terça-feira, 16 jun. 2026

Nas teias da adição. "Eu já não me suportava (...) Estava no fim da linha” 

Muitas vezes começa com o chamado ‘charro’, com uns copos com os amigos, com um cheiro de cocaína numa noite de diversão. Depois, deixa de ser suficiente. Francisco e Miguel estiveram escravos das suas adições durante anos. Ambos pensaram em meter termo à vida. Mas algo os fez ter força para parar com os consumos. Hoje, estão em recuperação e querem ajudar os outros com as suas histórias. 
Nas teias da adição. "Eu já não me suportava (...) Estava no fim da linha” 

Francisco Deslandes, de 54 anos, tem noção que, durante muito tempo, transformou a sua vida num inferno. «Tudo começou com um copo ou um charro atrás do pavilhão. Mal sabia que era adicto», diz-nos sentado no café Collect, no Cais do Sodré, com vista para a rua cor de rosa. «E, como a adição é uma doença progressiva, foi progredindo até ao ponto em que a minha vida já estava um desgoverno, em que tinha consequências em todas as áreas, em que tinha dificuldade em assumir responsabilidades, em que era muitas vezes (sem querer) um pai ausente», lamenta sentindo-se hoje um homem que abraçou a vida, que passou por um «processo de desmontagem» ou de «desconstrução» para se reerguer novamente. «Considero-me determinado, ativo e divertido», diz satisfeito. 

A primeira vez que experimentou álcool e drogas tinha por volta dos 13/14 anos. «Há sempre uma parte – eu acho que é comum de todas as pessoas –, que é a questão da rebeldia, da curiosidade, de querer pertencer a um grupo…  Há os casos das pessoas que têm personalidade aditiva e que aquilo causa mossa, e há os que não têm e que a vida continua», conta, admitindo que sempre teve muitos amigos que passaram pelas experiências de «beber uns copos», «fumar uns charros» e sempre conseguiram, de alguma forma, fazê-lo de uma forma «regrada». «No meu caso, hoje, vejo com clareza que a minha relação com as substâncias foi muito pouco tempo ‘normal’. Eu era sempre aquele de dizia: ‘Vamos beber mais um copo, não vamos já para casa!’», lembra o comercial. Com o tempo, acabou por se enlear na teia da adição. «Acabei numa falência espiritual, porque é como se a pessoa estivesse sempre a boicotar a sua própria vida. A pessoa quer ser um bom pai e acaba por falhar, quer ser um membro de união na família e acaba por desiludir, quer ser um amigo presente e não consegue. O adicto é impotente perante a sua adição. Eu fui muitas vezes usar drogas sem querer usar drogas», explica Francisco Deslandes.  

Das ‘leves’ às ‘pesadas

O consumo tornou-se regular ainda na adolescência. As substâncias funcionavam como uma «muleta emocional», ajudando a lidar com inseguranças e vazio interior. «Acho que o vazio tem parte da minha essência, porque de facto eu sempre fui uma pessoa com alguma dificuldade em lidar com sentimentos. Em jovem, muitas vezes, sentia-me diferente, sentia que não encaixava. Daí vinha alguma insegurança, uma autoestima facilmente beliscada. Quando comecei a ter as primeiras experiências com lteradores, as inseguranças quase desapareciam, o vazio ficava preenchido», adianta, salientando que «é tudo uma ilusão». 

Diz-se que, por norma, se começa com os canábis e que, depois, se vai passando para coisas «mais pesadas», e Francisco reconhece que essa é uma realidade. «A pessoa começa com um estilo de vida mais ousado, quer experiências mais intensas. É preciso acabar de uma vez por todas com o discurso das drogas leves. Hoje em dia há imensas pessoas com psicoses induzidas pelos charros. Pessoas que precisam de estar medicadas a vida toda», alerta, acrescentando que há outras com consequências a nível físico e cerebral gravíssimas por conta do álcool. «A sociedade aceita tão bem o álcool… É uma droga culturalmente aceite, é uma droga legal, não é? Basta ir à mercearia ou ao café do bairro. E é engraçado… O álcool é a única droga que nos questionam porque é que não usamos. Eu trabalho muito com eventos e, muitas vezes, fui questionado sobre o porquê de não aceitar um copo», lamenta. 

De acordo com Francisco, há vários indícios de que realmente já há um problema. Um deles é «quando começamos a consumir sozinhos». Ou seja, o que, em tempos, era feito em fins de semana, ocasiões especiais para socializar, «de repente já não é». «De repente, na terça-feira, a pessoa vai comprar para ir para casa usar sozinho». Depois vem a compulsão. «Foi quando comecei a perceber que, quando acabava, eu tinha que ir buscar mais», refere. Outro indício é «deixar de fazer coisas por causa disso». «Por exemplo, surge uma oportunidade de viajar para algum lado. O pensamento de alguém que já tem uma adição instalada é: ‘Ui, como é que eu vou arranjar? Vou para aquele destino, não conheço ninguém’. Portanto há aqui uma série de indícios que nem sempre, na altura, a pessoa consegue ter este discernimento para ver. Uma coisa muito patente numa adição é a negação. Só quando a pessoa vai para a reabilitação, faz um programa de recuperação e para de usar, é que começa a ter alguma capacidade de olhar para o seu passado com honestidade. Eu era escravo da minha adição», partilha.

Cair num abismo

Foi exatamente quando começou a consumir cocaína sozinho que Miguel Félix, de 34 anos, percebeu que estava dependente. Começou a fumar canábis quando tinha 17 anos por lhe terem dito que «era divertido». No princípio, parecia que «navegava um bocado em todos os pensamentos». «Depois, acabas por te adaptar. Foi como fumar um cigarro pela primeira vez. A primeira vez que eu fumei um cigarro senti moca. Depois o teu organismo e cérebro ficam automaticamente habituados àquela substância. Esse é o problema da droga. Tu habituaste e chega a um ponto em que acabas por ir à procura de outras coisas. A grande diferença é tu dizeres que ‘não’», diz o jovem. O primeiro contacto com a cocaína deu-se quando tinha 25 anos, numa festa com amigos. Nessa altura, já tinha experimentado MDMA e ecstasy… «Tive essa experiência e depois comecei a consumir». Dos 25 aos 29 foi «recreativo – se assim o podemos chamar, porque eu acho que nenhuma droga deve ser recreativa», mas com as feridas que tinha abertas, começou a entregar-se. «Todas as pessoas são diferentes umas das outras, mas eu não acredito que exista uma pessoa completamente esclarecida na sua cabeça que se meta na droga. Para mim é claro como a água. E quanto mais dinheiro, pior, porque às vezes quanto mais dinheiro temos, menos esclarecidos nós estamos», defende. 

 As coisas começaram a escalar quando a sua mãe foi diagnosticada com cancro. «Eu tinha 29 anos e comecei a comprar. Esse foi o início de uma caminhada muito dura. Porque os charros chegavam e eu fumava. Mas depois passei para isso. Um amigo meu tinha acesso e eu pedi-lhe para comprar. A partir daí foi como cair num abismo», lembra Miguel Félix. «O desgaste de um relacionamento juntamente com essa novidade fez-me começar a consumir de uma forma muito ativa. Um ano depois, morreu um dos meus melhores amigos de morte súbita. Isso foi a machadada. A partir daí comecei a consumir num dia aquilo que se calhar três ou quatro consomem em três noites», admite. Ao início uma grama por uma noite chegava. Depois tornou-se num carrossel. «Não dava aos outros precisamente por querer fazer sozinho e porque  não queria influenciar ninguém. Eu não sou uma pessoa para perguntar: ‘Olha, queres fazer isto?’. Porque eu sabia o quanto aquilo me prejudicava. Mas aquilo fazia com que o tempo passasse rápido e eu não pensasse nas coisas. E essa foi a questão… Vamos imaginar que o dia não tem 24 horas e tem 48, porque eu não dormia. Se eu tivesse 48 horas acordado eu era capaz de consumir quatro a cinco gramas», revela o jovem.

O mundo das dependências 

Segundo a Psiquiatra Elsa Rocha Fernandes, a dependência química é uma perturbação psiquiátrica crónica e recidivante, enquadrada nas Perturbações por Uso de Substâncias (DSM-5-TR/ICD-11), caracterizada por um padrão de consumo desadaptativo com perda de controlo, craving – desejo intenso, incontrolável ou «fissura» por uma substância ou alimento específico –, tolerância e/ou síndrome de abstinência, e manutenção do uso apesar de prejuízo clínico e funcional. «Envolve a neuroadaptação nos sistemas de recompensa, motivação e controlo executivo», explica. «As substâncias psicoativas classificam-se, de forma clínica, em depressoras do sistema nervoso central (álcool, opioides, benzodiazepinas), estimulantes (cocaína, anfetaminas, nicotina), perturbadoras/alucinogéneas (canábis, LSD, psilocibina), bem como dissociativos (cetamina), inalantes e novas substâncias psicoativas, frequentemente com mecanismos farmacológicos híbridos», continua.

Apesar de muita gente utilizar a palavra «adição», de acordo com a Psiquiatra adictologista, Maria João Gonçalves, em português, é mais correto dizer dependência. «Ou seja, quando dizemos dependência, pode ser de uma substância ou pode ser sem substâncias. Por exemplo, quando uma pessoa tem uma dependência de casino, não existe uma substância necessariamente envolvida. O circuito de dependência e de recompensa, que dá origem à dependência, é exatamente o mesmo nas dependências químicas e não químicas», assegura. E, infelizmente, ainda muita gente continua a ter dificuldade em associar dependência à doença. «Geralmente as pessoas com dependências são muito estigmatizadas . Não só pela população não-médica, mas também pela população médica. É preciso dizer que mesmo os médicos discriminam bastante esta população de doentes com dependência. São logo rotulados. É um alcoólico, é um toxicodependente… Se não fosse uma doença, não seria uma especialidade médica dentro da psiquiatria. Eu digo que sou logística, sou especializada também em dependências, é o domínio que eu trabalho mais… Sou psiquiatra geral, mas depois especializei-me no domínio das dependências», conta. 

A especialista sublinha que é necessário também saber distinguir o que é o uso ocasional e esporádico, e quando começa a ser uma dependência… «Passa a ser uma doença quando as pessoas perdem o controlo no consumo da substância e, nesse caso, é a substância que irá controlar o consumo e toda a vida da pessoa».  «A pessoa pode ter um consumo excessivo – é o que nós chamamos, por exemplo, no álcool, de binge drinking –, e pode estar um mês sem beber álcool. De repente, tem um consumo excessivo que pode mesmo lhe levar ao coma. Para dizer que é uma dependência, há determinados critérios de diagnóstico que estão aplicados. Por exemplo, geralmente a pessoa perde a consciência. Não conseguem reconhecer. Muitas vezes vêm às consultas porque foram obrigados, ou através do tribunal, porque fizeram algum crime associado ao consumo, ou porque têm um problema físico associado», esclarece. 

Os efeitos nefastos 

A dada altura, pelo consumo, Francisco tornou-se mais egocêntrico, irresponsável e mais inconsistente. «Ou seja, eu até conseguia manter um registo responsável uns tempos, mas depois descambava. Quando há uma adição há sempre uma certa dose de imprevisibilidade. A pessoa faz e depois não pensa nas consequências», revela. Quando elas chegam, surge o sentimento de arrependimento e, ao não saber lidar com isso, volta-se a consumir. Para o comercial, o problema do adito não são as drogas, «é o seu desgoverno interior». «É a dificuldade que ele tem em aceitar-se. É a dificuldade que ele tem em gerir a sua parte emocional… Uns mergulham no álcool, outros noutro tipo de drogas, outros no jogo, sexo, outros é as compras, os próprios distúrbios alimentares… Isto vem tudo de uma falta de autoaceitação e falta de autoestima», defende. 

E chegou mesmo a pensar em acabar com a vida: «Muitas vezes tinha consciência que o melhor da vida me estava a passar ao lado, que havia anos e momentos mágicos e extraordinários que não iam voltar. Havia uma série de sonhos que eu trazia de adolescente e de criança que eu tinha deixado ir pelo cano abaixo porque, em prol da minha adição, tinha desistido. Tinha perdido uma série de oportunidades em vários campos da minha vida, porque a minha adição falava sempre mais alto. E porque, lá está, depois os dias tornam-se todos iguais e o fim de linha de um adicto é o vazio. A pessoa já não está bem nem a usar, nem sem ser a usar. Quando se chega a este final de linha: ou a pessoa se atira de cabeça e acaba com o pouco que resta, ou então toma uma decisão honesta. Foi isso que aconteceu comigo. Disse: Basta! Vou dar uma oportunidade a mim mesmo, eu já não reconheço este Francisco!». As pessoas já não queriam estar perto de mim e eu já não me suportava», desabafa Francisco Deslandes. 

A toxicidade das drogas difere significativamente entre substâncias e, segundo Elsa Rocha Fernandes, inclui: dimensões agudas (overdose, toxicidade cardiovascular ou respiratória), crónicas (lesão hepática, pulmonar, neurológica) e psiquiátricas. «Fatores como dose, via de administração, frequência de uso e comorbilidades médicas modulam o risco individual», afirma. «As substâncias com maior potencial de dependência incluem os opióides (heroína, fentanil), a cocaína/crack, a nicotina e o álcool. Este potencial está associado à rapidez de início de ação, intensidade do efeito recompensa e magnitude da libertação de dopamina no sistema mesolímbico», detalha a Psiquiatra.

E Miguel Félix sentiu bem os efeitos. «Sentia fadiga, muita fadiga. Eu pessoalmente não tinha um cansaço mental muito grande. Sentia repercussões principalmente na barriga das pernas. Depois, a magreza extrema, comecei a ficar muito magro, com a cara muito covada, a suar muito. Era muito questão física», descreve. Sentia muita vergonha. E julgava-se todas as vezes que terminava uma grama. «Terminava, olhava para aquelas saquetas todas abertas sem nada e dizia para mim: ‘O que é que tu acabaste de fazer?’. E essa culpa consumia-me, mas voltava a fazê-lo, porque é um ciclo vicioso. Era automático. O que é que potenciava isso? Álcool. Porque tu podes beber 10 litros de cerveja e podes estar quase em coma álcool e, a partir do momento em que mandas um cheiro, acabou. E eu adorava essa sensação, porque eu sentia-me capaz de beber o mundo inteiro», conta. 

Mentira e manipulação

Quanto à questão de o que é que era para os outros ou o que é que isso poderia significar para os outros, de acordo com o jovem, este sempre foi uma pessoa muito acelerada, muito enérgica e muito proativa. «Então foi fácil disfarçar… Ao início pareceu normal. Depois comecei a aparecer com o nariz ferido e entupido quando não estávamos na altura das gripes. Comecei a aparecer todo suado. Acho que as pessoas começaram a reparar ao fim de um ano e meio», acredita. Ao fim de quatro anos de consumo, a manipulação já estava presente. «Quando temos fome e não temos dinheiro para comer nós pedimos dinheiro emprestado ou pedimos a alguém que nos faça compras… Ali acontecia exatamente a mesma coisa. Menti muito. Talvez seja a coisa que mais me arrependo neste processo todo. Mas nunca roubei, nunca tirei nada de casa para vender. Não me considero uma pessoa má. Essa parte da manipulação vem com a droga», assume. 

Segundo a psiquiatra Maria João Gonçalves, é importante saber que geralmente a cocaína está muito associada ao consumo de álcool, «porque como é um estimulante, é muito comum que as pessoas a usem com algum medicamento mais sedativo para conseguirem tolerá-la». Bebem álcool ou tomam Xanax, por exemplo. Além disso, continua, a diferença entre o álcool e a cocaína é que enquanto com o álcool pode haver um atingimento do funcionamento da pessoa de forma mais evidente, no caso da cocaína, pode ser perfeitamente possível disfarçar. «Eu tenho vários casos com que eu lido diariamente, que são pessoas que conseguem ter uma vida normal, conseguem trabalhar, até ter mais produtividade, e conseguem esconder isso. Trabalho com pessoas que consomem há 10 anos e a esposa não se apercebe, ou só se apercebe quando vê dívidas», alerta.  

A especialista trabalha na Bélgica desde 2023 e é responsável pelo departamento das dependências, num hospital que pertence a Charleroi. «É uma das cidades na Bélgica com maior consumo de substâncias. É importante perceber que neste momento está a aumentar o consumo de cocaína, pelo simples motivo que o preço reduziu», refere, acrescentando que a grande parte da cocaína que entra na Europa é através da Antuérpia. «Antes uma grama de cocaína custava cerca de 70 euros, 80, e nos últimos meses é possível comprar 2 gramas por 100 euros», adianta. 

A decisão de parar 

Francisco Deslandes pediu ajuda e admite que o processo de reabilitação não é fácil, pois ao usá-las durante vários anos cria-se uma forte ligação e as memórias do uso estão presentes muitas vezes. «Acho que tem tudo a ver com o compromisso que a pessoa faz consigo mesma. E de facto o mindset com que eu entrei para a reabilitação foi: ‘Venha quem vier… Eu não quero mais isto!’. Como eu já tinha feito outras tentativas, já me ia conhecendo. Tinha consciência que, por vezes, a minha cabeça podia querer pegar-me partidas. Por isso, fui muito motivado. Cerrei os punhos e os dentes e disse: ‘Nada me vai parar!’», lembra. «Uma coisa que também me bateu muito nessa altura é que eu não me sentia ligado a nada. Era como se houvesse o mundo, com tudo o que acontece (com as pessoas, com as responsabilidades, com os pais, com os filhos, com a sociedade) e depois havia eu. Eu já não fazia parte disso», explica. 

Relativamente aos tipos de reabilitação possíveis, Elsa Rocha Fernandes partilha que tratamento é multimodal e inclui acompanhamento médico especializado (e recurso a tratamento farmacológico – por exemplo, metadona ou buprenorfina para opioides; naltrexona ou acamprosato para álcool); psicoterapia (cognitivo-comportamental, entrevista motivacional), e programas estruturados de reabilitação psicossocial. «As fases mais exigentes são a abstinência inicial e a manutenção a longo prazo, devido ao craving e aos fatores ambientais», assegura. 

Já Miguel Félix optou por fazê-lo sozinho, o que para as especialistas não é de todo indicado. «Decidi não me internar… Fechei-me durante dois a três meses em casa, no quarto, não tive contacto com qualquer tipo de droga nem álcool. Não te vou dizer que ao princípio não foi difícil, mas houve uma estratégia que me ajudou. Como podes calcular criei muitas dívidas e eu apontei numa folha todas as dívidas que eu tinha. Era tão assustador que cada vez que eu tinha vontade de consumir, olhava para aquilo e tinha força para não o fazer», conta. Fisicamente, ao fim de uma ou duas semanas, suava muito e não dormia… «A última vez que eu tinha consumido tinham sido onze gramas em dois dias e meio. Fui-me completamente abaixo, sangrava do nariz, estava completamente esquelético… Pode parecer pretensioso, ambíguo ou antagónico, mas eu sempre tive a cabeça no lugar. Portanto, nunca fiquei maluco ou débil mentalmente. Nunca tive surtos, nunca bati com portas, nunca bati em ninguém, nunca gritei a dizer que precisava nada. No meio de tanta porcaria, acho que talvez essa tenha sido a minha pequena grande vitória», acredita. Além disso, teve ajuda de uma desconhecida que conheceu na internet e com quem acabou por exorcizar muita coisa. «Era como uma psicóloga para mim», revela. 

Apesar do jovem assegurar ter conseguido fazê-lo dessa maneira, a psiquiatra Maria João Gonçalves considera-o extremamente perigoso: «Se nós temos psiquiatras e especialistas nessa área não há necessidade. É extremamente perigoso dependendo da substância que a pessoa toma. Uma pessoa que para de consumir de repente pode ter outros sintomas que não estejam associados à substância: pode ficar com instintos suicidas, alterações do sono, alucinações, ficar extremamente agitado. É óbvio que é possível, mas isso é o que se fazia antigamente nas curas a frio. Deve haver um acompanhamento e parar a substância tem de ser de uma forma gradual. Queremos que seja o menos doloroso possível», reforça. 

Um cuidado para a vida toda 

Francisco Deslandes está em recuperação há cerca de 12 anos e, segundo o comercial, o processo foi muito desafiante porque quando começou a recuperar tinha muitas consequências em várias áreas da vida. «Quando eu olhava para a minha vida, perguntava-me como é que ia resolver as coisas… Se tenho financeiramente imensos danos, se tenho danos na família, as pessoas estão muito magoadas, se a nível profissional perdi uma série de oportunidades, como é que volto a conquistar as coisas? A minha vida estava tipo um novelo de lã cheio de nós», reflete. «Disse para mim que iria ter calma, viver um dia de cada vez, não ter pressa… Tive que me mentalizar que ia levar tempo, que as coisas não iam ser de pé para a mão, mas que isso ia me tornar também uma pessoa mais forte e resiliente», acrescenta, admitindo que nunca dá a sua recuperação como garantia. «Continuo a ser super rigoroso com as minhas rotinas de trabalho, com a minha autodisciplina, faço desporto todos os dias, falo diariamente ao telefone com pessoas da minha confiança… Porque se é adicto para sempre. A adição tem tratamento, mas não tem cura. Hoje sou um homem livre, tenho um propósito, tenho responsabilidades. Faço parte, estou ligado, os meus filhos ligam-me e contam comigo, amigos igual… O saber que posso contar com as pessoas e que as pessoas podem contar comigo é uma coisa sem preço», afirma. 

E a Psiquiatra adictologista concorda: «Daí ser tão importante a psicoterapia de grupo, haver um seguimento, mais do que uma hospitalização, porque o circuito de recompensa precisa de tempo para alterar. O tratamento das dependências é tão complexo… Eu tenho um caso de um doente que foi internado e já fez 30 desintoxicações. Tem 45 anos e  volta sempre a recair. Mesmo que a pessoa pare de consumir a substância, fica o sentimento vazio. Tem que haver outra atividade, tem que haver outro fator de interesse que não seja uma substância», alerta. «As recaídas devem ser encaradas como parte possível do curso da doença. Clinicamente, implicam reavaliação do plano terapêutico, identificação de fatores precipitantes e reforço das estratégias de prevenção, com o objetivo de promover recuperação sustentada e redução do risco futuro», completa Elsa Rocha Fernandes.

Há um ano e oito meses que Miguel Félix não consome e ainda luta com alguns fantasmas do passado. O que o tem ajudado tem sido o trabalho e a medicação. «Não estou medicado há muito tempo. Todo este processo estava mal resolvido e isto são sequelas. Estou a tomar antidepressivos: um para dormir e outro para viver o meu dia-a-dia. Um regulador de humor, digamos assim. O exercício físico também me ajuda muito», admite. Hoje, não tem vontade nenhuma de consumir. «Primeiro porque sei que isso vai ser como cair de cu em 20 escadas que eu acabei de subir. Segundo porque, neste momento, tenho todos os motivos para não querer fazer mais. Terceiro porque a vida é muito mais bonita sem qualquer tipo de substância», remata.