terça-feira, 18 ago. 2026

Miguel Corrêa Monteiro: 'O historiador não é um juíz de mérito nem a História é um tribunal'

Combateu em Moçambique, por acreditar que só depois de os políticos definirem o futuro do Ultramar se poderia fazer a retirada das Forças Armadas. Terminou o curso de História depois da guerra e foi discípulo de Veríssimo Serrão. Diz que nunca viu o país tão dividido ideologicamente como agora.
Miguel Corrêa Monteiro: 'O historiador não é um juíz de mérito nem a História é um tribunal'

Fez o 26.º curso de Comandos, em 1973, já com a guerra do Ultramar a aproximar-se do desfecho. «Fui parar ao distrito de Tete [noroeste de Moçambique] como oficial de infantaria», recorda. «Enfrentei muita coisa. Aguentámos a invasão dos guerrilheiros que foram expulsos de Cabo Delgado e vieram para o distrito de Tete», na sequência da Operação Nó Górdio, uma grande ofensiva planeada por Kaúlza de Arriaga para neutralizar a FRELIMO (o movimento de libertação de Moçambique, então liderado por Samora Machel). «Sou dessa geração, com muita honra em ter servido. Fui voluntário porque acreditei sempre que as Forças Armadas tinham que esperar que os políticos se definissem sobre o Ultramar».

Regressou a Portugal e foi terminar a licenciatura em História. Ainda como estudante, começou a frequentar a Academia Portuguesa da História, então sedeada no Palácio da Rosa - «lá em cima, ao pé do castelo». Sentava-se «sempre na última fila», para não dar nas vistas. «Eu era apenas um observador», justifica.

Até que chegou o ano de 1987. Entretanto já terminara a licenciatura e concorrera ao ensino. «Foi um ano extraordinário. Ganhei o concurso para assistente estagiário, como se chamava na altura, e ganhei também o primeiro prémio de História Moderna da Comissão Portuguesa dos Descobrimentos, do qual o professor Veríssimo Serrão foi presidente. Ele ligou uma coisa e outra e a partir daí protegeu-me sempre».

Hoje, Miguel Monteiro ocupa o lugar do antigo mestre como presidente da Academia Portuguesa da História. Sucedeu a Manuela Mendonça, falecida na manhã de Natal do ano passado. Eleito por unanimidade, não tenciona eternizar-se no lugar. «Vou fazer 75 anos e, dentro de cinco anos, largo a minha cadeira número 17. Porque o académico de número, quando perfaz essa idade, pode decidir se larga a sua cadeira ou não. E eu vou largar, com toda a naturalidade».

O tema da sua especialidade é a Companhia de Jesus. Publicou em 2011 Os Jesuítas e o Ensino Médio [que dedicou à memória da sua filha Margarida]. Médio, ou seja, antes da universidade.

O que chamamos hoje o secundário. Esse livro tem na capa a Igreja de Santarém, onde o padre Inácio Monteiro [1724-1812], que me serviu de tema para doutoramento, foi preso aos 35 anos. E foi levado para os Estados Pontifícios, onde faleceu com 88. O editor deste livro rompeu com a tradição das edições da Academia, que são de capa branca, e pôs um fio cor-de-rosa em homenagem à minha filha, que tinha falecido há pouco tempo. É uma reflexão que estava por fazer sobre a metodologia da Companhia de Jesus.

A metodologia de ensino?

Eles pediram duas vezes a D. João V a reforma da Universidade de Coimbra. Mas o Rei nunca autorizou. A verdade é que os Jesuítas, injustamente acusados de serem retrógrados nas ciências, não eram. Como demonstrou bem o académico e meu estimado amigo Henrique Leitão, os azulejos de Coimbra tinham fórmulas matemáticas. Há salas de física e matemática com fórmulas nos azulejos, para ajudar os estudantes. O que prova que os jesuítas sabiam estavam a par da ciência do seu tempo.

Quase uma ardósia, só que em azulejo.

Em vez de fazerem, como nós fazemos, os papelinhos de lembretes, era só olhar. O que lhes interessava era o raciocínio. Foram injustamente acusados… nalgumas áreas. Noutras áreas é verdade [que foram retrógrados]. Porque os capítulos gerais, em termos da ortodoxia, não autorizavam os professores a ensinar os ditos modernos - a filosofia moderna, os filósofos modernos.

Porque contrariavam os dogmas da religião?

Exatamente. Esse é o drama dos professores jesuítas do século XVIII: saberem que estavam a ensinar coisas obsoletas da escolástica. Eles que liam tudo - as livrarias [bibliotecas] mais modernas eram as da companhia - não podiam ensinar aos estudantes. Na minha tese de doutoramento, publiquei uma carta que do geral de Roma para o padre Inácio Monteiro, a dizer: ‘Meu filho, consta-me que andas a inclinar-te por Cartesius’ - Descartes - ‘mais do que devias. Se continuares a fazê-lo, vou-te suspender de ensinar’. Estavam sujeitos a uma vigilância constante.

E havia um conflito entre o racionalismo e a herança do pensamento cristão.

É um conflito que eles não conseguiram resolver. Só depois, com a expulsão dos Jesuítas no reinado de Dom José, Pombal autoriza a reforma da Universidade de Coimbra.

Nesse confronto, um historiador tem de tomar partido ou a favor dos jesuítas ou a favor de Pombal?

É um tema recorrente, que eu lecionei toda a minha carreira. Pombal não foi nem um santo nem um monstro. Monstros não existem e os santos estão no céu. Pombal foi um estadista com uma ideia de progresso para Portugal e acusou os jesuítas de serem um entrave a esse progresso.

Um entrave a remover.

E foram acusados do atentado de 1758 [ao Rei D. José, na Ajuda, no local onde hoje se encontra a Igreja da Memória]. Foram todos juntos, mais os Aveiros e os Távoras.

Foram implicados.

E não, não foram os jesuítas. Para mim, o atentado também não foi obra de Pombal. O homem que deve tudo ao rei vai tentar matá-lo? É impensável. Durante um ano ficou tudo escondido da rainha, para ele preparar o que aí vinha. É um homem de visão: ‘Espera aí, que eu agora vou acusar os Jesuítas, os Aveiros e os Távoras’.

Foi o pretexto perfeito.

E porque é que essas famílias pagaram? Porque eram detentoras de uma parte muito significativa do trato de açúcar brasileiro e isso colidia com a ideia pombalina das companhias de bandeira, companhias monopolistas, à maneira holandesa.

Podemos dizer que era um conflito de interesses entre os privados e o Estado?

Sim, a Coroa. Colidiram. Pombal foi o introdutor do segundo mercantilismo - o primeiro foi o Marquês da Ericeira -, que é a face económica do absolutismo. E os Jesuítas tinham o melhor açúcar. As sacas vinham só com uma cruz branca. Desaparecia logo no mercado europeu. Há centenas de cartas a pedir: ‘Irmão, vende estas sacas de açúcar e queremos tantas alfaias, isto, aquilo e aqueloutro. E arranja-me também dez bons angolas’.

Escravos?

Escravos de Angola, que eram os mais fortes e resistentes. Escravos tinham todos. A ordem que tinha mais era a ordem de São Bento, mas os jesuítas também tinham. Agora, tratavam os escravos de outra maneira.

Com humanidade?

Com muita humanidade. Dando-lhes um estatuto de semilivres.

E não fugiam?

Às vezes fugiam… Aliás, os paulistas conseguiram que a companhia ficasse suspensa durante uma data de anos do Planalto de São Paulo - os jesuítas ficaram até proibidos de ir a rezar a missa às fazendas - com a acusação de que instigavam os indígenas e os negros a fugirem.

Conhece bem o Brasil?

De um modo geral, sim. O estado de que eu mais gosto, que mais admiro e onde me sinto melhor, quase como em Portugal, é o estado baiano. É fantástico. No Alto de Salvador, na zona do Pelourinho, parece que estou na Alta de Lisboa. É o estado mais negro, chamemos-lhe assim, tirando o Maranhão, que também tem muita pobreza e muitos afrodescendentes. Quanto a mim, foi a Lei Áurea de libertação dos escravos [1888] que os transformou em pedintes. Porque, enquanto eram escravos, tinham onde dormir e onde comer.

E quando foram libertados deixaram de ter meios de subsistência?

A partir daí andaram a pedir pelas ruas. Ainda hoje andam.

No meio académico, no Brasil, depara-se com muito sentimento antiportuguês?

É conforme as zonas. Tenho encontrado de tudo. Ainda há pouco tempo, não bati com a mão na mesa, mas tive que dizer: ‘Alto! Lembrem-se que nós já saímos do Brasil há 200 anos. Tenham calma. Não nos acusem de tudo’. Esquecem-se quando as diversas tribos andavam a atacar-se umas às outras - algumas até eram canibais - e os jesuítas muito contribuíram, com outras congregações, para as civilizar. Porque a nossa presença no Brasil não foi só de ocupação, foi de civilização. E o Brasil muito deve aos portugueses. Os portugueses chegaram tarde, já no tempo de João III. Quando foram contar ao Rei que andavam franceses, ingleses e holandeses a ocupar, porque achavam que aquilo era demasiado grande para um povo com dois milhões de habitantes. Aí fomos em força, com a Armada de Tomé de Sousa [enviada em 1549]. E os primeiros jesuítas, onde figuram os padres Manuel da Nóbrega e Anchieta, foram fundamentais na luta contra os holandeses. E também fizeram o primeiro Dicionário Tupi-Guarani-Português. Conseguiram feitos extraordinários.

Estamos a falar do século XVI?

Estamos a falar do século XVI. O estudo da Companhia [de Jesus] divide-se em três partes. Primeiro, a implantação - século XVI. Depois, o desenvolvimento - século XVII, quando foram chamados os’ mestres da Europa’. E por último a decadência, no século XVIII - porque a Companhia deu-se mal com as ideias iluministas. Depois [da expulsão pelo Marquês de Pombal] regressam no tempo de D. Miguel, em 1828. Em 1834, são novamente expulsos, porque D. Pedro [IV] era maçom e anticlerical. Voltam em meados do século XIX [1858], a pedido do próprio Papa, para restaurar a Igreja em ruínas. Vinham da Prússia e da Rússia, porque esses dois estados nunca aceitaram a extinção da Companhia. Por isso os gerais têm todos nomes de origem alemã. São novamente expulsos em 1910, no tempo da República, para poderem regressar em 1947, no tempo do Dr. Salazar. São autorizados a comprar propriedades no Colégio São João de Brito, onde estão atualmente.

É uma história atribulada.

Os Jesuítas são resistentes. A pedido do Padre Nuno Gonçalves, que hoje é o reitor da Gregoriana, orientei o Padre Júlio Trigueiros, que até há pouco tempo era o reitor de São Roque e foi, por cinco anos, diretor da Brotéria. E ele disse-me que gostava mais dos jesuítas antigos do que dos de agora. ‘São muito submissos’. Percebo o que ele queria dizer. Os outros eram, não diria arrogantes, mas eram gente muito importante, confessores de príncipes e reis. Ao mesmo tempo, deixaram-se corromper com segredos de Estado, tiveram participação política onde não deviam. Quando o Rei Absoluto percebeu que, nesse edifício que é invisível [o edifício do poder], estavam dois inquilinos, esmagou os Jesuítas. E os outros, quando regressaram, vieram muito mais...

Mais submissos?

Muito submissos. Foi o que o Padre Trigueiros quis dizer e eu concordei com ele.

A nossa Expansão, que antigamente era vista como uma gesta heroica, teve esse lado heroico, obviamente, mas hoje há muito mais pessoas a sublinhar o caráter violento, de imposição e de opressão dos povos. Depois há o lado também problemático da escravatura e do tráfico transatlântico de escravos. Podemos dizer que os jesuítas representam a face mais benigna da expansão?

Em pleno século XVIII, há um livro que citei na minha tese de outro doutoramento, que é o Diálogo sobre os Brutos, onde se questiona se os negros têm alma. É um erro trágico, do ponto de vista histórico, pensarmos à maneira do século XXI pela mentalidade de gente do século XVI. Ainda por cima na periferia da Europa, muito atrasados na altura. Porque a renovação foi lenta, com os estrangeirados enviados por D. João III, e o convite feito a Francisco Xavier, a quem eu dediquei dois livros. Um deles chama-se Francisco Xavier, Um Homem para os Demais, que é uma frase do terceiro geral [da Companhia de Jesus], que disse: ‘Nós somos homens para os demais’.

Ou seja, estão ao serviço dos outros.

Os jesuítas, ainda hoje, ensinam as elites - e ai do país que não tenha elites. Mas são elites para servir os outros, não para os dominar, não para os manipular. Portanto, os jesuítas foram para o Brasil e para o Oriente, como é o caso de Francisco Xavier, que o Rei queria manter cá.

O Apóstolo das Índias.

O Rei D. João III - muito, muito maltratado pela história - estava muito preocupado com a evangelização do Império Português. Mas para que serve São Francisco Xavier batizar 10 mil pessoas num mês, se depois, essas pessoas estão anos sem serem mais evangelizadas? Rapidamente foram absorvidos pelos protestantes holandeses, e depois ingleses.

Uma coisa é batizar, outra é converter.

E ensinar. Por exemplo, uma violência que foi praticada no Brasil - à luz do seu tempo não era - tanto o Padre Anchieta como o Padre Nóbrega aceitavam que os meninos que estavam a ser catequizados nas aldeias [indígenas] não fossem devolvidos às famílias, para não perderem o português. Isso é uma violência terrível aos nossos olhos. E podia citar numerosos casos. Os portugueses cometeram também excessos, como todos os povos, mas não foram, nem de longe nem de perto, os que traficaram mais. Os holandeses levaram muito mais [escravos]. No Tratado de Santo Ildefonso de 1777, para fazer sair os espanhóis da Baía de Santa Catarina, no Brasil, tivemos que ceder à Espanha a colónia de Sacramento e uma colónia na Guiné. Uma antiga colónia espanhola, que habla espanhol.

A Guiné Equatorial.

Porquê? Porque os espanhóis precisavam de um porto de escoamento de escravos negros para as suas colónias [na América]. E Portugal cedeu. Ainda para responder à sua grande questão, nós somos filhos do nosso tempo. O país tem que enfrentar os seus erros de frente. E nisso sou um bocado conservador. Devemos assumir a nossa História sem complexos. Nós não fomos melhores nem piores que os outros. A espada e a cruz estiveram sempre ligadas à expansão. Cometemos muita violência, muita, muita. Basta ver o que Afonso de Albuquerque fez no Oriente.

Os Lusíadas estão cheios de descrições de episódios de grande violência.

Completamente. Disparámos para Calecute e Diu gente metida nos canhões - e vai disto. Cometemos muita, muita violência.

Disse que não podemos ignorar a História. Mas hoje vemos outra coisa, que é ir buscar o lado pior, mais sombrio, o que por vezes resulta numa espécie de exercício de autoflagelação.

Isso resulta de uma visão muito ideológica que hoje divide o nosso país e deturpa a História.

Porque há a História, os acontecimentos propriamente ditos; e depois há a interpretação da História e os factos a que a gente escolhe dar ou não dar importância.

Tal e qual. A história faz-se com documentos. E, portanto, a interpretação da história é feita pelo historiador ou por aqueles que leem a História mesmo não sendo historiadores. É muito importante encararmos a História à luz do seu tempo.

E não do nosso.

E não do nosso. O nosso está muito dividido. Nunca vi o país tão dividido como agora, em termos ideológicos. Discursos de ódio, intolerância para com o outro, esquecendo-se que nós somos um povo de emigrantes e que precisamos de imigrantes. Fico muito preocupado com a situação de divisão ideológica profunda que está a haver. Ofendem-se uns aos outros. Felizmente esta é uma casa - talvez a única - onde todas as pessoas de bem conseguem tratar de todos os temas de História sem se ofender.

As duas posições antagónicas ficaram um bocadinho cristalizadas, se assim podemos dizer, no recente debate entre André Ventura e Pacheco Pereira.

Também ouvi.

A Academia Portuguesa da História toma posição por alguma das partes?

É impossível entrar na mente de cada académico. Eles são livres de pensar como entendem. Temos combatido alguma herança que nos ficou do tempo do Estado Novo, quando a Academia foi restaurada. Honra seja feita, por exemplo, à nossa presidente [Manuela Mendonça]. E o nosso presidente Veríssimo Serrão, a seguir ao 25 de Abril, abriu as portas quando lá foi uma turba e queria entrar no Palácio. ‘Façam o favor de entrar. Porque a Academia da História é de todos. Façam o favor de assistir’.

O que pretendia essa multidão?

A ocupação.

Por ser uma instituição conotada com o Estado Novo?

Tal e qual. E portanto queriam ocupar. Assim como temos que perceber as Jornadas de Educação Popular à luz da intenção anarquista, ou de esquerda, para ensinar o povo. Bem-intencionados… mas não é por acaso que o PREC acabou com o 25 de Novembro. Portugal ia entrando na Guerra Civil. Se quiser uma posição, eu entendo que, por enquanto, não se deve mexer nos arquivos que põem em causa nomes de pessoas das FP-25 que ainda estão vivas. Deixem passar o tempo. Não mexam nos arquivos. Fernão Lopes só escreveu sobre Dom João I 30 anos depois. Porque a paixão estava mais esbatida. A minha posição é que a História deve ser revisitada...

Mas não a quente.

Não a quente. O historiador não é um juiz de mérito nem a História é um tribunal. A História deve ser feita com imparcialidade, sem paixão. Quando é feita com paixão, num país que está ideologicamente muito dividido, pode-se cometer erros contra pessoas que estavam a ser integradas lentamente. Houve excessos. Houve gente com sangue nas mãos, sim senhor. Mas muitos estiveram presos. Eu próprio fui dar aulas a presos das Brigadas. Falei com alguns que estavam profundamente arrependidos. Anos depois. Aquilo foi o entusiasmo revolucionário. É próprio dos homens também mudarem. Porque aos 20 anos podemos ser incendiários, e aos 50 somos bombeiros.

Para mim, que sou licenciado em História de Arte, a palavra académico tem uma conotação pejorativa. Os pintores académicos eram aqueles que seguiam certas regras, sempre muito convencionais, pouco inovavam.

Hoje nós tratamo-nos por confrades. Também continuamos a usar a palavra ‘académico’, mas sem essa conotação. O académico é o membro da Academia. Antigamente - herdámos os estatutos joaninos - o Rei era o único que estava sentado, com chapéu, à maneira de Luís XIV, e os académicos estavam em pé. Mesmo idosos. Havia muitos maçons… A Maçonaria estava presente na Real Academia - os maçons eram os progressistas da altura, os que acreditavam na justiça social, no progresso das ciências, etc. Aliás, daí veio a instauração da Academia das Ciências com Dona Maria II. Depois do terramoto, foram para o antigo convento onde estão hoje. Têm nos claustros muitos restos de valas-comuns onde foram sepultadas as vítimas. Ainda têm muitos livros nossos, muito mobiliário. Mesmo assim, esta casa tem 200 mil volumes. São quatro quilómetros de prateleiras...

200 mil? Aqui?

Em armazéns e na biblioteca.

Só os académicos têm acesso à biblioteca?

É de acesso livre ao público em geral. Está nos estatutos. Basta pedirem à bibliotecária, Dona Paula Quaresma, com quem nos cruzámos ali no corredor.

A maneira como se estuda e se faz a História aqui na academia ou nas universidades é muito diferente?

É uma excelente pergunta. Estou farto de dizer que as academias não são universidades. Mas, para aumentar a dignidade e o nível intelectual, a maior parte dos académicos são antigos ou atuais professores universitários. Mas também temos muitos sacerdotes, temos alguns eruditos, temos militares, gente com muito prestígio. Mas há um problema. Os académicos com a idade certa - 20 e tal, 30 anos de carreira - ainda estão no ativo e têm pouco tempo para dar à Academia. E a Academia sofre do que outras academias sofrem, que são quadros envelhecidos. Mas como é que eu poderia ter tempo para o cargo que ocupo, e esta semana vim cá todos os dias, se estivesse no ativo? Muita gente não vem porque está a dar aulas. E não se pode faltar às aulas. Isso é sagrado.

Qual é a idade do académico mais novo?

Para lhe dizer com toda a certeza, dez académicos de número têm acima de 80 anos. E quatro estavam com 79, um deles a fazer 80. Portanto, estamos a envelhecer. E temos que recuperar e fazer entrosamento geracional. De momento existem cinco vagas para académicos de número.

Quantos são no total?

Trinta. Existem cinco vagas, mas não vão entrar os cinco de uma vez. É preciso calma na escolha, porque têm que ter a capacidade científica, o currículo e a idade.

Uma última questão. Já falámos um bocadinho destes tempos atribulados que vivemos. O conhecimento da História também ajuda a decifrar o presente, a compreender o presente, ou ele mantém-se na mesma confuso e enigmático?

Cada vez mais o que Georges Duby escreveu sobre a História tem valor: a História é, no fundo, o estudo do passado que nos ajuda a compreender o presente e a perspetivar o futuro. O estudo da História é fundamental para os políticos não cometerem erros, para terem amor ao património, para perceberem a identidade e as características culturais de um povo, para não deixarem que os jovens percam a memória da História de Portugal. Eu estive sempre ligado ao ensino e fui coordenador durante muitos anos do mestrado em ensino de História. Tínhamos, e temos, uma rede de escolas secundárias e básicas que trabalham connosco e sempre vi com maus olhos retirar horas ao ensino da História para dar a outras disciplinas.

A História é vista como acessória, quase?

Muitas vezes é desprezada. Muitos alunos acham a História enfadonha, fastidiosa, mas quando são mais velhos gostam ver a Guerra dos Tronos, gostam de ver documentários de História e depois querem saber mais.

Nas conversas que tem com responsáveis políticos, ou outros, nota que há desconhecimento da História?

Então não há? Mas existem políticos e políticos. Muitos gostam de História, sabem e até usam a História para escrever romances históricos, por exemplo. Mas há outros que… claro que não são obrigados a saber História - porque são engenheiros, porque são médicos, etc. Mas também não procuram saber.