Kristin: ‘Durante o dia teria sido mais dramático. Tivemos imensa sorte’

O conhecido geofísico, especialista em ambiente e alterações climáticas, faz a análise da tempestade Kristin, que considera ter sido a maior deste século. Para o académico, a população portuguesa deve habituar-se, cada vez mais, a respeitar os avisos meteorológicos para evitar danos ainda mais graves.
Kristin: ‘Durante o dia teria sido mais dramático. Tivemos imensa sorte’

Com o clima a alterar-se, aos poucos, a tendência é de que os fenómenos extremos, de chuva, frio, vento ou calor, sejam mais frequentes. Filipe Duarte Santos garante que Portugal continua a ter um clima temperado mas que as correntes de jacto, vindas do Norte, podem ficar paradas na nossa latitude. É o que está a acontecer e, por isso, as depressões sucedem-se. É o chamado ‘comboio de tempestades’. Um fenómeno como a Kristin pode repetir-se, ainda este inverno, mas as previsões só são realmente fiáveis a um prazo de sete dias. 

O climatologista acredita que caso a tempestade tivesse entrado em Portugal durante o dia os resultados seriam diferentes. Além dos estragos no edificado, muitas pessoas poderiam também ter sido diretamente atingidas pelo mau tempo extremo, com consequências devastadoras. Ainda assim, somam-se pelo menos nove mortos, centenas de feridos e desalojados, e a rede elétrica ainda não está totalmente reposta nos locais afetados.

A tempestade Kristin foi um fenómeno muito destruidor. Como é que pode ser explicado?

Bom, temos tido na Península Ibérica, durante o mês de janeiro e, agora princípio de fevereiro, uma série de temporais que vêm do Atlântico e que têm trazido grande precipitação e também ventos muito fortes. Alguns deles com ventos extremos, muito destrutivos. É o caso da Kristin, que provocou, enfim, danos gravíssimos na região centro do país, sobretudo no distrito de Leiria. Os temporais, em geral, nas nossas latitudes, seguem a chamada corrente de jacto. E o que é que é a corrente de jacto? Bom, são ventos em altitude, ventos muito fortes em altitude, que nós conhecemos porque são esses ventos da corrente de jacto que provocam a turbulência mais forte quando andamos de avião.

Essa corrente de jacto separa, no Norte, uma massa de ar, normalmente fria e seca, e a Sul está ar quente e húmido. É deste choque, destas massas de ar, que vêm estes temporais. Por outro lado, a corrente de jacto tem um grande meandro que vem até muito cá abaixo, no Atlântico. E esse meandro da corrente de jacto enfiou-se pela Península Ibérica. Foi o que aconteceu.

Entretanto, já temos outra depressão em curso, a Leonardo.

O que estamos a assistir é à corrente de jacto bloqueada, não sai do mesmo lugar. Não muda de posição. Estas tempestades vêm todas pelo mesmo caminho. São sucessivas, é o tal comboio de tempestades. No passado já houve casos deste, mas agora estão-se a tornar mais frequentes e mais violentos. 

Professor, mas tem memória de um caso assim aqui, em Portugal? 

Não, eu penso que o temporal Kristin foi um dos mais violentos de que há registo. Foi o maior temporal deste século.

A tempestade foi anunciada de véspera. Era possível prevê-la com mais tempo? 

Sim, eu penso que sim. Há um conjunto de satélites que observam permanentemente a atmosfera e o oceano. É chamada deteção remota. E com base nesses dados é possível saber quando é que esses temporais estão numa fase de formação, como é que evoluem e qual é a trajetória mais provável.

No caso da Kristin o principal problema foi o vento. Sabendo que iria haver ventos desta ordem, dos 180 km/hora a 200 km/hora, a população deveria ter sido avisada para proteger as habitações, colocando, por exemplo, placas de madeira em portas e janelas e estruturas nos telhados?

É um pouco difícil dizê-lo. Sobretudo porque muitos dos acidentes que tiveram lugar, infelizmente, foram acidentes relacionados com a queda de árvores. O pinhal de Leiria ficou praticamente destruído, quer dizer, os pinheiros é como se fossem palitos, foram partidos.

Sim, mas para as populações, o mais gravoso foram as habitações. 

Podemos dizer que é muito importante as casas terem manutenção que lhes permita serem mais resistentes a eventos destes. Mas eu penso que houve um esforço grande de alerta. Não estou a dizer que não se pudesse ter feito melhor, mas acho que a Autoridade Nacional para Emergência e Proteção Civil fez um trabalho muitíssimo bom, tal como o IPMA. E, sobretudo, uma coisa que é muito importante é as pessoas, de facto, respeitarem e reconhecerem esses avisos de mau tempo e terem o comportamento que é recomendado. Porque, às vezes, as pessoas recebem esses avisos mas dizem que não ligam muito. Também depende de haver uma cultura de respeitar esses avisos e de as pessoas terem os comportamentos que são adequados numa circunstância dessas.

Em 2018 houve o temporal Leslie, que era a fase final de um ciclone tropical, porque um ciclone tropical é ainda mais violento do que aquilo que nós assistimos aqui. E esse entrou, precisamente, naquela região centro do país. Pode perguntar-me, mas porquê a região centro? Não faço a mínima ideia, penso que é só uma questão de probabilidades. No futuro pode ser que seja outra região, não é? Não sabemos, pronto. Mas esse temporal Leslie, em 2018, entrou precisamente nessa região, perto da Figueira da Foz e provocou uma destruição enorme. E agora, passados oito anos, em 2026, houve novamente uma destruição. Isto são sinais de que nós temos que adaptar a um clima que é mais energético, tem mais energia. 

Há uma alteração realmente no clima português ou não? Costuma classificar-se o clima em Portugal como ‘temperado’.

O clima tem variado sobretudo em dois aspetos. Um deles é que é um clima mais quente, mas o facto de ser mais quente não significa que não haja períodos frios. Mas se nós calcularmos a temperatura média, aquilo que, de facto, a estatística diz é que a temperatura média está a aumentar. Portanto, temos um clima mais quente e depois temos eventos extremos, não só de temperatura, ondas de calor, mas também extremos no que respeita à precipitação. Ou seja, temos verões extremamente quentes e agora também temos invernos muito mais frios e muito mais chuvosos. 

Portanto, é possível que um fenómeno como a Kristin se repita? 

Sim, é possível. Mas a outra coisa que é muito importante, penso eu, comunicar, é que nós não somos capazes de prever isto de uma forma inter-sazonal ou inter-anual. Nós conseguimos fazer previsões para sete dias. Fantásticas! Muito boas, não é? Sete dias. Dez dias já é uma coisa menos fiável. Mas três meses, quatro meses, não conseguimos. Mas é bom, então, que as populações se preparem para invernos destes e verões como temos tido também. Sim, exatamente. O inverno de 2024 e 2025 foi um inverno relativamente chuvoso. O inverno de 2005 e 2026 está a ser excessivamente chuvoso. Com uma pluviosidade muito elevada. Deve ser um recorde em Portugal. O ano de 2026, 2027 pode continuar a ser extremo ou podemos entrar numa fase em que a precipitação é muito baixa. Como tivemos seis anos seguidos de seca, em que as barragens estavam muito baixas. Tivemos que gerir a água com muito mais cuidado e houve até certas limitações ao consumo de água. Bom, quer dizer, tudo isso é real.

Ou seja, há maior incerteza em termos climáticos?

Exatamente, há maior incerteza porque a variabilidade é muito maior. Isso obriga a uma maior precaução e obriga a haver uma adaptação às alterações climáticas. Por exemplo, em termos de construção, também é preciso construir de outra maneira. Existe, em Portugal, um mapa com o risco de inundação. Um grupo de investigação a que pertenço fez trabalhos para a Associação Portuguesa de Seguradores, fizemos cartas de risco. E isso tem de ser respeitado. 

Depois da tempestade Kristin, o que é que podemos esperar para o resto do inverno? 

Lá está, não lhe consigo dizer mais do que sete dias. As previsões a mais tempo são pouco fiáveis. O mais perigoso nesta tempestade, creio eu, foi o vento. Exatamente. 

É mais difícil ao ser humano proteger-se do vento do que da chuva, ou não? 

Sim, penso que sim. Sobretudo está a ver as infraestruturas, não é? Há edifícios que são sólidos, mas há muitos que são precários. E, portanto, nós não sabemos se um edifício precário vai ser atingido, vai ser destruído ou não, está a ver? Portanto, é mais difícil de nos precavermos.

O que é que uma pessoa que está na rua, ou está a conduzir um veículo automóvel, perante uma situação destas, repentina, deve fazer?

É proteger-se imediatamente. Repare, o que é que teria acontecido se o temporal tivesse atingido aquela região do centro do país durante o dia? Durante o dia teria sido mais dramático, porque as pessoas vão para os empregos e com os carros e tudo, está a ver o que seria. Era uma coisa avassaladora. Tivemos imensa sorte que tenha acontecido durante a noite.