segunda-feira, 09 fev. 2026

Katja Hoyer. "As pessoas da RDA pensavam que o Ocidente era uma espécie de paraíso"

A historiadora e investigadora no King’s College lembra como era a vida na Alemanha de Leste: os blocos de apartamentos pré-fabricados, a carência de bens de consumo, os programas que passavam na TV e a vigilância constante da polícia secreta.
Katja Hoyer. "As pessoas da RDA pensavam que o Ocidente era uma espécie de paraíso"

Julho e agosto de 1945: com a Alemanha devastada e vergada por seis anos de uma guerra tremenda, os altos responsáveis aliados reúnem-se em Potsdam, uma encantadora cidade a 35 quilómetros de Berlim, famosa pelos seus monumentos barrocos, para decidir o futuro do país derrotado. Fica ali determinado que a Alemanha será dividida em quatro zonas, cada uma das quais administrada por uma potência vencedora: o Sul fica a cargo dos americanos; o noroeste dos ingleses; o sudoeste dos franceses; e o Leste dos soviéticos. A capital também será dividida. Quatro anos depois, três dessas zonas fundem-se, dando origem à República Federal da Alemanha, que só deixa de fora a zona controlada pelos soviéticos. Esta, por sua vez, dá origem à República Democrática da Alemanha, fundada a 7 de outubro de 1949.

Com o passar dos anos, o contraste entre as duas Alemanhas acentua-se (em parte graças ao Plano Marshall), o que leva milhões de alemães do Leste a fugir para o lado Ocidental, onde encontram liberdade e prosperidade. A hemorragia é de tal ordem que as autoridades do Leste decidem reforçar a fronteira e erguer um muro em Berlim, que durará até 1989.

Nascida em 1985 em Guben (RDA), junto à fronteira com a Polónia, Katja Hoyer cresceu já sob o signo da liberdade. Não tem memórias do tempo em que havia uma Alemanha rica e uma Alemanha pobre. Mas conhece como poucos os contornos da vida sob o regime socialista, que nos relata ao pormenor no livro Para Lá do Muro (ed. Vogais). A historiadora conversou com o Nascer do SOL por zoom, a partir do Reino Unido, onde vive e trabalha.

Sugiro que comecemos um pouco antes da fundação da República Democrática Alemã [RDA], em 1949. O leste da Alemanha foi mais afetado pela II Guerra Mundial devido às incursões do Exército Vermelho? E isso fez com que fosse mais difícil de reconstruir?

Abordo esse ponto no livro exatamente porque isso teve impacto no que aconteceu depois. Mesmo antes da guerra, o Leste não era tão industrializado e tão rico como a Alemanha Ocidental, porque é na região do Ruhr, perto das fronteiras com a França e a Bélgica, que estão as reservas de minério de ferro e de carvão e o grande centro industrial. O Leste era uma região mais pobre e mais rural. E a maior parte dos poucos centros industriais que existiam foi bombardeada, o mais famoso deles Dresden. Passou-se o mesmo no lado ocidental, mas como havia poucos centros no Leste, diria que o impacto foi mais significativo. E depois, como referiu, quando a Alemanha foi derrotada no final da II Guerra Mundial, o Exército Vermelho entrou pelo Leste e as forças americanas e britânicas pelo Oeste, e o Exército Vermelho foi muito mais destrutivo à sua passagem do que os aliados ocidentais. Depois da guerra, foi decidido que todos receberiam reparações das respetivas zonas de ocupação. E os soviéticos, basicamente, levaram tudo o que podiam, desde obras de arte a canalizações e bicicletas. Tudo e mais alguma coisa, enquanto os americanos e os britânicos rapidamente decidiram que, com a Guerra Fria a aproximar-se, precisavam que a Alemanha Ocidental fosse um aliado forte. Por isso não só a deixaram sossegada, como investiram muito dinheiro. E foi esta a base dea qual a Alemanha de Leste partiu para a reconstrução.

Sempre me perguntei porque é que lhe chamaram República Democrática Alemã [RDA] se nunca se realizaram eleições livres. Todas as decisões eram centralizadas no partido, certo?

Correto. Havia um processo de votação para fingir um simulacro de democracia. As pessoas estavam fartas, chamavam a isso ‘dobrar o papel’, porque só tinham de dobrar o pedaço de papel com os nomes dos candidatos. Chamaram-lhe RDA por dois motivos. Primeiro, por razões de propaganda, para dizer que era um sistema democrático. Existe, na verdade, um conceito a que se chama ‘democracia socialista’, que é diferente de uma democracia partidária. Vota-se em candidatos em vez de partidos políticos. Mas nem essa opção havia na RDA. O segundo motivo é que os Aliados disseram à Alemanha Oriental e Ocidental que tinham de ter constituições compatíveis, porque era suposto a Alemanha manter-se unida. E quando se dividiu em dois países em 1949, as potências vitoriosas, tanto os aliados ocidentais como a União Soviética, disseram à Alemanha que as duas constituições deviam ter uma formulação semelhante para, no caso de surgir uma hipótese de o país se reunificar, se poder fundir as duas constituições. É por isso que a redação [do texto da Constituição] é muito semelhante. Ambas se autodenominam democráticas, ambas se autodenominam repúblicas, e a estrutura política – no papel – é muito semelhante, embora, claro, a realidade fosse muito diferente.

Visitei Dresden em 1995 ou 1996, e fiquei muito impressionado ao ver imagens do Zwinger destruído e de depois impecavelmente reconstruído. Mas também reparei que havia blocos de apartamentos com um aspeto monótono e sem graça. Viver num daqueles apartamentos era tão deprimente como me pareceu naquela altura?

Eu cresci num desses blocos. E ainda hoje são habitados. Falei há pouco tempo com um compositor em Dresden que vive num desses apartamentos e que me disse: ‘Por que não haveria de viver?’. Para quem cresceu no Leste são perfeitamente normais. E hoje as rendas são muito baratas porque as pessoas os consideram feios, mas na verdade são muito práticos. São bem aquecidos, bem isolados e bastante espaçosos, comparando com as pequenas casas onde muitas pessoas vivem devido à subida dos preços. Têm espaços comuns, por exemplo, para as pessoas colocarem as bicicletas ou as máquinas de lavar roupa, esse tipo de coisas. Mas também é verdade que são muito uniformes, monótonos e aborrecidos. E não previam, obviamente, qualquer espaço exterior. O regime não construía casas [tipo moradias], só apartamentos. Mas depois tentava compensar um pouco as pessoas, dando-lhes hortas comunitárias. Para a maioria das pessoas, esses blocos de apartamentos representaram uma melhoria em relação ao que tinham antes. Hoje parecem-nos monótonos e sem graça. Mas se olharmos para a França, a Alemanha Ocidental ou a Grã-Bretanha, muitas da habitação construída depois da II Guerra Mundial usava o mesmo tipo de tecnologia pré-fabricada. Vá aos subúrbios de outras grandes cidades europeias e vai encontrar tecnologia de construção muito semelhante, especialmente na Alemanha Ocidental, em Hamburgo, por exemplo, onde também houve muita destruição. A diferença é que não são tão uniformes porque, obviamente, foram empresas diferentes que as construíram. Mas a tecnologia é a mesma e são tão insípidas, monótonas e cinzentas como as do Leste.

Portanto parecem feios por fora, mas são aceitáveis por dentro?

A resposta depende de a quem faz essa pergunta. Algumas pessoas faziam piadas. Chamavam-lhes "prateleiras para trabalhadores". Havia quem os odiasse. Mas diria que a maioria das pessoas via-os como habitações normais. Se viesse de uma família da classe trabalhadora, de origens humildes, e a sua casa tivesse sido destruída pelos bombardeamentos, ou se vivesse numa casa muito antiga que nem sequer tinha casa de banho ou água canalizada e de repente passava a viver num lugar quente, bem aquecido, bem isolado e muito barato… As pessoas não tinham de se preocupar com a renda nem nada, porque as casas eram fortemente subsidiadas. Depende muito. Há quem viva hoje numa casa bonita com jardim e diga: "Meu Deus, eu tinha de viver naquilo!". Mas também há muitas pessoas que ainda vivem nelas e são muito felizes.

Os livros de História sobre aquela época têm páginas e páginas sobre o Muro de Berlim, e há boas razões para isso. Mas, na realidade, ele constituía apenas uma minúscula fração da fronteira entre as duas Alemanhas. O resto da fronteira que dividia os dois países era tão protegida e militarizada como o Muro?

As pessoas às vezes esquecem-se disso porque o Muro de Berlim é o centro. Existe esta longa fronteira interna alemã, a chamada Fronteira Verde, que também era fortemente protegida. Já o era antes de o Muro ser construído. Depois, quando a Alemanha Ocidental começou a rearmar-se e passou a fazer parte da NATO – no início da década de 1950 –, Estaline entrou em pânico. Há um relato de Khrushchov, que diz que Estaline tremia literalmente ao saber que os alemães estavam a rearmar-se. E disse aos alemães do Leste: "Têm de defender a fronteira contra a Alemanha Ocidental. Têm de instalar estruturas". E eles instalaram. Inicialmente, havia cercas e patrulhas de soldados. Depois, tornou-se cada vez mais sofisticado. Eram instalações bastante amplas, com grandes cercas, e cães com trelas compridas, para poderem andar de um lado para o outro. Toda a longa Fronteira Verde que circundava a Alemanha de Leste estava realmente muito defendida e militarizada, com pastores alemães muito agressivos, torres de vigilância e guardas de fronteira.

Falando do mundo rural, logo a seguir ao fim da guerra foi emitido um decreto que determinava o confisco de terras com mais de 100 hectares. Teve consequências tão nefastas para a agricultura como as nacionalizações na União Soviética? 

Não, não foi assim tão mau. Na União Soviética foi realmente catastrófico, provocou uma fome generalizada. Há até quem defenda que foi uma tentativa deliberada de tentar basicamente destruir a classe dos pequenos agricultores, matando-os à fome. Isso não acontece na Alemanha de Leste. O setor agrícola sofre. Quando a terra é coletivizada, entre outras medidas, e os grandes proprietários são desapossados, perde-se um terço das colheitas. Partem do princípio de que eles eram a antiga aristocracia e acusam-nos a todos de ajudarem os nazis, o que não é verdade. Uns ajudaram, outros não. As terras são-lhes retiradas e redistribuídas por pessoas que em muitos casos nunca se tinham dedicado à agricultura, e essa é parte do problema. Este foi, diria, o maior erro ideológico cometido no início, quando já era difícil reconstruir o país após a guerra. E levou muitos destes agricultores e antigos proprietários a deixarem a Alemanha de Leste – na altura o Muro de Berlim ainda não existia, só foi construído em 1961. Estas pessoas não tinham motivos para ficar e saíram do país.

Walter Ulbricht, o líder de longa data da RDA, era o homem de confiança e discípulo de Estaline. A RDA manteve-se sempre uma espécie de filho obediente em relação à URSS? 

Isso é certamente verdade para Ulbricht, que considerava Estaline um dos maiores líderes de todos os tempos. Mandou construir um grande boulevard em Berlim Oriental e chamou-lhe Stalin Allee, Avenida Estaline. Há uma estátua de Estaline erguida numa das primeiras cidades que foram construídas a indústria siderúrgica. Hoje chama-se Eisenhüttenstadt, Cidade dos Siderúrgicos, mas quando a construíram chamava-se Stalinstadt, Cidade de Estaline. Portanto, há um verdadeiro culto a Estaline. E quando ele morre, em 1953, algumas pessoas ficam genuinamente chocadas, com uma sensação de ‘o que fazemos num mundo sem Estaline?’. Depois isso torna-se mais complexo. Vemos tanto Ulbricht como o líder posterior, Honecker, a resistirem aos soviéticos em vários momentos, e às vezes a serem quase arrogantes: "Vejam como o nosso socialismo funciona muito melhor do que o vosso". Há um momento em que chega uma delegação soviética a Berlim [Leste] e Ulbricht, em vez de os receber com todas as honrarias, passa o tempo a elogiar o socialismo na RDA e diz-lhes que até pode explicar a outros países, como a Polónia, como se faz. Mas o exemplo mais marcante é quando Gorbachov chega à liderança da União Soviética, em 1985, e inicia reformas, tornando o país mais aberto, mais democrático, basicamente abolindo o comunismo. A maioria dos outros Estados socialistas da Europa de Leste segue esta trajetória. Honecker, na Alemanha de Leste, diz: "Não. Vamos praticar o socialismo, mas com as cores da RDA". Há quase um sentido de nacionalismo alemão que sustenta o socialismo na RDA. A Rússia foi sempre olhada como o irmão mais velho, ou como ‘os amigos’, que era como se referiam aos soviéticos. Há a ideia de que são o modelo a seguir, mas, quando lhe convém, a RDA desvia-se desse caminho, especialmente quando se trata da relação com a Alemanha Ocidental. Muito do que acontece na Alemanha de Leste é obra dos socialistas da Alemanha de Leste, que fazem as coisas por conta própria, em vez de estarem à espera que os soviéticos lhes digam o que fazer.

Portanto as relações com o Ocidente, em particular com a vizinha Alemanha Ocidental, nem sempre foram tão tensas como poderíamos pensar.

Mais tarde, quando a RDA estava a enfrentar dificuldades económicas, tentou construir uma relação económica com a Alemanha Ocidental. Isso deveu-se também ao receio da guerra. Durante a Guerra Fria, a maioria das pessoas temia que um dia pudéssemos ter a Terceira Guerra Mundial, entre a União Soviética e os EUA, e, se isso acontecesse, a linha de combate seria precisamente na Alemanha. Por isso, um lado e o outro tentaram conversar o mais possível para manter a paz. O que teve uma dimensão económica, mas também cultural. Houve, por exemplo, galerias de arte a trocar obras, e igrejas de ambos os lados a falar entre si. Na década de 80, Honecker e Helmut Kohl, o chanceler da Alemanha Ocidental, começam a conversar e chega a falar-se de uma visita de Estado do líder da Alemanha de Leste à Alemanha Ocidental. Os soviéticos não querem isto, temem algum tipo de conluio entre os alemães que os deixe de fora, e preferem os dois estados bem separados para poderem ser eles a decidir o que acontece. E o último aspeto disto é que a Alemanha Ocidental deslocou grande parte da sua produção para o Leste. Poucas pessoas sabem disto, mas a RFA tinha fábricas instaladas no Leste. E outros países também. Houve recentemente um escândalo porque o IKEA produzia peças de mobiliário na Alemanha de Leste, partindo do pressuposto de que poderia ter qualidade e produtividade alemãs, mas muito mais baratas por ser no Leste. Há muito mais interação do que as pessoas pensam.

Como eram os supermercados e as lojas na Alemanha de Leste? Que tipo de produtos ofereciam? Isso foi variando ao longo das décadas?

Sim, variou bastante. Nos anos 50, como houve que montar uma indústria pesada – como disse, a maior parte dessa indústria estava no Oeste, por isso teve de se começar do zero – os bens de consumo para as pessoas comuns foram relegados para segundo plano. Por causa disso, quando os trabalhadores se deram conta de que trabalhavam horas a fio nas fábricas, nas minas e na reconstrução do país, e não havia praticamente nada nas lojas para comprarem com os salários que tanto lhes tinham custado a ganhar, houve uma revolta.

Em que ano?

1953. Os soviéticos perceberam que estavam bastante vulneráveis e a partir daí tentavam fornecer o que as pessoas queriam. Mais tarde, houve uma crise do café e tentaram construir toda uma indústria do café a partir do zero no Vietname, só para garantir que havia café. Houve um grande esforço para manter a população satisfeita. E o nível de vida na Alemanha de Leste era o mais elevado de todos os Estados comunistas e socialistas. Muitas vezes as coisas existiam mas não em quantidade suficiente. Por exemplo, se quisesse fazer um bolo no inverno e precisasse de passas ou de outros ingrediente que tivesse de ser importado, tinha de tentar obtê-los através de familiares ou amigos da Alemanha Ocidental. Se aparecia alguma coisa nas lojas, toda a gente ia lá e desaparecia num instante. De uma forma geral havia comida suficiente, as pessoas não passavam fome. Mas se quisesse alguma coisa mais especial podia ser difícil encontrar. A minha avó, por exemplo, adorava ananás, que tinha de ser importado. Se quisesse comprar ananás, tinha de ir a uma das lojas que vendiam produtos ocidentais, mas precisava de moeda da Alemanha Ocidental para os comprar. Era uma sociedade de duas classes, onde aqueles que tinham parentes ocidentais que lhes pudessem dar dinheiro ocidental podiam comprar coisas a que outras pessoas não tinham acesso. O regime sabia disso e aproveitava-se. Descobri que um quinto de todo o café consumido na RDA era fornecido às pessoas por familiares da Alemanha Ocidental. E o regime ficava feliz da vida porque assim não tinha de o comprar: era fornecido gratuitamente pelos tios e avós que viviam no lado Ocidental. Isso significava que as pessoas pensavam que o Ocidente era uma espécie de paraíso onde toda a gente tinha tudo, havia uma imagem idealizada porque era do lado de lá que vinham todas as coisas boas. Mas também houve quem me dissesse que esta escassez contribuía para manter a sociedade unida. Se precisasse, digamos, de uma peça para o seu carro, não podia simplesmente ir à oficina e comprá-la. Tinha que ter contactos e pedir que alguém a tentasse arranjar. Isso fomentava as amizades e a solidariedade de uma forma que hoje já não existe porque está tudo disponível a toda a hora.

Na União Soviética, existia uma elite partidária que tinha privilégios com os quais o cidadão comum não podia sequer sonhar. Isso também acontecia na RDA?

Não à mesma escala. Os dirigentes do partido viviam numa zona separada, com as suas próprias casas, vedada, a norte de Berlim. E podiam pedir à Stasi [a polícia secreta] para lhes arranjar certas coisas. Digamos que lhe apetecia laranjas no inverno: podia pedir à Stasi para as obter e usar os fundos que havia para isso. Depois da queda do Muro de Berlim, surgiu uma quantidade de boatos de que tinham torneiras de ouro nas casas de banho e coisas desse género. Não era verdade. Viviam em casas individuais, não em apartamentos como a maioria da população. Mas as casas eram construídas com os mesmos materiais pré-fabricados. Eram casas cinzentas e sem graça, nada grandes. E as condições em que viviam não eram certamente luxuosas. Portanto, tinham certos privilégios, mas nada que se comparasse com o que acontecia na União Soviética.

Quanto à circulação, as pessoas não podiam viajar livremente, pois não?

Não. Foi para isso que o Muro de Berlim foi construído, por haver tantas pessoas a fugir para o Ocidente, porque lá tinham melhores salários, melhores condições de vida e liberdade. Não existia outra Hungria, outra Polónia ou outra Checoslováquia, mas existia outra Alemanha para onde as pessoas se podiam mudar. Nem precisavam de sair do seu país e recebiam a cidadania de imediato. Não era preciso visto, a língua era a mesma. Era muito fácil estabelecerem-se na Alemanha Ocidental e milhões fizeram-no. E essa foi a principal razão pela qual o Muro de Berlim foi construído: para impedir as pessoas de passar de um lado para o outro. Mas em alternativa podiam viajar para os países do Bloco de Leste. A Hungria era um dos destinos favoritos, porque os [alemães] ocidentais também podiam ir para lá. Era frequente as famílias separadas encontrarem-se na Hungria para passarem férias juntas durante duas ou três semanas, e depois cada uma regressava ao seu lado. E, dentro da RDA, uma das compensações oferecidas às pessoas eram férias subsidiadas. Ficava bastante barato ir de férias. O país tinha um litoral muito bonito. A costa do Mar Báltico, com as suas praias de areia branca, é encantadora. E havia montanhas na Turíngia, com neve, onde ainda hoje treinam alguns dos melhores atletas de desportos de inverno da Alemanha. De férias na praia a férias de esqui, podia-se fazer praticamente tudo dentro da Alemanha de Leste, o que amenizou um pouco o impacto de não se poder viajar livremente. Estamos a falar dos anos 50 e 60, as pessoas menos abonadas não viajavam para o estrangeiro. Ainda assim, muita gente ficava incomodada com a falta de confiança do Estado. Mesmo em 1989, quando a fronteira abriu, houve pessoas a dizer aos guardas: ‘Não se preocupem que nós voltamos. Podem confiar em nós’. A minha mãe viajou algumas vezes para o Ocidente porque tinha lá familiares. Mas os pais dela tinham sempre de deixar um dos filhos para trás. Como um refém, para garantir que voltavam. Este tipo de coisa irritava as pessoas.

Falámos de férias, continuando nos tempos livres, como era a televisão? Só passava conteúdos validados pela censura? Que tipo de programas as famílias podiam ver? 

A TV da Alemanha de Leste passava muitas vezes filmes soviéticos e da Alemanha de Leste, alguns dos quais muito bons. Como queriam competir em festivais internacionais de cinema, tiveram de permitir um certo grau de liberdade artística. E alguns destes filmes são surpreendentemente críticos do Estado. Também viam futebol. Quando foi o Campeonato do Mundo de 1974, que se realizou na Alemanha Ocidental, os jogos foram transmitidos. Depois havia um programa infame chamado Câmara Negra, tão propagandístico que era quase uma caricatura. Ninguém o levava a sério. O problema que a RDA sempre teve é que praticamente toda a gente, com exceção de duas pequenas regiões, conseguia sintonizar e ver televisão da Alemanha Ocidental.

Era permitido, ou pelo menos tolerado?

A verdade é que o regime não podia fazer grande coisa a esse respeito. Às vezes os professores faziam perguntas com rasteira aos alunos para saber se em casa viam televisão da Alemanha Ocidental. Mas toda a gente fazia isso, não se podia prender toda a população. O que descobri é que as autoridades simplesmente acabaram por aceitar. Se tivessem algo que queriam muito que toda gente visse, certificavam-se de não o exibir à mesma hora que um programa da televisão da Alemanha Ocidental que soubessem que era muito popular. Mas tentaram cativar as pessoas. Havia um programa de música onde foram bandas como os ABBA e os Smokie. Nas rádios estava estipulado um máximo de 40% de música ocidental. Desde que se respeitasse essa proporção não havia problema. O regime da RDA não era o da Coreia do Norte.

E existia um index de livros proibidos? 

Existia. Proibiam livros e filmes considerados demasiado ousados. Mas isso podia mudar, o que irritava imenso as pessoas. Um livro podia ser legal durante algum tempo e depois ser proibido. Dependia do quão paranoico ou assustado o regime estivesse em determinado momento. Ulbricht, inicialmente, era bastante conservador e não queria que as pessoas ouvissem música ocidental. Um dia, falou com um líder de uma organização juvenil, que era bastante crítico do regime, que lhe disse: ‘As pessoas estão fartas da censura e de não se poderem expressar’. O regime mudou de ideias e disse: ‘OK, podem ter a vossa música’. E abriu-se por um tempo. Curiosamente, nessa altura, o número de pessoas que fugiram da RDA diminuiu, apesar de o Muro de Berlim ainda não estar lá. Depois veio uma nova onda de paranoia e voltaram a fechar tudo. Está sujeito a flutuações. Em 1973 há um enorme festival de música em Berlim Oriental. As pessoas que lá estiveram dizem que era incrivelmente livre e liberal. No momento seguinte voltam a reprimir e as pessoas ficam a pensar porquê.

No seu livro refere o suicídio de Dean Reed, um famoso ator. A taxa de suicídio na Alemanha de Leste era alta?

Sim, a taxa de suicídio na RDA era uma das mais elevadas da Europa. Mas Dean Reed não deixava de ser um caso especial. Como americano, sentia saudades de casa. No entanto, quando regressou aos EUA, encontrou hostilidade pelas suas ideias socialistas. Acabou por se tornar quase um pária. Pessoas próximas também descrevem que estava em dificuldades. É difícil avaliar exatamente o que aconteceu, mas ele estava, sem dúvida, profundamente frustrado e desesperado.

Imagino que tenha visto o filme "As Vidas dos Outros", que retrata a vigilância da Stasi sobre um escritor suspeito. Até que ponto a vida do cidadão comum era vigiada e controlada pela polícia secreta?

A Stasi foi, sem dúvida, um dos sistemas de vigilância mais complexos que já existiram. Era profundamente invasiva e utilizava uma panóplia de métodos, desde cidadãos espiões a tecnologia de vigilância. Mas também tinha os seus limites. Recolhia muita coisa completamente inútil e depois tinha dificuldade em processá-la. A minha impressão, falando com antigos cidadãos da RDA, é que se se contentasse em viver uma vida comum dentro dos limites estabelecidos pelo regime, tinha-se liberdade na esfera privada, embora a Stasi ainda tentasse interferir por vezes. Mas se quisesse viver uma vida diferente ou representasse uma ameaça para o Estado de alguma forma, também destruíam vidas.

O que aconteceu aos funcionários do Partido e da Stasi após a queda do Muro de Berlim? Foram despedidos, perseguidos, julgados?

Não houve um equivalente ao conceito de ‘desnazificação’ do pós-guerra, mas as pessoas que trabalhavam para a Stasi ou que mais tarde foram consideradas espiãs civis perderam frequentemente os seus empregos ou tiveram dificuldades em encontrar trabalho. Por razões sociais e legais, foi muito difícil processar os perpetradores. Veja-se o caso de Erich Mielke, chefe da Stasi durante um longo período. Foi condenado não por comandar a Stasi, mas por dois homicídios de polícias em que esteve envolvido em 1931.

Para um turista que visite hoje a Alemanha, que lugar sugeriria para sentir a atmosfera da RDA?

Muitas pessoas tentam fazê-lo em Berlim, e há bons locais, como o Museu da Stasi, a prisão de Berlin-Hohenschönhausen ou o Museu da RDA. Mas, tal como a maioria das capitais, Berlim Oriental não era realmente típica da Alemanha de Leste. Vale a pena viajar um pouco mais longe. Existe Eisenhüttenstadt — a Cidade dos Siderúrgicos, que já referi — construída de raiz como uma cidade-modelo socialista e agora preservada no seu estado original. Ou, se for suficientemente corajoso, visite as praias de nudismo que ainda existem ao longo da costa do Mar Báltico ou assista a uma partida do Dynamo Dresden. Muitos restaurantes tradicionais da antiga Alemanha de Leste ainda oferecem pratos clássicos da RDA, como a sopa Solyanka ou o ‘Sundae Sueco’, um gelado de baunilha com molho de maçã e gemada. E não deixe de visitar galerias que exibem arte da RDA, como o Albertinum em Dresden.