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Depois de várias tempestades sucessivas, a situação em todo o Portugal continental não está fácil. A chuva não dá tréguas e não há barragem que não esteja nos limites. Nem no Algarve. E muitas estão a fazer descargas controladas para que possam continuar a receber a águas das chuvas, que, segundo as previsões, vai continuar a cair.
Vários rios já galgaram as margens em várias zonas do país mas a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, garante que está «tudo preparado» – pelo menos na região de Coimbra – para situações de emergência. «Está tudo preparado, sabe-se quem sai, para onde vai, as Forças Armadas estão na região de Coimbra, porque não é só Coimbra, é Montemor-o-Velho, é Soure, pode ser um pouco da Figueira da Foz, e está tudo preparado para reagir a essa eventualidade», disse à margem de uma reunião com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Se chegar a um ponto crítico, as pessoas serão retiradas.
Ninguém estaria preparado para isto, tendo em conta que o mês passado foi o janeiro mais chuvoso dos últimos 26 anos. O impacto das chuvas combinadas com as descargas das barragens estende-se aos principais sistemas fluviais. Rios como Mondego, Douro ou Tejo estão sob vigilância devido ao elevado caudal e à saturação dos terrenos, fatores que aumentam a probabilidade de enchentes e galgamentos de margens.
Exemplos disso não faltam. O Douro galgou na zona do Peso da Régua e o acesso está proibido na zona ribeirinha. Também em Coimbra, o Mondego chegou às esplanadas, parou comboios e fechou temporariamente negócios. De tal forma que a autarquia preparou um plano de evacuação.
E há muitas outras situações pelo país. O rio Tejo galgou as margens na zona ribeirinha da Póvoa de Santa Iria, o rio Cávado ultrapassou o leito e deixou submerso o Clube Náutico de Fão, em Esposende. O rio Águeda seguiu pelo mesmo caminho. Em Grândola uma vila ficou isolada devido à subida da ribeira. E já na semana passada o Sado tinha galgado as margens, deixando debaixo de água a região de Alcácer do Sal. Situação que ainda se mantém. Em muitas destas zonas críticas foi preciso proceder à retirada de pessoas das suas casas.
Tempestades dificultam gestão
Ao Nascer do SOL, Sara Correia, técnica da Zero na área de recursos hídricos, considera que, nos últimos anos, Portugal não tem enfrentado grandes problemas com cheias, em parte devido aos invernos mais secos. E, por isso, o país não estaria totalmente preparado para uma situação deste género.
Sobre a gestão atual, destaca que existe articulação entre entidades portuguesas e espanholas, já que muitas das afluências vêm de Espanha. «Neste ano, aquilo que esperamos é que de facto esteja a ser feita uma gestão – e parece-nos que essa gestão está a ser feita – bastante articulada entre as várias entidades para que tudo funcione entre Portugal e Espanha também», explica, sublinhando que «tem que haver articulação entre os dois países» e que, atualmente, parece estar a acontecer.
No entanto, alerta que a sucessão de tempestades tem dificultado essa gestão. «Nós estamos a passar por uma série de várias tempestades, assim quase umas a seguir às outras, que dificultam muito essa gestão», diz.
Segundo Sara Correia, o que se tem visto é uma atuação preventiva das barragens. «Agora aquilo que se está a assistir é as barragens a fazerem descargas mais controladas, para depois terem capacidade de encaixe para receber as águas que vêm da tempestade seguinte», afirma.
Apesar de reconhecer que as barragens podem ajudar a minimizar os efeitos das cheias, lembra que não se pode ignorar os impactos associados. «Em alguns casos, de facto, as barragens ajudaram a minimizar os efeitos das cheias, mas não nos podemos esquecer depois de todos os outros impactos que são causados também pela construção de barragens», alerta, dando o exemplo do Alqueva, onde observa transformações no uso do território.
«Basta olhar, por exemplo, para Alqueva, onde temos assistido a uma expansão de áreas agrícolas em toda a volta», refere, apontando que «em termos de ordenamento do território nem sempre são cumpridas as regras». Para Sara Correia, é importante que a regularização de caudais não seja usada como argumento automático para construir novas infraestruturas. «Neste momento não queremos é que este motivo de regularização de caudais e de minimização dos efeitos das cheias seja sempre apontado como motivo para a construção de novas barragens», defende.
Questionada sobre a forma como Portugal reage às cheias, Sara Correia considera que o país continua a agir sobretudo de forma reativa. «Tendencialmente reagimos aos problemas quando eles surgem», afirma.
Apesar da existência de planos de gestão e de risco de inundação, critica atrasos e falta de acompanhamento. «A verdade é que estes planos muitas vezes… os prazos estão completamente desfasados daquilo que seria necessário», diz, acrescentando que «estes planos estão muitas vezes no papel, mas na prática nós nunca sabemos muito bem o que é que está a acontecer no terreno». Para a técnica, continua a faltar uma gestão atempada.
Sara Correia admite que o que está a acontecer pode deixar de ser excecional e passar a integrar um novo padrão climático. Sobre prevenção, distingue o vento das cheias. «Contra o vento não há muito o que fazer. Agora, contra as cheias sim», afirma, defendendo medidas como deslocação de pessoas e respeito pelo ordenamento do território. «A verdade é que continuamos a assistir a nível municipal muitos municípios a permitir construções em áreas que não seriam adequadas», critica. Sobre prioridades políticas para reduzir o risco de cheias, Sara Correia considera a questão complexa, mas critica a estratégia do Governo ‘Água que Une’, sobretudo no que toca à aposta em barragens. «Sabemos que isso não vai resolver nenhum dos problemas», afirma.
Segundo a técnica, cheias e secas vão continuar a ocorrer, acrescentando que «vamos continuar a achar que temos pouca água, porque nós enquanto temos água disponível vamos continuar a gastá-la de forma um bocadinho desregrada».
Sara Correia alerta que construir barragens para expandir culturas permanentes intensivas pode agravar o problema. «Se continuarmos a fazer barragens para permitir a instalação de culturas permanentes com grandes necessidades de água, não estamos a resolver problema absolutamente nenhum», defende.
Para a especialista, a prioridade deve ser gerir melhor a água existente e reforçar o ordenamento do território. «A prioridade é de facto sabermos gerir bem a água que temos neste momento», afirma, sublinhando que «as questões de ordenamento do território são aqui prioritárias».
Milhares ainda sem luz
Além disso, lamenta a falta de investimento em soluções baseadas na natureza. «Estamos sempre a ver as soluções em grandes obras… quando na verdade temos outras opções», diz. «Há uma série de soluções de base natural que podem de facto ajudar a mitigar os efeitos das cheias e que não passam obviamente por novas barragens», afirma.
E conclui que apostar nessas soluções e cumprir os instrumentos de ordenamento pode ser decisivo. «Se de facto investirmos nestas soluções de base natural, se calhar é meio caminho andado para minimizar aqueles efeitos das cheias», remata.
Recorde-se que, no que diz respeito ao ordenamento do território, Joaquim Poças Martins também já tinha alertado (na última edição do SOL) para a importância do recuo planeado, defendendo que não basta investir apenas em obras ou infraestruturas: é necessário «ter dinheiro para ajudar as pessoas a mudarem de casa quando as suas casas estão irremediavelmente sob risco severo» de cheias.
Mais de uma semana depois da tempestade Kristin, milhares de pessoas ainda continuam sem eletricidade. E o Governo admitiu que grande parte da rede portuguesa não estava preparada para uma tempestade deste género. Os últimos números da E-Redes – e juntando já dados da depressão Leonardo – apontam para um total de 86 mil pessoas sem energia elétrica, com principal foco em nos distritos de Leiria, Santarém, Castelo Branco e Coimbra.