segunda-feira, 13 abr. 2026

José Sócrates já torrou dinheiro da casa de amigo Santos Silva

Os 800 mil euros pagos a um primo do ex-PM acabaram transferidos para uma conta de Sócrates na CGD e já foram todos gastos.
José Sócrates já torrou dinheiro da casa de amigo Santos Silva

Os cerca de 800 mil euros que Carlos Santos Silva pagou em 2022 para adquirir uma vivenda na Malveira a um primo de José Sócrates acabaram transferidos para a conta bancária do ex-primeiro-ministro na Caixa Geral de Depósitos e já foram por ele todos gastos.

Na sequência da notícia publicada há três semanas pelo SOL revelando que o empresário covilhanense e amigo de Sócrates adquirira há quatro anos a referida casa a um primo do ex-líder socialista, replicando assim antigas operações imobiliárias na origem da Operação Marquês, o MP abriu um inquérito e pediu a quebra do sigilo bancário dos vários intervenientes, esclarecendo assim a origem do dinheiro.

Com a acusação do processo Marquês, tinha ficado congelada parte dos 34 milhões de euros provenientes de contas offshore que, segundo o MP, pertenciam a Sócrates mas estavam em nome de Santos Silva. Estes depósitos bancários foram libertados em 2021, após o controverso despacho de acusação do juiz Ivo Rosa sobre a Operação Marquês, que ilibou Sócrates e Santos Silva da maior parte dos crimes que lhes estavam imputados. O empresário não deixou passar a oportunidade e, logo no ano seguinte, com recurso a esses fundos, adquiriu a vivenda na Malveira.

O circuito financeiro não traz surpresas e vem reforçar a acusação do MP que alega que essa fortuna teve origem em atos de corrupção de Sócrates cometidos enquanto governante mas terá ficado à guarda de Santos Silva para despistar as autoridades – consoante a acusação da Operação Marquês, em que ambos são arguidos e cujo julgamento decorre atualmente em Lisboa.

Foi da conta em seu nome do BPI, já usada pelo amigo de Sócrates, antes de ser detido, para fazer elevados levantamentos em numerário que chegaram às mãos do ex-primeiro-ministro, que saiu a maquia para esta aquisição. O negócio implicou dois familiares de Sócrates: o imóvel na Malveira foi comprado por Santos Silva a Pedro Pinto de Sousa, irmão de José Paulo Pinto de Sousa, o primo do antigo governante que é acusado de ter sido o seu primeiro testa-de-ferro e guardião de alegados subornos que lhe pertenciam, sendo por isso também arguido na Operação Marquês. Segundo a análise do MP às contas dos irmãos, o capital não foi diretamente para Sócrates, optando-se por criar uma cortina de opacidade. Uma vez depositado o valor da transação numa conta no Banco Espírito Santo de Pedro Pinto de Sousa, este foi transferindo o bolo para o irmão, que, por sua vez, o fez chegar a Sócrates (o qual, depois de estas notícias virem a público, garantiu que o amigo da Covilhã, desde que foram detidos, não lhe paga «nem um cafezinho»).

Foi assim, por exemplo, que foi pago, em 2025, um parecer ao advogado Paulo Pinto de Albuquerque, ex-juiz do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, para, numa peça jurídica apresentada nesta instância, classificar a Operação Marquês como «um processo iníquo por corrupção», invocando ainda o antigo Presidente Mário Soares para declarar que Sócrates «está a ser vítima de uma campanha que é uma infâmia».

Não foi, aliás, a primeira vez que Santos Silva utilizou estas reservas para adquirir imóveis ao núcleo familiar de Sócrates. Seis meses após Ivo Rosa, no âmbito do seu despacho, ter libertado todos os imóveis arrestados na Operação Marquês, o empresário, logo em 2021, comprou à ex-mulher do antigo líder socialista, Sofia Fava, o Monte das Margaridas, em Montemor-o-Novo, também antes apreendido, o que deu origem à abertura de uma averiguação preventiva por suspeitas  de branqueamento de capitais.

Santos Silva já havia possibilitado, em 2012, a anterior aquisição da propriedade alentejana (com contrato-promessa assinado no ano anterior), ficando o monte em nome de Sofia Fava. A compra fora concretizada através de dois financiamentos bancários viabilizados pelo empresário, embora garantidos pelos fundos que os investigadores alegam pertencer a Sócrates. Sofia Fava aceitou ficar registada como a compradora e, segundo o MP, Santos Silva terá engendrado um esquema para lhe ir passando dinheiro das verbas pertencentes ao ex-marido por forma a que ela pudesse ir pagando as prestações mensais do empréstimo. Para o efeito, receberia parte dessas quantias através de sociedades controladas pelo amigo de Sócrates, assinando contratos de prestação de serviços (que o MP diz serem fictícios) e recebendo o reembolso de certo tipo de despesas, no que terá sido a simulação de uma inexistente relação laboral.

Embora a decisão de Ivo Rosa tenha sido posteriormente revertida pelo Tribunal da Relação, tanto as propriedades imobiliárias como a fortuna conservada nas contas de Santos Silva não voltaram a ser arrestadas, possibilitando assim as mais recentes compras de casas feitas pelo empresário – não só a vivenda da Malveira como o Monte das Margaridas. No caso da unidade de Montemor-o-Novo, o amigo de Sócrates liquidou o remanescente do empréstimo, que estava em nome de Sofia Fava, e ficou com o imóvel, onde a ex-mulher de Sócrates tem habitado, além de o explorar para turismo de habitação.

Em causa, no inquérito a estas aquisições mais recentes de Santos Silva na esfera familiar de Sócrates, estão eventuais crimes de branqueamento de capitais.