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Uma destas noites andava aí atrás uma gaja toda nua», contam-nos na tasca Zé dos Cornos, assim que pisamos a Mouraria. «Aquilo é do crack. E além disso estão sempre a arranjar discussões, as pedras da calçada estão todas levantadas porque escondem aí a droga. Isto, então à noite, é uma miséria».
Uma realidade dura e que pode parecer estranha a quem passa por esta zona da cidade. Uma espécie de enclave de miséria no coração de Lisboa. «Aqui na Mouraria o problema principal é o crack. A polícia, através do Laboratório de Polícia Científica, detetou que a cocaína crack desta zona da cidade tem compostos diferentes, que leva a quem muitos consumidores tenham comportamentos estranhos, que se dispam no meio da rua, que andem no meio dos carros. Há pessoas a falar sozinhas, zangadas. E claro que também há alguns que desenvolvem, ou já tinham, problemas mentais», descreve Filipa Bolotinha, residente e coordenadora da Associação Renovar a Mouraria. «Muitas zangas desenvolvem-se por qualquer coisa sem importância. Há falta de tranquilidade».
Consumos e fezes na rua
Muitos consumidores têm outros problemas associados. «O crack é uma droga muito barata e é muito associada a pessoas que têm essa condição extremamente vulnerável; os sem-abrigo». Debaixo das arcadas do Martim Moniz e junto ao Centro Comercial da Mouraria há muito cartão usado pelos sem-abrigo para aquecerem um pouco mais as noites frias ou até para se esconderem do mundo durante o dia. Basta conseguirem juntar cinco euros – o valor da dose mínima, nas ruas conhecida como ‘um conto’ – para fazerem o caminho até aos traficantes.
«Há um grande problema que é motivo de desconforto, eu diria, das pessoas que já não querem viver na Mouraria ou saíram: é a questão da higiene urbana relacionada com estas pessoas em situação de sem-abrigo. Não há casas de banho públicas. O nosso grande problema, aqui no beco do Rosendo [onde fica a Associação Renovar a Mouraria] são os dejetos humanos», revela Bolotinha. «É um problema diário. Nós até pomos areia de gato por cima. É horrível lidar com isto. Em 10 anos, os sem-abrigo passaram de seis mil para 14 mil, em todo o país. Aqui, as pessoas vivem na rua e não há infraestruturas públicas e tem de haver essas soluções», reclama a coordenadora da Renovar a Mouraria.
A luz do dia consegue ir disfarçando o que está à nossa volta. A noite traz a escuridão da rua e da vida. Às vezes, depois de uma má palavra vem uma facada ou um tiro. Tudo pode acontecer entre a rua do Benformoso, a Calçada dos Cavaleiros, o Martim Moniz e os becos e vielas mais escondidos da Mouraria. «Durante o dia, os comércios estão abertos, e as pessoas que têm ali os seus comércios, e as famílias imigrantes, que já vivem há mais tempo na rua do Benformoso, têm exatamente as mesmas queixas do que as famílias portuguesas, porque também sentem este efeito do consumo. E depois, à noite, quando todos esses comércios fecham, e as pessoas que fazem ali a vida durante o dia não estão lá, há um ambiente, diria eu, mais pesado, que se foca só no consumo. Quem está ali naquela zona está a consumir e, por vezes, são grupos de pessoas», prossegue Filipa Bolotinha.
«O bairro da Mouraria encerra grandes desafios. Uma coisa de que as pessoas se queixam muito, e que antes não havia, é de que se consome em todo o lado. Antigamente havia um código, não sei se era ético, mas olhava-se para o consumo de droga de outra forma. Havia um resguardo: dois ou três sítios onde se consumia de forma menos visível. Porém também há uma grande diferença: nessa altura a heroína dominava e o consumo era injetado enquanto hoje é, sobretudo, fumado», analisa.
Os "bolinha na boca"
A VERSA regressa à Mouraria noutro dia, desta vez num carro descaracterizado da Divisão de Investigação Criminal (DIC) da PSP. Ao volante segue o agente principal Jorge Duarte, 49 anos, «o grande especialista em Mouraria», lança o chefe Gonçalves Moreno, 51 anos, o nosso outro anfitrião. Ficamos a saber que há uma banca de venda de droga no coração da Mouraria e, ainda, vendedores dispersos pelas ruas e na praça do Martim Moniz: «Os bolinha na boca», refere Jorge Duarte.
Saímos das instalações da DIC, no Restelo, até ao centro da cidade e a primeira passagem é pelo Martim Moniz. «Ao pé do hotel Mundial há sempre malta a vender», comenta o agente principal Jorge Duarte. Há indivíduos com duas ou três doses, têm aquilo na boca. Quando a Mouraria está ‘fechada’ – a VERSA apurou que a principal banca de droga abre ao meio-dia e fecha às duas da manhã – temos um espaço temporal em que há falta de droga e eles vendem. «São freelancers mas vendem bastante. Estamos a falar de vários indivíduos, mais ou menos organizados, com 20 a 25 embalagens cada um».
Gonçalves Moreno completa: «Não estão fisicamente instalados. São indivíduos que chegam, principalmente da linha de Sintra. Andam a vender a alguns clientes que já têm e a outros, em zonas que eles sabem que os consumidores se concentram mais».
Estes vendedores ambulantes de estupefacientes não têm um esquema montado com vigias. «Escondem a droga nos muros ou em buracos e depois têm dois ou três pacotes com eles. Se a polícia aparece, engolem a droga. Se a polícia não aparece, vendem esses pacotes e depois vão buscar mais aos buracos». Estes homens, sobretudo de origem africana, não se misturam com o grupo organizado e instalado na Mouraria.
Labirinto atrapalha rusgas
«A Mouraria é um circuito fechado». A venda é feita num pequeno beco da rua da Amendoeira mas há vigias desde o largo do Terreirinho e pela rua do Marquês de Ponte de Lima, que não só encaminham os consumidores como alertam para a presença ou chegada das autoridades.
A Mouraria é terreno árduo para a polícia. «Há uns tempos fizemos lá uma abordagem e nem queira imaginar as técnicas que nós usámos para nos aproximarmos sem sermos detetados. Foi em meados de dezembro do ano passado. Tivemos de utilizar mil e uma táticas para passar os vigias, porque nós temos de passar os vigias para conseguirmos chegar aos vendedores. Depois, quando chegámos lá já a droga não existia», lamenta Gonçalves Moreno.
Ainda assim, esta ação policial rendeu frutos. Foram detidas cinco pessoas em flagrante, através de buscas domiciliárias e não domiciliárias. Outro elemento conseguiu fugir mas foi capturado, fora de flagrante delito, no final de março. A quantidade de droga apreendida foi, como refere o chefe da PSP, diminuta: 40 doses de cocaína, 80 de haxixe e 50 de liamba. Na mesma operação foi ainda apreendido dinheiro, no valor de 2700 euros.
«A jogada é simples: têm vigias estratégicos. Mesmo alguém apeado pode ser detetado pelos vigias e, na dúvida, eles gritam ‘polícia’ ou ‘uga’. Os vendedores escondem-se em locais pré-definidos, essencialmente certas casas de moradores da Mouraria, as chamadas ‘casas de recuo’. A nossa atuação torna-se ainda mais difícil», explica Jorge Duarte.
A esquadra especializada no combate ao tráfico de droga da DIC mapeou os principais bairros associados ao tráfico de droga em Lisboa. A Mouraria e a Quinta do Loureiro, na zona onde se localizava o antigo Casal Ventoso, estão pintados a encarnado; os restantes a rosa. «Estes dois bairros estão a vermelho tendo em conta o impacto que têm na cidade. No Loureiro há mais droga: nos outros quatro bairros juntos, incluindo a Mouraria, não se vende metade da droga que é vendida no Loureiro. Mas não podemos subestimar a Mouraria. Estamos a falar de um volume, por hora, de 50 a 60 clientes».
Mais uma vez, a geografia da Mouraria é a principal aliada dos traficantes. «Aqui, quem quiser comprar, tem de ir a pé. Quanto a nós, temos várias estratégias para fazer vigilâncias mas não as podemos revelar, por motivos de investigação», avança Gonçalves Moreno.
A "indústria" da droga
Entre vendedores, vigias e donos da droga há uma «autêntica indústria que funciona como organização criminosa», explica o chefe da PSP. «Os vendedores até podem ser daqui da Mouraria mas os donos da droga são de fora».
Samir, o conhecido líder do ‘Grupo de Chelas’, foi preso em 2023 e condenado a 19 anos de prisão. Mas o grupo continua ativo. Basta recordarmo-nos do tiroteio, na rua do Benformoso, no dia 24 de fevereiro. Houve três feridos, um deles do ‘Grupo de Chelas’, e dois estafetas que nada tinham a ver com o caso. Os tiros foram disparados de um carro em andamento. Alegadamente, há outro grupo, também violento e perigoso, que disputa agora a venda de droga na Mouraria, aproveitando a prisão de Samir.
Rui Costa, intendente e responsável pela DIC explica que «as pessoas que estão a vender são abastecidas por alguém que há de residir noutro lado. Que há de ter uma estrutura do tráfico montada noutro sítio. E as investigações pretendem chegar a todos».
Já os vendedores são prata da casa. «Aqui, por norma, os vendedores são uma espécie de trabalhadores com contrato a termo incerto. A gente chega cá e as caras são as mesmas», acrescenta Jorge Duarte.
O intendente revela que a investigação, porém, não se resume aos pontos de venda ao consumidor. «Para nós é absolutamente fundamental debelarmos três níveis. A prática têm-nos dito que se nós só investirmos ao nível 1, na venda direta, vamos lá um dia, podemos prender toda a gente, naquela altura eles fecham a banca mas passadas umas horas já lá estão outros».
Mas há um propósito para este combate a um primeiro nível. «Nós preocupamo-nos com problemas de segurança pública. A Mouraria e a Quinta do Loureiro são dois locais que, da nossa perspetiva, são aqueles que mais influência têm tido na perceção e na realidade, também. Não são só perceções; afetam a segurança pública», afiança Rui Costa.
O intendente tem uma explicação. «São os locais que têm maior visibilidade, aqueles que têm mais toxicodependentes, têm mais criminalidade nas imediações e são aqueles que, de facto, assustam mais as pessoas. Daí serem prioritários. Por outro lado, há locais onde sabemos que há ali crime organizado mas o impacto nas pessoas é mínimo, porque não se vê nada». E continua: «Na Mouraria, que é do que estamos a falar agora, não é assim. Temos ali turistas e muitas pessoas que se queixam, há o furto de oportunidade. Se há um telemóvel que está à mão é furtado e, depois, são capazes de vender um smartphone topo de gama por 10 euros, só para comprarem a sua dose».
O consumo nas ruas é uma realidade gritante. Faz parte do ‘normal’ ver alguém acender um cachimbo de crack e fumar na Mouraria e, até mesmo, junto ao Rossio. «São toxicodependentes e consomem logo ali. Mas não consomem junto à banca, fazem-no mais para baixo, na rua do Benformoso, Martim Moniz, por aí», conta o chefe Gonçalves Moreno.
Tudo se vende
A volta ao terreno, no carro descaracterizado da PSP, termina no largo de S. Domingos, junto ao Teatro Nacional D. Maria II. Por ali, reúnem-se centenas de africanos. Algumas mulheres vendem produtos típicos dos seus países de origem. Os homens procuram, sobretudo, comprar. Seja lá o que for. «Se formos revistar estes homens muitos carregam dois e três mil euros. A intenção deles é comprar coisas para enviarem para os seus países», explica o agente principal Jorge Duarte.
Naturalmente, nesta zona de comércio informal «juntam-se muitos toxicodependentes que vêm vender o que têm. Eles compram tudo. Podem comprar por um valor irrisório, mas compram. Se você tiver aí alguma coisa que queira vender é só abordar um deles, que consegue vender». Por isso é por aqui que muitos consumidores arranjam mais algum dinheiro para matar o vício. «Vendem de tudo, muitas vezes material furtado», conclui o agente principal da PSP.
Filipa Bolotinha concorda que, nesta zona, não se vive sossegado. «De facto, há uma intranquilidade. Há muitas pessoas que nós vemos a passar, principalmente se estivermos aqui um bocadinho, nesta zona, vemos isso. Podemos considerar população do bairro, mas na realidade não são população do lado nenhum. São um grupo grande de pessoas que têm consumos, que têm doença mental, que vivem na rua e isso é algo que traz muita instabilidade aos moradores daqui».
O facto se ser uma zona onde passam muitas pessoas todos os dias aguça o engenho dos que precisam sempre de mais uma dose. «O aumento dos consumos é um fenómeno que não é só português, que tem a ver com os ciclos, até com os ciclos económicos, até com o turismo. O turismo também traz mais pessoas, traz mais o movimento das saídas à noite, há mais pessoas a procurar a Mouraria. Portanto, tudo isso traz o negócio da droga».
Os furtos, cujo produto acaba muitas vezes no largo de S. Domingos, são talvez o crime mais frequente. «Isto é uma zona, e muitas pessoas falam sobre isso, onde é fácil, ou é mais fácil, arranjar dinheiro para consumir, porque também há muito mais pessoas. Porque o que nós notamos que existe aqui é muito furto de ocasião. É um telemóvel, é uma carteira, é uma mala. Noutros casos há lojas assaltadas, há uma sapataria aqui perto que já foi assaltada quatro vezes», remata a coordenadora da Associação Renovar a Mouraria. «É o nosso dia a dia».