quinta-feira, 12 fev. 2026

Maioria dos jovens portugueses é exposta a conteúdos nocivos online sem os procurar, revela estudo

A investigação inédita foi conduzida pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e analisou as experiências online de 2.071 jovens entre os 10 e os 21 anos.
Maioria dos jovens portugueses é exposta a conteúdos nocivos online sem os procurar, revela estudo

A exposição de jovens portugueses a conteúdos prejudiciais na internet é frequente involuntária e com impacto significativo no bem-estar psicológico, concluiu um estudo inédito realizado em Portugal sobre a exposição ao cyberbullying e outros conteúdos prejudiciais na internet.

A investigação, conduzida pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, analisou as experiências online de 2.071 jovens entre os 10 e os 21 anos, concluindo que a maioria teve contacto recente com materiais perturbadores, a maior parte das vezes sem os procurar ativamente, segundo o relatório a que a Agência Lusa teve acesso.

Nos seis meses anteriores ao inquérito, mais de metade dos jovens contactou com discursos de ódio, violência ou consumo de drogas. Cerca de 47,2% testemunharam mensagens de ódio, enquanto 45,3% visualizaram conteúdos violentos. Materiais relacionados com consumo de drogas chegaram a quase 40% dos inquiridos.

A investigação revela ainda uma exposição relevante a conteúdos sensíveis relacionados com saúde mental: mais de um terço dos jovens teve contacto com informação sobre automutilação e cerca de 15% viram conteúdos que descreviam métodos de suicídio. Entre estes, a maioria afirmou não ter procurado esse tipo de informação e referiu ter ficado emocionalmente perturbada.

Também os conteúdos alimentares nocivos e sexualizados surgem com elevada frequência, embora com diferenças de género: as raparigas são mais expostas a mensagens que promovem comportamentos alimentares pouco saudáveis, enquanto rapazes contactam mais frequentemente com conteúdos sexualizados.

O estudo destaca ainda o peso do cyberbullying, com cerca de 22% dos jovens a relatarem comentários ofensivos dirigidos a si, 14% a referirem a circulação de rumores online e quase 12% a descreverem situações de assédio digital. Em mais de 10% dos casos, foi partilhada informação privada sem consentimento.

Os investigadores identificam grupos particularmente vulneráveis: jovens mais velhos e provenientes de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos apresentam níveis mais elevados de exposição tanto ao cyberbullying como a outros conteúdos nocivos.

Do ponto de vista psicológico, os dados apontam para uma associação clara entre estas experiências online e pior saúde mental, incluindo maior prevalência de pensamentos suicidas, sentimentos intensos de vergonha e menor satisfação com a vida. O cyberbullying surge como o fator mais diretamente ligado a consequências graves, estando também associado a maior consumo de álcool e pior qualidade do sono.

Em contrapartida, o estudo identifica fatores de proteção consistentes. Relações positivas com amigos, comunicação familiar eficaz e ambientes escolares inclusivos mitigam os efeitos negativos da exposição digital, protegendo tanto o bem-estar emocional como o desempenho académico.

Apesar da elevada exposição online, os investigadores sublinham que, após o controlo do apoio familiar e escolar, não se verificou uma relação direta entre conteúdos nocivos e sentimentos de solidão ou pior desempenho escolar.

A investigação confirma ainda uma tendência já conhecida: os jovens passam mais tempo online do que offline nos seus períodos de lazer, sendo as redes sociais a atividade dominante. Quase metade dos inquiridos afirmou passar mais de três horas diárias nestas plataformas.