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Sobrinho do historiador e antigo Ministro da Educação, José Hermano Saraiva, e primo do arquiteto e jornalista José António Saraiva, João Lopes da Silva furou a bolha de ter nascido no seio de uma família privilegiada.
Começou a dar aulas em 1981, aos 25 anos, ainda em plena efervescência do pós-25 de Abril, no Alentejo, onde os suicídios de crianças se sucediam e o intrigavam.
Interessou-se por cada caso de alunos com dificuldades, absentismo escolar e até violência. Arregaçou as mangas e foi para o terreno. Saía da escola e visitava a casa dos garotos, sem saber o que o esperava, em bairros pobres e problemáticos. O objetivo era sempre o mesmo: puxá-los para a escola, acreditando que só ali apanhariam o elevador social que levaria «toda a gente a provar do mesmo vinho e do mesmo pão».
De onde é que vem o seu gosto pelas Artes?
A primeira vez que percebi que tinha jeito foi nos anos 60, tinha 10 ou 12 anos.
Havia uns concursos promovidos pelo Diário de Notícias. Concursos na areia, ali na zona de Carcavelos. Participei em 69, os americanos tinham acabado de chegar à Lua. E eu fiz um astronauta com uma bandeira americana a espetar no planeta, num globo. Ganhei o primeiro prémio. A partir daí percebi que tinha jeito para as Artes. Por outro lado, a minha mãe, que era pintora, também me incentivou bastante.
Sempre quis dar aulas? Não pensou ter outra profissão?
Eu julgava que ia ser designer. Entretanto, lá no IADE [onde se formou em Design], no terceiro ano, apareceu um senhor que eu depois, mais tarde, vim a perceber que era um inspetor de educação. Era uma pessoa que realmente tentava encontrar vocações para a escola pública.
Havia lá num placar um convite para irmos a uma sessão de esclarecimento. Nessa altura, a escola estava a começar, a escola pública, portanto, começou-se a construir escolas por todo o lado. Bendita revolução, não é? Bendito 25 de Abril! Comecei a dar aulas em 81, porque foi precisamente no final do bacharelato.
E onde é que foi a sua primeira escola?
A minha primeira escola foi a escola da Ramada. Eram pré-fabricados em madeira e tinha aberto nesse ano. Havia três ou quatro turmas na escola. E eu, pronto, fui para lá e era professor de Educação Visual.
Professor, como é que era Portugal em 1981? Portugal, o ensino, as crianças...
A gente acreditava que era o futuro. Os miúdos, de repente, descobriram que podiam ir para a escola. Antes disso era só para aqueles que podiam porque a maior parte das famílias em Portugal precisava do dinheiro dos miúdos, ou seja, a partir dos 10, 11, 12 anos começavam a trabalhar nas oficinas, nas mercearias... como miúdos ainda, mas já a ganhar algum dinheiro para a família, portanto, tirava-se a quarta classe, tirava-se o sexto ano e pronto, ficava-se por aí.
Eu tive sorte em nascer nesta família, portanto, sou menino. Não fui rapaz, fui menino. E, graças à minha família e, realmente, ao facto de haver livros em casa e tal, consegui tirar um curso superior. Mas, no fundo, era a própria sociedade a perpetuar-se. Os pobres continuavam pobres, os ricos continuavam ricos, os remediados também. E, portanto, com o 25 de Abril, o que aconteceu foi a perspetiva de toda a gente poder ter possibilidade de tirar um curso superior. Isso abriu perspetivas para todos nós! Toda a gente acreditava, a escola era uma alegria, e toda a gente gostava de estar na escola, toda a gente tentava ter boas notas. Isso foi o princípio da escola pública que eu, felizmente, apanhei.
É uma memória que nunca vai esquecer.
Não, não vou, porque eu sou...
É um professor fundador.
Sim, vá lá, pode dizer-se que sim. E, depois, tenho a experiência de conhecer outras perspetivas internacionais, de outros países. Estive em várias escolas de outros países, a propósito de congressos, de formações internacionais, através de educação artística.
Depois também tive a sorte de começar a fazer trabalhos nas escolas que foram reconhecidos internacionalmente, e por causa desses trabalhos, nomeadamente filmes de animação, comecei a ser convidado para ir a sítios falar sobre isso e conhecer as realidades dos lugares. E, portanto, sou um fervoroso adepto da escola pública.
Como é que era a realidade nos outros países? Era muito diferente da nossa?
Dependia dos países. Os países do Norte estavam muito organizados, já tinham escola pública há muito tempo. Depois, havia países onde, por exemplo, percebi que a indisciplina já era uma coisa muito importante, já se notava muito. A partir dos anos finais dos anos 80, anos 90, nós cá ainda estávamos a começar. Com alguns problemas disciplinares, mas muito poucos na altura. E lá fora já havia problemas disciplinares gritantes.
Outra coisa que eu percebia lá fora é que havia algumas bolsas de racismo. Aqui, nos anos 80 não havia nada disso. Éramos todos amigos e todos irmãos a acreditar que íamos ser uma democracia viva e consistente.
A sua primeira escola foi em Lisboa, onde vivia. Não teve de ser um professor deslocado.
Ah, não! Nos anos 80 havia falta de professores, havia escolas sem professores, e, portanto, todos os miúdos que vinham da universidade arranjaram lugar, com muita facilidade. Fiquei efetivo em 1987, logo, porque havia vagas. Concorri e fui para Santiago do Cacém. Adorei estar em Santiago do Cacém. Adorei, porque havia muitos problemas, mas fui muito bem tratado.
O Professor fala, no seu livro, ‘O Âmago’, de algumas histórias dessas, passadas no Alentejo. O que é que o marcou mais nessa época em que esteve no Alentejo?
Bem, houve várias coisas que me marcaram. Uma que me marcou muito, foram os suicídios, que eram suicídios coletivos! Os putos matavam-se todos uns aos outros, era horrível! E não se podia falar disso, porque os miúdos, devido ao isolamento, era o que me diziam, matavam-se com muita facilidade, ou com tiro de caçadeira, ou com 605 Forte.
Crianças?
Miúdos lá da escola, de 12 anos, 10 anos… Ouvia-se um que morreu, e não se podia falar disso, porque senão, matavam-se mais dois ou três, por efeito de imitação. Era horrível e continua a acontecer hoje em dia, embora menos. Naquela altura era um fenómeno.
O que é que estava por trás disso?
Não sei se era o isolamento, se era a tristeza, se era a pobreza. Havia qualquer coisa, algo, mas como não estudei esse fenómeno, não posso estar a falar sobre ele.
Teve algum aluno a quem isso tenha acontecido?
Eu tenho a ideia de que sim, que houve um ou outro que deixou de ir à escola e depois, mais tarde, vinha a saber-se. Mas, lá está, não podia falar-se sobre isso por causa das consequências. Isso, realmente, marcou-me muito.
Como é que se lida com isso, professor?
Cada terra teve seus problemas. Na zona da Beira Baixa era o alcoolismo, os miúdos às vezes chegavam às oito e meia da manhã, quase com comas alcoólicos, e vendiam-se bebidas alcoólicas a menos de cem metros da escola. Eu tentei lutar contra isso, mas não consegui, porque a lei na altura ainda não previa essa situação. Isso era horrível. No Alentejo eram os suicídios. E outra coisa que acontecia muito era que os pais não queriam que os filhos fossem para a escola porque queriam que os miúdos ficassem a ajudá-los na lavoura.
Muitas vezes tive de ir à casa dos pais, precisamente para os convencer a deixarem os miúdos estudar na escola. Os miúdos eram inteligentes, porque nós temos miúdos muito inteligentes… que depois não fazem nada porque ninguém acredita neles.
E, então, na comunidade cigana isso acontece por demais. A comunidade cigana é muitíssimo inteligente, só que tem uma cultura que os asfixia, corta-lhes as asas. Dá as asas para umas coisas, mas depois corta-lhes para outras e os miúdos têm muita dificuldade em perceber que podem ir para além do bairro.
Voltando atrás, chega-se à década de 90. Foi uma década, no início, um bocadinho conturbada por causa da PGA, os alunos faziam manifestações, um rapaz mostrou as nádegas em frente ao Parlamento, o que fez com que essa geração fosse apelidada de ‘rasca’. Como foram esses tempos para o senhor enquanto professor?
Ora bem, uma coisa é o que se passa na cidade, outra coisa é o que se passa na província e eu só comecei a dar aulas na cidade já muito tempo depois.
Estava no Alentejo, ouvia essas notícias, mas isso era o estrangeiro para nós. Aquilo ali, a realidade era outra. Para nós, era tentar levar o máximo de alunos possível para a universidade, tirá-los daquele ciclo de pobreza.
Então Portugal era muito assimétrico, era completamente diferente.
Continua a ser, mas naquela altura seria mais vincado. Hoje há algumas características da sociedade que disfarçam a assimetria. Por exemplo, toda a gente tem um telemóvel e toda a gente vai às redes sociais.
Mas se formos à parte de trás das cidades, se formos às aldeias mais afastadas dos grandes centros, nós vamos encontrar grandes assimetrias.
Esta escola das Olaias, no fundo, acaba por ser um pequeno retrato desse país?
Bem, mas estamos a falar da zona urbana. Este país continua a ter uma fronteira; há a parte urbana e há a parte rural. A parte urbana tem duas componentes poderosas. Tem a escola dos meninos e tem a escola dos rapazes. E eu estive sempre na escola dos rapazes, nunca estive na escola dos meninos. E o meu livro é sobre isso também. Há diferenças e depende dos bairros. Uma escola pública num bairro bonito tem meninos bonitos. Que são tão arrogantes e mal-educados como os meninos feios!
No seu livro descreve uma experiência vasta e muitas histórias de pobreza, bullying e alguma violência. Sempre foi um professor muito interventivo?
Eu sou assim! Chego a um sítio e vejo o que é necessário fazer para melhorar esse sítio. E falo com as pessoas. O que é necessário fazer para pôr esta gente a pensar de outra maneira, de uma maneira mais construtiva. E, pronto, primeira regra: amá-los. Amá-los perdidamente.
Temos de amar esta gente. Tem de amar isto, senão não se está cá a fazer nada. E eles não estão habituados. Ao princípio os alunos assustam-se e acham esquisito: têm de me ver em andamento.
Jogar, fazer coisas, começar. Ir para o pátio, brincar com eles no pátio. Meter-me no meio das porradas! Os alunos andam à pancada e são muito violentos e a gente tem de se meter no meio para parar. Eles não nos querem bater, mas às vezes também levamos. E isso, pronto, ao longo dos anos, faz com que eles olhem para nós e, no caso, olhassem para mim.
Professor, e essa violência de que fala, vem dos bairros para dentro da escola?
Vem. É trazida pela mão dos alunos e das famílias, claro. Aliás, em todas as escolas. Nas escolas dos meninos isso também acontece. As escolas dos meninos têm um problema complicado. Como os pais dos meninos são gente importante e influente, tentam fazer com que a escola siga o seu modelo educativo. E a escola não é para seguir o modelo educativo dos pais. A escola tem um modelo educativo, que é um modelo estudado cientificamente. E eu sei disso porque especializei-me na área da aprendizagem.
Portanto, sei o que significa o desenho de um modelo educativo aplicado a uma sociedade inteira que tem um fundamento na ciência, na cultura, nos direitos humanos, na humanidade, e que pretende levar toda a sociedade a uma mesa um pouco mais alta, para que toda a gente possa provar do mesmo vinho e do mesmo pão.
Quando é que chegou aqui, à Escola das Olaias?
Foi em 2009. E assustei-me. Mas já me tinham avisado que havia alunos com problemas. Aliás, eu vinha do Passos Manuel e os meus colegas diziam-me que ia passar do Vietname para o Cambodja. Diziam-me que ninguém queria vir para esta escola e fiquei um bocado receoso.
Mas assim que aqui entrei senti a escola aberta. Toda a gente olha cá para dentro. Não há cá meninos bonitos. Eles são todos feios. Eu também me sentia feio na altura.
Adorei esta escola! Eu adoro esta escola! Foi logo amor à primeira vista. E a escola adorou-me!
Mas o professor conta no seu livro que teve aqui casos também de meninos com problemas...
Ah, sim! Esta escola é uma escola de justiça popular. A justiça é feita na rua. E é a lei do mais forte. Quem manda aqui é o mais forte. E nós temos dificuldade em mostrar que o mais forte aqui é a lei. Porque o bairro tem uma lei própria mas não é a lei do Estado. É a lei do bairro. E nós temos de perceber qual é a lei do bairro. Há professores que dizem que não vão deixar entrar a lei do bairro na escola, mas não se consegue. Dessa forma vai arranjar-se problemas com os alunos. Temos de ver é como é que a lei do Estado se encaixa na lei da rua. E é por aí que nós começamos.
O professor falou nas crianças que se envolviam à pancada e que ia a casa dos pais delas. Como é que se preparava para isso? Como é que foi a primeira vez que o fez?
A primeira vez foi por causa de um aluno que deixou de vir à escola e eu gostava dele. Decidi ir a casa dos pais, mesmo sem conhecer bem o bairro deles. Quando lá cheguei era uma família cigana. Assim que lá cheguei fiquei rodeado de ciganos. Mal-encarados, brutos, fortes. Perguntaram-me quem eu era, o que estava ali a fazer, porque podia ser um polícia à paisana. Lá lhes expliquei e eles ligaram para o pai do miúdo. O homem lá veio e combinou ir à escola no dia seguinte, não quis estar a falar à frente dos outros. Quando lhe disse o que era foi uma lança em África!
A partir daí percebi que tinha de ir a casa deles. Perguntava aos miúdos se havia problemas, se o pai estava doente, se o irmão estava doente, e ia lá a casa. Já me autorizavam a entrar nas casas. Entrei nas casas de várias famílias ciganas. E isso é uma coisa que ninguém nunca conseguiu aqui. Não preciso que me digam que sou bom porque isso está estampado na cara dos alunos que me abraçam.
Além do projeto de rádio que lançou nesta escola é conhecido pelas curtas-metragens que fez com os alunos. A última foi aqui?
Sim, chama-se ‘Viriato’. Foi feita em três meses, porque os alunos aceitaram a disciplina. Ganhei vários prémios com as curtas, o primeiro em 91! Fiz umas 17 ou 18! Aqui, o diretor da escola começou a perceber que isto ganhava prémios e que, lá fora, toda a gente falava desta escola e deste agrupamento. Mas eu estava a dizer que não preciso que me digam que sou bom; o que eu preciso é que tudo o que fiz, em prol da escola pública, não se perca.
Professor, o que é que falta ao ensino público? Por que é que se fazem tantas greves?
A partir do momento em que o Estado olha para a Educação e para a Saúde como despesas, está tudo estragado. A Educação e a Saúde não devem ser olhadas como despesas mas sim como investimentos. As pessoas sentem-se desconfortáveis porque são maltratadas.
Os professores devem ser incentivados a prosseguir os estudos e a tirar doutoramentos. E a terem regimes especiais de horários para poderem crescer. Tem de se dar esse espaço, exatamente como nos países nórdicos. E é isso que falta no nosso sistema de ensino.
Além disso, os ordenados que se pagam aos professores também são miseráveis. Eu trabalhei durante 44 anos, até aos 70 anos, com um doutoramento. E estou a ganhar, de reforma, exatamente o ordenado que ganhava quando era professor: 2300 euros. Era o professor mais bem pago da escola. Mas lá fora, os professores do ensino básico ganham quatro a cinco mil euros!