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João Abel Manta, arquiteto, ilustrador e cartoonista, morreu na tarde desta sexta-feira aos 98 anos. A notícia foi avançada pelo jornal Público.
Nascido em Lisboa a 28 de janeiro de 1928, João Abel Manta foi uma das figuras mais marcantes do retrato em cartoon da revolução do 25 de abril de 1974. Seguiu o caminho dos pais, Abel Manta e Maria Clementina da Moura, ambos pintores e professores. Conviveu, na altura em que viajava com os pais pela Europa, com judeus alemães refugiados, o que vincou muito bem na sua personalidade a valorização da liberdade e resistência.
Pouco depois de fazer 20 anos, em 1948, foi detido pela PIDE, "por ser elemento do MUD [Movimento de Unidade Democrática] Juvenil” e “por receção e distribuição de material subversivo”. Esteve duas semanas na Prisão de Caxias, com Ernesto de Sousa - nem aí deixou de criar arte. Alguns dos desenhos feitos na cela foram expostos pela primeira vez em 2024, numa exposição em Algés.
Em 1972, desenhou um cartoon intitulado "Festival", publicado no Diário de Lisboa. Foi processado em tribunal por "ofensas à bandeira nacional", mas foi ilibado. É conhecido por satirizar o regime em ilustrações, nomeadamente na que fez para o livro de José Cardoso Pires, em 1972, "Dinossauro Excelentíssimo", onde satirizava Salazar e a "primavera marcelista".
Mas foi o 25 de abril que o tornou numa das figuras mais icónicas da arte. “Fiquei tão entusiasmado que nunca mais parei – comecei, nesse mesmo dia, a fazer tantos bonecos que até sobravam para o dia seguinte!”, disse, numa entrevista ao jornal Público, em 1999, embora admitisse que não gostava de ser o "cartoonista da Revolução".
Em 1978, João Abel Manta publicou aquela que é considerada a sua obra editorial mais relevante, o livro "Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar", mas, em 1982, depois da morte do pai, decidiu aproximar-se mais da pintura do que dos cartoons.
É a neta, Mariana Manta Aires, que tem coordenado nos últimos anos o processo de "inventariação e descoberta do que está guardado". Este processo, admite, pode levar a um "espaço museológico próprio" no futuro.
Será possível prestar uma última homenagem ao artista este domingo, dia 17 de maio, entre as 11h30 e as 12h45 no crematório do Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, de acordo com os familiares.