quinta-feira, 16 abr. 2026

Luís Paulino Pereira: “É preciso pôr o dedo na ferida e dizer que isto pode custar votos”

O diretor clínico e médico da Casa do Artista tem ideias bem definidas para uma restruturação profunda do SNS. Com humor, garante que se fosse ministro tomaria tantas medidas que seria demitido “logo no dia seguinte”. O cronista do SOL acaba de lançar o seu terceiro livro – Dos Palcos da Vida até à Casa do Artista –, repleto de histórias vividas num mundo onde o tratam por “médico dos artistas”.
Luís Paulino Pereira: “É preciso pôr o dedo na ferida e dizer que isto pode custar votos”

Como é que surgiu a ideia de fazer este livro?

A ideia de fazer este livro partiu de um desafio, já há uns anos, lançado pelo José Raposo, presidente desta casa [Casa do Artista]. Conhecendo os meus livros, perguntou se eu estaria interessado em fazer um livro em moldes diferentes dos anteriores, uma vez que os anteriores eram apenas uma compilação dos artigos que iam sair no jornal SOL, mas com a minha vivência em relação à parte do teatro. Fui amadurecendo aquela ideia, não lhe disse, na altura, nem que sim nem que não, mas aos poucos, principalmente depois de muitos amigos e muitos doentes me irem reconhecendo pelos artigos que escrevo mensalmente no jornal, me perguntarem quando é que vinha outro livro. Comecei a juntar tudo e a pensar que faria algum sentido meter-me nisto.

Como trabalho aqui, na Casa do Artista, e penso que seria uma boa ajuda da minha parte se oferecesse os direitos de autor, parti para esta missão. Comecei a imaginar o título, que seria Dos palcos da vida até à Casa do Artista. Os palcos porque têm a ver com o teatro e, essencialmente, com o meu percurso. No meu percurso, passei por vários locais, por vários palcos, até chegar aqui a este que, se Deus quiser, será o último.

Para falarmos deste palco e dos seus dois principais papéis, que é o de ser médico e também a sua ligação ao teatro e à cultura, temos de falar dos pais, porque eles foram as suas principais referências; a mãe em relação ao teatro e o pai em relação à medicina.

Precisamente. A minha mãe, desde criança, que me transmitiu o gosto do teatro. A minha mãe era professora e encenava peças que depois foram levadas à cena em Setúbal com os próprios alunos, alunos esses que, alguns, se vieram a tornar atores famosos, como é o caso do João Lagarto.

E eu acompanhava a minha mãe para ali, para os ensaios, às vezes até ao próprio Cineteatro Luísa Todi, e tudo aquilo mexia muito comigo. Uma vez, eu era miúdo, os meus pais levaram-me ao Teatro Vasco Santana para ver uma peça que se chamava Bocage, Alma sem Mundo. Mas aquilo não era para crianças, era uma peça pesada, uma peça de tese, que não estava ao alcance dos mais novos. As pessoas admiraram-se como é que um jovem estava ali, um pré-adolescente, a assistir com tanta atenção a uma peça daquelas – tanto que me marcou que eu refiro isso no livro.

O meu pai influenciou-me para a Medicina. O meu pai transmitiu-me todas aquelas noções básicas do que é ser médico. Ser médico, mas um médico de bata branca, não é um licenciado em Medicina. Transmitiu-me a magia da Medicina. A Medicina é qualquer coisa de mágico, qualquer coisa de belo, mas é preciso ter vocação para a exercer

Dr. Paulino, em termos mais práticos, o que é que herdou, enquanto médico, do seu pai

Herdei o modo de ver a Medicina e o modo de praticar a Medicina. É natural que os filhos aprendam com os pais. O meu pai conseguiu transmitir-me todos esses valores e se hoje sou o médico que sou, devo-o a ele. Porque vi nele o que era ser médico e não tem nada a ver com o que é um médico nos dias de hoje. Se eu visse hoje um médico, que em vez de olhar para um doente, está a olhar para um computador, e em que a parte humana não está presente, eu se calhar não seria médico.

Então, e se não fosse médico, o que é que seria?

Se eu não fosse médico, não sei, talvez professor, qualquer coisa na parte de Letras, porque eu não me estou a ver como engenheiro, como matemático, nem como gestor, nem nada disso. Poderia escolher qualquer profissão em que tivesse um contacto humano.

Vamos agora avançar um bocadinho no tempo, até aos anos 80, em que o Dr. ainda é muito jovem, e há o incêndio no Maria Vitória, em 1986. Racionalmente, já lá estariam as equipas de emergência. O que é que o levou a ir lá, naquela noite?

Precisamente aquilo que eu estou a dizer, a parte humana. Eu era médico, ia lá muitas vezes, e as pessoas conheciam-me, e eu pensei que, numa altura daquelas, a presença de um médico, mesmo que não fizesse nada, e mesmo que não dissesse nada, era fundamental. E foi a partir daí que passei a ser designado como o ‘médico dos artistas’. A minha presença ali foi muito útil. Os artistas gostaram imenso, sentiram-se apoiados pela minha presença.

Estreou-se, nos palcos, no papel de Menino Jesus.

Precisamente! Estreei-me, digamos assim, no cineteatro Luísa Todi, em Setúbal. Fazia o Menino Jesus da Lapa. Era o coral emblemático da cidade e precisavam de uma criança que fizesse aquele solo do Menino Jesus da Lapa, que eu ainda hoje me lembro. Tinha sete anos, aparecia vestido de branco, com um lacinho preto. Foi um bocado difícil, lembro-me que estava nervoso. Ainda não sabia o que era pisar um palco e, acima de tudo, ter centenas de pessoas à minha frente, a olharem para mim. Não foi fácil, mas acho que não me saí mal.

Mais recentemente foi consultor na peça ‘Isto É Que Me Dói’. Como é que se sentiu nesse papel?

Ora bem, aí foi uma coisa completamente diferente. E eu relato isso em pormenor no livro. O Isto É Que Me Dói foi uma peça que esteve em cena em Lisboa já há muitos anos, ainda eu era adolescente. Com nomes sonantes do teatro, entre os quais Raul Solnado. Muitos anos depois, o José Raposo quis pô-la de novo em cena. Veio falar comigo e disse: ‘Já tenho os direitos, mas preciso da ajuda’. Eu até pensei, quando ele me telefonou, que fosse uma ajuda médica. (risos) Afinal não era! Era uma ajuda técnica. E explicou-se: ‘Vou precisar da ajuda porque a peça tem de ser revista desde o princípio até ao fim. Os termos médicos que lá estão e os medicamentos que lá estão, provavelmente já não existem e aquilo está tudo alterado’. Disse-lhe logo que contasse comigo.

Lá se fizeram várias reuniões em minha casa, numa delas – que até está relatada no livro – com o saudoso Francisco Nicholson, que era o encenador, em que eu disse ‘olha, isto tem de ser mexido aqui e ali, porque este medicamento já não existe, esta técnica já não faz sentido, a outra também não...’ Quer dizer, dei ali a volta à luz da Medicina atual. E depois fui ao palco do Teatro Villaret, em Lisboa, para dizer como é que o médico se devia colocar, onde é que devia pôr o estetoscópio, como é que devia palpar a barriga a um doente. Deu-me muito gozo fazê-lo. Nessa altura, com o meu amigo Joel Branco, o José Raposo, o Joaquim Nicolau, a Sara Barradas, que fazia de enfermeira, e tivemos o apoio, muito curioso, das irmãs do Hospital de Jesus.

Sim, porque também havia uma freira no elenco.

Havia uma freira, foi a Fátima Severino que fez de freira, e que recebeu todas as indicações das irmãs do Hospital de Jesus. E o mais engraçado é que as irmãs, uma delas, a irmã Salésia, que nunca mais me esqueci, fez questão de ir aos ensaios. E ir ao palco, dar indicações à freira da peça, de como é que ela se devia posicionar, como é que ela devia pôr as mãos, e então os atores profissionais acharam um piadão haver uma freira verdadeira a dar indicações à atriz que fazia de freira. 

Para si também deve ter sido muito cómico ver os atores fazerem de médicos.

Os filhos do Zé Raposo, o Ricardo fazia de doente e o Miguel fazia de enfermeiro, um enfermeiro muito especial. E eu dizia-lhe: ‘Olha Miguel, não te esqueças ali do oxigénio, não te esqueças do inalador, não te esqueças daquela coisa toda, e ele, era engraçado, ele tomava aquilo em atenção. No dia da estreia falhou qualquer coisa, mas o público não se apercebeu, e ele diz assim: ‘Esqueci-me! Esqueci-me do oxigénio!’ E eu digo: ‘Não há problema que ninguém notou absolutamente nada. Só nós é que sabíamos!’

Entretanto, o senhor reformou-se do SNS e veio aqui para a Casa do Artista, onde hoje é Diretor Clínico e médico. O que é que distingue esta casa de um lar de idosos?

Bom, para todos os efeitos, esta casa é um lar. Mas é um lar com características próprias, especiais. Primeiro, porque as pessoas que estão aqui são artistas. E os artistas estão, digamos, treinados para suportar melhor o sofrimento.

E estar aqui… Repare numa coisa, a pessoa chega aqui e parece que está num teatro, com fotografias que recordam estes nomes sonantes que passaram pelos palcos. Além disso, temos aqui um animador sociocultural que puxa pelas pessoas. Portanto, as pessoas não são deixadas, digamos assim, ao abandono. As pessoas têm sempre atividades aqui nesta casa. Uma das coisas que a torna diferente é precisamente isto, é que alguns residentes estão a representar. Vou dar um exemplo: O Carlos Paulo está aqui. O Carlos Paulo é um ator de grande qualidade e que está a trabalhar no Teatro da Comuna. Faz peças e representa personagens fantásticas. Eu tenho ido, não perco uma peça dele. E ele está aqui a viver, é um dos residentes. O mais curioso é que temos aqui uma residente com 90 e muitos anos que é figurante na peça que está neste momento em cena no Teatro Armando Cortês. Portanto, isto para responder à pergunta o que é que torna esta casa diferente é a ocupação das pessoas.

Depois, não podemos deixar de falar nas instalações: Temos um jardim, temos uma esplanada, temos animais, um cão e uma cadela, e muitas vezes os residentes até brincam com eles. Outras vezes vêm cá, nas terapias de grupo, cães, para os residentes contactarem com os animais. Eu diria que o que torna isto diferente é a ocupação e o passado de artistas dos residentes.

Disse que os artistas estão mais preparados para aguentar o sofrimento. Porquê que diz isso?

Bem, pela minha experiência, eles têm muitas vezes de trabalhar em condições quase de doença. Quantas vezes eu fui chamado ao teatro e eles estavam com síndromes gripais ou com muita febre, ou assim, e tinham de ir para cima do palco. Nós cá fora, como eu digo em jeito de brincadeira, qualquer arranhão no braço ou na perna são três meses de baixa! É impensável uma pessoa estar com quase 40 graus de febre e estar a trabalhar. Isto não há em lado nenhum. Mas aqui há.

Portanto, tratar um artista, pelo menos pela minha experiência, eu que já tratei muita gente nos sítios onde passei, é diferente porque as pessoas estão mais preparadas para isso. E estão-no devido ao seu passado.

Estamos a falar de pessoas, algumas, com muita idade. O senhor é desfavorável à eutanásia e acredita que devia haver uma maior aposta de cuidados continuados e paliativos. Imagine-se na pele da Ministra da Saúde. Que medidas tomaria de imediato?

Bem, tomaria várias. Se calhar tomaria tantas que no dia seguinte era demitido. Mas está a tocar num ponto muito importante. Os cuidados paliativos e os cuidados continuados. Talvez fosse a minha primeira medida; investir numa coisa e na outra. Porque a partir daí derivam todas as outras.

Chegamos aos hospitais, porque é que os hospitais não funcionam bem? Não funcionam bem porque não há camas. E por que é que não há camas? Não há camas porque estão lá muitos doentes que são autênticos casos sociais que não deviam lá estar. E como não há sítio para os transferir, ficam lá. Ficam a ocupar uma cama. Isto custa muito dinheiro ao Estado. Primeira questão. Portanto, cuidados continuados: deviam apostar-se em hospitais de retaguarda que não há no nosso país. E que há lá fora.

Segundo: Os cuidados paliativos. Nós não podemos estar a aceitar que venham pessoas a dizer que matar tem de ser a única solução para o tal sofrimento insuportável. Tem de se investir contra o sofrimento insuportável. E isso passa pelos cuidados paliativos. E não há. Não chegam a todos. E aqueles que há estão no setor privado que é praticamente inacessível à maioria das pessoas. Temos de ser realistas.

E o mesmo lhe pergunto em relação ao SNS, como um todo. Quais seriam as suas linhas de abordagem?

Ora bem, é uma questão quente, a escaldar. Está a tocar no ponto mais importante disto tudo. O SNS, enquanto não for reestruturado, continuará sempre a dar problemas. Porquê? Porque neste país, em relação ao SNS, o que conta são os remendos aqui, ali e acolá, que se vão pondo. E daqui a nada já não há espaço para tanto remendo. Portanto, o SNS tem de ser reestruturado, mas reestruturado profundamente.

São precisas muitas coisas. E, acima de tudo, condições de trabalho, condições económicas, mais pessoal. Sou defensor de um SNS, atenção, que fique bem claro, mas um SNS reestruturado, moderno, competitivo, forte, que dê resposta aos problemas de saúde dos portugueses. Não àquilo que existe. Aquilo que existe deu resposta em tempos, mas neste momento já não chega a todos, à grande maioria.

É preciso pôr o dedo na ferida e dizer que isto pode custar votos. Quando algum partido, alguma força política, quiser fazer uma reestruturação a sério para o SNS, pode ser penalizado nas próximas eleições. Porque vai ter de introduzir regras e nós não estamos habituados a ter de cumprir regras.

Por exemplo, as taxas moderadoras. É apenas um pequeníssimo exemplo. Então nós não vamos a um café e não pagamos um café? Não compramos uma água? Porque é que o SNS há de ser grátis para tudo? Há pessoas que podem pagar e outras não. Evidentemente, isto tem de ser estudado, tem de ser reestruturado e pensado a sério, excetuando uma situação de urgência, que aí as urgências são completamente à parte. Urgências, não são consultas. Mas talvez a maioria das urgências que vão parar ao banco do hospital, como se dizia antigamente, são consultas, não são urgências.

Lá está, porque também não há resposta nos cuidados primários.

Ora bem, não havendo resposta nos cuidados primários, vamos continuar a assistir a essa situação. Mas tirando as urgências, as outras coisas, tem de haver regras e se for necessário têm de ser introduzidas outra vez taxas. Uma taxa que para um indivíduo que possa pagar tem de ser mais alta; um indivíduo que não pode pagar, com certeza que aí, esse, não se exige.

Uma coisa é certa. Todos têm de ter resposta. Os ricos, os pobres, os remediados, todo o ser humano tem de ter resposta no SNS. E neste momento, infelizmente, não há resposta para muita gente. Não sei se é a maioria, não quero ser muito pessimista, mas uma grande fatia, uma grande percentagem, não tem resposta.

É curioso o Sr. Dr. estar a falar em regras, porque a dada altura no seu livro refere precisamente isso, que os utentes do privado com seguros têm regras para aceder, enquanto os utentes do SNS não têm e, palavras suas, isso que leva a um imenso desperdício. E o que eu lhe pergunto é que desperdício é esse e que regras deveriam seguir os utentes além da taxa moderadora?

Tudo teria de ser visto e revisto, não só os utilizadores, como os profissionais e a própria maneira de trabalhar no SNS. Uma das coisas que eu teria de se introduzir era a parte humana. E a parte humana está relacionada com os computadores e com os números e com as estatísticas e essa coisa toda. Eu atiro-me a isso tudo porque ouve-se dizer muitas vezes às pessoas ‘fui ao médico e o médico nem sabe como é que é a minha cara’. O médico não tem culpa, é avaliado por isso, tem de proceder de acordo com aquilo que existe. Eu transformava isso tudo porque a parte humana é fundamental. Quem não quer trabalhar e quem não quer utilizar a humanidade na Medicina não pode ser médico.

Mas essa parte humana teria de ser avaliada, se calhar com testes psicológicos, porque atualmente quem entra em Medicina é quem tem notas estratosféricas.

Ora bem, é precisamente isso. É que não podem entrar, não podem estar no SNS, nem em sítio nenhum, médicos que digam ‘eu gosto muito da Medicina mas não gosto de doentes’. É preciso ter vocação para aqui estar.

Imaginemos, pode haver um aluno com 15 valores que tem mais vocação do que um que tem 19.

Exato. Precisamente isso. Notas altas selecionam bons alunos. Ponto final. Não está provado que esses bons alunos venham a ser bons médicos. E, hoje em dia, no nosso país, lá está a tal reestruturação que eu falo, pensa-se em tudo nas entradas para a Medicina, menos na vocação.

E depois, veja-se isto: vagas por preencher neste momento. Ninguém quer trabalhar para o Estado. Porque, além de o Estado pagar mal, as condições de trabalho são más. E todas as pessoas se afastam a todos os níveis. Não só não há médicos de família, como especialistas. E depois, isso leva ao fecho das maternidades, leva a todas as situações que nós conhecemos, os partos nas ambulâncias, essa coisa toda.

Estamos sempre a ter uma pescadinha de rabo na boca em que entram em Medicina pessoas que não deviam entrar e que depois, face às condições de trabalho, não querem estar aqui, vão para o privado ou vão para o estrangeiro, que ainda é pior.

Sr. Dr., falávamos também de saúde mental, sobretudo no caso dos idosos, porque essas patologias começam a desenvolver-se, naturalmente com a idade. O que é que falta fazer neste sentido? E porquê o seu foco nos idosos?

O foco nos idosos, em relação à saúde mental, é que nós sabemos que 70% dos idosos desenvolvem problemas do foro da saúde mental. Não é brincadeira nenhuma. Aliás, temos uma colega de psiquiatria que vem cá dar o seu apoio. Porque muitos casos não são para mim, eu não sou especialista. E o problema grave da psiquiatria e da saúde mental é que tanto o setor público como o setor privado estão muito aquém das necessidades.

Agora vamos falar num aspeto que também é muito importante na sua vida, que é a fé católica. O Sr. Dr., inclusive, tem aqui nesta casa uma imagem muito especial, que era da mãe. Isso dá-lhe alento quando entra aqui?

Posso dizer que sim. Quando ia lá a casa, a minha mãe apercebeu-se que eu passava muito tempo a venerar aquela imagem. E a minha mãe dizia que aquela imagem ficaria para mim. Como eu, lá em casa, já tenho uma muito parecida, pensou-se como é que se iria fazer. Foi a minha mulher que se lembrou de a trazer para aqui, para a Casa do Artista.

Sendo o senhor um homem da Ciência, de onde é que vem a fé católica?

A fé não se explica. A fé sente-se. A fé ou se tem, ou se não tem. Uma vez ouvi dizer a um grande teólogo que um homem com fé é um homem feliz, mas nós não podemos discutir a fé, nem a nossa, nem a dos outros. E como médico, há uma regra que eu tenho de respeitar e que sempre respeitei. Não impor as nossas convicções no capítulo religioso a nenhum doente, de modo nenhum.

Vamos voltar à Medicina. Como é que é o Dr. Luís Paulino Pereira no papel de doente.

Costuma-se dizer que o médico é o pior doente. E eu tenho um bocado disso, devo dizer. Isto não é para os doentes ouvirem, mas não sou lá muito bom doente. Eu procuro tomar conta e gerir a minha saúde o melhor que posso e sei.

Tenho uma médica de família, que me foi dada há uns seis meses, porque entretanto a que lá estava já saiu. Ainda lá não fui, até por ser médico. Procuro todos os anos fazer os exames de prevenção e, às vezes, também vou ler a bula dos medicamentos. 

O médico é como o jornalista? É médico 24 horas por dia, nunca consegue despir-se deste papel?

Boa questão. Eu penso que um médico tem mesmo de ser como o jornalista. Tem de estar 24 horas sobre 24 horas. Quantas vezes de noite me telefonam? Quantas vezes. Mas esta é a missão que escolhi.