terça-feira, 21 jul. 2026

Missão: Salvar vidas no mar

Entre janeiro e final de maio já morreram 57 pessoas por afogamento. A VERSA foi conhecer todos os meios empenhados na busca e salvamento na costa portuguesa, num dispositivo coordenado pela Autoridade Marítima Nacional. Desde embarcações salva-vidas a nadadores-salvadores ou à equipa especial Sea Watch todos estão a postos para resgatar os mais incautos. 

Uma extensa área, desde a praia de Mira, perto de Aveiro, até à praia de Pedrógão, no distrito de Leiria, está sob a alçada da capitania do porto da Figueira da Foz. O mar é forte e muitos banhistas aventuram-se para lá do razoável. Trabalho não falta a todo o dispositivo montado pela Autoridade Marítima Nacional (AMN) e empenhado na busca e salvamento em toda a zona costeira.  

Recorde-se que entre 1 de janeiro e 31 de maio já perderam a vida, por afogamento, 57 pessoas. Embora a maior parte das ocorrências tenha sido em rios, com 17 vítimas, o mar também engoliu muitas vidas, em 19,4% das situações. Os dados são do Observatório do Afogamento da Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores e dão conta de que Coimbra, precisamente onde a Versa observou de perto como funciona o dispositivo de segurança da AMN, foi o distrito mais afetado. O total das mortes aconteceu em zonas não vigiadas. 

Meios de busca e salvamento 

É sobretudo no verão que os acidentes acontecem. Além da vigilância nas praias está também assegurado o controlo de quem frequenta outras zonas costeiras, como arribas e miradouros, e até mesmo quem navega em alto mar. «Dispomos de uma estação salva-vidas com diversas embarcações. Temos esta embarcação, que é uma embarcação oceânica, já com alguma capacidade de afastamento da costa», avança o comandante Salvado Pires, capitão do porto da Figueira da Foz.  

O pequeno navio, onde a VERSA haveria de embarcar mais tarde, pode distanciar-se até 50 milhas náuticas, o equivalente a cerca de 92 quilómetros. No entanto, há outros meios ao dispor das equipas de busca e salvamento da estação salva-vidas da Figueira da Foz. «Temos uma embarcação semirrígida, que é costeira, mas também tem alguma capacidade de realizar ações no mar, em costa aberta. Temos ainda duas motas de água e um bote. Quanto às motas de água e ao bote, o seu uso depende das condições meteorológicas, mas normalmente só são acionadas em águas interiores, do rio [Mondego] ou do porto»

Os acidentes com náufragos podem acontecer em praias vigiadas ou não vigiadas e até em alto mar. Quando surge alguma situação, Salvado Pires explica qual é o procedimento comum para ir ao encontro da ocorrência. «Normalmente, nesse tipo de situações, surge o 112. O 112, logo nos momentos iniciais, passa essa informação ao nosso centro de busca e salvamento. Então, o nosso centro de busca e salvamento, de imediato, passa a informação à capitania e nós ativamos logo os tripulantes da estação salva-vidas»

Durante a época balnear, de acordo com o capitão do porto da Figueira da Foz, «temos cá, normalmente, a equipa de vigilância motorizada, que é logo deslocada para o local, para poder auxiliar naquilo que for necessário». Já a estação salva-vidas funciona durante todo o ano. «Todos os dias, 365 dias por ano, estão dois homens na estação salva-vidas, das 09h00 às 17h00. Entre as 17h00 e as nove da manhã do dia seguinte estão à chamada, com uma prontidão de até 45 minutos»

Todas as embarcações da estação salva-vidas podem ser tripuladas por qualquer dos operacionais da estação. Estes militares pertencem ao Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) mas encontram-se sob administração local da capitania, neste caso do porto da Figueira da Foz. «Todos estão habilitados a conduzir as embarcações e a operar com elas», reafirma Salvado Pires. 

A importância da mota de água 

O marinheiro Miguel Bentes, um dos elementos da estação salva-vidas, detalha, a título de exemplo, como é feito um salvamento junto à praia, com a mota de água. «Depois de sermos acionados, iremos perceber qual é a praia onde está o náufrago e vamos sempre avaliar as condições do mar. De manhã pode estar um mar com ondas mais pequenas e à tarde com ondas maiores», começa. «Depois temos de ver se o náufrago está na água ou não. Se estiver lá alguém, um nadador-salvador, também temos contacto com eles e fazemos também treinos com os nadadores-salvadores, para também estarmos em sintonia»

Dentro de água, caso esteja um nadador-salvador junto à vítima este levanta o braço apesar de os náufragos, de acordo com o marinheiro Bentes, também terem o instinto de levantar os membros superiores. «Identificamos, vamos praticamente direitos a eles, fazemos uma volta para enfrentarmos o mar, para vermos as condições também do mar, e assim fazermos o resgate com segurança»

Está na hora de embarcarmos. «Esta é uma embarcação mais robusta, é a maior, e a que consegue distanciar-se mais da costa», volta a dizer o comandante Salvado Pires. «A semirrígida é de média dimensão, é uma embarcação costeira, também consegue enfrentar algumas condições de mar, mas tem limitações porque é uma embarcação muito baixa», conclui.  

Saímos do porto da Figueira da Foz e damos uma pequena volta em alto mar. Aos comandos da embarcação está o marinheiro Bentes. Qualquer embarcação tem o mesmo fim: a busca e salvamento. «O que efetivamente faz a diferença é o local onde surge a ocorrência e as condições meteorológicas que se estejam a fazer sentir no momento», prossegue Salvado Pires. «Por vezes, a embarcação semirrígida é a mais rápida, atinge velocidades muito superiores, de maneira que se as condições permitirem a sua utilização é essa que empenhamos de imediato».  

O papel da Polícia Marítima 

Além das embarcações da estação salva-vidas, cujo propósito é a busca, socorro e assistência a náufragos, existem também embarcações da polícia marítima. «Se houver necessidade, por exemplo se eu vir que uma destas embarcações da estação salva-vidas já está empenhada noutra ação, ou que está com alguma limitação, empenho uma embarcação da polícia marítima, da qual também sou comandante», reforça Salvado Pires.  

No entanto, a polícia marítima tem as suas atribuições próprias. «A polícia marítima fiscaliza todas as atividades da praia, digamos assim. Sejam águas balneares [praias vigiadas] ou águas não balneares [praias não vigiadas]. A polícia marítima está pronta a comparecer em qualquer ponto, em qualquer local da área de jurisdição da capitania, em caso de necessidade, que pode ser uma ocorrência».  

Ao mesmo tempo, este órgão de polícia vai fazendo as suas ações de patrulhamento regulares. «De acordo com o nosso planeamento, há situações que detetamos e que estão menos corretas ou em presumível infração. A polícia marítima atua e levanta o respetivo auto». Uma destas situações pode ser um simples afastamento do nadador-salvador do seu posto para local indevido. «Num posto de praia, se o nadador-salvador não está a atuar conforme seria o adequado, ou se não estiver no local, a polícia marítima pode elaborar o respetivo auto».  

Nas zonas de águas balneares o trabalho de busca e salvamento está mais facilitado. Aqui há a obrigatoriedade de haver nadadores-salvadores a fazer vigilância, entre as nove da manhã e as sete e meia da tarde. «Desde 2018, os municípios são responsáveis por garantir a atividade de vigilância balneária, nas praias que são consideradas águas balneares. Nessas praias podem existir concessões. Quando a realização desses contratos de concessão é estabelecida, entre o município e os concessionários, pode ficar determinado que seja o concessionário a garantir a contratação de nadadores-salvadores», sublinha o capitão do porto da Figueira da Foz.   

Contudo, o município continua a ter a responsabilidade de verificar se o dispositivo de segurança está a ser cumprido e garantido. No caso das praias de águas balneares sem concessões de praia a lei obriga à presença de dois nadadores-salvadores a cada 100 metros. «Isso é garantido, diretamente, pelo município».  

Os ‘anjos’ das praias não vigiadas 

O que mais preocupa as autoridades são as praias não vigiadas. Mas, mesmo essas, não ficam de fora dos planos de busca e salvamento da Autoridade Marítima Nacional. Nessas zonas, os banhistas devem ter cuidados redobrados mas podem contar com o projeto Sea Watch, que surgiu em 2010. Normalmente, dois elementos da marinha deslocam-se numa viatura todo-o-terreno e fazem a vigilância.  

«Conseguimos ser uma mais-valia porque conhecemos o terreno», começa por dizer o cabo Pimentel Brito, um dos elementos do projeto Sea Watch. «Dentro da carrinha temos o equipamento básico para prestar os primeiros socorros e auxílio. Esse equipamento é constituído por um kit de oxigénio, um desfibrilhador, kits de primeiros socorros e os diversos meios de salvamento, desde boias-torpedo, cintos, macas e pranchas. Temos tudo»

Quando estas equipas são acionadas, normalmente um pouco antes do início oficial da época balnear, têm uma primeira função que vai determinar o sucesso durante os meses de verão. «Andamos com uma 4x4 e o mar foi bastante agressivo no inverno e danificou muitos pontos de acesso. Tentamos primeiro tirar pontos de referência para conseguirmos entrar nas praias. Porque nós temos de entrar e sair, para fazer desde a extração de uma vítima, ou de uma pessoa que se sinta mal… Todo o caso que aconteça, nós temos de ter sempre um ponto de acesso à praia. Se não o conseguirmos, dificulta a nossa ação, porque temos de transportar todo o material a pé até à praia», adianta Pimentel Brito. 

O objetivo é sempre conseguir entrar com a carrinha dentro da praia. As praias não vigiadas com maior afluência de banhistas são as que mais preocupam a equipa Sea Watch. «Vamos percorrendo toda a área, desde a praia de Mira até ao norte de Pedrógão, que é uma área bastante extensa. Eu tenho sorte de já pertencer a este projeto há alguns anos e conhecer bem a zona. Sei quais são as praias mais frequentadas por aqueles banhistas que não vão para as praias vigiadas»

Algumas vezes, sobretudo com condições de mar adversas, os dois elementos da equipa Sea Watch alertam os banhistas para abandonar o local. «As pessoas nem sempre acatam os nossos conselhos e continuam por lá. Então nós, para garantir o bem dessas pessoas, permanecemos em vigia. Ficamos um bocadinho em posto fixo mas não podemos ficar o dia todo porque temos de ir para outras praias. É complicado de gerir mas vamos sempre tentando fazer as coisas da melhor maneira», realça o cabo Brito. 

Mesmo nas praias vigiadas há situações que obrigam os nadadores-salvadores a pedir ajuda aos elementos da equipa Sea Watch. «Muitas vezes eles recorrem a nós para prestar auxílio, nem que seja só para fazer a extração da vítima ou para dar algum apoio. Essas praias, a nós, não nos preocupam tanto porque sabemos que estão vigiadas. Então, passamos lá menos vezes», revela o cabo Pimentel Brito. «O nosso foco principal será sempre as praias não vigiadas. Temos muita praia não vigiada, as pessoas continuam a ir para lá e, por vezes, as coisas acontecem».  

Numa dessas vezes um casal foi arrastado pelo mar, numa das praias da Figueira da Foz. «Estavam a passear, só que foram apanhados. A senhora conseguimos retirar e estabilizar logo; o senhor desapareceu», recorda o cabo Brito. «Foi ativado o ISN, um helicóptero para fazer buscas e foram cerca de 10 horas a procurar o corpo do homem que, infelizmente, faleceu. Depois acabei por encontrá-lo na rebentação», lamenta. 

Aliás, este elemento da equipa Sea Watch alerta os banhistas. «Nós já tivemos situações em que as pessoas estão com a água pela cintura. Casos de nós avisarmos e a pessoa continuar a tentar nadar, mas como está em cima de um agueiro, mal tira os pés do chão vai arrastada. Vai arrastada e aí já não há força para nadar»

Salvo no limite 

O marinheiro Guedes da Graça, operacional da estação salva-vidas, já viu finais felizes e infelizes. «Numa das situações, consegui encontrar um banhista que tinha sido levado para um agueiro. Era um rapaz de Gouveia e não é que as pessoas da serra não saibam nadar, mas não é tão comum alguém do interior ter à vontade num mar, em águas abertas, como tem num rio», começa por contar o marinheiro. «Ele foi arrastado para muito longe mas consegui encontrá-lo após sensivelmente meia hora de buscas a perto de uma milha da costa, o que são quase dois quilómetros».  

Quando o marinheiro Graça chegou junto ao náufrago tudo indicava o pior. «O rapaz estava quase inerte, com pouca capacidade, mas ainda foi capaz de se manter à tona, aquele tempo todo, com o frio e tudo. Conseguimos recolhê-lo. Neste caso, recorri ao nadador-salvador da praia para me ajudar nas buscas, porque quatro olhos veem melhor do que dois».  

Nadador-salvador e marinheiro usaram uma mota de água para ir ao encontro do náufrago. «Depois de o recolhermos trouxemo-lo para a praia, onde também estavam os elementos do Sea Watch. O rapaz foi levado para o hospital onde entrou com uma temperatura corporal de 32 graus, ou seja, uma hipotermia grave. Mas conseguiu sobreviver», orgulha-se o marinheiro, que ainda visitou o náufrago na unidade hospitalar. «Graças a Deus, pelo menos dessa escapou»

Os marinheiros da estação salva-vidas usam um colete com diverso material que ajuda não só a recuperar os náufragos como dá maiores garantias de segurança aos próprios operacionais. O marinheiro Guedes da Graça mostra tudo o que traz. «Esta tesoura serve para fazer primeiros socorros ou então pequenos cortes. Vamos supor que alguém tem uma ferida: eu abro e corto as calças. Aqui tenho um equipamento GPS que, se for ativado, sabem exatamente a minha localização», descreve. «Aqui é o lugar do meu rádio, o telefone também tenho sempre comigo, e as luvinhas porque, volta e meia, há momentos infelizes e temos de trazer cadáveres. E tenho ainda um facho de mão, dia e noite, ou seja, para me poderem localizar quando a ajuda estiver a chegar. Por exemplo, vamos supor que eu caio à água e que a embarcação vira, Deus nos livre, mas que isto vira e eu preciso que me localizem. Quando a ajuda estiver a chegar aciono o facho, que é de fumo durante o dia, e de luz durante a noite», explica-nos a bordo do pequeno navio. 

O grupo sanguíneo escrito no colete – caso seja necessária uma transfusão de sangue –, um mosquetão para ser preso ao outro marinheiro ou à balsa salva-vidas, além do inevitável apito, são outros elementos que estão dentro dos vários bolsos do colete. Apesar de toda a parafernália o equipamento é leve. «A ideia é conseguir safar pessoas pesando o menos possível. Quanto mais leve eu estiver, mais ágil me torno, menos energia gasto, mais hipótese tenho de sobreviver e salvar outra vida».  

Menos sorte tem tido o marinheiro Miguel Bentes. «Estou aqui há cerca de três anos depois de 15 como fuzileiro», recorda. «Assim que acabei o curso, passado um mês, as minhas intervenções foram com dois cadáveres. Num dos casos ainda recolhemos o corpo, levámos para a praia para começar a fazer as manobras de reanimação, mas infelizmente não resultou».