terça-feira, 18 ago. 2026

José Fragata: "A experiência não se aprende nos livros"

Deixou de fazer transplantes de coração e de pulmões há dois anos e sente falta da sala de operações. ‘Reformar-se é uma coisa, desperdiçar sabedoria é outra, e representa uma perda inestimável’, diz.
José Fragata: "A experiência não se aprende nos livros"

Tem no currículo mais de dez mil operações – transplantes de coração serão quase 300 e de pulmões, entre 30 e 40. Deixou de operar há dois anos. Não sente saudades de tocar num coração?

Claro que sinto! É impossível após ter passado mais de 40 anos a operar corações e a ensinar, nutrindo uma verdadeira paixão pela profissão, parar de repente sem que se lhe sintamos a falta. Era uma rotina que fazia parte de mim, uma forma de estar, uma simbiose entre homem e profissão. Quando paramos, sentimos uma estranha incompletude...

Não é um desperdício cirurgiões consagrados deixarem de ir à sala de operações, nem que seja como 'conselheiros'?

É um desperdício absoluto. A experiência, a “wisdom”, dos ingleses, é algo que não se aprende nos livros; nutre-se ao longo de dezenas de anos de experiência reflectida e é no auge dessa sabedoria acumulada que nos retiramos…Tenho apelidado as aposentações de “desperdícios inevitáveis”. É algo que a cultura da nossa sociedade ainda não aprendeu: a evitar o desperdício da sabedoria. E, sabe, o mercado também não ajuda aí porque à experiência não é dado o devido valor económico. Pelo menos entre nós...

Faz sentido continuar a obrigar profissionais que trabalham para o Estado reformarem-se aos 70 anos, quando a esperança de vida não para de aumentar?

Acho que não faz, no entanto, a reforma é inevitável. Com a idade perdem-se, inexoravelmente, algumas faculdades físicas e mentais, perda essa que é variável de pessoa para pessoa e que é relativa ao nível das exigências para cada especialidade médica. Mas a reforma é ainda imperiosa para o cumprimento do “contrato social” que permitirá a renovação e a cedência de lugares, nomeadamente os de chefia.

Mas reformar-se é uma coisa, desperdiçar sabedoria é outra, e representa uma perda inestimável. A sabedoria deve ser aproveitada, seja no ensino, seja no aconselhamento ou na consultadoria. Infelizmente, entre nós, não costuma sê-lo.

Relativamente à existência de uma idade fixa para a reforma, é difícil concordar inteiramente. Essa idade limite foi fixada por um decreto da República em 1928, quando muito poucos tinham a sorte de chegar a essa idade. Acha-se hoje totalmente desactualizada e muitos países vêm propondo que se fixe a idade da reforma, caso a caso e profissão a profissão, guiada por avaliações individualizadas para a actualização de conhecimentos e para a destreza e os sentidos. Mas tal não impede que, a partir de uma dada altura, seja aos 70 anos, se abandonem obrigatoriamente cargos de chefia para ceder lugar a outros mais novos. Isso é só desejável. Mas poderemos pensar quão úteis seriam ainda os mais velhos a toda essa gente nova?

Continuamos com 12% de danos evitáveis em internamentos hospitalares em Portugal?

É verdade! Os erros evitáveis na prática dos cuidados de saúde são verdadeiramente transversais e assumem em Portugal uma dimensão que não é diferente da de outros países. Estes erros resultam, por um lado, da natureza complexa da prestação de cuidados de saúde, da interoperabilidade das suas equipas e, por outro lado, derivam da falibilidade humana propiciada pelo desenho imperfeito e pelas pressões momentâneas nas organizações de saúde. Estes erros, que poderíamos evitar, não têm a ver, na esmagadora maioria dos casos, com a imediatamente propalada negligência: enquanto na negligência há violação do dever e das boas regras da prática, esse tipo de erros (ditos “erros honestos”), ocorre quando profissionais normais, mesmo competentes e cumpridores, se vêm a trabalhar em cenários complexos e em sistemas cujo desenho propicia que, sendo humanos, cometam erros lesando os doentes que deveriam tratar bem. Desde o início deste século temos progredido muito no campo da segurança dos doentes, mas ainda não é o suficiente… Na saúde estamos muito longe dos níveis de segurança de algumas indústrias, nomeadamente a paradigmática aviação comercial, sendo que todos temos um papel a cumprir nesta luta pela segurança: governantes, organizações, profissionais e até os doentes, que são os primeiros interessados.

Se tivesse, e esperemos que nunca tal aconteça, um problema grave de saúde, a quem recorreria? Ao público ou ao privado?

Não faço essa distinção. Iria onde houvesse profissionais e meios para me tratar o melhor possível. Costumo dizer que a doença não é pública nem privada, é só má em si mesma, e precisa é de respostas atempadas e competentes, sejam públicas ou privadas!

Na verdade, há “bom público” e “mau privado”, tal como há “bom privado” e “mau público”, pelo que o que deve nortear as escolhas é a competência localmente instalada. Depois, há que considerar o acesso e este é de dois tipos: o acesso em tempo útil e o acesso à capacidade de pagar. O primeiro resolve-se com a melhoria da oferta, o segundo, por financiamento público melhorado, ou, na sua impossibilidade, pela complementaridade de um seguro de base social. Em todos os países europeus a cobertura é hoje global!

Finalmente, há áreas em que o sector público tem, a meu ver bem, concentrado mais meios; refiro-me, por exemplo, à transplantação. Nesse caso, a escolha seria óbvia... Mas, de novo, escolheria sempre com base na competência e desejaria que todos os cidadãos do meu país o pudessem, de igual forma e em equidade de acesso, também fazer.

Trabalhou no Catar há muitos anos, onde se confrontou com situações embaraçosas, até com colegas. Como olha para a realidade dos hospitais portugueses com tantas culturas em 'jogo'?

Considero a diversidade como uma enorme e bem enriquecedora valia. Contudo, a diversidade de gente, de métodos e de culturas, para criar valor, tem de ser bem liderada; só assim poderá ser construtiva, caso contrário, conduz ao conflito pelo confronto das diferenças.

As minhas experiências profissionais diversificadas, em Portugal, no Reino Unido, no Catar ou na Nicarágua... foram muito enriquecedoras e fazem parte de um património cultural e profissional que preservo com agrado. Observei muitas diferenças no pensar, no fazer, no estar e no agir, mas também experimentei alguns traços comuns. Concretamente, os anseios dos pais das crianças que tratei, o seu reconhecimento, as alegrias e as lágrimas nos rostos foram traços comuns que sempre me lembram que a humanidade é, afinal, uma só e que esses sentimentos da mais profunda humanidade são, afinal, o traço que une todas as culturas.

Como tem aproveitado o tempo livre que? Tem feito grandes viagens de barco? É o homem do leme?

Tenho lido e tenho escrito, também dou entrevistas quando me pedem… Com a reforma deixamos de procurar encontrar o tempo que era necessário ao muito que fazíamos, passando antes a procurar o que fazer com o muito tempo de que dispomos…. Detenho ainda um cargo público, presido ao Conselho Nacional dos Centros Académicos Clínicos e estou muito empenhado em contribuir para o desenvolvimento da medicina académica no país. Está em crise e, se não for recuperada, comprometerá a sustentabilidade de todo o sistema de saúde.

Também estou a escrever as minhas memórias e esse é um exercício desafiante, de autocrítica, onde desbobinamos o passado sob a visão cálida do presente. Como tudo me parece agora divertido: os sucessos, os desaires e até as malandrices que nos fizeram e que teremos, inevitavelmente, de contar, para que se saibam! Tem sido divertido rever esse meu longo caminho “pelo coração e pela vida”.

Tenho feito algumas viagens de barco, não tão longe quanto gostaria, mas sentindo-me sempre bem e em qualquer rumo, como homem do leme.

Dedico ainda tempo à família, procurando devolver o tempo que lhes roubei, e tenho viajado, imagine-se, fazendo cruzeiros...

O que era um dia perfeito para si e o que é agora?

Sou, por natureza, insatisfeito comigo mesmo e não sei bem o que é para mim um dia perfeito. Quando estava no activo, um dia passado no bloco operatório, uma operação desafiante e com um bom resultado, uma aula bem dada, uma visita ao serviço, preenchiam-me de realização.

Actualmente, a satisfação inventa-se nas realidades da vida comum: um bom livro, uma boa saída de mar, uma viagem a dois, um pôr do sol ou uma celebração familiar.... Tenho vindo a perceber que, com a idade, tendemos a ficar mais bondosos e passamos a ter gosto nas boas acções, nos gestos de carinho. Trato com particular afecto o meu cão que é um companheiro leal.

Como foi trabalhar tantos anos ao lado da mulher, a sua anestesista?

Foi uma aventura extraordinária. A Isabel é uma mulher fabulosa e uma anestesista notável. Juntos introduzimos muita inovação na cirurgia cardíaca no país e fomos, em diversas áreas, aí pioneiros - uma história de que tanto nos orgulhamos. Tratou-se de verdadeiro trabalho em equipa, uma sinergia difícil de derrotar. Houve quem tentasse, mas sem sucesso.

Também não foi fácil, pois a “minha anestesista” fazia questão de ser até mais estrita comigo do que com os outros cirurgiões. Tínhamos no bloco operatório e no serviço uma relação muito profissional e sempre de uma absoluta exigência; ninguém diria que éramos casados. Por outro lado, herdávamos sempre como sendo de ambos os conflitos que eram de cada um, aí passávamos a ser “os Fragatas”. Estes cinquenta anos foram um enorme privilégio! Passaram depressa!

Vê séries e filmes 'ligados' à medicina? Se sim, qual a melhor série e filme que viu?

Sou mais de ler livros do que de ver séries… mas vi no ano passado um filme que me marcou pela sua intensidade. Foi o Julgamento de Nuremberga, realizado por James Vanderbilt. Nele, um psiquiatra tentava avaliar a sanidade mental dos generais de Hitler por ocasião do seu julgamento e, daí, perceber o mecanismo intrínseco do mal. Independentemente do tema e da poderosa lição de história, o seu diálogo psicológico com Hermann Göring é de uma intensidade marcante. Foi mais um duelo do que um diálogo – morreriam ambos, a tempos diferentes, no final.

Infelizmente, a natureza do mal não foi entendida e, do julgamento, tendo ficado a história, não se lhe aprenderam as lições. É um bom filme!