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Muito diz quem só diz noite. A palavra basta para convocar uma época em que a realidade só se soltava depois de uma evasão à rotina. Ali, entre a névoa onde os espíritos surdem e se misturam, era preciso recortar e colar elementos, andando entre os bares como apeadeiros da madrugada, levando o impulso dos jornais ainda quentes da tipografia, as mesas onde se misturavam jornalistas, atores, lendários mandriões, conspiradores de horas mortas, efabuladores radicais e outros profissionais da conversa. Mário Zambujal passou boa parte dos seus 90 anos nesse território, a meio caminho entre o trabalho e o prazer, entre o prazo e o imprevisto.
Nascido em 1936, em Moura, encostado à fronteira com Espanha, cedo se deu conta de que o mundo se contrai num repelão quando menos se espera, revira-se todo, refaz-se em mudanças bruscas depois de largos períodos tediosos. Assim, a infância decorreu colhendo pedaços soltos entre a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial. Hoje parecem tempos difíceis, mas na altura era o que havia. «Vivíamos na Amareleja, perto da fronteira, e lembro-me de um corredor comprido em casa onde dormiam espanhóis fugidos da guerra. A aldeia inteira acolhia-os, como todas as aldeias da fronteira. Depois crescemos todos, e um dia o homem chegou à Lua. Entre essas duas coisas – a guerra no quintal e o céu conquistado – passou uma vida inteira», disse numa entrevista de vida concedida em 2009 a Cândida Santos Silva, no SOL.
Saiu do Alentejo com apenas 5 anos, e foi no Algarve onde viveu até à idade adulta. Apesar disso, sentia-se muito mais alentejano, e não só pelas raízes, mas por tudo o que ele e os pais quiseram trazer. «A minha mãe fazia migas, ensopado de borrego, era uma mulher profundamente alentejana. E o meu pai cantava muito bem, era também um bon vivant».
Descobriu-se na escrita para os jornais, tendo confessado que até ali não se esperava grande coisa dele, sendo o irmão mais velho quem fazia boa figura, quem parecia saber tudo. Ele passava por ignorante. Mas na adolescência, depois de uma redação escolar que impressionou um professor, o qual tratou para que esta fosse publicada no jornal, acabou por encontrar aquilo que o diferenciava, e impressionou os pais tendo os primeiros contos publicados nos jornais. A escrita tinha aquele vigor e a pressa da clareza. «De uma maneira geral, sou capaz de distinguir um livro escrito por alguém que foi jornalista de outro que o não foi. No jornalismo, o texto quer-se claro, justamente porque o consumidor de jornais é muito heterogéneo. A língua portuguesa pode ser usada com toda a dignidade, até literariamente ser perfeita, e ser muito clara. A minha escrita é muito marcada pelo facto de ter sido jornalista. Preciso das coisas claras. Quero que toda a gente entenda o que escrevo. Um livro é também um ato de comunicação».
Começou por ser jornalista n’ A Bola e depois no Diário de Lisboa. Foi chefe de redacção d’ O Século, do Diário de Notícias e d’ O Jornal, diretor-interino do Tal e Qual, subdiretor do Record, e passou ainda por outros títulos. Foi ainda apresentador de televisão e locutor de rádio. Ao todo, esteve 20 anos na RTP, onde fez de tudo um pouco. Dizia que as rotinas lhe faziam, precisava daquela sensação de ansiedade, de se renovar pelos nervos, de se põr à prova, andar à bulha com as suas dúvida. A passagem pela televisão pública, fez dele um rosto que entrava amiúde pela casa das pessoas, ficando conhecido como repórter desportivo e, depois, como rosto do programa Grande Encontro. Mas ainda antes do enorme sucesso que veio a alcançar com a novela (Crónica dos Bons Malandros) com que se estreou como ficcionista, é preciso encontrá-lo naquele enredo notívago que tão decisivo foi para instilar aquele engenho da madraçaria, o génio de quem sabe estender a linha e agarrar seja o que for. «No meu tempo, fazíamos aquilo a que chamávamos a geografia da madrugada. Íamos a vários bares na mesma noite, e nesses percursos encontrávamos as pessoas conhecidas. Eram sempre as mesmas. Gente dos jornais, do teatro, profissionais da noite. Bebi muitos copos com o Dinis Machado. Fui para alguns bares com o Cardoso Pires, o Mário Ventura, o Baptista Bastos...». Tinham o patrocínio do álcool , que nunca lhe deu a volta, não o tornava quezilento, mas acentuava-lhe a alegria e a euforia. E também a lucidez. «Se fosse escrever nesse estado, as ideias surgiam-me a grande velocidade. Quando escrevi a Crónica dos Bons Malandros, a família foi para a praia e eu fiquei em casa com uma garrafa de whisky e gelo. Não sei qual é o efeito do álcool na destreza do cérebro, mas ajuda. Até que depois prejudica».
O tal livro que foi escrito quase por piada acabou por ter mais peso e influência do que obras que escreveria depois com mais empenho, mas por alguma razão ressoou entre os leitores aquela história de um assalto ao Museu Gulbenkian que correu mal. Publicado em 1980, viu-se rapidamente adaptado ao cinema, em 1984, por Fernando Lopes, e foram-se somando reedições, com o livro a encontrar sempre novos cúmplices, e deu ainda origem a uma série da RTP, de 2020, e vários espetáculos.
Ainda lançou mais dois romances nessa década, Histórias do Fim da Rua e À Noite Logo Se Vê, e depois esteve quase duas décadas sem publicar. Regressou já no novo milénio, com títulos como Fora de Mão, Já Não se Escrevem Cartas de Amor, Uma Noite Não São Dias, Cafuné, Romão e Juliana. O seu livro mais recente, O Último a Sair, foi publicado no ano passado. «Sou um animal de prazer. Tenho prazer no trabalho e na escrita. Não gosto de prazos. Aprecio fazer as coisas quando me apetece. (...) Nos anos 80, o Mega Ferreira fez-me um espantoso convite. Convidou-me para escrever livros para o Círculo de Leitores. Disse-me para deixar tudo o que fazia e dedicar-me à escrita, aos livros. Achei-me o tipo mais feliz do mundo. Mas disse-lhe que não. Entendi que a liberdade de escrever deve ser tão grande como a liberdade de não escrever. Hoje teria 20 ou 25 livros publicados. Mas teria um emprego de escrita. Gosto de imprevistos. (...) Gosto que a vida me permita uma margem de surpresas».