igualmente nas proximidades, para fazer uma propriedade mais antiga [quereria dizer «maior»?], um outro imóvel em 2025. Tudo a preços de mercado, a preços anunciados nas imobiliárias, documentação que hoje tenho em meu poder. Nenhum a preço de saldo, como maldosamente se insinuou. Este monte tem umas ruínas com mais de 40 anos».
E agora o fio do discurso cola com o que já havíamos citado: «Para adquirir estes dois últimos imóveis pedi emprestado à banca…». Por fim, os valores: «Tinha uma hipoteca de 90 mil euros na minha casa de morada de família, que é hoje, para adquirir estes imóveis, de 315 mil euros. Está na declaração. O meu único rendimento foi e é do meu trabalho e da minha mulher».
Em rigor, é quase impossível entender as explicações do ministro, por fugirem à lógica. Acabava de falar de apenas um monte, o de 2025 com ruínas antigas, e acrescentava que pedira dinheiro à banca para comprar «estes dois últimos». Mas só havia referido um.
Referia que a hipoteca bancária de 90 mil euros tinha entretanto passado para 315 mil euros, mas não dizia quanto terá de facto pedido de empréstimo para comprar os montes. E, na verdade, não há apenas uma hipoteca de 90 mil euros: há duas hipotecas, de 90 mil cada uma.
À nossa investigação, Luís Neves acrescentou esta semana: «Reafirma-se que existe uma única conta bancária na qual estão registadas todas as entradas de capital e todos os pagamentos relativos aos quatro imóveis, efetuados, no momento das respetivas escrituras, através de cheques bancários».
Porém, o tema dos empréstimos permanece uma incógnita. As declarações entregues por Neves à Entidade Para a Transparência permitirem aventar uma hipótese extraordinária: os empréstimos bancários para a compra dos montes foram feitos depois da compra dos montes. Veja-se à lupa.
CORREÇÕES E CORREÇÕES
Que Luís Neves nunca entregou declarações enquanto era diretor da Polícia Judiciária, é um facto público, que o próprio já assumiu, aparentemente sem qualquer consequência.
Tudo o que fez foram declarações a posteriori, com efeitos retroativos. Em 16 de fevereiro deste ano, sete dias antes de tomar posse como ministro, entrega a chamada Declaração Única relativa à recondução de novembro 2024 como diretor da PJ. Nesta declaração (em rigor, numa posterior declaração de substituição, que corrigiu esta), tem duas hipotecas: 90 mil euros junto da Caixa Geral de Depósitos e 90 mil junto do Montepio.
Nada declara sobre garantias patrimoniais. Nada declara sobre aplicações financeiras, sobre direitos de crédito, sobre contas a prazo.
Mas nesta altura Luís Neves já tinha comprado o monte Corte Enxara por 110 mil e o Corgo da Fonte por 80 mil euros. Ambos com escritura assinada em fevereiro de 2024. Com que dinheiro, se ele não aparece refletido nos dados disponíveis?
«Todas as aquisições foram realizadas com capitais próprios e familiares e mediante recurso a empréstimos bancários, devidamente inscritos e conhecidos na única conta bancária por mim titulada», reafirmou-nos Luís Neves. «As aquisições em causa - Corgo da Fonte, Corte Enxara e remanescente do Corgo da Fonte, e Monte da Pomba - foram financiadas através de empréstimos bancários, com o aumento da hipoteca sobre a casa de morada de família, cujo valor passou de 90 mil para 315 mil euros».
Acontece que as suas Declarações Únicas não corroboram esta versão. Mais. A última das propriedades compradas, o Monte da Pomba, tem escritura em junho de 2025. E mais uma vez nenhuma das Declarações Únicas referentes às datas imediatamente próximas mostram qualquer empréstimo ou hipoteca que tivesse permitido a Luís Neves pagar 127,5 mil euros por esta última propriedade.
Aliás, os aludidos 315 mil euros, de que o ministro falou em conferência de imprensa, simplesmente não existem à data de hoje. Porque por entre uma frenética atividade de declarações de alteração (quando há novos dados patrimoniais) e declarações de substituição (que corrigem erros anteriores), a verdade é que o ministro da Administração Interna só fez constar os 315 mil euros uma vez. Para logo de seguida, no mesmo dia, 25 de maio último, corrigir tudo e apagar tal valor.
À data de hoje, que esteja disponível para consulta pública na plataforma eletrónica da Entidade Para a Transparência, Luís Neves, como ministro, declara apenas isto: um passivo de 45 mil euros junto da Caixa, um passivo de 45 mil euros junto do Montepio. Mais uma hipoteca junto da Caixa no valor de 90 mil euros e uma hipoteca junto do Montepio no valor de 90 mil euros.